domingo, 10 de maio de 2026

A MINHA MÃE

A minha mãe nasceu no dia 11 de maio e foi sempre única. Lindíssima e uma força da natureza a vencer barreiras e preconceitos.

Hoje sei que ela é alguém que não se abandona, mesmo quando o mundo insiste em nos empurrar para longe. É a primeira morada que conhecemos, antes mesmo de termos nome para as coisas. No silêncio do seu colo, aprendemos que existir pode ser suave, que ha braços que nos seguram, quando tudo em nós ainda é queda.

Há um tipo de amor na minha mãe que não pede tradução. Ele vive, sobretudo, nos gestos mínimos: no cuidado distraído de ajeitar um cabelo, no olhar que percebe antes da palavra, na presença que permanece, mesmo quando já não está fisicamente ali. Ela é memória que respira dentro de mim.

Com o tempo, descobri que ela também é feita de cansaços, de medos guardados, de noites mal dormidas. E isso não diminui o que ela é — pelo contrário, torna o seu amor mais humano, mais vasto. Amar assim, apesar de tudo, é quase um milagre quotidiano.

Há coisas que, por norma, nunca dizemos a uma mãe. Ficam suspensas entre o orgulho e a timidez, entre a pressa da vida e a ilusão de que haverá sempre tempo. Eu, felizmente, disse-lhe tudo, porque ela foi, sempre, a minha maior amiga.

E talvez seja isso que, em simultâneo, mais dói e consola: perceber que, dentro de nós, há sempre um pedaço da nossa mãe a viver nas escolhas, nas palavras, nos gestos, que repetimos sem notar. Como se, no fundo, nunca tivéssemos saído, realmente, de casa.

 

Entre o medo de te amar e a dor de te perder

Fátima Lopes, acaba de publicar o livro Entre o Medo de Te Amar e a Dor de Te Perder. O tema central mostra que nem sempre o amor surge como uma promessa de salvação, mas sim, como um território de risco. A narrativa mergulha naquilo que raramente se diz em voz alta: há relações que terminam não por falta de amor, mas porque as pessoas deixam de caber na vida que construíram. E talvez seja precisamente aí, que o livro encontra a sua maior força — na coragem de mostrar que, recomeçar uma vida aos cinquenta anos, pode ser mais assustador do que envelhecer infeliz.

A protagonista vive entre duas dores silenciosas: no medo de voltar a acreditar e no pânico de perder aquilo que, finalmente, a faz sentir viva. Esse conflito transforma o romance numa reflexão sobre identidade, tempo e liberdade emocional. Não se trata, apenas, de uma história romântica. Trata-se da lenta reconstrução de uma mulher que percebe que passou décadas a satisfazer expectativas alheias, enquanto esquecia a sua própria voz.

O livro toca numa ferida contemporânea: a necessidade, quase cruel, de parecer estável, feliz e resolvido perante os outros. Há uma crítica subtil às vidas montadas como vitrinas, onde o amor se transforma em performance e os afetos sobrevivem, mais pela aparência do que pela verdade. Quando essa estrutura desaba, sobra a pergunta essencial: quem somos, quando já não representamos o papel que os outros esperam de nós?

A escrita de Fátima Lopes tem uma proximidade emocional que não procura impressionar pela complexidade literária, mas sim, pela humanidade. E é justamente essa simplicidade emocional que aproxima o leitor das suas personagens. Há frases que parecem conversas íntimas, memórias ditas à meia-luz, confissões que pertencem a qualquer pessoa, que já teve de escolher entre a segurança e a felicidade.

No fundo, este livro fala sobre a idade em que deixamos de querer sobreviver e começamos, finalmente, a querer viver. E talvez a sua mensagem mais profunda seja esta: o amor verdadeiro não chega para nos completar; chega para nos devolver a coragem de sermos inteiros. 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Amor não morre

Que não se suponha que, por escrever sobre certos livros, me considere uma crítica abalizada dos mesmos. A minha vida é ler e escrever, sem patrocínios de ninguém. Mas quando os amigos- repito os amigos- me oferecem o trabalho que fazem, sinto que lhes devo dizer o que penso. Agora, é a vez de Cláudio Ramos.

A obra, O Amor Não Morre, combina elementos autobiográficos, emocionais e filosóficos, explorando a ideia de que o amor continua presente, mesmo após a ausência física de alguém. Mais do que um relato pessoal, o livro funciona como uma meditação sobre o luto e sobre a capacidade humana de transformar a dor em lembrança e crescimento.

Um dos aspetos mais marcantes da narrativa é o tom intimista utilizado pelo autor, que escreve de forma emocional, criando uma ligação direta com o leitor, numa linguagem simples e acessível, que não diminui a profundidade da escrita. O autor demonstra que o sofrimento não é apenas um momento de fragilidade, mas também uma oportunidade de autoconhecimento.

Outro ponto é a abordagem do amor como uma força contínua. Aliás, o título da obra resume a principal mensagem do texto: o amor não desaparece com a morte ou com a distância, mas permanece vivo através das memórias, dos ensinamentos e das marcas deixadas pelas relações humanas, rompendo com uma visão pessimista da perda e apresentando uma perspetiva mais humanista e esperançosa.

A construção emocional da narrativa merece destaque. O autor utiliza recordações, episódios pessoais e reflexões para criar um percurso de aceitação. Ao longo do texto, percebe-se uma transformação emocional: a dor inicial dá lugar à compreensão de que amar implica, também, aprender a lidar com a ausência.

Embora a obra parta de experiências individuais, os temas tratados — saudade, afeto, família, amizade e superação — pertencem à vivência humana em geral. Isso explica por que muitos leitores se possam identificar com a obra, que desperta emoções pessoais e incentiva uma reflexão sobre os próprios vínculos afetivos.

Em termos literários, o livro destaca-se mais pela sinceridade emocional do que pela complexidade estrutural. A narrativa não procura uma linguagem excessivamente elaborada, mas sim transmitir a genuinidade dos sentimentos.

Concluindo O Amor Não Morre é uma obra marcada pela sensibilidade e pela reflexão sobre os afetos humanos. Claúdio Ramos transforma experiências pessoais numa mensagem universal sobre a permanência do amor e a importância das memórias na construção da identidade emocional, convidando o leitor a compreender que, mesmo diante da perda, os laços afetivos continuam vivos na experiência humana.

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

AS RECORDAÇÕES

As recordações não chegam com aviso. Elas insinuam-se devagar, como luz atravessando uma fresta esquecida e, de repente, estamos lá — não aqui, não agora, mas num tempo suspenso onde tudo ainda pulsa. Há nelas um peso suave, quase contraditório: aquecem enquanto apertam.

Guardo lembranças como quem coleciona fragmentos de um espelho partido. Nenhuma mostra o todo, mas cada uma reflete um pedaço de quem fui. O riso solto numa tarde sem pressa, o silêncio partilhado que dizia mais do que palavras, o cheiro de algo que já não existe — tudo isso permanece, mesmo quando já não sei exatamente porquê.

Às vezes, as recordações são abrigo. Outras, são maré que insiste em voltar, trazendo consigo o que pensei ter deixado ir. Há dias em que me perco nelas, como quem percorre uma casa antiga, tocando paredes, abrindo gavetas, redescobrindo versões de mim que já não cabem no presente.

E, ainda assim, há uma beleza nisto tudo. Porque lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento, de afirmar que algo foi vivido, sentido, real. Mesmo que o tempo transforme contornos, mesmo que a saudade distorça detalhes, as recordações continuam sendo uma prova silenciosa de que existimos em mais de um momento, em mais de uma intensidade.

No fim, talvez sejamos feitos disso: camadas de memória sobrepostas, histórias que se cruzam dentro de nós, ecos de tudo o que já fomos. E, no intervalo, entre uma lembrança e outra, seguimos — incompletos, mas profundamente humanos.

 

domingo, 3 de maio de 2026

COMO NOS VEMOS

Há algo estranho em sermos humanos: não conseguimos ver-nos diretamente. Não como vemos uma paisagem ou um objeto. Precisamos sempre de um “reflexo” — e, muitas vezes, esse reflexo são os outros.

No início, isto até faz sentido. Quando somos mais novos, não temos outra forma de perceber quem somos. Vamos recolhendo pistas: a forma como nos olham, o tom com que falam connosco, os rótulos que aparecem quase sem darmos conta. E, aos poucos, começamos a vestir essas ideias como se fossem nossas. Nem sempre por acreditarmos nelas de imediato, mas porque estão ali, repetidas, consistentes, difíceis de ignorar.

O problema é que essas perceções vêm de fora — e quem está de fora vê sempre só fragmentos. Vê versões nossas em momentos específicos, interpreta comportamentos com base nas suas próprias experiências e projeta expectativas. Ainda assim, quando essas visões se repetem, ganham peso. Começam a soar a verdade. E, a certa altura, deixam de parecer uma opinião alheia e passam a soar como uma descrição objetiva de quem somos.

Há também um certo cansaço em resistir. Questionar constantemente o que os outros pensam de nós exige energia, e nem sempre temos essa energia. Então, às vezes, aceitamos. Não de forma consciente, mas subtil. Como quem ajusta a postura sem reparar.

E há momentos em que isso encaixa mesmo em dúvidas que já estavam cá dentro. Nessas alturas, a perceção externa não entra — ela confirma. E a confirmação tem um poder enorme.

Mas no meio disto tudo, há uma verdade menos confortável e mais libertadora ao mesmo tempo: aquilo que os outros veem nunca é o todo. É uma versão. Às vezes próxima, às vezes completamente ao lado.

Talvez o mais difícil — e mais importante — seja criar um espaço interno onde possamos perguntar: “Isto que dizem a meu respeito… faz mesmo sentido para mim?” Não para rejeitar tudo, nem para aceitar tudo. Mas para escolher, com algum cuidado, o que fica.

Porque, no fim, viver guiado apenas pelo reflexo dos outros, é como tentar conhecer o próprio rosto, através de espelhos partidos — há sempre partes que faltam, e outras que aparecem distorcidas.

 

sábado, 2 de maio de 2026

A MAIS BELA MALDIÇÃO

Começo por dizer que A MAIS BELA MALDIÇÃO de Rui Couceiro foi, este ano, o livro mais importante que li.

O título funciona, logo, como chave interpretativa: a ideia de “maldição” associada ao “belo”, sugere uma tensão central entre sofrimento e fascínio. Esta ambiguidade percorre todo o texto, manifestando-se na construção das figuras e nas suas relações. O autor parece interessado em mostrar como certos vínculos — afetivos, familiares ou até existenciais — podem, simultaneamente, sustentar e aprisionar o indivíduo.

Outro aspeto relevante é a forma como o autor constrói ambientes e atmosferas. Os cenários, muitas vezes comuns ou aparentemente banais, ganham significado simbólico e emocional, funcionando quase como extensões do estado de espírito das personagens. Essa fusão entre espaço e emoção contribui para uma leitura envolvente e imersiva.

Do ponto de vista narrativo, a obra privilegia uma abordagem introspetiva. A ação externa é, por vezes, menorizada em favor de um mergulho na interioridade das personagens. Em vez de acontecimentos marcantes, o texto constrói-se através de estados de espírito, memórias e pequenas revelações.

A linguagem é um dos pontos mais fortes do livro. Couceiro utiliza um estilo cuidado, por vezes próximo do poético, com imagens sugestivas e metáforas que reforçam o carácter simbólico da narrativa.

Em termos temáticos, destacam-se questões como a identidade, o peso do passado e a inevitabilidade do tempo. Há também uma reflexão implícita sobre a incapacidade de romper completamente com aquilo que nos define, mesmo quando isso implica dor.

No plano estrutural, a obra aposta numa progressão mais psicológica do que linear. Isso contribui para uma sensação de continuidade emocional que, pessoalmente, me agrada muito. O final, possivelmente aberto ou ambíguo, reforça a dimensão reflexiva da obra, deixando espaço para múltiplas interpretações.

Em síntese, A Mais Bela Maldição é um livro que se destaca pela profundidade emocional e pelo trabalho linguístico, mas que exige disponibilidade e envolvimento por parte do leitor. É uma obra menos centrada na ação e mais na experiência interior, o que pode ser, simultaneamente, a sua eventual limitação e a sua maior virtude.

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM DIA FELIZ

Há uma semana relembrei, aqui, a morte do meu filho mais velho, o Miguel.

Hoje, falo da alegria por comemorar o dia 1 de maio, data do seu nascimento e que carrega uma luz especial no meu coração. Há 68 anos, nascia um filho meu — momento que marcou para sempre a minha vida, como se o tempo tivesse parado, para dar lugar a um amor novo, imenso e inexplicável.

Recordo esta data, como se ainda pudesse sentir o mesmo misto de emoção, esperança e encanto. Era o início de uma história feita de risos, desafios, discussões, aprendizagens e, acima de tudo, de um amor que só cresce com o passar dos anos. Cada etapa vivida, cada conquista, cada dificuldade superada, ajudou a moldar não apenas em quem ele se tornou, mas, também, em quem eu me tornei.

Hoje, ao olhar para trás, sinto uma profunda gratidão. Pela vida dele, pelo privilégio de o ter visto crescer, e por todos os momentos partilhados — dos mais simples aos mais marcantes.  É uma alegria serena, daquelas que aquecem a alma e nos lembram do que realmente importa. E também um sorriso terno, pelas datas escolhidas para ele viver e morrer. O que nos riamos por isso!

Vou celebrá-la com carinho, memórias felizes e a certeza de que o amor de uma mãe nunca envelhece — apenas se torna mais forte e mais profundo com o tempo.