sábado, 14 de fevereiro de 2026

PENSAR DIFERENTE DE NÓS

Pensar diferente de nós é uma das experiências mais desafiadoras, tolerantes e enriquecedoras da convivência humana. Desde cedo, construímos as nossas ideias com base na família, na cultura, na escola e nas vivências pessoais. Por isso, é natural acreditarmos, que nossa forma de ver o mundo é a mais lógica ou correta. No entanto, quando encontramos alguém que pensa de maneira diferente, temos a oportunidade de ampliar a nossa visão e desenvolver a nossa maturidade.

As redes sociais contribuíram para a criação de “bolhas”, ambientes em que as pessoas convivem apenas com opiniões semelhantes às suas. Isso fortalece preconceitos, dificulta o debate saudável e transforma diferenças de opinião em conflitos pessoais. Temas como democracia, liberdade de expressão e responsabilidade individual, são essenciais na construção de uma sociedade mais justa e plural.

Este tema também remete à tendência humana de rejeitar ou atacar aqueles que pensam diferente. Quem vive em democracia defende a importância do respeito às divergências e do diálogo, como ferramentas fundamentais para a convivência democrática. A intolerância pode levar ao enfraquecimento das instituições e à normalização de discursos autoritários.

Pensar diferente de nós não deve ser visto como uma ameaça, mas como uma oportunidade de aprendizagem. Ao abrir espaço para o diálogo e para o entendimento, crescemos como indivíduos e contribuímos para uma sociedade mais justa, plural e democrática.

Acrescento, com certo humor, que “para bom entendedor, meia palavra basta…!”

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

VIVER DEPOIS DE UMA CALAMIDADE

 Viver depois de uma calamidade é estranho.
É como acordar num mundo que continua funcionando… mas por dentro já não se é mais o mesmo.

Há dias em que tudo parece normal demais — e isso incomoda.
Há dias em que qualquer barulho, qualquer lembrança, faz o coração apertar.
E tem dias em que simplesmente não se sente nada. Só um vazio.

Depois de algo grande demais acontecer, a vida não volta ao que era. Ela vira outra coisa. E talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.

Às vezes sente-se culpa por seguir em frente.
Às vezes sente-se raiva porque ninguém nos entende.
Às vezes cansa ser “forte”.

Mas viver depois de uma calamidade não é ser forte o tempo todo.
É levantar quando se consegue.
É descansar quando não dá.
É permitir-se reconstruir devagar.

Há algo de que quase ninguém fala:
sobreviver muda a forma como se vê o mundo. Passa-se a perceber a fragilidade das coisas — e, ao mesmo tempo, a força que insiste em continuar.

Não é preciso ter respostas agora.
Não é preciso transformar dor em lição.
Às vezes, o primeiro passo é, mesmo, só continuar respirando.

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

E SE HOUVESSE UM EMPATE?

Não sou jurista. Infelizmente. Mas tentei, com os meus limites, averiguar o que se passaria em Portugal, se na segunda, houvesse um empate. Como o nosso país é muito especial, todas as hipóteses devem ser consideradas. Vejamos o que apurei e se houver erro que um advogado tenha a paciência de me corrigir porque todos agradecemos.

A Constituição da República Portuguesa e a Lei Eleitoral do Presidente da República não preveem explicitamente o que fazer em caso de empate exato na 2.ª volta.

Ou seja:

  • Não está prevista 3.ª volta
  • Não está previsto critério de desempate automático (idade, sorteio, etc.)
  • Não está prevista repetição imediata da votação na lei
  •  Então como se resolveria?

Seria um cenário absolutamente excecional e teria de ser resolvido por via institucional, muito provavelmente através de:

  • Interpretação do Tribunal Constitucional
  • Eventual intervenção da Assembleia da República
  • Possível marcação de nova eleição, mas já fora do procedimento normal.

Na prática, seria uma crise constitucional inédita, resolvida caso a caso.

Porque é que isto quase nunca é considerado?

Porque com apenas dois candidatos, um empate exato exigiria:

  • exatamente o mesmo número de votos
  • depois de recontagens, votos nulos analisados, votos do estrangeiro, etc.

É considerado teoricamente possível, mas estatisticamente improvabilíssimo. Daí a lacuna legal.

Resumo rápido

✔️  A 2.ª volta decide o vencedor
❌   A lei não diz o que fazer se houver empate
  O   A solução teria de ser constitucional/judicial, não automática

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A banalização pública do voto revela mais exibicionismo do que consciência cívica

O voto é um dos pilares fundamentais da democracia precisamente porque é livre, pessoal e protegido do olhar alheio. A sua natureza secreta não é um detalhe técnico, mas uma garantia essencial contra pressões sociais, julgamentos morais e alinhamentos forçados. No entanto, assiste-se cada vez mais à tendência de expor publicamente em quem se vota, como se essa revelação fosse, por si só, um ato de virtude cívica.

Esta prática pouco acrescenta ao debate democrático. Pelo contrário, empobrece-o. Em vez de se discutirem ideias, propostas ou consequências políticas, privilegia-se a exibição da escolha individual como marcador identitário. O voto deixa de ser resultado de reflexão crítica e passa a funcionar como instrumento de validação social ou afirmação de pertença a um grupo.

A democracia não se fortalece com listas públicas de votos nem com a transformação da política em palco de aprovação moral. Fortalece-se com confronto de argumentos, diversidade de pensamento e respeito pela autonomia individual. Confundir participação cívica com exposição pessoal é um erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de algum exibicionismo., erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de vaidade.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

PORQUE ESCREVO NAS REDES

Alguns amigos me têm feito esta pergunta, sabendo que não ganho nada com isto e que, até hoje, sempre recusei ser patrocinada por uma das boas marcas que me procuram. Ainda há bem pouco tempo, alguém me dizia que eu devia receber um balúrdio por escrever diariamente nas redes. Sorri e respondi que recebia muito mais que um balúrdio. Talvez por isso, que, para mim, foi quase ofensivo, resolvi dissertar sobre o assunto. Convosco.

Escrevo nas redes sociais apesar de elas serem tão criticadas. Talvez precisamente por isso. Escrevo porque escrever me dá prazer, porque a palavra é o lugar onde penso, respiro e me organizo por dentro. E porque, mesmo num espaço ruidoso e tantas vezes superficial, ainda acredito na força de um texto que toca, provoca ou simplesmente acompanha.

Não escrevo porque tenho certezas, nem porque tenho respostas. Escrevo porque não possuo outro trabalho senão este: o de tentar dizer. De partilhar o que penso e sinto, sem grande utilidade prática, mas com uma intenção simples — oferecer palavras a quem passa. Talvez isso seja uma forma modesta de voluntariado: não de grandes gestos, mas de presença. Uma tentativa de humanizar o fluxo, de criar pequenas pausas num lugar que corre depressa demais.

Se as redes falham, nós também falhamos. E talvez seja exatamente aí, que escrever ainda faça sentido.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A PAIXÃO É DESORDEM?

A paixão chega sem pedir licença. Ela rompe rotinas, baralha pensamentos, acelera o coração e desorganiza a lógica. Por isso, muitas vezes é associada à desordem: um estado em que a razão perde o controle e o equilíbrio parece escapar. Mas será mesmo justo reduzi-la a isso?

A paixão é desordem porque desestabiliza o que estava quieto. Ela desafia regras, ignora cálculos e nos empurra para escolhas impulsivas. Sob a sua influência, o mundo ganha cores mais intensas, e aquilo que antes era seguro passa a parecer insuficiente. Nesse sentido, a paixão confunde, tira o chão e pode levar ao erro.

No entanto, essa desordem não é necessariamente negativa. Ao quebrar a rigidez do quotidiano, a paixão também revela desejos escondidos, dá sentido ao que era mecânico e movimenta a vida. É ela que impulsiona grandes gestos, criações artísticas, descobertas e transformações pessoais. Onde há paixão, há risco — mas também há verdade.

Talvez o problema não esteja na paixão em si, mas na ausência de equilíbrio. Quando a paixão caminha sozinha, sem o diálogo com a razão, torna-se excessiva e destrutiva. Mas quando ambas coexistem, a desordem se transforma em movimento, e o caos ganha direção.

Assim, a paixão é desordem apenas à primeira vista. No fundo, ela pode ser um tipo diferente de ordem, uma ordem emocional, intensa e viva, que nos lembra que sentir também é uma forma de existir

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MEDO, AUTORIDADE E RESPEITO (A pedido de uma comentadora)

O medo sempre foi uma ferramenta rápida de controle. Ele cala vozes, endireita posturas e cria obediência imediata. Mas o que nasce do medo é frágil: dura apenas enquanto a ameaça está presente. Quando ela desaparece, sobra o ressentimento, a revolta silenciosa ou a vontade de desafiar.

A autoridade, por sua vez, não deveria depender do medo. Autoridade verdadeira é construída com coerência, responsabilidade e exemplo. Ela não precisa gritar para ser ouvida, nem punir para ser reconhecida. Quando alguém exerce autoridade apenas pela força, revela mais insegurança do que poder.

O respeito é diferente dos dois. Ele não se impõe, conquista-se. Surge quando há confiança, justiça e humanidade. As pessoas respeitam quem as escuta, quem age com firmeza sem humilhar, quem mantém limites sem violência. O respeito cria vínculos; o medo cria distância.

Onde o medo governa, o respeito desaparece. Onde o respeito existe, a autoridade se torna natural. E talvez esse seja o maior sinal de maturidade de qualquer relação - pessoal, social ou institucional-  quando ninguém precisa de ter medo para fazer o que é certo.