Há livros que se escrevem sobre mulheres. E há livros que
nascem do encontro com mulheres. Mulheres Incomuns II pertence
claramente a esta segunda categoria.
O segundo volume desta coleção surge como uma continuação,
mas não como uma repetição. Mantém a ideia essencial de dar voz a mulheres
cujos percursos, escolhas, inquietações e formas de estar no mundo merecem ser
conhecidos, e ao mesmo tempo amplia o universo de autoras e de histórias. São 17
mulheres e encontros numa multiplicidade de olhares que transforma o livro numa
espécie de mosaico humano.
O que torna esta obra particularmente interessante é
precisamente a ideia do encontro. Cada história resulta do olhar de uma mulher
sobre outra. Não se trata, assim, apenas de uma biografia ou de um retrato
convencional. Há escuta, proximidade, interpretação e, inevitavelmente, alguma
identificação. Quem escreve também se deixa transformar pela pessoa que
escolheu conhecer.
É por isso que estas Mulheres Incomuns são muito mais
do que mulheres famosas, excecionais ou reconhecidas publicamente. São mulheres
que, de diferentes maneiras, recusaram viver inteiramente dentro dos limites
que lhes foram destinados. A sua
“incomum” condição não está necessariamente na notoriedade, mas na maneira como
viveram, pensaram, lutaram ou simplesmente foram fiéis a si próprias.
Num tempo em que tantas vidas são reduzidas a imagens
rápidas e a opiniões instantâneas, parar para conhecer verdadeiramente uma
mulher é quase um ato de resistência. Este livro propõe precisamente isso:
parar, escutar e descobrir.
Porque ser uma mulher incomum não significa ser perfeita,
extraordinária ou diferente de todas as outras. Significa, muitas vezes, ter a
coragem de ser inteira. E talvez seja essa a característica que une todas as
mulheres deste livro: cada uma, à sua maneira, deixou uma marca no mundo — e
merece que essa marca seja lembrada.
Neste segundo volume há, também, uma particularidade que me
toca de modo especial: a minha própria história é contada por três mulheres —
Vera Margarida Cunha, Luísa Bernardes e Susana Castanheira. São três olhares
sobre a mesma pessoa, três formas de me observar, compreender e interpretar. E
talvez seja essa uma das maiores riquezas de um livro como este: perceber que
ninguém cabe inteiramente numa única narrativa. Somos sempre mais do que aquilo
que pensamos ser e, sobretudo, mais do que aquilo que os outros veem à primeira
vista.