quarta-feira, 22 de abril de 2026

SUPERAR-SE A SI PRÓPRIO

 
Há um momento silencioso, quase invisível, em que percebemos que o maior obstáculo nunca foi o mundo lá fora — fomos nós. Não no sentido de culpa, mas de limite. De medo. De histórias que contamos a nós próprios sobre até onde podemos ir.

Superar-se não é um gesto grandioso, não acontece sempre com aplausos ou viradas épicas. Às vezes é pequeno: levantar-se quando o corpo pede mais um minuto, tentar outra vez quando a vontade já desistiu, escolher o desconforto que faz crescer em vez do conforto que mantém tudo igual. É um diálogo íntimo, quase secreto, entre quem somos hoje e quem suspeitamos poder ser.

Há dias em que avançar é dar um passo. Outros, é não recuar. E há ainda aqueles em que a maior vitória é simplesmente permanecer. Porque superar-se não significa ser invencível — significa ser honesto com as próprias fragilidades e, ainda assim, continuar.

O valor disso não está só nos resultados visíveis. Está na construção silenciosa de confiança, na consciência de que somos capazes de ir um pouco além do que pensávamos. Cada pequena superação reescreve a narrativa interna: de dúvida para possibilidade, de medo para coragem.

No fim, superar-se é um ato de intimidade consigo mesmo. Não para provar algo ao mundo, mas para descobrir, camada a camada, que dentro de nós existe sempre mais do que imaginamos.

terça-feira, 21 de abril de 2026

TER TEMPO

Há dias em que o tempo parece escorrer pelos dedos, como areia fina que insiste em fugir. Corremos de um lado para o outro, marcamos encontros, cumprimos prazos, respondemos mensagens — e, ainda assim, fica sempre a sensação de que faltou tempo. Mas talvez a pergunta não seja quanto tempo temos. Talvez seja: o que fazemos com ele?

Ter tempo não é apenas uma questão de agenda vazia ou cheia. É uma escolha silenciosa, quase invisível, que fazemos todos os dias. É o momento em que decidimos parar por um instante, respirar fundo e perceber que estamos vivos agora — não depois, mas neste exato segundo e não quando tudo estiver resolvido.

O tempo para ter tempo exige coragem. Coragem de dizer não ao excesso, de desacelerar quando o mundo exige pressa, de escolher presença em vez de produtividade constante. É um pequeno ato de rebeldia: fechar os olhos por alguns segundos no meio do caos, ouvir uma música até ao fim, ou simplesmente ficar em silêncio sem sentir culpa.

Aprendi, aos poucos, que o tempo não se encontra — constrói-se. Ele nasce nos intervalos que protegemos, nos limites que traçamos, na atenção que damos ao que realmente importa. E, curiosamente, quando começamos a cuidar desses pequenos espaços, o tempo deixa de ser um inimigo e passa a ser um companheiro.

No fundo, ter tempo é permitir-se viver sem estar sempre a correr atrás de viver. É perceber que nem tudo precisa de urgência, que nem tudo precisa de resposta imediata. É aceitar que a vida não acontece só nos grandes momentos, mas também nos pequenos instantes que tantas vezes ignoramos.

E talvez seja aí que o tempo finalmente se revela: quando deixamos de o perseguir e começamos, simplesmente, a habitá-lo.

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O nosso Coração

O coração comanda muitas vidas. Já comandou a minha. Por isso chamo a atenção para esta iniciativa de alertar as pessoas a "pensarem" no coração!
 

VER E OLHAR

Ver e olhar parecem sinónimos, mas carregam diferenças imensas entre si. Olhar é um gesto — rápido, automático, quase sempre superficial. É o movimento dos olhos que percorrem o mundo sem necessariamente o tocarem. Já ver é um acontecimento. Exige presença, silêncio interior e, sobretudo, disposição para ser afetado.

Olhar é atravessar uma paisagem; ver é permitir que a paisagem o atravesse a si.

No quotidiano apressado, olhamos mais do que vemos. Olhamos rostos sem perceber histórias, olhamos o céu sem notar as suas nuances, olhamos pessoas sem realmente as encontrar. O olhar capta imagens; a visão constrói sentido. Por isso, ver é mais raro — e mais transformador.

Ver implica atenção. Não apenas a atenção que foca, mas aquela que se abre.  Dá-se quando deixamos de projetar expectativas e começamos a receber o que está diante de nós como é. Nesse momento, o mundo deixa de ser cenário e passa a ser presença. E nós deixamos de ser observadores distantes, para nos tornarmos participantes.

Há também uma dimensão ética no ver. Quando vemos alguém de verdade, reconhecemos a sua existência, a sua complexidade, a sua dignidade. Olhar pode reduzir; ver amplia. Olhar pode objetificar; ver humaniza.

Talvez por isso ver seja, em certa medida, um ato de coragem. Porque ao ver, não permanecemos intactos. Algo em nós precisa ceder — uma certeza, um preconceito, uma distração constante. Ver exige vulnerabilidade: é admitir que o mundo pode nos ensinar algo novo.

No fim, a diferença é simples mas profunda: olhar é passar; ver é permanecer.

 

sábado, 18 de abril de 2026

AMAR VIVALDI

É dos compositores que mais me toca. Há dias, em casa de um amigo, a noite foi dedicada ao músico. Trata-se de um pequeno grupo, ao qual pertenço, e que se reúne mensalmente, para ouvir um compositor.

A música de Vivaldi não soa distante nem solene, como às vezes imaginamos o barroco. Pelo contrário — há nela algo de direto, quase humano, como se falasse connosco, sem precisar de tradução.

Quando ouvimos As Quatro Estações, por exemplo, não estamos apenas a escutar uma obra estruturada com rigor. Estamos a entrar num mundo sensorial: o frio corta, os pássaros agitam-se, a chuva aproxima-se. Vivaldi não descreve — ele sugere, evoca, faz sentir. E, talvez seja isso, que torna a sua linguagem tão especial: ela não se impõe, convida.

Há também uma espécie de urgência na sua música. Os ritmos avançam como se não quisessem parar, como se cada compasso tivesse algo a dizer antes que o tempo acabe. Mas, no meio dessa energia, surgem momentos de suspensão — linhas melódicas simples, quase frágeis, que parecem respirar. É nesses instantes que sentimos mais claramente o lado íntimo da sua escrita.

Sendo violinista, Vivaldi escreve para o instrumento como quem conhece profundamente a sua voz. O violino, nas suas mãos, não é apenas virtuoso; é expressivo, quase humano. Ora corre, ora canta, ora hesita. Há uma proximidade aí, como se estivéssemos a ouvir alguém contar-nos algo pessoal, ainda que sem palavras.

Talvez a linguagem de Vivaldi seja, no fundo, um equilíbrio entre ordem e emoção. Há estrutura, repetição, lógica — mas tudo isso serve um propósito maior: comunicar sensação, criar presença, tocar quem ouve.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

NA ÉPOCA DOS IMPOSTOS

Falo por mim, mas julgo que, no fundo, ninguém gosta de pagar impostos, porque mexe com algo muito básico: aquilo é o nosso dinheiro. Foi ganho com tempo, esforço, às vezes até com sacrifício… e, de repente, uma parte desaparece antes sequer de passar pelas nossas mãos. Não é uma escolha, não é opcional — é imposto. E só essa ideia já causa resistência.

Depois há aquela sensação meio irritante de não saber bem para onde vai. Sabe-se que, em teoria, está a financiar coisas importantes — hospitais, escolas, estradas — mas no dia a dia, nada disso é assim tão visível. O que se sente é mais o que sai, do que o que volta.

E também pesa a confiança. Quando há notícias de má gestão ou desperdício, mesmo que não seja tudo assim, fica a insidiosa dúvida: “estou a contribuir para algo que funciona… ou só a alimentar um sistema ineficiente?” Isto corrói um bocado a aceitação.

Ao mesmo tempo, há um certo conflito interno. Porque, sendo honestos, todos queremos viver num sítio com serviços públicos a funcionar, segurança, apoio quando é preciso. Só que ninguém gosta muito da parte de pagar por isso — especialmente quando algo, parece pouco transparente ou injusto.

No fim, talvez não seja tanto o “odiar impostos”, mas mais uma mistura de perda, falta de controlo e alguma desconfiança. E isso é uma combinação difícil de engolir. Muito difícil mesmo!

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O PRIMEIRO BANHO DE PRIMAVERA

A manhã chegou com aquela luz diferente — mais dourada, mais inclinada, como se o sol tivesse mudado de ideia sobre o ângulo certo para acordar o mundo. Era o primeiro dia que o calor pedia pele descoberta, e o rio lá em baixo parecia saber disso.

A água ainda guardava o frio de fevereiro nas camadas mais fundas, mas a superfície já se tinha rendido. Espelhava o azul de um céu sem nuvens e os ramos novos das árvores, que esticavam os primeiros verdes como dedos depois de um longo sono.

Entrar foi um ritual sem liturgia. Primeiro os pés — o choque, o riso involuntário, a vontade de recuar e a decisão de não recuar. Depois os tornozelos, os joelhos, e o momento de suspensão antes da entrega total. O mergulho.

Debaixo d'água, o mundo ficou quieto de um modo que só a água consegue. O frio apertou o peito como um abraço brusco de quem tem saudades. E então o corpo aceitou. A pele começou a perceber que aquilo não era agressão — era presença.

Quando a cabeça emergiu, havia algo diferente no ar. Não no ar, em si mas no modo de respirá-lo. Mais fundo. Mais atento. Como se o banho tivesse lavado também qualquer coisa por dentro, algum resíduo de inverno que nem se sabia que ainda estava lá.

A Primavera não começa no calendário. Começa quando se entra nessa água pela primeira vez e se percebe, com todo o corpo, que o mundo voltou a querer ser habitado.