No
interlúdio do corpo, quando a pressa já não dita o compasso, aprendemos a
ouvir.
O envelhecer não chega como rutura brusca, mas como um diálogo paciente - um
murmúrio entre ossos, músculos e lembranças.
A pele torna-se
mapa de caminhos percorridos.
Cada linha, um registo, cada marca, uma história que já não precisa ser contada
em voz alta.
Os joelhos lembram que já correram mais depressa, os olhos, que já buscaram
longe, antes de aprender a repousar no perto.
Nesse
intervalo, descobrimos que o corpo não nos abandona, apenas nos convida a outro
ritmo.
A vitalidade não desaparece. Ela apenas muda de lugar.
Sai da velocidade dos passos, para habitar a profundidade do olhar,
abandona a urgência do gesto, para firmar-se na delicadeza do toque.
O interlúdio
do corpo é esse tempo de conciliação,
não negamos o que já não somos,
mas também não desistimos do que ainda podemos ser.
Conversamos com as rugas, aceitamos as pausas, celebramos a respiração.
Porque
envelhecer é permanecer em diálogo com a vida,
é encontrar beleza no intervalo,
é reconhecer que, no corpo que abranda,
há ainda a música inteira — apenas em outro tom.
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