quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A MINHA NOVA VIDA

 

Continuo a cumprir a minha decisão de mudar de vida, procurando, pouco a pouco, construir uma forma diferente de estar no mundo.

Uma das coisas que mais me tem surpreendido é descobrir como essa mudança me tornou mais disponível para aquilo que acontece à minha volta. E há algo especialmente valioso nisso: não se trata apenas de “mudar de vida” em abstrato, mas de começar a viver de outra maneira, prestando atenção ao que nos pode trazer prazer e sentido.

Tenho-me alegrado com acontecimentos culturais que, de outro modo, provavelmente nem saberia que existiam. Concertos, exposições, peças, conversas, livros, encontros — pequenas oportunidades de sair da rotina e de me deixar surpreender por coisas novas. São momentos que talvez pareçam simples, mas que têm para mim um significado especial, porque representam uma vida mais aberta, mais curiosa e mais atenta.

Percebo agora que mudar de vida não significa, necessariamente, fazer grandes mudanças de um dia para o outro. Pode, também, significar a recuperação da curiosidade, aceitar convites, experimentar coisas diferentes e permitir que o mundo nos traga possibilidades que antes não procurávamos.

E é precisamente essa sensação que quero conservar: a de que ainda há muito para descobrir e de que, quando nos abrimos a novas experiências, podemos encontrar alegria em lugares e acontecimentos que antes nem faziam parte do nosso horizonte.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

VIVER SEM TER VOZ

Há pessoas que vivem entre nós, caminham pelas mesmas ruas, sentam-se à nossa mesa e cruzam diariamente o nosso olhar, mas permanecem invisíveis. São aqueles que, por medo, pobreza, abandono, violência ou simplesmente por não encontrarem quem as escute, vivem sem voz.

Não ter voz não significa não ter pensamentos, sentimentos ou sonhos. Muitas vezes, significa apenas não ter espaço para dizer aquilo que se sente. Há quem tenha aprendido a calar-se porque, ao longo da vida, descobriu que ninguém escutava. Há quem tenha medo de falar porque sabe que a sua palavra poderá trazer consequências. E há ainda aqueles cuja dor é tão antiga que já nem encontram palavras para a explicar.

Os que não têm voz vivem, muitas vezes, numa espécie de silêncio imposto. Podem estar dentro de uma família onde as suas opiniões não contam, num trabalho onde são tratados como peças substituíveis, numa sociedade onde a pobreza os torna quase invisíveis ou simplesmente numa solidão que ninguém percebe.

É fácil falar por aqueles que não têm voz. Mais difícil é parar para os ouvir. Ouvir verdadeiramente exige tempo, atenção e respeito. Exige compreender que nem todas as pessoas conseguem gritar a sua dor e que, por vezes, o silêncio é o pedido de ajuda mais profundo que alguém consegue fazer.

Uma sociedade verdadeiramente humana não se mede apenas pela forma como trata os que têm poder, conhecimento ou dinheiro. Mede-se, sobretudo, pela maneira como olha para os mais frágeis, para os esquecidos e para aqueles cuja palavra raramente chega aos ouvidos de quem decide.

Dar voz não é falar em nome do outro. É criar condições para que ele próprio possa falar. É reconhecer a sua dignidade, a sua história e o seu direito a ser ouvido.

Talvez muitos dos que vivem sem voz não precisem de grandes discursos. Precisem apenas de alguém que se sente ao seu lado e diga: “Eu estou aqui. Pode falar. Eu vou ouvir.”

Porque, quando alguém é finalmente escutado, o silêncio deixa de ser uma prisão. E, nesse momento, uma voz que parecia perdida pode começar, lentamente, a nascer.

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O AMOR NÃO MORRE

 

Para esclarecimento prévio das palavras que se seguem, digo já que sou muito amiga do Cláudio Ramos, o que me permite acreditar, que isso só enriquece o valor que elas possam ter!

O Amor Não Morre, traz de novo à escrita, Cláudio Ramos, com um livro profundamente ligado às emoções humanas. Através de diferentes histórias de amor e desamor, o autor questiona aquilo que fazemos quando uma relação muda, quando alguém parte ou quando continuamos a acreditar que ainda é possível recomeçar.

Mais do que falar apenas de relações amorosas, o livro aborda sentimentos universais: a esperança, a ausência, a solidão, a fragilidade e a dificuldade de deixar para trás, aquilo que, um dia, nos fez felizes. As histórias mostram que não existe apenas uma forma de amar e que cada relação tem as suas próprias marcas, imperfeições e contradições.

Um dos aspetos mais curiosos da obra é, precisamente, a ideia de que o amor pode transformar-se, e não desaparecer completamente. Às vezes, aquilo que parecia eterno torna-se pequeno. Outras vezes, mesmo depois de uma desilusão, a vontade de esperar e acreditar, permanece.

Com uma escrita próxima e emocional, Cláudio convida o leitor a reconhecer, nas suas personagens, sentimentos que também fazem parte da sua própria experiência. O Amor Não Morre acaba, assim, por ser uma reflexão sobre a capacidade humana de amar, perder, esperar e continuar.

No fundo, o livro deixa uma mensagem simples, mas poderosa: mesmo quando uma história de amor acaba, aquilo que sentimos e aprendemos com ela, pode permanecer. E talvez seja, justamente aí, que o amor encontra uma outra forma de existir. Penso exatamente o mesmo, com muito mais anos de experiência!

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A IMPREVISIBILIDADE

A vida tem uma característica que, por mais que tentemos ignorar, está sempre presente: a imprevisibilidade. Podemos fazer planos, estabelecer metas, organizar o futuro e acreditar que temos algum controlo sobre o caminho que percorremos. Mas basta um acontecimento inesperado, para nos lembrarmos de que nenhuma certeza é absoluta.

A imprevisibilidade pode assustar porque obriga a abandonar a ilusão de controlo. Queremos saber o que acontecerá amanhã, prever as atitudes dos outros, antecipar as dificuldades e proteger-nos das desilusões. No entanto, há acontecimentos que não dependem da nossa vontade, e circunstâncias que surgem sem aviso, alterando profundamente aquilo que julgávamos seguro.

Também as relações humanas estão sujeitas ao inesperado. Pessoas que julgávamos conhecer podem surpreender-nos; vínculos que pareciam sólidos podem enfraquecer; outros, que nunca imaginámos importantes, podem ganhar um significado inesperado.

Contudo, a imprevisibilidade não deve ser vista apenas como uma ameaça. Ela também pode trazer oportunidades, mudanças necessárias e novos caminhos. Muitas vezes, aquilo que inicialmente interpretamos como uma rutura ou uma perda, acaba por nos obrigar a crescer, a repensar escolhas e a descobrir capacidades que desconhecíamos possuir.

Aceitar a imprevisibilidade não significa viver sem planos ou sem responsabilidades. Significa compreender que os planos devem coexistir com a capacidade de adaptação e reconhecer que não controlamos tudo o que nos acontece, mas podemos, sempre, escolher a forma como reagimos ao que acontece.

Talvez uma das maiores formas de maturidade seja precisamente essa: aprender a viver sem exigir da vida garantias que ela não pode oferecer. A segurança absoluta não existe. O futuro permanece, inevitavelmente, parcialmente desconhecido. E é nesta incerteza que somos chamados a viver. Não com imprudência, mas com lucidez; não com medo permanente, mas com preparação interior. Porque a imprevisibilidade faz parte da condição humana e, embora não possamos determinar tudo o que nos espera, podemos procurar construir dentro de nós, a serenidade necessária, para enfrentar, aquilo que ainda não conhecemos.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A MINHA MUDANÇA

Há uns meses partilhei aqui, a minha decisão de mudar de vida, ao fazer 91 anos. E mudei!

Há quem diga que, aos 91 anos, já não se muda nada. Quando muito, muda-se o canal da televisão, a almofada de lado ou o lugar onde se põem os óculos — que, naturalmente, nunca estão onde deviam estar.

Mas eu sou diferente e considero que esta é uma visão demasiado pessimista da velhice. Talvez porque já me esqueci da infância e só lembro o lado bom da juventude.

Aos 91 anos, mudar de vida, pode ser uma decisão perfeitamente razoável e com uma grande vantagem: já não se tem tempo, para perder tempo. A paciência para aturar disparates diminui, a tolerância para pessoas maçadoras entra em regime de contenção, e começa-se, finalmente, a perceber que dizer «não» é uma das grandes e indispensáveis conquistas da idade.

Mudar de vida aos 91 não significa necessariamente vender a casa, fugir para uma ilha ou apaixonar-se por um desconhecido inteligente — embora nada disso esteja (felizmente) proibido! Pode significar, simplesmente, acordar uma manhã e decidir que, a partir daquele dia, se vai fazer mais do que apetece e menos do que esperam de nós.

É também uma idade excelente para cometer pequenas extravagâncias. Comprar uma coisa desnecessária. Fazer uma viagem. Aprender algo novo. Aceitar um convite que normalmente se recusaria. Mandar alguém passear — sobretudo se a pessoa merecer, e ainda tiver pernas para acompanhar a ordem.

Nos meus 91 anos, já acumulei experiência suficiente, para saber que a vida raramente corre como estava previsto. No meu caso, foi mesmo o oposto. Portanto, mudar de rumo, talvez seja apenas reconhecer o óbvio: o plano original já deu o que tinha a dar. E há uma certa liberdade nisso.

Aos 91, ninguém deveria perguntar: «Mas não acha que é tarde para começar?»

Tarde para quê? Para voltar aos noivados, ciúmes e amantes? Eu não!

Para recomeçar? Talvez, talvez, talvez!

Para viver comandada? Nunca.

Porque a verdadeira idade, não está no número de anos que já passaram, mas no monte de curiosidade, enorme, que ainda resta aos que, como eu vêm. E, também já se tem idade suficiente para fazer, finalmente, aquilo que nos dá na gana. Com uma condição: que ninguém se meta na nossa vida!

domingo, 30 de agosto de 2026

MULHERES INCOMUNS II: quando uma mulher conta a história de outra

Há livros que se escrevem sobre mulheres. E há livros que nascem do encontro com mulheres. Mulheres Incomuns II pertence claramente a esta segunda categoria.

O segundo volume desta coleção surge como uma continuação, mas não como uma repetição. Mantém a ideia essencial de dar voz a mulheres cujos percursos, escolhas, inquietações e formas de estar no mundo merecem ser conhecidos, e ao mesmo tempo amplia o universo de autoras e de histórias. São 17 mulheres e encontros numa multiplicidade de olhares que transforma o livro numa espécie de mosaico humano.

O que torna esta obra particularmente interessante é precisamente a ideia do encontro. Cada história resulta do olhar de uma mulher sobre outra. Não se trata, assim, apenas de uma biografia ou de um retrato convencional. Há escuta, proximidade, interpretação e, inevitavelmente, alguma identificação. Quem escreve também se deixa transformar pela pessoa que escolheu conhecer.

É por isso que estas Mulheres Incomuns são muito mais do que mulheres famosas, excecionais ou reconhecidas publicamente. São mulheres que, de diferentes maneiras, recusaram viver inteiramente dentro dos limites que lhes foram destinados.  A sua “incomum” condição não está necessariamente na notoriedade, mas na maneira como viveram, pensaram, lutaram ou simplesmente foram fiéis a si próprias.

Num tempo em que tantas vidas são reduzidas a imagens rápidas e a opiniões instantâneas, parar para conhecer verdadeiramente uma mulher é quase um ato de resistência. Este livro propõe precisamente isso: parar, escutar e descobrir.

Porque ser uma mulher incomum não significa ser perfeita, extraordinária ou diferente de todas as outras. Significa, muitas vezes, ter a coragem de ser inteira. E talvez seja essa a característica que une todas as mulheres deste livro: cada uma, à sua maneira, deixou uma marca no mundo — e merece que essa marca seja lembrada.

Neste segundo volume há, também, uma particularidade que me toca de modo especial: a minha própria história é contada por três mulheres — Vera Margarida Cunha, Luísa Bernardes e Susana Castanheira. São três olhares sobre a mesma pessoa, três formas de me observar, compreender e interpretar. E talvez seja essa uma das maiores riquezas de um livro como este: perceber que ninguém cabe inteiramente numa única narrativa. Somos sempre mais do que aquilo que pensamos ser e, sobretudo, mais do que aquilo que os outros veem à primeira vista.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

AS PEDRAS DO CAMINHO

Há pedras no caminho de todos nós. Umas são pequenas, quase impercetíveis, e obrigam-nos apenas a abrandar o passo. Outras são enormes, surgem de repente e parecem impedir-nos de continuar.

Durante muito tempo, talvez pensemos que a vida seria mais fácil se o caminho fosse liso, sem obstáculos, sem perdas, sem desilusões. Mas são precisamente as pedras que nos obrigam a olhar para onde pomos os pés. Ensinam-nos a escolher, a resistir, a cair e, sobretudo, a levantar-nos.

Algumas pedras chegam através das pessoas. São palavras que ferem, gestos que dececionam, ausências que deixam marcas. Outras vêm das circunstâncias: um sonho que não se concretiza, uma porta que se fecha, um destino que não escolhemos. E há ainda aquelas que nós próprios colocamos no caminho, feitas de medo, orgulho, hesitação ou arrependimento.

Nem sempre conseguimos afastá-las. Às vezes, temos de aprender a contorná-las. Outras vezes, precisamos de reunir forças para as ultrapassar. E há pedras que, depois de muito tempo, percebemos que não eram apenas obstáculos: eram lições.

A vida não se mede pela quantidade de pedras que encontramos, mas pela maneira como caminhamos entre elas. Porque um caminho sem dificuldades talvez fosse mais cómodo, mas dificilmente nos ensinaria quem somos.

No fim, cada pedra vencida fica para trás como testemunho da nossa caminhada. E talvez seja essa a verdadeira aprendizagem: não esperar que o caminho se torne fácil, mas tornarmo-nos nós mais fortes para o percorrer.

Porque as pedras estarão sempre lá. O que muda é a nossa maneira de caminhar.