quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

E SE HOUVESSE UM EMPATE?

Não sou jurista. Infelizmente. Mas tentei, com os meus limites, averiguar o que se passaria em Portugal, se na segunda, houvesse um empate. Como o nosso país é muito especial, todas as hipóteses devem ser consideradas. Vejamos o que apurei e se houver erro que um advogado tenha a paciência de me corrigir porque todos agradecemos.

A Constituição da República Portuguesa e a Lei Eleitoral do Presidente da República não preveem explicitamente o que fazer em caso de empate exato na 2.ª volta.

Ou seja:

  • Não está prevista 3.ª volta
  • Não está previsto critério de desempate automático (idade, sorteio, etc.)
  • Não está prevista repetição imediata da votação na lei
  •  Então como se resolveria?

Seria um cenário absolutamente excecional e teria de ser resolvido por via institucional, muito provavelmente através de:

  • Interpretação do Tribunal Constitucional
  • Eventual intervenção da Assembleia da República
  • Possível marcação de nova eleição, mas já fora do procedimento normal.

Na prática, seria uma crise constitucional inédita, resolvida caso a caso.

Porque é que isto quase nunca é considerado?

Porque com apenas dois candidatos, um empate exato exigiria:

  • exatamente o mesmo número de votos
  • depois de recontagens, votos nulos analisados, votos do estrangeiro, etc.

É considerado teoricamente possível, mas estatisticamente improvabilíssimo. Daí a lacuna legal.

Resumo rápido

✔️  A 2.ª volta decide o vencedor
❌   A lei não diz o que fazer se houver empate
  O   A solução teria de ser constitucional/judicial, não automática

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A banalização pública do voto revela mais exibicionismo do que consciência cívica

O voto é um dos pilares fundamentais da democracia precisamente porque é livre, pessoal e protegido do olhar alheio. A sua natureza secreta não é um detalhe técnico, mas uma garantia essencial contra pressões sociais, julgamentos morais e alinhamentos forçados. No entanto, assiste-se cada vez mais à tendência de expor publicamente em quem se vota, como se essa revelação fosse, por si só, um ato de virtude cívica.

Esta prática pouco acrescenta ao debate democrático. Pelo contrário, empobrece-o. Em vez de se discutirem ideias, propostas ou consequências políticas, privilegia-se a exibição da escolha individual como marcador identitário. O voto deixa de ser resultado de reflexão crítica e passa a funcionar como instrumento de validação social ou afirmação de pertença a um grupo.

A democracia não se fortalece com listas públicas de votos nem com a transformação da política em palco de aprovação moral. Fortalece-se com confronto de argumentos, diversidade de pensamento e respeito pela autonomia individual. Confundir participação cívica com exposição pessoal é um erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de algum exibicionismo., erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de vaidade.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

PORQUE ESCREVO NAS REDES

Alguns amigos me têm feito esta pergunta, sabendo que não ganho nada com isto e que, até hoje, sempre recusei ser patrocinada por uma das boas marcas que me procuram. Ainda há bem pouco tempo, alguém me dizia que eu devia receber um balúrdio por escrever diariamente nas redes. Sorri e respondi que recebia muito mais que um balúrdio. Talvez por isso, que, para mim, foi quase ofensivo, resolvi dissertar sobre o assunto. Convosco.

Escrevo nas redes sociais apesar de elas serem tão criticadas. Talvez precisamente por isso. Escrevo porque escrever me dá prazer, porque a palavra é o lugar onde penso, respiro e me organizo por dentro. E porque, mesmo num espaço ruidoso e tantas vezes superficial, ainda acredito na força de um texto que toca, provoca ou simplesmente acompanha.

Não escrevo porque tenho certezas, nem porque tenho respostas. Escrevo porque não possuo outro trabalho senão este: o de tentar dizer. De partilhar o que penso e sinto, sem grande utilidade prática, mas com uma intenção simples — oferecer palavras a quem passa. Talvez isso seja uma forma modesta de voluntariado: não de grandes gestos, mas de presença. Uma tentativa de humanizar o fluxo, de criar pequenas pausas num lugar que corre depressa demais.

Se as redes falham, nós também falhamos. E talvez seja exatamente aí, que escrever ainda faça sentido.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A PAIXÃO É DESORDEM?

A paixão chega sem pedir licença. Ela rompe rotinas, baralha pensamentos, acelera o coração e desorganiza a lógica. Por isso, muitas vezes é associada à desordem: um estado em que a razão perde o controle e o equilíbrio parece escapar. Mas será mesmo justo reduzi-la a isso?

A paixão é desordem porque desestabiliza o que estava quieto. Ela desafia regras, ignora cálculos e nos empurra para escolhas impulsivas. Sob a sua influência, o mundo ganha cores mais intensas, e aquilo que antes era seguro passa a parecer insuficiente. Nesse sentido, a paixão confunde, tira o chão e pode levar ao erro.

No entanto, essa desordem não é necessariamente negativa. Ao quebrar a rigidez do quotidiano, a paixão também revela desejos escondidos, dá sentido ao que era mecânico e movimenta a vida. É ela que impulsiona grandes gestos, criações artísticas, descobertas e transformações pessoais. Onde há paixão, há risco — mas também há verdade.

Talvez o problema não esteja na paixão em si, mas na ausência de equilíbrio. Quando a paixão caminha sozinha, sem o diálogo com a razão, torna-se excessiva e destrutiva. Mas quando ambas coexistem, a desordem se transforma em movimento, e o caos ganha direção.

Assim, a paixão é desordem apenas à primeira vista. No fundo, ela pode ser um tipo diferente de ordem, uma ordem emocional, intensa e viva, que nos lembra que sentir também é uma forma de existir

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MEDO, AUTORIDADE E RESPEITO (A pedido de uma comentadora)

O medo sempre foi uma ferramenta rápida de controle. Ele cala vozes, endireita posturas e cria obediência imediata. Mas o que nasce do medo é frágil: dura apenas enquanto a ameaça está presente. Quando ela desaparece, sobra o ressentimento, a revolta silenciosa ou a vontade de desafiar.

A autoridade, por sua vez, não deveria depender do medo. Autoridade verdadeira é construída com coerência, responsabilidade e exemplo. Ela não precisa gritar para ser ouvida, nem punir para ser reconhecida. Quando alguém exerce autoridade apenas pela força, revela mais insegurança do que poder.

O respeito é diferente dos dois. Ele não se impõe, conquista-se. Surge quando há confiança, justiça e humanidade. As pessoas respeitam quem as escuta, quem age com firmeza sem humilhar, quem mantém limites sem violência. O respeito cria vínculos; o medo cria distância.

Onde o medo governa, o respeito desaparece. Onde o respeito existe, a autoridade se torna natural. E talvez esse seja o maior sinal de maturidade de qualquer relação - pessoal, social ou institucional-  quando ninguém precisa de ter medo para fazer o que é certo.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

DA UNANIMIDADE

Levei a minha vida inteira a ouvir louvar a unanimidade. Por razões de natureza pessoal sempre me senti melhor entre gente de pensamento diverso do meu, porque isso aguçava a minha mente! Vejamos.

A unanimidade costuma ser associada à harmonia, consenso e legitimidade, mas o seu valor, depende muito do contexto em que ocorre. Em situações técnicas ou científicas, por exemplo, a unanimidade pode indicar que diferentes análises independentes convergiram para a mesma conclusão, reforçando a confiança nos resultados. Ainda assim, mesmo nesses casos, a ausência de dissenso não garante verdade definitiva, pois o conhecimento é sempre provisório e aberto à revisão, diante de novos dados ou métodos.

Em contextos sociais, políticos ou organizacionais, a unanimidade tende a ser mais ambígua. Decisões unânimes podem resultar não de concordância genuína, mas de pressão social, hierarquias rígidas ou medo de conflito. Nesses cenários, a unanimidade pode ocultar problemas, silenciar perspetivas minoritárias e reduzir a qualidade das decisões. A diversidade de opiniões, ao contrário, costuma ampliar o campo de análise, revelar riscos não percebidos e estimular soluções mais robustas.

Portanto, a unanimidade não é, por si só, um valor absoluto nem um problema intrínseco. Ela pode ser um sinal positivo quando resulta de debate aberto, informado e livre. Mas torna-se questionável quando substitui o pensamento crítico, ou impede a expressão do desacordo. Avaliar o valor da unanimidade exige atenção aos processos que a produziram, e não apenas ao facto de todos terem chegado à mesma posição.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

QUANDO QUALQUER ESCOLHA É MÁ

Quando qualquer escolha é má, não estamos diante de um dilema comum, mas de um território onde a lógica falha e a consciência pesa. É o momento em que todas as alternativas carregam perdas, culpas ou consequências, que ferem algo essencial. Não há saída limpa, não há decisão que permita dormir em paz, sem que uma parte de nós fique acordada, cobrando explicações.

Nessas situações, escolher deixa de ser um ato de vontade e passa a ser um ato de resistência. Não se escolhe o bem, mas o mal que parece menos destrutivo, menos definitivo, menos contrário àquilo que acreditamos ser. Ainda assim, a sensação de falha persiste, porque o critério não é a vitória, e sim a sobrevivência — moral, emocional ou até física.

Quando qualquer escolha é má, o silêncio interior se torna ensurdecedor. Pensamos mais, adiamos mais, desejamos que alguém decida por nós, ou que o problema desapareça sozinho. Mas a ausência de escolha também é uma escolha, e muitas vezes a mais cruel, pois entrega o controle ao acaso ou ao medo.

Esses dilemas revelam algo profundo sobre a condição humana. É que nem sempre somos livres para fazer o certo, apenas responsáveis pelo que fazemos, diante do inevitável. É nesse ponto que a ética deixa de ser ideal e se torna trágica. Não há heróis, apenas pessoas tentando minimizar danos num mundo imperfeito.

Talvez a aprendizagem mais dura seja aceitar que errar, nesses casos, não significa falhar como pessoa. Significa apenas que a realidade impôs limites ao que era possível. Quando qualquer escolha é má, o que resta não é a certeza, mas a honestidade consigo mesmo, de escolher sabendo o peso, assumir as consequências e seguir em frente, mesmo carregando cicatrizes.

Porque, às vezes, viver é exatamente isso: continuar, mesmo quando nenhuma opção parece certa.

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

DE QUE LADO ESTÁ O CORAÇÃO?

Enquanto ia na maca para a sala de operações, talvez já um pouco sedada, a questão que eu levantava a mim mesma, era a de não saber de que lado estava o meu coração, porque era ele que ia ser reparado. Ainda hoje me rio, com este quadro clínico. Quando já estava acordada, meia zonza, mas a insistir na pergunta, lembro-me de que alguém, dada a estranheza da minha pergunta, terá tido a paciência de me contar esta história.

O coração humano está localizado predominantemente do lado esquerdo do tórax, entre os pulmões, ligeiramente inclinado para a esquerda. Embora muitas pessoas imaginem que ele fique totalmente à esquerda, na verdade ele encontra-se quase no centro do peito, com cerca de dois terços de sua massa voltados para o lado esquerdo do corpo.

Do ponto de vista anatómico, essa posição facilita a distribuição eficiente do sangue para todo o organismo. O coração funciona como uma bomba incansável, responsável por levar oxigénio e nutrientes às células e retirar substâncias que o corpo não precisa. O seu lado esquerdo é especialmente importante, pois é ali que ocorre o bombeamento do sangue rico em oxigénio para todo o corpo através da artéria aorta”.

Sei hoje, que a minha pergunta “de que lado está o coração?” ultrapassava a biologia. Simbolicamente, eu sabia que o coração é associado aos sentimentos, ao amor, à empatia e às escolhas humanas. E era justamente essa, a minha preocupação. Porque também sentia, com alguma lucidez, que nesse sentido, ele não está apenas à esquerda ou à direita. Está do lado das atitudes, das decisões que tomamos e da forma como nos relacionamos com os outros. Porque enquanto a ciência nos ensina que o coração está fisicamente do lado esquerdo do peito, a vida nos lembra que, simbolicamente, ele está sempre do lado daquilo que nos torna mais humanos. Nessa altura o pano desceu e eu adormeci, para mais tarde recordar tudo isto!

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O fator aleatório na nossa vida

O fator aleatório na nossa vida é aquela força invisível que rompe a ilusão de controle. Planejamos, calculamos, tomamos decisões racionais — e, ainda assim, um encontro casual, um atraso, uma palavra dita no momento errado (ou certo) pode mudar tudo.

Esse acaso não significa ausência de sentido. Muitas vezes, ele atua como um catalisador: revela quem somos quando o roteiro falha. Uma demissão inesperada pode abrir um caminho mais autêntico; um erro pode gerar aprendizagem; um imprevisto pode criar vínculos que jamais existiriam se tudo fosse previsível.

Vivemos numa tensão constante entre escolha e sorte. As nossas ações importam — moldam probabilidades —, mas não determinam totalmente os resultados. Reconhecer isso pode ser libertador. Em vez de buscar controle absoluto, aprendemos a cultivar flexibilidade, resiliência e atenção ao presente.

Talvez a sabedoria esteja em fazer o melhor possível com o que depende de nós e, ao mesmo tempo, aceitar que o aleatório faz parte do jogo. Afinal, é justamente essa imprevisibilidade que torna a vida menos mecânica e, paradoxalmente, mais humana

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

A CAMINHO DA SEGUNDA VOLTA

Acabou a primeira volta das Eleições. Parecem estar definidos os candidatos à segunda, Não vai ser fácil viver neste tumulto, agora em numero mais limitado, outra vez ...

Dá mesmo uma sensação de recomeço do aperto. A primeira volta termina, mas o clima não acalma — às vezes até fica mais tenso, porque agora tudo se polariza de vez.

Viver este período pode ser cansativo. Mas talvez ajude lembrar que:

  • não se é obrigado(a) a acompanhar tudo o tempo todo;
  • escolher quando e onde se informar, já é uma forma de autocuidado;
  • dá para discordar do tumulto sem se desligar da realidade.
  • Emocionalmente: sensação de cansaço, irritação, ansiedade, desânimo ou até um aperto difícil de explicar.
  • No dia a dia: dificuldade de se concentrar, vontade de se desligar de notícias/redes, rotina mais pesada, menos energia.
  • Nas relações: evitar certos assuntos, tensão com familiares/colegas, medo de conflito, afastamento de algumas pessoas.

Não precisamos elaborar muito — podemos dizer algo como “mais emocional”, “mais nas relações” ou “um pouco de tudo”. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

APÓS O VOTO

Depois de votar, fica no ar uma sensação difícil de definir. É uma mistura de alívio por ter cumprido um dever cívico e de inquietação pelo peso da escolha feita. O gesto é simples — um papel, uma cruz, uma urna — mas o significado é profundo. Por alguns instantes, sente-se que a própria voz ganhou forma, ainda que pequena, dentro de um processo muito maior.

Há também um silêncio interior que acompanha o momento seguinte: perguntas sobre o futuro, dúvidas sobre se a decisão foi a melhor, esperança de que o voto represente mudança ou, ao menos, continuidade responsável. O estado anímico oscila entre a confiança e a apreensão, entre o orgulho de participar e a consciência de que os resultados escapam ao controlo individual.

No fim, votar deixa uma marca emocional discreta, mas duradoura. É a sensação de pertença a uma comunidade que decide em conjunto, carregando tanto expectativas como receios. Mesmo sem certezas, permanece a ideia de que participar importa — e que, naquele breve momento, cada escolha contou.

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

AS NOSSAS ELEIÇÕES (Entre o sério e o sorriso)

Chegou a época das eleições, esse período mágico em que ninguém tem passado, todos têm esqueletos no armário e alguns até descobrem que o armário afinal era um motel. Não faltou nada: corrupção, cunhas, mensagens apagadas, amizades repentinas, moralidade retroativa e, claro, sexo — porque sem sexo não há campanha digna desse nome.

Os programas eleitorais passam para segundo plano, substituídos por dossiês, memórias seletivas e denúncias arqueológicas. Vale tudo: escândalos fresquinhos, boatos requentados e até acusações que parecem ter sido desenterradas com pincel e cuidado, como fósseis. Melhor do que isto só mesmo o caso do Iglesias, que aos 81 anos é agora apontado por alegados assédios cometidos há 30 — um prodígio temporal que faz da política a única ciência onde se envelhece para trás.

Nesta altura, não se escolhem ideias, escolhem-se sobreviventes. Ganha quem tropeça menos nas pedras que convenientemente aparecem no caminho — pedras essas que ninguém viu durante anos, mas que brotam do chão assim que alguém sobe nas sondagens.

No fim, vota-se cansado, desconfiado e com a sensação de que participou não numa eleição, mas numa novela mal escrita, onde todos juram inocência, todos têm provas “graves” e a verdade… bem, a verdade ficou presa numa comissão parlamentar qualquer.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

À espera dos resultados eleitorais,

O país quase sustém a respiração.
Não são apenas resultados que se aguardam,
mas caminhos possíveis para a nossa forma de viver em conjunto.

Em cada número há decisões que chegam à escola, ao hospital,
ao trabalho, à casa onde se tenta chegar ao fim do mês.
Há direitos que podem ser fortalecidos ou fragilizados,
há vozes que podem ser ouvidas — ou silenciadas.

A espera é tensa porque sabemos que a escolha não é neutra.
Ela define quem é protegido, quem é esquecido
e que ideia de futuro estamos dispostos a defender.
Entre a esperança e o receio, aguardamos,
conscientes de que amanhã pode exigir mais luta
ou permitir mais dignidade.

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A alegada calúnia sobre Cotrim Figueiredo pode acabar por o beneficiar

Não falo habitualmente de política. Especialmente, num quadro eleitoral como este que atravessamos que ultrapassa tudo o que se considera democrático. Mas vou abrir uma exceção,

Na vida pública, nem todas as tentativas de difamação produzem o efeito desejado. Em alguns casos, uma alegada calúnia dirigida a uma figura política pode transformar-se num fator de fortalecimento da sua imagem. Quando a acusação é percebida como injusta ou infundada, a reação do público tende a ser de solidariedade e defesa do visado.

No caso de Cotrim Figueiredo, se surgirem ataques que não sejam sustentados por provas, estes podem contribuir para reforçar a sua credibilidade e visibilidade. A atenção mediática gerada por situações deste tipo, muitas vezes permite que o próprio esclareça os factos, reafirme os seus valores e consolide a confiança dos seus apoiantes.

Além disso, numa sociedade cada vez mais atenta à desinformação, acusações levianas podem prejudicar mais quem as faz do que quem as recebe. O público tende a valorizar a coerência, a transparência e a postura serena perante a adversidade, o que pode transformar um ataque num ganho político e pessoal.

Assim, embora a calúnia seja sempre condenável, a verdade é que, em certos contextos, ela não só não atinge o seu objetivo, como pode acabar por compensar quem é alvo dela, fortalecendo a sua posição perante a opinião pública.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

ENFRENTAR A DESILUSÃO

Quem é que nunca sofreu uma desilusão? Respondo, convicta e segura, ninguém!

Enfrentar a desilusão, é um ato silencioso de coragem. Ela chega quando as expectativas se quebram, quando as pessoas, os planos ou os sonhos, não correspondem ao que imaginávamos. Dói, porque nasce da esperança — e só se desilude quem acreditou de verdade.

A desilusão obriga-nos a encarar a realidade sem os filtros do idealismo. No primeiro momento, tudo parece perda: a confiança abalada, o entusiasmo diminuído, o coração mais cauteloso. Mas, com o tempo, percebemos que ela também carrega uma aprendizagem profunda. Ao cair o véu, ganhamos clareza. Passamos a enxergar quem somos, quem são os outros e, o que realmente, merece o nosso investimento emocional.

Enfrentar a desilusão não significa endurecer ou deixar de sonhar. Significa amadurecer. É aprender a alinhar as expectativas com a realidade, sem abrir mão da sensibilidade. É entender que nem toda a queda é um fim — algumas, são apenas redireccionamentos.

Quando aceitamos a desilusão, transformamos a dor em força. Ela ensina-nos os limites, fortalece a autoestima e aproxima-nos de relações mais verdadeiras.

Seguir em frente, depois de uma desilusão, é um gesto de amor-próprio. É reconhecer o que feriu, acolher o sentimento, e escolher continuar, agora com mais consciência e menos ilusões. Nenhuma desilusão merece a nossa dor!

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

UM SOPRO DE ETERNIDADE

Já vivi momentos assim. Que, por mais que nos esforcemos para os descrever, se não conseguem explicar. As palavras não são suficientes para dar uma pálida ideia daquilo que eles representam.

São instantes que não passam. Apenas se recolhem em nós, como se o tempo, por descuido ou gentileza, se tivesse esquecido de continuar.

Aquele “fragmento de eternidade” nasceu pequeno, quase invisível, mas denso demais para caber no “agora”. Não durou mais que um segundo — e, ainda assim, permanece em nós. Vive no intervalo entre a lembrança e o sentimento, onde nada envelhece por completo.

Não era feito de grandes gestos. Era um olhar sustentado um pouco além do necessário, um silêncio que dizia mais do que as palavras ousariam, um respirar fundo, antes de tudo mudar. Nesse fragmento, o mundo parecia suspenso, como se o infinito tivesse aceitado ser breve só para provar que existe.

Talvez seja isso a eternidade: não um tempo sem fim, mas um momento que se recusa a morrer. Algo que o corpo guarda, mesmo quando a vida segue, mesmo quando tudo ao redor, insiste em continuar.

E assim, aquele fragmento permanece — não no relógio, mas em quem o sentiu. Intacto. Inexplicável. Eterno, o suficiente.

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

O mais importante não é compreender

Vivemos numa época obcecada por explicações. Queremos entender tudo, dar nome a tudo, encaixar cada experiência numa lógica confortável. No entanto, há momentos da vida em que compreender, não é o essencial. Há sentimentos que não se explicam, dores que não cabem em palavras e encontros que só fazem sentido quando são vividos, não analisados.

Compreender exige distância. Sentir, ao contrário, exige presença. Quando tentamos entender demais, corremos o risco de nos afastar da experiência real, de transformar o que é vivo em conceito, o que é profundo em teoria. Nem tudo foi feito para ser decifrado. Algumas coisas existem, apenas, para ser acolhidas.

O amor, por exemplo, não precisa de ser compreendido para ser verdadeiro. A fé não depende de provas absolutas para existir. A arte não se esgota em interpretações. Há uma sabedoria silenciosa em aceitar o mistério, em reconhecer que nem tudo precisa de resposta imediata.

O mais importante, muitas vezes, não é compreender, mas escutar, sentir, permanecer. É permitir-se viver a experiência como ela é, com as suas ambiguidades e incertezas. É confiar que, mesmo sem entender tudo, ainda assim, podemos crescer, aprender e seguir em frente.

Porque há verdades que não se revelam à mente, mas ao coração. E há caminhos que só se mostram quando aceitamos caminhar sem mapa.

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

ENSINAR E APRENDER

Ensinar e aprender são processos distintos, porém inseparáveis, que se constroem na interação entre pessoas, saberes e contextos. Ensinar não é apenas transmitir informações, assim como aprender não se limita a memorizar conteúdos. Ambos envolvem diálogo, experiência, reflexão e transformação.

Ensinar significa criar condições para que o conhecimento possa ser compreendido, questionado e apropriado pelo aprendiz. O ato de ensinar envolve intencionalidade, planeamento, mediação e sensibilidade às diferenças individuais. O educador não é apenas aquele que “fala”, mas quem orienta, provoca, estimula a curiosidade e ajuda o estudante a estabelecer relações entre o que já sabe e o que está a aprender. Ensinar é, portanto, um processo ativo e ético, que considera o desenvolvimento integral do sujeito.

Aprender, por sua vez, é um processo pessoal e contínuo de construção do conhecimento. A aprendizagem ocorre quando o indivíduo atribui sentido ao que estuda, relacionando as novas informações com as suas experiências, valores e necessidades. Aprender envolve esforço, participação, erro, reflexão e mudança. Não acontece apenas em ambientes formais, mas ao longo da vida, nas relações sociais, no trabalho e nas vivências quotidianas.

Ensinar e aprender se influenciam mutuamente. Não há ensino verdadeiro sem aprendizagem, nem aprendizagem significativa sem um ensino que respeite o sujeito que aprende. Quando o ensino é dialógico, crítico e contextualizado, ele favorece uma aprendizagem mais profunda, capaz de formar pessoas autónomas, criativas e conscientes de seu papel na sociedade.

Assim, ensinar e aprender são atos humanos fundamentais, que ultrapassam a simples transmissão de conteúdos e contribuem para a formação de indivíduos e para a transformação social.

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Passar da Expectativa à Esperança

A expectativa nasce do desejo de controlar o futuro. Ela alimenta-se de prazos, resultados e certezas. Quando criamos expectativas, imaginamos como as coisas deveriam acontecer e, muitas vezes, colocamos nelas a medida da nossa felicidade. O problema é que a expectativa depende do que não está totalmente em nossas mãos. Por isso, quando não se cumpre, gera frustração, ansiedade e desânimo.

A esperança, por outro lado, é mais profunda e resistente. Ela não ignora as dificuldades nem nega a realidade, mas escolhe confiar, mesmo quando o caminho é incerto. Enquanto a expectativa diz “vai acontecer do jeito que eu quero”, a esperança diz “mesmo que não aconteça como imaginei, ainda há sentido, aprendizagem e possibilidade”.

Passar da expectativa à esperança é um movimento de maturidade interior. É aprender a soltar o controle sem perder a fé, a aceitar que nem tudo será como planeamos, mas ainda assim pode ser bom, transformador e necessário. A esperança não depende de garantias.Ela se sustenta na confiança de que a vida pode surpreender de formas que vão além do que conseguimos prever.

Quando deixamos as expectativas rígidas e cultivamos a esperança, abrimos espaço para a paz. Continuamos a sonhar, mas sem nos aprisionarmos a resultados específicos. Assim, mesmo diante das quedas, permanecemos de pé, porque a esperança não está no que acontece, mas na forma como escolhemos seguir.

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

ESTUDAR DEIXOU DE COMPENSAR?

Durante muito tempo, estudar foi considerado como o caminho mais seguro para a subida na vida. Tirar boas notas, fazer uma faculdade, conquistar um diploma eram os meios de garantir um bom emprego e estabilidade financeira. Hoje, no entanto, para muitas pessoas, essa promessa parece cada vez mais distante da realidade.

O mercado de trabalho mudou. Os diplomas multiplicaram-se, mas as oportunidades de qualidade não acompanharam o mesmo ritmo. Muitos profissionais, altamente qualificados, enfrentam salários baixos, contratos precários ou até o desemprego. Ao mesmo tempo, vemos pessoas sem formação académica tradicional, obterem sucesso financeiro por meio do empreendedorismo, das redes sociais ou de trabalhos informais, o que reforça a sensação de que estudar deixou de compensar.

Além disso, o custo da educação é alto. Anos de dedicação, mensalidades caras, transporte, materiais e, muitas vezes, dívidas. Quando o retorno não vem na forma de reconhecimento profissional ou estabilidade, a frustração é inevitável. Estudar passa a ser visto não como investimento, mas como um risco.

No entanto, afirmar que estudar não compensa, pode ser uma generalização perigosa. O problema talvez não esteja no ato de estudar, mas no modelo de educação e nas expectativas criadas em torno dele. Estudar, apenas para obter um diploma, sem desenvolver pensamento crítico, habilidades práticas e capacidade de adaptação, realmente tende a gerar pouco retorno.

Hoje, mais do que nunca, estudar precisa de ter sentido. Aprender a aprender, desenvolver competências relevantes, buscar conhecimento de forma estratégica e contínua, pode fazer a diferença. A educação ainda transforma vidas, mas não de forma automática nem garantida como antes.

Portanto, talvez a questão não seja se estudar deixou de compensar, mas como, o que e para quê estamos a estudar. Sem essa reflexão, o estudo perde valor. Com ela, pode continuar a ser uma poderosa ferramenta de mudança.

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

FAZER AS PAZES COM O PASSADO

Fazer as pazes com o passado, é um passo essencial para viver o presente com leveza e construir um futuro mais consciente. O passado carrega experiências que moldaram quem somos: alegrias, conquistas, erros, perdas e feridas. Ignorá-lo ou lutar contra ele, não o apaga. Ao contrário, muitas vezes, torna-o mais pesado e presente, nas nossas decisões, medos e relações.

Quando não resolvemos pendências emocionais, acabamos revivendo antigas dores, em novas situações. Mágoas não elaboradas, transformam-se em ressentimento, culpa ou medo de repetir erros. Fazer as pazes com o passado não significa concordar com tudo o que aconteceu, nem justificar injustiças sofridas, mas sim reconhecer os fatos como parte da nossa própria história, e aceitar que eles não podem mais ser mudados.

Este processo exige coragem e honestidade. É preciso olhar para trás, com compaixão, inclusive consigo mesmo, entendendo que muitas escolhas foram feitas com os recursos emocionais e o conhecimento disponíveis naquele momento. O perdão — seja ao outro ou a si próprio — surge como um elemento libertador, porque rompe o vínculo de dor que nos mantém presos ao que já passou.

Ao reconciliar-se com o passado, a pessoa recupera o poder sobre o presente. Em vez de agir movida por feridas antigas, passa a escolher com mais clareza e responsabilidade. O passado deixa de ser um peso e transforma-se em aprendizagem, fonte de amadurecimento e de autoconhecimento.

Portanto, fazer as pazes com o passado, não é esquecer, mas integrar. É reconhecer a sua própria história, acolher as marcas deixadas por ela, e seguir em frente com mais equilíbrio, permitindo-se viver plenamente o agora e abrir espaço para novas possibilidades.

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

QUEM QUER SER POLÍTICO EM PORTUGAL? (entre o sério e o riso)

Em Portugal, há quem sonhe em ser astronauta, futebolista ou cantor de sucesso. E depois há quem, com coragem quase épica, decida querer ser político. Não por vocação divina, mas por uma estranha mistura de idealismo, resistência emocional e gosto por debates intermináveis.

Ser político em Portugal é aceitar, desde o primeiro dia, que nunca se estará totalmente certo — mesmo quando se está. É falar para todos e, ao mesmo tempo, ouvir que não se percebe nada do que se disse. É prometer mudanças sabendo que a frase mais repetida será sempre: “Isto já vem de trás”.

O político português aprende cedo que a memória coletiva é curta, mas o arquivo da internet é eterno. Uma frase mal colocada em 2009 pode reaparecer em 2029, acompanhada de um comentário mordaz e um emoji a rir. A política, hoje, faz-se tanto no Parlamento como nos comentários das redes sociais, onde todos são especialistas e ninguém tem dúvidas.

Há, claro, o lado sério. Decidir leis, gerir recursos públicos, representar pessoas reais com problemas reais. É uma tarefa pesada, que exige responsabilidade, estudo e uma boa dose de paciência. Mas há também o lado quase cómico: debates acalorados sobre temas urgentes interrompidos por apartes, jogos de palavras e indignações estratégicas que duram apenas até ao próximo ciclo noticioso.

Quem quer ser político em Portugal tem de saber rir — de si próprio, dos outros e do sistema. Porque, sem humor, a política torna-se insuportável e sem seriedade, torna-se inútil. O equilíbrio entre ambos é raro, mas essencial.

No fundo, querer ser político em Portugal é acreditar que ainda vale a pena tentar melhorar o país, mesmo sabendo que, no fim do dia, alguém dirá: “São todos iguais”. E talvez seja precisamente essa teimosia — meio ingénua, meio corajosa — que separa o riso fácil do compromisso sério.

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

MUDAR DE VIDA

Aos 91 anos, decidi mudar de vida.
Não por crise existencial — essa já passou umas cinco vezes — mas porque percebi que continuar igual daria muito trabalho.

Primeiro mudei a agenda.
Antes, eu tinha pressa. Agora, tenho prioridade.
Se algo pode ser feito amanhã, ótimo. Se puder ser feito semana que vem, melhor ainda. Urgente mesmo só levantar da cadeira sem fazer barulho nos joelhos.

Também mudei de opinião.
Passei a concordar com mais gente, não porque eles estejam certos, mas porque discutir cansa. A experiência ensina: nem toda batalha merece um discurso, algumas só pedem um “é… pode ser”.

Resolvi mudar o estilo de vida.
Troquei excessos por cuidados, ambições por histórias, e planos de longo prazo por bons cafés. Descobri que o futuro existe, sim, mas ele começa depois do cochilo.

Mudei o jeito de amar.
Aos 90, o amor não corre, ele senta. Não promete, acompanha. Não exige, agradece. Amar virou um verbo silencioso, desses que se conjuga melhor com presença do que com palavras.

E mudei a relação com o tempo.
Antes eu o perdia. Agora ele é que me encontra — devagar, educado, quase pedindo licença. Cada dia é um bônus, não uma obrigação.

Mudar de vida aos 91 não é começar do zero.
É finalmente entender o que vale a pena manter.

E se alguém perguntar se não é tarde demais, eu respondo com toda a serenidade do mundo:
tarde é não mudar nunca!