quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

NO MEIO DE TANTO REBULIÇO. O QUE É QUE NOS DEFINE?

No meio de tanto rebuliço o que é que ainda nos definirá, como povo? Pensando bem e atendendo à nossa história mais antiga e à mais recente, talvez seja precisamente isso: o rebuliço.

Num país como o nosso, o que nos define não é a ordem perfeita nem a estabilidade absoluta, mas a capacidade quase teimosa de continuar apesar do caos. Somos feitos de contradições — queixamo-nos de tudo, mas defendemos tudo; desconfiamos do futuro, mas insistimos em ficar; resmungamos, mas ajudamos.

Define-nos a memória curta e a saudade longa. O improviso elevado a sistema. A ironia como mecanismo de sobrevivência. A tendência para achar que “isto nunca vai mudar” enquanto, silenciosamente, mudamos um bocadinho todos os dias.

Define-nos também uma certa humanidade teimosa: no meio do rebuliço, ainda há tempo para um café, para uma conversa, para “desenrascar alguém”. Mesmo quando o país parece andar aos solavancos, as pessoas continuam a segurar-se umas às outras.

No fundo, talvez o que nos define seja isto: não a ausência de crise, mas a forma quase íntima como aprendemos a viver dentro dela.

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O EXEMPLO DO GIRASSOL

O girassol não é apenas uma planta; é quase uma atitude perante a vida. Desde que nasce, segue um impulso simples e claro: procurar a luz. Mesmo quando o céu permanece fechado durante dias, mesmo quando a manhã tarda, continua a orientar-se para onde acredita que o sol surgirá. Por isso, em algumas tradições, tornou-se símbolo de uma fé prática - uma fé que não depende do que se sente, mas do que se escolhe.

Nos dias mais difíceis, a fé falha muitas vezes por um motivo discreto: a atenção fixa-se no que falta. O girassol faz o contrário. Não ignora a sombra, mas também não se submete a ela. Ensina uma forma de disciplina interior: orientar o coração para aquilo que sustenta, não para o que ameaça. Conviver com girassóis, mesmo num vaso, educa o olhar para a possibilidade. E isso transforma o estado emocional, porque a esperança deixa de ser uma ideia abstrata e passa a ser uma postura.

Há ainda uma lição de presença. O girassol ocupa o seu espaço com firmeza: alto, inteiro, sem pedir licença para existir. Em momentos de cansaço ou desânimo, observar essa estrutura viva, estável e luminosa desperta uma memória antiga: ainda há caminho. Ainda há sentido. Ainda há força guardada, mesmo que agora não consigas tocá-la.

Um gesto simples pode transformar este símbolo numa prática. De manhã, pára um minuto diante de um girassol e diz em voz baixa: "escolho a luz, mesmo sem garantias". Depois, respira fundo três vezes e imagina o peito a abrir-se, como uma corola. Não é fingimento; é alinhamento. A fé fortalece-se quando se torna um ato repetido com consciência.

O girassol não promete ausência de tempestade. Promete direção. E, quando tudo parece ruir, a direção é a forma mais simples — e mais rara - de milagre. (adaptado de autor desconhecido)

 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A MÁGOA ESQUECE-SE?

Dizem que o tempo cura tudo. Mas será que cura mesmo? Ou apenas ensina a conviver com o que doeu?

A mágoa não desaparece de um dia para o outro. Ela instala-se devagar, às vezes silenciosa, outras vezes pesada como uma pedra no peito. Pode nascer de uma palavra dita sem cuidado, de uma promessa quebrada ou de um silêncio que magoou mais do que qualquer grito. No início, arde. Depois, parece adormecer. Mas esquecer… esquecer é outra história.

Com o tempo, aprendemos a olhar para a mágoa de forma diferente. Já não dói com a mesma intensidade, já não nos tira o sono como antes. Contudo, ela deixa marcas. E talvez não seja para ser esquecida totalmente. Talvez a mágoa exista para nos ensinar algo — sobre limites, sobre amor-próprio, sobre quem merece permanecer na nossa vida.

Esquecer pode não ser possível, mas perdoar — aos outros ou a nós mesmos — pode ser libertador. Não porque o que aconteceu deixou de importar, mas porque escolhemos não carregar o peso todos os dias.

A mágoa pode não se apagar da memória, mas pode perder a força. E quando isso acontece, já não é uma ferida aberta — é apenas uma cicatriz. E as cicatrizes contam histórias de dor, mas também de superação.

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O EXEMPLO DOS OUTROS

O exemplo dos outros tem um impacto profundo na forma como pensamos, sentimos e agimos. Desde a infância, aprendemos muito mais pelo que observamos, do que apenas pelo que nos dizem. Pais, professores, amigos e figuras públicas, tornam-se referências que, consciente ou inconscientemente, influenciam as nossas escolhas, valores e atitudes.

Quando vemos alguém agir com honestidade, responsabilidade e respeito, sentimos uma motivação natural para seguir esse caminho. Um colega que se dedica aos estudos pode inspirar-nos a esforçarmo-nos mais. Uma pessoa solidária pode despertar em nós o desejo de ajudar o próximo. Assim, o exemplo positivo funciona como um guia silencioso, mostrando que determinadas atitudes são possíveis e trazem bons resultados.

Por outro lado, o exemplo negativo também nos afeta. Se estamos rodeados de comportamentos de desrespeito, desinteresse ou falta de ética, podemos acabar por normalizar essas atitudes. A influência do grupo é especialmente forte na adolescência, fase em que a necessidade de pertença pode levar alguém a imitar comportamentos, apenas para ser aceite.

Além disso, figuras públicas — como atletas, artistas ou líderes — exercem grande influência na sociedade. Quando usam a sua visibilidade para promover valores positivos, contribuem para mudanças construtivas. Porém, quando demonstram comportamentos prejudiciais, podem influenciar milhares de pessoas de forma negativa.

Em suma, o exemplo dos outros afeta-nos porque somos seres sociais. Aprendemos observando, imitando e adaptando comportamentos ao nosso contexto. Por isso, é fundamental termos consciência do impacto que as nossas próprias atitudes podem ter nos que nos rodeiam. Cada pessoa, mesmo sem perceber, torna-se um exemplo para alguém.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

PENSAR DIFERENTE DE NÓS

Pensar diferente de nós é uma das experiências mais desafiadoras, tolerantes e enriquecedoras da convivência humana. Desde cedo, construímos as nossas ideias com base na família, na cultura, na escola e nas vivências pessoais. Por isso, é natural acreditarmos, que nossa forma de ver o mundo é a mais lógica ou correta. No entanto, quando encontramos alguém que pensa de maneira diferente, temos a oportunidade de ampliar a nossa visão e desenvolver a nossa maturidade.

As redes sociais contribuíram para a criação de “bolhas”, ambientes em que as pessoas convivem apenas com opiniões semelhantes às suas. Isso fortalece preconceitos, dificulta o debate saudável e transforma diferenças de opinião em conflitos pessoais. Temas como democracia, liberdade de expressão e responsabilidade individual, são essenciais na construção de uma sociedade mais justa e plural.

Este tema também remete à tendência humana de rejeitar ou atacar aqueles que pensam diferente. Quem vive em democracia defende a importância do respeito às divergências e do diálogo, como ferramentas fundamentais para a convivência democrática. A intolerância pode levar ao enfraquecimento das instituições e à normalização de discursos autoritários.

Pensar diferente de nós não deve ser visto como uma ameaça, mas como uma oportunidade de aprendizagem. Ao abrir espaço para o diálogo e para o entendimento, crescemos como indivíduos e contribuímos para uma sociedade mais justa, plural e democrática.

Acrescento, com certo humor, que “para bom entendedor, meia palavra basta…!”

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

VIVER DEPOIS DE UMA CALAMIDADE

 Viver depois de uma calamidade é estranho.
É como acordar num mundo que continua funcionando… mas por dentro já não se é mais o mesmo.

Há dias em que tudo parece normal demais — e isso incomoda.
Há dias em que qualquer barulho, qualquer lembrança, faz o coração apertar.
E tem dias em que simplesmente não se sente nada. Só um vazio.

Depois de algo grande demais acontecer, a vida não volta ao que era. Ela vira outra coisa. E talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.

Às vezes sente-se culpa por seguir em frente.
Às vezes sente-se raiva porque ninguém nos entende.
Às vezes cansa ser “forte”.

Mas viver depois de uma calamidade não é ser forte o tempo todo.
É levantar quando se consegue.
É descansar quando não dá.
É permitir-se reconstruir devagar.

Há algo de que quase ninguém fala:
sobreviver muda a forma como se vê o mundo. Passa-se a perceber a fragilidade das coisas — e, ao mesmo tempo, a força que insiste em continuar.

Não é preciso ter respostas agora.
Não é preciso transformar dor em lição.
Às vezes, o primeiro passo é, mesmo, só continuar respirando.

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

E SE HOUVESSE UM EMPATE?

Não sou jurista. Infelizmente. Mas tentei, com os meus limites, averiguar o que se passaria em Portugal, se na segunda, houvesse um empate. Como o nosso país é muito especial, todas as hipóteses devem ser consideradas. Vejamos o que apurei e se houver erro que um advogado tenha a paciência de me corrigir porque todos agradecemos.

A Constituição da República Portuguesa e a Lei Eleitoral do Presidente da República não preveem explicitamente o que fazer em caso de empate exato na 2.ª volta.

Ou seja:

  • Não está prevista 3.ª volta
  • Não está previsto critério de desempate automático (idade, sorteio, etc.)
  • Não está prevista repetição imediata da votação na lei
  •  Então como se resolveria?

Seria um cenário absolutamente excecional e teria de ser resolvido por via institucional, muito provavelmente através de:

  • Interpretação do Tribunal Constitucional
  • Eventual intervenção da Assembleia da República
  • Possível marcação de nova eleição, mas já fora do procedimento normal.

Na prática, seria uma crise constitucional inédita, resolvida caso a caso.

Porque é que isto quase nunca é considerado?

Porque com apenas dois candidatos, um empate exato exigiria:

  • exatamente o mesmo número de votos
  • depois de recontagens, votos nulos analisados, votos do estrangeiro, etc.

É considerado teoricamente possível, mas estatisticamente improvabilíssimo. Daí a lacuna legal.

Resumo rápido

✔️  A 2.ª volta decide o vencedor
❌   A lei não diz o que fazer se houver empate
  O   A solução teria de ser constitucional/judicial, não automática