sábado, 2 de maio de 2026

A MAIS BELA MALDIÇÃO

Começo por dizer que A MAIS BELA MALDIÇÃO de Rui Couceiro foi, este ano, o livro mais importante que li.

O título funciona, logo, como chave interpretativa: a ideia de “maldição” associada ao “belo”, sugere uma tensão central entre sofrimento e fascínio. Esta ambiguidade percorre todo o texto, manifestando-se na construção das figuras e nas suas relações. O autor parece interessado em mostrar como certos vínculos — afetivos, familiares ou até existenciais — podem, simultaneamente, sustentar e aprisionar o indivíduo.

Outro aspeto relevante é a forma como o autor constrói ambientes e atmosferas. Os cenários, muitas vezes comuns ou aparentemente banais, ganham significado simbólico e emocional, funcionando quase como extensões do estado de espírito das personagens. Essa fusão entre espaço e emoção contribui para uma leitura envolvente e imersiva.

Do ponto de vista narrativo, a obra privilegia uma abordagem introspetiva. A ação externa é, por vezes, menorizada em favor de um mergulho na interioridade das personagens. Em vez de acontecimentos marcantes, o texto constrói-se através de estados de espírito, memórias e pequenas revelações.

A linguagem é um dos pontos mais fortes do livro. Couceiro utiliza um estilo cuidado, por vezes próximo do poético, com imagens sugestivas e metáforas que reforçam o carácter simbólico da narrativa.

Em termos temáticos, destacam-se questões como a identidade, o peso do passado e a inevitabilidade do tempo. Há também uma reflexão implícita sobre a incapacidade de romper completamente com aquilo que nos define, mesmo quando isso implica dor.

No plano estrutural, a obra aposta numa progressão mais psicológica do que linear. Isso contribui para uma sensação de continuidade emocional que, pessoalmente, me agrada muito. O final, possivelmente aberto ou ambíguo, reforça a dimensão reflexiva da obra, deixando espaço para múltiplas interpretações.

Em síntese, A Mais Bela Maldição é um livro que se destaca pela profundidade emocional e pelo trabalho linguístico, mas que exige disponibilidade e envolvimento por parte do leitor. É uma obra menos centrada na ação e mais na experiência interior, o que pode ser, simultaneamente, a sua eventual limitação e a sua maior virtude.

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM DIA FELIZ

Há uma semana relembrei, aqui, a morte do meu filho mais velho, o Miguel.

Hoje, falo da alegria por comemorar o dia 1 de maio, data do seu nascimento e que carrega uma luz especial no meu coração. Há 68 anos, nascia um filho meu — momento que marcou para sempre a minha vida, como se o tempo tivesse parado, para dar lugar a um amor novo, imenso e inexplicável.

Recordo esta data, como se ainda pudesse sentir o mesmo misto de emoção, esperança e encanto. Era o início de uma história feita de risos, desafios, discussões, aprendizagens e, acima de tudo, de um amor que só cresce com o passar dos anos. Cada etapa vivida, cada conquista, cada dificuldade superada, ajudou a moldar não apenas em quem ele se tornou, mas, também, em quem eu me tornei.

Hoje, ao olhar para trás, sinto uma profunda gratidão. Pela vida dele, pelo privilégio de o ter visto crescer, e por todos os momentos partilhados — dos mais simples aos mais marcantes.  É uma alegria serena, daquelas que aquecem a alma e nos lembram do que realmente importa. E também um sorriso terno, pelas datas escolhidas para ele viver e morrer. O que nos riamos por isso!

Vou celebrá-la com carinho, memórias felizes e a certeza de que o amor de uma mãe nunca envelhece — apenas se torna mais forte e mais profundo com o tempo.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O PIOR DIA DA MINHA VIDA

A 24 de Abril de 2012 morria, nos meus braços, o meu filho Miguel. Tinha 54 anos e não mentirei se disser, que desde os 12 anos foram quase exclusivamente dedicados à política.

Não foram fáceis esses anos de “esquerda”, em que os estudos ficavam sempre em segundo lugar, relativamente às obrigações escolares e ao que eu considerava ser importante, ele adquirir do ponto de vista cultural.

Durante todos estes anos não houve dia em que me não lembrasse dele, pese embora, só o tivesse conseguido chorar verdadeiramente, anos depois da sua morte. O que se explica, penso, porque o seu partido político se “apossou”, verdadeiramente, da sua morte.

O último pedido que me dirigiu foi que eu não virasse “mãe chorosa” e que, pelo contrário, andasse para a frente com a minha vida. Foi o que fiz e continuo a fazer!

Mas, confesso, não consigo apagar a mágoa que me causou a falta de privacidade que envolveu o seu desaparecimento. É que para toda a gente, a morte, constitui o ato mais privado de uma família.

Apesar disso reconheço que foi feliz por ter vivido a vida que quis, como quis e com quem quis. Por muito que me tenham doído algumas escolhas que fez, o meu coração vive apaziguado pela sua felicidade, o meu bem mais precioso!  

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O SEXO E A TERNURA

Quando a ternura fala mais alto do que o sexo, algo mais profundo se revela na relação entre duas pessoas. Não se trata de negar o desejo, mas de reconhecer que há momentos em que o afeto silencioso, o cuidado e a presença valem mais do que qualquer impulso físico.

A ternura manifesta-se nos gestos simples: um toque leve na mão, um olhar demorado, um abraço que não pede pressa. É nesse espaço que a intimidade ganha outro significado — menos urgente, mais verdadeira. Diferente do sexo, que muitas vezes é marcado pela intensidade e pelo instante, a ternura constrói uma ponte duradoura entre dois corações.

Há relações em que o corpo fala alto, mas a alma permanece distante. E há outras em que, mesmo no silêncio, tudo é dito. A ternura pertence a esse segundo tipo. Ela não exige performance, não cobra perfeição. Ela acolhe. E, ao acolher, cria um vínculo que vai além do físico.

Quando alguém escolhe ficar, escutar, respeitar o tempo do outro — isso também é amor. E talvez seja uma das suas formas mais puras. Porque a ternura não precisa provar nada; ela simplesmente é.

No fim, o sexo pode aproximar corpos, mas é a ternura que sustenta a conexão. É ela que permanece quando o momento passa, quando o desejo diminui, quando a vida se torna quotidiana. E é nesse quotidiano que o amor verdadeiro encontra a sua força.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SUPERAR-SE A SI PRÓPRIO

 
Há um momento silencioso, quase invisível, em que percebemos que o maior obstáculo nunca foi o mundo lá fora — fomos nós. Não no sentido de culpa, mas de limite. De medo. De histórias que contamos a nós próprios sobre até onde podemos ir.

Superar-se não é um gesto grandioso, não acontece sempre com aplausos ou viradas épicas. Às vezes é pequeno: levantar-se quando o corpo pede mais um minuto, tentar outra vez quando a vontade já desistiu, escolher o desconforto que faz crescer em vez do conforto que mantém tudo igual. É um diálogo íntimo, quase secreto, entre quem somos hoje e quem suspeitamos poder ser.

Há dias em que avançar é dar um passo. Outros, é não recuar. E há ainda aqueles em que a maior vitória é simplesmente permanecer. Porque superar-se não significa ser invencível — significa ser honesto com as próprias fragilidades e, ainda assim, continuar.

O valor disso não está só nos resultados visíveis. Está na construção silenciosa de confiança, na consciência de que somos capazes de ir um pouco além do que pensávamos. Cada pequena superação reescreve a narrativa interna: de dúvida para possibilidade, de medo para coragem.

No fim, superar-se é um ato de intimidade consigo mesmo. Não para provar algo ao mundo, mas para descobrir, camada a camada, que dentro de nós existe sempre mais do que imaginamos.

terça-feira, 21 de abril de 2026

TER TEMPO

Há dias em que o tempo parece escorrer pelos dedos, como areia fina que insiste em fugir. Corremos de um lado para o outro, marcamos encontros, cumprimos prazos, respondemos mensagens — e, ainda assim, fica sempre a sensação de que faltou tempo. Mas talvez a pergunta não seja quanto tempo temos. Talvez seja: o que fazemos com ele?

Ter tempo não é apenas uma questão de agenda vazia ou cheia. É uma escolha silenciosa, quase invisível, que fazemos todos os dias. É o momento em que decidimos parar por um instante, respirar fundo e perceber que estamos vivos agora — não depois, mas neste exato segundo e não quando tudo estiver resolvido.

O tempo para ter tempo exige coragem. Coragem de dizer não ao excesso, de desacelerar quando o mundo exige pressa, de escolher presença em vez de produtividade constante. É um pequeno ato de rebeldia: fechar os olhos por alguns segundos no meio do caos, ouvir uma música até ao fim, ou simplesmente ficar em silêncio sem sentir culpa.

Aprendi, aos poucos, que o tempo não se encontra — constrói-se. Ele nasce nos intervalos que protegemos, nos limites que traçamos, na atenção que damos ao que realmente importa. E, curiosamente, quando começamos a cuidar desses pequenos espaços, o tempo deixa de ser um inimigo e passa a ser um companheiro.

No fundo, ter tempo é permitir-se viver sem estar sempre a correr atrás de viver. É perceber que nem tudo precisa de urgência, que nem tudo precisa de resposta imediata. É aceitar que a vida não acontece só nos grandes momentos, mas também nos pequenos instantes que tantas vezes ignoramos.

E talvez seja aí que o tempo finalmente se revela: quando deixamos de o perseguir e começamos, simplesmente, a habitá-lo.

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O nosso Coração

O coração comanda muitas vidas. Já comandou a minha. Por isso chamo a atenção para esta iniciativa de alertar as pessoas a "pensarem" no coração!