quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Nada retornará...

É muito cedo para se fazer uma análise sociológica do que se passou com os portugueses em consequência da pandemia que ainda atravessamos. No meu caso particular, sinto que algumas características minhas se alteraram bastante. Neste momento apenas me dou conta delas, mas o seu grau de profundidade continua desconhecido. Para usar uma linguagem vulgar, talvez a noção de finitude seja a mais marcante de todas elas. Antes eu sabia, agora sinto que o tempo é que irá determinar o que ainda farei e como o farei.

Falo disto porque a despedida do Sousa Tavares do jornalismo - sejam quais forem as verdadeiras razões - despoletou em mim uma sensação de que, a partir de certa altura da vida, há um "tempo certo" para se tomarem determinadas atitudes e decisões.

Ora o confinamento o que é que nos trouxe de verdadeiramente novo? Foi tempo. Tempo para pensar em nós próprios e nos outros. Mas também a inutilidade de discutir aquilo que já não se irá passar na nossa vida. De repente, dei-me conta da facilidade com que os "velhos" - porque, de facto, já não são jovens - que nos governam, tomam medidas cujas consequências, muitos delas, já não terão, sequer, oportunidade de ver realizadas.

Reconhecer este facto, deveria levar-nos a três tipos de decisão. A primeira, começar jovem para haver tempo de aprender. A segunda, aproveitar bem o ensinamento dos mais velhos e aperfeiçoar tudo quanto possa ser melhorado. A terceira, saber "sair" a tempo de não serem os outros a dispensarem-nos.

Parece-me que MST percebeu tudo isto muito bem. Se ele é ou não, capaz de suportar as consequências desta perceção, é outra história. Mas isso é o que acontece, quando começamos a perceber que a finitude,  faz parte da nossa vida, não vem de roldão, e portanto, vai passar a ser companheira fiel daqueles que não souberem preparar-se para envelhecer. Dito de outro modo, para o bem e para o mal, nada já mais voltará a ser o que era! 

HSC 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Cry macho - O caminho para a Redenção

 

Fui há dias ver o ultimo filme de Clint Eastwood. Antes, faço já prévia declaração de interesses. Sou uma fã incondicional deste homem, que começou nos filmes de cowboy spaghetti e se tornou num ator e realizador de grande qualidade. 

Quanto mais envelhece - tem 91 anos - mais clara e límpida se torna a visão da América que os seus filmes nos transmitem. "Cry macho - O caminho para a redenção" é uma história dentro de duas ou o contrário se preferirem. Ele não disfarça, em nenhuma altura, a sua idade e ela nota-se, não na sua cabeça, mas no seu corpo.

Durante uma hora e pico vemos a caminhada de um garoto e de um velho assistindo a uma espécie de transfusão de valores entre os seus dois mundos. A mim, comoveu-me a aceitação da idade e o jubilo, a alegria, que lhe dá continuar a falar connosco, fazendo filmes. 

Talvez porque a idade e o trabalho sejam valores a que sempre atribuí muita importância ou  porque, sendo um pouco mais nova do que ele, sempre o senti muito próximo daquilo em que acredito. E que faz do pensamento e do trabalho um dos grandes alicerces da nossa vida. Vida que, mesmo aos 91 anos, pode trazer muitas surpresas, pelas quais devemos ficar gratos. Ou, se preferirem redimidos.

Consta que ele já está a preparar um novo filme. Gostava muito de ainda ser viva para o poder ir ver!

HSC

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

MST - Miguel Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares despediu-se, no último domingo, de 45 anos de jornalismo e fê-lo com uma entrevista à mais alta figura do Estado, o Presidente da Republica Portuguesa.

Não é do entrevistado que pretendo falar, mas sim do entrevistador. Nunca fui fã do Miguel, pela rudeza e sobranceria que frequentemente revelava, pese embora, muitas vezes tenha concordado com o conteúdo daquilo que dizia.

Há já mais de quarenta anos, ele "meteu-se" com um dos meus filhos. Como seria de esperar, não perdi um minuto a responder-lhe na mesma moeda. A "formiga" que eu era na época, ousou, assim, ripostar ao pequeno "génio" que nele já despontava. Nunca tive retorno, como era natural.

No domingo que passou, quando o vi, com toda a correção, fazer o seu ultimo trabalho jornalístico, senti pena. Há muitas razões para se gostar ou não do Miguel Sousa Tavares. E também há bastantes razões para - sendo filho de Sophia de Melo Breyner e de Francisco Sousa Tavares-  se perceber o receio de uma eventual comparação. Estou à vontade, porque conheci ambos e de ambos tenho boas lembranças.

Porém, quarenta e cinco anos de jornalismo, foram mais do que suficientes para ele criar a sua própria marca, o seu MST e ser avaliado pelo que realmente é e, não mais, pelo filho de quem foi. E, porque não temos, infelizmente, assim tantos bons jornalistas, não será de ver com grande gaudio a sua saída da ribalta.

Pessoalmente e não sendo sua fã, sinto que irá faltar "alguém" ao jornalismo de qualidade, em Portugal. Não deixarei, por isso, de o acompanhar, quer na coluna do Expresso, quer nos livros que venha a escrever. E, desejo, sinceramente, que ele nunca venha a ter saudades do tempo que agora termina.

HSC

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Família

"Família é prato difícil de preparar. 

São muitos ingredientes. 

Reunir todos é um problema...

Não é para qualquer um. 

Os truques, os segredos, o imprevisível. 

Às vezes, dá até vontade de desistir...

Família é prato que emociona. 

E a gente chora mesmo. 

De alegria, de raiva ou de tristeza. 

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. 

Tontice!

Tudo ilusão!

Família é afinidade, é à Moda da Casa. 

E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. 

Outras, meio amargas.

Outras apimentadíssimas.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. 

A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. 

Muita coisa se perde na lembrança. 

Aproveite ao máximo.

Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete

Família: 

Feliz quem tem e sabe curtir, aproveitar e valorizar..."           

Família é projeto de Deus!


Então...

Amem-se, 

Perdoem -se, 

Aceitem-se, 

Tolerem-se 

e vivam como se hoje fosse o último dia que vocês vão estar com a sua família. 

Excerto de

"O Arroz de Palma", 

de Francisco Azevedo.

Semana Nacional da Família.

Temos família de sangue, família do coração, família do trabalho, família de amigos. Viva às famílias que construímos ao longo da vida com a graça de Deus!

HSC

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Novos tempos Lisboa

Todos os que me conhecem sabem da minha aversão à politica partidária. Mas também saberão que não descuro o exercício do voluntariado, seja ele de que natureza for, desde que eu possa e saiba desempenhar.
A minha cidadania tem-se construído com base na palavra. A minha carreira com base no ensino da economia/ econometria. E não tinha a mínima intenção de sair de qualquer delas.
Com a palavra, julgo ter influenciado algumas pessoas a darem o melhor de si, em prol dos outros. Com a profissão terei, acredito, ajudado alunos a descobrirem em si faculdades de que nem se tinham dado conta.
Pois bem, faltava-me deixar de ser "expectadora" política. Faltava-me a capacidade - julgava eu - de passar para o lado de lá, e tentar ser uma "fazedora". Dois homens, hoje dois amigos, puxaram por mim e levaram-me ao campo desconhecido. Apenas com uma condição: a de continuar a ser independente. Esses homens chamam-se Carlos Moedas e Luis Newton. Um candidato a Lisboa. O outro recandidato à Junta de Freguesia da Estrela, onde vivo há 60 anos.

Em ambos deposito a minha confiança. E com ela a minha ousadia de tentar ser autarca na Estrela, servindo os dois e servindo os outros. Foi preciso passarem mais de seis décadas de vida para, familiarmente, eu ter o direito e as condições de, sendo livre, fazer um discurso político e assistir a um comício. O que prova bem que, nunca é tarde para sonhar e dar forma aos nossos sonhos!

 

HSC 


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Guiada pelas estrelas


Falei-vos, há uns dias, da surpresa que tinha tido por receber em casa um livro com o titulo deste poste e cuja autora era Maria Helena Barradas, uma velha amiga dos tempos de liceu. Era um primeiro livro, feito aos 80 anos, de uma pessoa que tinha tido uma vida extremamente interessante, quer pessoal quer profissionalmente. E prometi que o iria ler e depois escrever sobre ele.

Num tempo muito ocupado, li-o durante uma semana com toda a atenção. Primeiro, a autora tem um domínio da língua evidente; depois a história é de uma grande riqueza emocional. Escrita umas vezes na primeira pessoa do singular, outras, na terceira pessoa, a história vai fluindo como se fizéssemos parte dela.

Percebe-se que ali está muito de autobiográfico, mas o olhar de quem escreve é o da serenidade, o de quem fez, há muito tempo, pazes com a vida. A mim, que presenciei alguns daqueles anos, tocou-me a ternura com que o passado e o presente são olhados.

Num período de pandemia e de uma certa forma de agressão verbal que caracterizou os últimos meses da sociedade portuguesa, a leitura desta vida passada ao papel, traz-nos alguma paz interior. Só isso bastaria para eu aconselhar a sua leitura . Mas a obra vai muito mais longe e aponta para que, cada um, antes de tudo o mais, se saiba perdoar a si próprio. A não perder!

HSC

sábado, 11 de setembro de 2021

Sentimentos

Já aqui vos contei que a pandemia me havia permitido descobrir - é o termo justo - alguns aspetos meus que estavam, ainda, bem escondidos. Lembro-me que durante o período em que fiz análise, o meu médico me ter dito que, quando ele a desse por terminada, eu iria progressivamente lobrigar em mim aspetos dos quais eu nem me dava conta. Tinha razão.

Com efeito, ou a pandemia mudou muito a sociedade em que vivo, ou eu tive a tal oportunidade rara de me olhar de forma algo diversa. Felizmente, isso foi muito claro no ultimo ano e meio. E acabou por ser completamente confirmado, com o "retiro aberto" que fiz esta semana, com o Cardeal Tolentino e que versou sobre as "crises" por que todo o ser humano passa para recomeçar.

Os que convivem mais de perto comigo, pressentem essa diferença, mas não a sabem clarificar. Dizem-me "estás diferente , mas não sei explicar o que é"! E eu respondo que é muito cedo para eles compreenderem, a fundo, a minha transformação, e que um tempo virá, apesar do pouco tempo que me possa restar, em que eles irão perceber a força que acontecimentos exógenos podem ter sobre nós.

Ainda não é o tempo. Ainda não senti que, sem uma explicação, os amigos deixariam de me entender. Mas, creio que esse tempo virá, antes do meu acabar!

HSC