domingo, 17 de maio de 2026

ULTIMA CARTA

Alexandre,

Não te escrevo com raiva, nem com a intenção de apontar culpados. Escrevo-te com a calma triste de quem finalmente aceitou a verdade. O nosso amor acabou, e nós dois sabemos disso, mesmo que continuemos a adiar a conversa e a partilhar a mesma rotina mecânica.

Esquecemo-nos dos aspetos mais importantes e daí resultaram, pelo menos para mim pequenos desastres, como deixar de esperar pelo abraço que já não me aquece, libertar-te dos compromissos que o tempo esvaziou, acabar com o esforço diário de sorrir para disfarçar o vazio.

 Aceito que dar o nosso melhor não foi suficiente para nos salvar. Nem a mim, nem a ti!

Fomos a história mais bonita da minha vida, mas hoje somos apenas duas pessoas que partilham uma casa e uma solidão imensa. Cansa ver o teu olhar passar por mim sem me ver. Cansa-me a cortesia fria que substituiu a nossa cumplicidade.

Esta carta é a minha despedida silenciosa. Não me afasto por falta de carinho, mas por respeito ao que fomos e ao que ainda merecemos ser. Merecemos a verdade, mesmo que ela doa. Deixo-te ir para que tu, e eu também, possamos voltar a respirar e, quem sabe um dia, a amar de verdade.

Obrigado por tudo o que construímos. Fica em paz.

 

 

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

MARTHA FREUD

A Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão, é uma obra de grande densidade psicológica e literária, construída a partir de uma voz feminina que revisita a memória, o desejo, o silêncio e a condição da mulher ao longo do século XX. O romance parte de uma figura ficcional — Martha Freud — cuja ligação simbólica ao universo freudiano permite à autora explorar os territórios do inconsciente, da repressão e da identidade feminina.

Mais do que uma narrativa linear, o livro apresenta-se como um fluxo de consciência fragmentado, íntimo e profundamente reflexivo. Martha reconstrói a própria vida através de lembranças descontínuas, pensamentos, emoções e episódios que surgem como peças dispersas de uma autobiografia que nunca chegou verdadeiramente a ser escrita. Esse processo transforma a memória num espaço de revelação, mas também de perda e ambiguidade. A personagem procura compreender-se a si mesma num mundo marcado por normas sociais rígidas, relações afetivas complexas e uma constante tensão entre liberdade e submissão.

A escrita de Teolinda Gersão destaca-se pela elegância poética e pela subtil exploração do universo interior das personagens. O romance evita o dramatismo excessivo e aposta antes na sugestão, na introspeção e na delicadeza psicológica. O silêncio possui um papel fundamental: aquilo que não é dito torna-se tão importante quanto as palavras. A autora constrói, assim, uma narrativa profundamente humana, onde o leitor é convidado a penetrar nas zonas mais íntimas da consciência de Martha.

Outro aspeto marcante da obra é a reflexão sobre a condição feminina. Martha representa muitas mulheres cuja existência foi condicionada pelas expectativas sociais, pela dependência emocional e pela invisibilidade histórica. Contudo, o romance não se limita à denúncia; ele procura compreender as contradições internas da personagem, os seus desejos reprimidos, os seus medos e a sua busca de autenticidade. Nesse sentido, o livro aproxima-se de uma análise existencial da experiência feminina.

A relação implícita com o pensamento de Sigmund Freud acrescenta outra camada interpretativa à narrativa. A memória, os sonhos, os traumas e o inconsciente atravessam o texto de forma subtil, fazendo da obra um espaço de diálogo entre literatura e psicanálise. No entanto, Teolinda Gersão não transforma o romance num ensaio teórico; pelo contrário, utiliza essas referências para aprofundar a dimensão emocional e simbólica da protagonista.

Em termos estilísticos, o romance revela uma linguagem cuidada, musical e sensível, típica da autora. A fragmentação narrativa acompanha o funcionamento da memória e da consciência, criando uma leitura exigente, mas profundamente envolvente. O leitor não encontra respostas definitivas, mas antes uma sucessão de inquietações e descobertas que tornam a obra rica em interpretações.

Em síntese, Autobiografia não escrita de Martha Freud é um romance intimista e sofisticado que explora a memória, a identidade e o universo feminino com grande profundidade literária. Teolinda Gersão confirma, nesta obra, a sua capacidade de transformar a experiência interior em matéria literária de elevada qualidade estética e humana.

 

domingo, 10 de maio de 2026

A MINHA MÃE

A minha mãe nasceu no dia 11 de maio e foi sempre única. Lindíssima e uma força da natureza a vencer barreiras e preconceitos.

Hoje sei que ela é alguém que não se abandona, mesmo quando o mundo insiste em nos empurrar para longe. É a primeira morada que conhecemos, antes mesmo de termos nome para as coisas. No silêncio do seu colo, aprendemos que existir pode ser suave, que ha braços que nos seguram, quando tudo em nós ainda é queda.

Há um tipo de amor na minha mãe que não pede tradução. Ele vive, sobretudo, nos gestos mínimos: no cuidado distraído de ajeitar um cabelo, no olhar que percebe antes da palavra, na presença que permanece, mesmo quando já não está fisicamente ali. Ela é memória que respira dentro de mim.

Com o tempo, descobri que ela também é feita de cansaços, de medos guardados, de noites mal dormidas. E isso não diminui o que ela é — pelo contrário, torna o seu amor mais humano, mais vasto. Amar assim, apesar de tudo, é quase um milagre quotidiano.

Há coisas que, por norma, nunca dizemos a uma mãe. Ficam suspensas entre o orgulho e a timidez, entre a pressa da vida e a ilusão de que haverá sempre tempo. Eu, felizmente, disse-lhe tudo, porque ela foi, sempre, a minha maior amiga.

E talvez seja isso que, em simultâneo, mais dói e consola: perceber que, dentro de nós, há sempre um pedaço da nossa mãe a viver nas escolhas, nas palavras, nos gestos, que repetimos sem notar. Como se, no fundo, nunca tivéssemos saído, realmente, de casa.

 

Entre o medo de te amar e a dor de te perder

Fátima Lopes, acaba de publicar o livro Entre o Medo de Te Amar e a Dor de Te Perder. O tema central mostra que nem sempre o amor surge como uma promessa de salvação, mas sim, como um território de risco. A narrativa mergulha naquilo que raramente se diz em voz alta: há relações que terminam não por falta de amor, mas porque as pessoas deixam de caber na vida que construíram. E talvez seja precisamente aí, que o livro encontra a sua maior força — na coragem de mostrar que, recomeçar uma vida aos cinquenta anos, pode ser mais assustador do que envelhecer infeliz.

A protagonista vive entre duas dores silenciosas: no medo de voltar a acreditar e no pânico de perder aquilo que, finalmente, a faz sentir viva. Esse conflito transforma o romance numa reflexão sobre identidade, tempo e liberdade emocional. Não se trata, apenas, de uma história romântica. Trata-se da lenta reconstrução de uma mulher que percebe que passou décadas a satisfazer expectativas alheias, enquanto esquecia a sua própria voz.

O livro toca numa ferida contemporânea: a necessidade, quase cruel, de parecer estável, feliz e resolvido perante os outros. Há uma crítica subtil às vidas montadas como vitrinas, onde o amor se transforma em performance e os afetos sobrevivem, mais pela aparência do que pela verdade. Quando essa estrutura desaba, sobra a pergunta essencial: quem somos, quando já não representamos o papel que os outros esperam de nós?

A escrita de Fátima Lopes tem uma proximidade emocional que não procura impressionar pela complexidade literária, mas sim, pela humanidade. E é justamente essa simplicidade emocional que aproxima o leitor das suas personagens. Há frases que parecem conversas íntimas, memórias ditas à meia-luz, confissões que pertencem a qualquer pessoa, que já teve de escolher entre a segurança e a felicidade.

No fundo, este livro fala sobre a idade em que deixamos de querer sobreviver e começamos, finalmente, a querer viver. E talvez a sua mensagem mais profunda seja esta: o amor verdadeiro não chega para nos completar; chega para nos devolver a coragem de sermos inteiros. 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Amor não morre

Que não se suponha que, por escrever sobre certos livros, me considere uma crítica abalizada dos mesmos. A minha vida é ler e escrever, sem patrocínios de ninguém. Mas quando os amigos- repito os amigos- me oferecem o trabalho que fazem, sinto que lhes devo dizer o que penso. Agora, é a vez de Cláudio Ramos.

A obra, O Amor Não Morre, combina elementos autobiográficos, emocionais e filosóficos, explorando a ideia de que o amor continua presente, mesmo após a ausência física de alguém. Mais do que um relato pessoal, o livro funciona como uma meditação sobre o luto e sobre a capacidade humana de transformar a dor em lembrança e crescimento.

Um dos aspetos mais marcantes da narrativa é o tom intimista utilizado pelo autor, que escreve de forma emocional, criando uma ligação direta com o leitor, numa linguagem simples e acessível, que não diminui a profundidade da escrita. O autor demonstra que o sofrimento não é apenas um momento de fragilidade, mas também uma oportunidade de autoconhecimento.

Outro ponto é a abordagem do amor como uma força contínua. Aliás, o título da obra resume a principal mensagem do texto: o amor não desaparece com a morte ou com a distância, mas permanece vivo através das memórias, dos ensinamentos e das marcas deixadas pelas relações humanas, rompendo com uma visão pessimista da perda e apresentando uma perspetiva mais humanista e esperançosa.

A construção emocional da narrativa merece destaque. O autor utiliza recordações, episódios pessoais e reflexões para criar um percurso de aceitação. Ao longo do texto, percebe-se uma transformação emocional: a dor inicial dá lugar à compreensão de que amar implica, também, aprender a lidar com a ausência.

Embora a obra parta de experiências individuais, os temas tratados — saudade, afeto, família, amizade e superação — pertencem à vivência humana em geral. Isso explica por que muitos leitores se possam identificar com a obra, que desperta emoções pessoais e incentiva uma reflexão sobre os próprios vínculos afetivos.

Em termos literários, o livro destaca-se mais pela sinceridade emocional do que pela complexidade estrutural. A narrativa não procura uma linguagem excessivamente elaborada, mas sim transmitir a genuinidade dos sentimentos.

Concluindo O Amor Não Morre é uma obra marcada pela sensibilidade e pela reflexão sobre os afetos humanos. Claúdio Ramos transforma experiências pessoais numa mensagem universal sobre a permanência do amor e a importância das memórias na construção da identidade emocional, convidando o leitor a compreender que, mesmo diante da perda, os laços afetivos continuam vivos na experiência humana.

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

AS RECORDAÇÕES

As recordações não chegam com aviso. Elas insinuam-se devagar, como luz atravessando uma fresta esquecida e, de repente, estamos lá — não aqui, não agora, mas num tempo suspenso onde tudo ainda pulsa. Há nelas um peso suave, quase contraditório: aquecem enquanto apertam.

Guardo lembranças como quem coleciona fragmentos de um espelho partido. Nenhuma mostra o todo, mas cada uma reflete um pedaço de quem fui. O riso solto numa tarde sem pressa, o silêncio partilhado que dizia mais do que palavras, o cheiro de algo que já não existe — tudo isso permanece, mesmo quando já não sei exatamente porquê.

Às vezes, as recordações são abrigo. Outras, são maré que insiste em voltar, trazendo consigo o que pensei ter deixado ir. Há dias em que me perco nelas, como quem percorre uma casa antiga, tocando paredes, abrindo gavetas, redescobrindo versões de mim que já não cabem no presente.

E, ainda assim, há uma beleza nisto tudo. Porque lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento, de afirmar que algo foi vivido, sentido, real. Mesmo que o tempo transforme contornos, mesmo que a saudade distorça detalhes, as recordações continuam sendo uma prova silenciosa de que existimos em mais de um momento, em mais de uma intensidade.

No fim, talvez sejamos feitos disso: camadas de memória sobrepostas, histórias que se cruzam dentro de nós, ecos de tudo o que já fomos. E, no intervalo, entre uma lembrança e outra, seguimos — incompletos, mas profundamente humanos.

 

domingo, 3 de maio de 2026

COMO NOS VEMOS

Há algo estranho em sermos humanos: não conseguimos ver-nos diretamente. Não como vemos uma paisagem ou um objeto. Precisamos sempre de um “reflexo” — e, muitas vezes, esse reflexo são os outros.

No início, isto até faz sentido. Quando somos mais novos, não temos outra forma de perceber quem somos. Vamos recolhendo pistas: a forma como nos olham, o tom com que falam connosco, os rótulos que aparecem quase sem darmos conta. E, aos poucos, começamos a vestir essas ideias como se fossem nossas. Nem sempre por acreditarmos nelas de imediato, mas porque estão ali, repetidas, consistentes, difíceis de ignorar.

O problema é que essas perceções vêm de fora — e quem está de fora vê sempre só fragmentos. Vê versões nossas em momentos específicos, interpreta comportamentos com base nas suas próprias experiências e projeta expectativas. Ainda assim, quando essas visões se repetem, ganham peso. Começam a soar a verdade. E, a certa altura, deixam de parecer uma opinião alheia e passam a soar como uma descrição objetiva de quem somos.

Há também um certo cansaço em resistir. Questionar constantemente o que os outros pensam de nós exige energia, e nem sempre temos essa energia. Então, às vezes, aceitamos. Não de forma consciente, mas subtil. Como quem ajusta a postura sem reparar.

E há momentos em que isso encaixa mesmo em dúvidas que já estavam cá dentro. Nessas alturas, a perceção externa não entra — ela confirma. E a confirmação tem um poder enorme.

Mas no meio disto tudo, há uma verdade menos confortável e mais libertadora ao mesmo tempo: aquilo que os outros veem nunca é o todo. É uma versão. Às vezes próxima, às vezes completamente ao lado.

Talvez o mais difícil — e mais importante — seja criar um espaço interno onde possamos perguntar: “Isto que dizem a meu respeito… faz mesmo sentido para mim?” Não para rejeitar tudo, nem para aceitar tudo. Mas para escolher, com algum cuidado, o que fica.

Porque, no fim, viver guiado apenas pelo reflexo dos outros, é como tentar conhecer o próprio rosto, através de espelhos partidos — há sempre partes que faltam, e outras que aparecem distorcidas.

 

sábado, 2 de maio de 2026

A MAIS BELA MALDIÇÃO

Começo por dizer que A MAIS BELA MALDIÇÃO de Rui Couceiro foi, este ano, o livro mais importante que li.

O título funciona, logo, como chave interpretativa: a ideia de “maldição” associada ao “belo”, sugere uma tensão central entre sofrimento e fascínio. Esta ambiguidade percorre todo o texto, manifestando-se na construção das figuras e nas suas relações. O autor parece interessado em mostrar como certos vínculos — afetivos, familiares ou até existenciais — podem, simultaneamente, sustentar e aprisionar o indivíduo.

Outro aspeto relevante é a forma como o autor constrói ambientes e atmosferas. Os cenários, muitas vezes comuns ou aparentemente banais, ganham significado simbólico e emocional, funcionando quase como extensões do estado de espírito das personagens. Essa fusão entre espaço e emoção contribui para uma leitura envolvente e imersiva.

Do ponto de vista narrativo, a obra privilegia uma abordagem introspetiva. A ação externa é, por vezes, menorizada em favor de um mergulho na interioridade das personagens. Em vez de acontecimentos marcantes, o texto constrói-se através de estados de espírito, memórias e pequenas revelações.

A linguagem é um dos pontos mais fortes do livro. Couceiro utiliza um estilo cuidado, por vezes próximo do poético, com imagens sugestivas e metáforas que reforçam o carácter simbólico da narrativa.

Em termos temáticos, destacam-se questões como a identidade, o peso do passado e a inevitabilidade do tempo. Há também uma reflexão implícita sobre a incapacidade de romper completamente com aquilo que nos define, mesmo quando isso implica dor.

No plano estrutural, a obra aposta numa progressão mais psicológica do que linear. Isso contribui para uma sensação de continuidade emocional que, pessoalmente, me agrada muito. O final, possivelmente aberto ou ambíguo, reforça a dimensão reflexiva da obra, deixando espaço para múltiplas interpretações.

Em síntese, A Mais Bela Maldição é um livro que se destaca pela profundidade emocional e pelo trabalho linguístico, mas que exige disponibilidade e envolvimento por parte do leitor. É uma obra menos centrada na ação e mais na experiência interior, o que pode ser, simultaneamente, a sua eventual limitação e a sua maior virtude.

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM DIA FELIZ

Há uma semana relembrei, aqui, a morte do meu filho mais velho, o Miguel.

Hoje, falo da alegria por comemorar o dia 1 de maio, data do seu nascimento e que carrega uma luz especial no meu coração. Há 68 anos, nascia um filho meu — momento que marcou para sempre a minha vida, como se o tempo tivesse parado, para dar lugar a um amor novo, imenso e inexplicável.

Recordo esta data, como se ainda pudesse sentir o mesmo misto de emoção, esperança e encanto. Era o início de uma história feita de risos, desafios, discussões, aprendizagens e, acima de tudo, de um amor que só cresce com o passar dos anos. Cada etapa vivida, cada conquista, cada dificuldade superada, ajudou a moldar não apenas em quem ele se tornou, mas, também, em quem eu me tornei.

Hoje, ao olhar para trás, sinto uma profunda gratidão. Pela vida dele, pelo privilégio de o ter visto crescer, e por todos os momentos partilhados — dos mais simples aos mais marcantes.  É uma alegria serena, daquelas que aquecem a alma e nos lembram do que realmente importa. E também um sorriso terno, pelas datas escolhidas para ele viver e morrer. O que nos riamos por isso!

Vou celebrá-la com carinho, memórias felizes e a certeza de que o amor de uma mãe nunca envelhece — apenas se torna mais forte e mais profundo com o tempo.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O PIOR DIA DA MINHA VIDA

A 24 de Abril de 2012 morria, nos meus braços, o meu filho Miguel. Tinha 54 anos e não mentirei se disser, que desde os 12 anos foram quase exclusivamente dedicados à política.

Não foram fáceis esses anos de “esquerda”, em que os estudos ficavam sempre em segundo lugar, relativamente às obrigações escolares e ao que eu considerava ser importante, ele adquirir do ponto de vista cultural.

Durante todos estes anos não houve dia em que me não lembrasse dele, pese embora, só o tivesse conseguido chorar verdadeiramente, anos depois da sua morte. O que se explica, penso, porque o seu partido político se “apossou”, verdadeiramente, da sua morte.

O último pedido que me dirigiu foi que eu não virasse “mãe chorosa” e que, pelo contrário, andasse para a frente com a minha vida. Foi o que fiz e continuo a fazer!

Mas, confesso, não consigo apagar a mágoa que me causou a falta de privacidade que envolveu o seu desaparecimento. É que para toda a gente, a morte, constitui o ato mais privado de uma família.

Apesar disso reconheço que foi feliz por ter vivido a vida que quis, como quis e com quem quis. Por muito que me tenham doído algumas escolhas que fez, o meu coração vive apaziguado pela sua felicidade, o meu bem mais precioso!  

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O SEXO E A TERNURA

Quando a ternura fala mais alto do que o sexo, algo mais profundo se revela na relação entre duas pessoas. Não se trata de negar o desejo, mas de reconhecer que há momentos em que o afeto silencioso, o cuidado e a presença valem mais do que qualquer impulso físico.

A ternura manifesta-se nos gestos simples: um toque leve na mão, um olhar demorado, um abraço que não pede pressa. É nesse espaço que a intimidade ganha outro significado — menos urgente, mais verdadeira. Diferente do sexo, que muitas vezes é marcado pela intensidade e pelo instante, a ternura constrói uma ponte duradoura entre dois corações.

Há relações em que o corpo fala alto, mas a alma permanece distante. E há outras em que, mesmo no silêncio, tudo é dito. A ternura pertence a esse segundo tipo. Ela não exige performance, não cobra perfeição. Ela acolhe. E, ao acolher, cria um vínculo que vai além do físico.

Quando alguém escolhe ficar, escutar, respeitar o tempo do outro — isso também é amor. E talvez seja uma das suas formas mais puras. Porque a ternura não precisa provar nada; ela simplesmente é.

No fim, o sexo pode aproximar corpos, mas é a ternura que sustenta a conexão. É ela que permanece quando o momento passa, quando o desejo diminui, quando a vida se torna quotidiana. E é nesse quotidiano que o amor verdadeiro encontra a sua força.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SUPERAR-SE A SI PRÓPRIO

 
Há um momento silencioso, quase invisível, em que percebemos que o maior obstáculo nunca foi o mundo lá fora — fomos nós. Não no sentido de culpa, mas de limite. De medo. De histórias que contamos a nós próprios sobre até onde podemos ir.

Superar-se não é um gesto grandioso, não acontece sempre com aplausos ou viradas épicas. Às vezes é pequeno: levantar-se quando o corpo pede mais um minuto, tentar outra vez quando a vontade já desistiu, escolher o desconforto que faz crescer em vez do conforto que mantém tudo igual. É um diálogo íntimo, quase secreto, entre quem somos hoje e quem suspeitamos poder ser.

Há dias em que avançar é dar um passo. Outros, é não recuar. E há ainda aqueles em que a maior vitória é simplesmente permanecer. Porque superar-se não significa ser invencível — significa ser honesto com as próprias fragilidades e, ainda assim, continuar.

O valor disso não está só nos resultados visíveis. Está na construção silenciosa de confiança, na consciência de que somos capazes de ir um pouco além do que pensávamos. Cada pequena superação reescreve a narrativa interna: de dúvida para possibilidade, de medo para coragem.

No fim, superar-se é um ato de intimidade consigo mesmo. Não para provar algo ao mundo, mas para descobrir, camada a camada, que dentro de nós existe sempre mais do que imaginamos.

terça-feira, 21 de abril de 2026

TER TEMPO

Há dias em que o tempo parece escorrer pelos dedos, como areia fina que insiste em fugir. Corremos de um lado para o outro, marcamos encontros, cumprimos prazos, respondemos mensagens — e, ainda assim, fica sempre a sensação de que faltou tempo. Mas talvez a pergunta não seja quanto tempo temos. Talvez seja: o que fazemos com ele?

Ter tempo não é apenas uma questão de agenda vazia ou cheia. É uma escolha silenciosa, quase invisível, que fazemos todos os dias. É o momento em que decidimos parar por um instante, respirar fundo e perceber que estamos vivos agora — não depois, mas neste exato segundo e não quando tudo estiver resolvido.

O tempo para ter tempo exige coragem. Coragem de dizer não ao excesso, de desacelerar quando o mundo exige pressa, de escolher presença em vez de produtividade constante. É um pequeno ato de rebeldia: fechar os olhos por alguns segundos no meio do caos, ouvir uma música até ao fim, ou simplesmente ficar em silêncio sem sentir culpa.

Aprendi, aos poucos, que o tempo não se encontra — constrói-se. Ele nasce nos intervalos que protegemos, nos limites que traçamos, na atenção que damos ao que realmente importa. E, curiosamente, quando começamos a cuidar desses pequenos espaços, o tempo deixa de ser um inimigo e passa a ser um companheiro.

No fundo, ter tempo é permitir-se viver sem estar sempre a correr atrás de viver. É perceber que nem tudo precisa de urgência, que nem tudo precisa de resposta imediata. É aceitar que a vida não acontece só nos grandes momentos, mas também nos pequenos instantes que tantas vezes ignoramos.

E talvez seja aí que o tempo finalmente se revela: quando deixamos de o perseguir e começamos, simplesmente, a habitá-lo.

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O nosso Coração

O coração comanda muitas vidas. Já comandou a minha. Por isso chamo a atenção para esta iniciativa de alertar as pessoas a "pensarem" no coração!
 

VER E OLHAR

Ver e olhar parecem sinónimos, mas carregam diferenças imensas entre si. Olhar é um gesto — rápido, automático, quase sempre superficial. É o movimento dos olhos que percorrem o mundo sem necessariamente o tocarem. Já ver é um acontecimento. Exige presença, silêncio interior e, sobretudo, disposição para ser afetado.

Olhar é atravessar uma paisagem; ver é permitir que a paisagem o atravesse a si.

No quotidiano apressado, olhamos mais do que vemos. Olhamos rostos sem perceber histórias, olhamos o céu sem notar as suas nuances, olhamos pessoas sem realmente as encontrar. O olhar capta imagens; a visão constrói sentido. Por isso, ver é mais raro — e mais transformador.

Ver implica atenção. Não apenas a atenção que foca, mas aquela que se abre.  Dá-se quando deixamos de projetar expectativas e começamos a receber o que está diante de nós como é. Nesse momento, o mundo deixa de ser cenário e passa a ser presença. E nós deixamos de ser observadores distantes, para nos tornarmos participantes.

Há também uma dimensão ética no ver. Quando vemos alguém de verdade, reconhecemos a sua existência, a sua complexidade, a sua dignidade. Olhar pode reduzir; ver amplia. Olhar pode objetificar; ver humaniza.

Talvez por isso ver seja, em certa medida, um ato de coragem. Porque ao ver, não permanecemos intactos. Algo em nós precisa ceder — uma certeza, um preconceito, uma distração constante. Ver exige vulnerabilidade: é admitir que o mundo pode nos ensinar algo novo.

No fim, a diferença é simples mas profunda: olhar é passar; ver é permanecer.

 

sábado, 18 de abril de 2026

AMAR VIVALDI

É dos compositores que mais me toca. Há dias, em casa de um amigo, a noite foi dedicada ao músico. Trata-se de um pequeno grupo, ao qual pertenço, e que se reúne mensalmente, para ouvir um compositor.

A música de Vivaldi não soa distante nem solene, como às vezes imaginamos o barroco. Pelo contrário — há nela algo de direto, quase humano, como se falasse connosco, sem precisar de tradução.

Quando ouvimos As Quatro Estações, por exemplo, não estamos apenas a escutar uma obra estruturada com rigor. Estamos a entrar num mundo sensorial: o frio corta, os pássaros agitam-se, a chuva aproxima-se. Vivaldi não descreve — ele sugere, evoca, faz sentir. E, talvez seja isso, que torna a sua linguagem tão especial: ela não se impõe, convida.

Há também uma espécie de urgência na sua música. Os ritmos avançam como se não quisessem parar, como se cada compasso tivesse algo a dizer antes que o tempo acabe. Mas, no meio dessa energia, surgem momentos de suspensão — linhas melódicas simples, quase frágeis, que parecem respirar. É nesses instantes que sentimos mais claramente o lado íntimo da sua escrita.

Sendo violinista, Vivaldi escreve para o instrumento como quem conhece profundamente a sua voz. O violino, nas suas mãos, não é apenas virtuoso; é expressivo, quase humano. Ora corre, ora canta, ora hesita. Há uma proximidade aí, como se estivéssemos a ouvir alguém contar-nos algo pessoal, ainda que sem palavras.

Talvez a linguagem de Vivaldi seja, no fundo, um equilíbrio entre ordem e emoção. Há estrutura, repetição, lógica — mas tudo isso serve um propósito maior: comunicar sensação, criar presença, tocar quem ouve.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

NA ÉPOCA DOS IMPOSTOS

Falo por mim, mas julgo que, no fundo, ninguém gosta de pagar impostos, porque mexe com algo muito básico: aquilo é o nosso dinheiro. Foi ganho com tempo, esforço, às vezes até com sacrifício… e, de repente, uma parte desaparece antes sequer de passar pelas nossas mãos. Não é uma escolha, não é opcional — é imposto. E só essa ideia já causa resistência.

Depois há aquela sensação meio irritante de não saber bem para onde vai. Sabe-se que, em teoria, está a financiar coisas importantes — hospitais, escolas, estradas — mas no dia a dia, nada disso é assim tão visível. O que se sente é mais o que sai, do que o que volta.

E também pesa a confiança. Quando há notícias de má gestão ou desperdício, mesmo que não seja tudo assim, fica a insidiosa dúvida: “estou a contribuir para algo que funciona… ou só a alimentar um sistema ineficiente?” Isto corrói um bocado a aceitação.

Ao mesmo tempo, há um certo conflito interno. Porque, sendo honestos, todos queremos viver num sítio com serviços públicos a funcionar, segurança, apoio quando é preciso. Só que ninguém gosta muito da parte de pagar por isso — especialmente quando algo, parece pouco transparente ou injusto.

No fim, talvez não seja tanto o “odiar impostos”, mas mais uma mistura de perda, falta de controlo e alguma desconfiança. E isso é uma combinação difícil de engolir. Muito difícil mesmo!

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O PRIMEIRO BANHO DE PRIMAVERA

A manhã chegou com aquela luz diferente — mais dourada, mais inclinada, como se o sol tivesse mudado de ideia sobre o ângulo certo para acordar o mundo. Era o primeiro dia que o calor pedia pele descoberta, e o rio lá em baixo parecia saber disso.

A água ainda guardava o frio de fevereiro nas camadas mais fundas, mas a superfície já se tinha rendido. Espelhava o azul de um céu sem nuvens e os ramos novos das árvores, que esticavam os primeiros verdes como dedos depois de um longo sono.

Entrar foi um ritual sem liturgia. Primeiro os pés — o choque, o riso involuntário, a vontade de recuar e a decisão de não recuar. Depois os tornozelos, os joelhos, e o momento de suspensão antes da entrega total. O mergulho.

Debaixo d'água, o mundo ficou quieto de um modo que só a água consegue. O frio apertou o peito como um abraço brusco de quem tem saudades. E então o corpo aceitou. A pele começou a perceber que aquilo não era agressão — era presença.

Quando a cabeça emergiu, havia algo diferente no ar. Não no ar, em si mas no modo de respirá-lo. Mais fundo. Mais atento. Como se o banho tivesse lavado também qualquer coisa por dentro, algum resíduo de inverno que nem se sabia que ainda estava lá.

A Primavera não começa no calendário. Começa quando se entra nessa água pela primeira vez e se percebe, com todo o corpo, que o mundo voltou a querer ser habitado.

 

domingo, 5 de abril de 2026

Viver feliz, apesar da guerra

Viver feliz em tempos de guerra — mesmo quando ela acontece longe — não é ignorar a dor do mundo. É escolher, conscientemente, não deixar que o medo ocupe todos os espaços da vida.

A guerra chega-nos pelas notícias, pelas imagens repetidas, pelos números que parecem impossíveis. Conflitos como o da Ucrânia lembram-nos que a estabilidade é frágil. Há sofrimento real, perdas irreparáveis, vidas suspensas. E, ainda assim, aqui, longe das bombas, o sol continua a nascer. As crianças continuam a rir. O café da manhã continua a ter o mesmo cheiro.

Ser feliz apesar da guerra é um ato quase silencioso de resistência. É permitir-se celebrar aniversários, fazer planos, amar, aprender algo novo. Não por indiferença, mas porque a vida não pode ser totalmente sequestrada pelo horror.

Existe uma culpa subtil que às vezes acompanha essa felicidade — como se sorrir fosse desrespeitar quem sofre. Mas a felicidade não é traição; é preservação. Cuidar da própria saúde mental, manter vínculos, cultivar esperança são formas de não deixar que a violência se expanda para além das fronteiras físicas.

Também há outra dimensão: a felicidade pode tornar-se compromisso. Informar-se sem se afogar, ajudar quando possível, praticar empatia sem perder o equilíbrio. Viver bem, pode ser uma forma de honrar a paz que ainda se tem.

A guerra ensina, de maneira dura, que nada é garantido. Talvez por isso a felicidade, nesses tempos, deixe de ser superficial. Torna-se mais consciente, mais grata, mais atenta aos pequenos detalhes: uma conversa tranquila, um abraço demorado, uma noite silenciosa.

Viver feliz apesar da guerra é aceitar que o mundo contém luz e sombra ao mesmo tempo — e escolher, todos os dias, alimentar a luz sem fechar os olhos à realidade.

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

A ALELUIA

O Sábado de Aleluia é um dia profundamente simbólico dentro da tradição cristã, situado entre a dor da Sexta-feira Santa e a alegria da Domingo de Páscoa. É um tempo de silêncio, espera e esperança.  Não há celebrações festivas, não há glória visível — apenas a quietude de quem aguarda.

É o dia em que a fé é posta à prova, quando tudo parece perdido. No entanto, é precisamente nesse vazio que nasce a esperança. O silêncio deste sábado não é ausência, mas preparação. É como a semente que, escondida na terra, germina sem ser vista.

O Sábado de Aleluia ensina-nos que nem sempre entendemos os tempos da vida. Há momentos em que tudo parece parado, sem resposta ou direção. Mas é nesses intervalos que algo novo está a ser preparado.

Assim, este dia convida-nos a confiar, mesmo sem ver. A acreditar que, depois da dor, vem a renovação. Porque o silêncio nunca é o fim — é apenas o começo de uma nova vida que está prestes a surgir.

Curiosamente, este sábado sempre me pareceu o dia mais estranho e, ao mesmo tempo, o mais verdadeiro de todos. Não tem a dor intensa da Sexta-feira Santa, nem a alegria luminosa do Domingo de Páscoa. É um dia suspenso… como aqueles momentos da vida em que não sabemos bem o que sentir.

Gosto de pensar que, neste dia, até a esperança fala mais baixo. Depois de tudo o que aconteceu com Jesus Cristo, imagino o vazio, a confusão, o silêncio. E, de certa forma, reconheço-me nisso. Quantas vezes já estive nesse “sábado” interior? À espera de respostas, de sinais, de sentido…

O Sábado de Aleluia ensina-me a aceitar esses momentos sem pressa. A não fugir do silêncio. A perceber que nem tudo precisa de ser resolvido imediatamente. Há coisas que só fazem sentido depois, quando a “Páscoa” chega à nossa vida.

Hoje, tento viver este dia assim: mais calmo, mais atento, mais verdadeiro. Sem forçar alegria, mas também sem perder a esperança. Porque, mesmo quando tudo parece parado, acredito que algo está a nascer — mesmo que ainda não consiga ver.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

PÁSCOA CRISTÃ

A Páscoa cristã é uma das celebrações mais importantes do calendário religioso, pois comemora a ressurreição de Jesus Cristo, acontecimento central da fé cristã. De acordo com a tradição bíblica, Jesus foi crucificado na Sexta-feira Santa e ressuscitou ao terceiro dia, no Domingo de Páscoa, simbolizando a vitória da vida sobre a morte e a esperança de salvação para a humanidade.

Mais do que um simples evento histórico ou religioso, a Páscoa representa uma mensagem profunda de renovação, perdão e amor. Para os cristãos, este período é um convite à reflexão sobre a própria vida, incentivando a prática da solidariedade, da fé e da reconciliação com Deus e com o próximo.

A celebração da Páscoa é precedida pela Quaresma, um tempo de preparação marcado por oração, jejum e penitência. Durante a Semana Santa, os fiéis recordam os últimos momentos da vida de Jesus, desde a sua entrada em Jerusalém até à crucificação e, finalmente, à ressurreição.

Além do seu significado religioso, a Páscoa também é associada a tradições culturais, como a partilha de refeições em família e símbolos como os ovos, que representam vida nova e renascimento. No entanto, para os cristãos, o verdadeiro sentido da Páscoa está na renovação espiritual e na celebração da esperança que nasce com a ressurreição de Cristo.


 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A CONCAVIDADE DO SILÊNCIO

Hoje li um texto com este título do jesuíta padre Marco António e apeteceu-me pegar no conceito e, decerto, com menos espiritualidade, explicar como o vejo e sinto.

A concavidade do silêncio não é apenas ausência de som; é um espaço que se curva para dentro, como se o mundo, cansado de se expandir, decidisse, por um instante, recolher-se em si mesmo. Nesse recuo, o silêncio não se limita a calar ruídos — ele molda uma espécie de arquitetura invisível, onde o pensamento ecoa com mais nitidez, onde cada sensação ganha contornos mais densos.

Há silêncios que são planos, superficiais, como paredes lisas onde nada se fixa. Mas a concavidade do silêncio é diferente: ela acolhe. É uma cavidade que recebe o que foi dito e o que nunca chegou a ser pronunciado, guardando fragmentos de intenções, memórias e afetos. Nesse espaço curvo, o som não desaparece; ele se transforma, torna-se ressonância íntima, quase um sussurro interno, que só pode ser ouvido por quem se dispõe a escutar além da superfície.

Talvez seja por isso que o silêncio profundo cause desconforto em alguns. Porque ao entrar nessa concavidade, não encontramos o vazio, mas uma amplificação do que carregamos. O silêncio devolve, em forma de eco, aquilo que tentamos dispersar no ruído quotidiano. Ele não julga, mas também não suaviza. Apenas revela.

E, ainda assim, há uma estranha ternura nesse movimento. A concavidade protege. Como um abrigo escavado na matéria do tempo, ela permite que o ser repouse sem a urgência da resposta, sem a necessidade de preencher cada intervalo com palavras. Nesse espaço, existir é suficiente.

No fim, talvez o silêncio não seja o oposto do som, mas sua profundidade mais íntima — o lugar onde tudo o que poderia ser dito permanece em estado de possibilidade, suspenso, esperando não necessariamente por voz, mas por compreensão.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

APENAS UM CHEIRO DE PÁSCOA

Há um cheiro específico de Páscoa que não se compra em lado nenhum. É o cheiro da casa dos avós aquecida pela lareira, da canela em excesso no arroz-doce, do folar ainda morno, embrulhado num pano de linho. É o cheiro dum tempo a desacelerar.

Vivemos o resto do ano em fuga. Corremos de reunião em reunião, de tarefa em tarefa, de urgência em urgência. Mas a Páscoa tem este dom estranho: chega e impõe uma espécie de trégua. Como se o calendário dissesse, com a autoridade de um pai velho — agora, pára.

E paramos. Mal, às vezes. Com o telefone ainda na mão, meio envergonhados. Mas paramos.

A mesa comprida reaparece. Os primos que raramente se veem voltam a ter corpo e voz, com as caras mais crescidas, os novos filhos, as histórias que começam sempre por "então não sabes o que se passou...". A avó serve todos em demasia e fica magoada se alguém recusa. O avô adormece na cadeira, antes do café. E há algo de sagrado nessa banalidade toda.

Este tipo de Páscoa não exige grande coisa. Pede, apenas, que estejamos presentes. Que nos sentemos à mesa sem pressa. Que ouçamos as histórias que já conhecemos de cor, como se as ouvíssemos pela primeira vez. Que deixemos o tempo passar devagar, por uma vez.

Esta Páscoa não é sobre a Ressurreição. É sobre o regresso. Àquele lugar onde ainda somos tratados pelo nome de quando éramos pequenos. Onde nos sentamos no mesmo sítio do costume. Onde o tempo, por uns dias, se dobra sobre si próprio e nos deixa ser, em simultâneo, quem fomos e quem somos.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O DIA EM QUE ME CONHECI DE VERDADE

O dia em que me conheci de verdade não teve nada de extraordinário, por fora. O mundo continuava igual: pessoas apressadas, barulho nas ruas, o céu nem especialmente bonito, nem particularmente cinzento. Mas dentro de mim, algo finalmente fez silêncio.

Passei muito tempo a ser aquilo que esperavam de mim — respostas prontas, sorrisos treinados, caminhos escolhidos mais por medo do que por vontade. E, sem perceber, fui-me afastando de mim próprio. Não de repente, mas aos poucos, como quem se perde sem dar conta.

Nesse dia, porém, parei. Sem grandes planos, sem anúncios. Apenas parei. E no meio desse silêncio desconfortável, comecei a ouvir coisas que antes evitava: dúvidas antigas, medos escondidos, sonhos que eu tinha deixado para trás. Não foi bonito nem fácil. Foi cru. Foi honesto.

Percebi que me conhecia muito menos do que pensava. Que muitas das minhas certezas eram, na verdade, defesas. Que muitas escolhas eram fugas disfarçadas. Mas, pela primeira vez, não tentei mudar isso imediatamente. Apenas observei. Apenas aceitei.

E foi aí que algo mudou.

Conhecer-me de verdade não foi descobrir algo incrível ou admirável. Foi reconhecer as minhas contradições, os meus erros, as minhas fragilidades — e ainda assim continuar ali, sem fugir de mim. Foi entender que eu não precisava ser perfeito para ser real.

Nesse dia, deixei de procurar ser quem eu achava que devia ser… e comecei, finalmente, a ser quem eu sou.

E talvez esse seja o verdadeiro começo de tudo.

 

sábado, 28 de março de 2026

Estudar e Educar

Estudar e educar são processos fundamentais para o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. Embora muitas vezes sejam usados como sinônimos, esses conceitos possuem diferenças importantes. Estudar está relacionado ao ato de adquirir conhecimento, enquanto educar envolve formar valores, atitudes e habilidades que orientam a convivência em sociedade.

O ato de estudar exige disciplina, curiosidade e dedicação. Por meio do estudo, ampliamos nossa compreensão do mundo, desenvolvemos o pensamento crítico e adquirimos competências necessárias para enfrentar desafios pessoais e profissionais. Estudar não se limita à sala de aula; acontece em livros, experiências, conversas e na observação do cotidiano.

Já educar vai além da transmissão de conteúdos. É um processo mais amplo, que envolve ensinar a respeitar, a conviver, a tomar decisões responsáveis e a agir com ética. A educação começa na família, se fortalece na escola e continua ao longo de toda a vida. Um bom educador não apenas informa, mas inspira, orienta e contribui para a formação integral do indivíduo.

A relação entre estudar e educar é profunda e inseparável. Não basta apenas acumular conhecimentos se não houver formação humana. Da mesma forma, valores sem conhecimento limitam o potencial de crescimento. Quando estudo e educação caminham juntos, formam cidadãos conscientes, preparados para contribuir de maneira positiva para a sociedade.

Assim, investir no estudo e na educação é investir no futuro. Uma sociedade que valoriza esses pilares constrói bases mais sólidas, promove igualdade de oportunidades e favorece o desenvolvimento sustentável. Portanto, estudar e educar são não apenas direitos, mas também responsabilidades de todos.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

ESTUDAR E INVESTIGAR

Estudar e investigar são duas formas de adquirir conhecimento, mas diferem na sua natureza, objetivos e métodos.

Estudar refere-se, geralmente, ao processo de aprender conteúdos já existentes. Envolve a leitura de livros, apontamentos ou outros materiais com o objetivo de compreender e memorizar informações. É uma atividade mais orientada e estruturada, muitas vezes guiada por programas escolares ou académicos. Ao estudar, a pessoa procura assimilar conhecimentos que já foram organizados e explicados por outros.

Por outro lado, investigar implica ir além do conhecimento já estabelecido. Trata-se de um processo ativo de procura de novas respostas, questionando, analisando e explorando temas de forma mais profunda. A investigação envolve curiosidade, pensamento crítico e, muitas vezes, a formulação de hipóteses que são testadas através de métodos específicos. Em vez de apenas absorver informação, quem investiga procura produzir conhecimento novo ou interpretar a realidade de maneira original.

Em resumo, enquanto estudar está mais relacionado com aprender o que já se sabe, investigar está ligado à descoberta do que ainda não se conhece. Ambas as práticas são complementares e fundamentais para o desenvolvimento intelectual, pois primeiro é necessário estudar para depois investigar com base sólida.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

O impacto das redes sociais na forma como nos vemos

As redes sociais tornaram-se uma parte central do quotidiano, influenciando não apenas a forma como comunicamos, mas também a maneira como percebemos a nós próprios. Plataformas digitais como Instagram, TikTok e Facebook apresentam constantemente imagens idealizadas de beleza, sucesso e felicidade, criando padrões muitas vezes inalcançáveis.

Ao consumir esse tipo de conteúdo diariamente, é comum que as pessoas comecem a comparar a sua vida real com versões cuidadosamente editadas da vida dos outros. Essa comparação pode afetar a autoestima, levando a sentimentos de inadequação, ansiedade e até depressão. A busca por validação através de gostos, comentários e seguidores também contribui para uma dependência emocional, em que o valor pessoal passa a ser medido pela aprovação externa.

Além disso, o uso de filtros e edições cria uma realidade distorcida, dificultando a aceitação da própria imagem. Muitas pessoas passam a sentir-se insatisfeitas com a sua aparência natural, desejando corresponder a padrões irreais.

No entanto, as redes sociais não são exclusivamente negativas. Quando utilizadas de forma consciente, podem promover a autoexpressão, a diversidade e a conexão entre indivíduos com interesses e experiências semelhantes. Movimentos de aceitação corporal e autenticidade têm ganhado força, incentivando uma visão mais realista e saudável de si mesmo.

Em suma, o impacto das redes sociais na forma como nos vemos é profundo e complexo. Cabe a cada utilizador desenvolver um olhar crítico e equilibrado, lembrando-se de que o que se vê online nem sempre reflete a realidade.

 

terça-feira, 24 de março de 2026

LEMBRO-ME

Lembro-me do primeiro dia em que nos vimos, como se o tempo tivesse parado só para nos dar espaço. Não houve nada de extraordinário à primeira vista — o mundo continuava igual, as pessoas passavam, os sons eram os mesmos — mas dentro de mim algo mudou de lugar.

Os teus olhos encontraram os meus por um instante que pareceu maior do que ele realmente foi. E, naquele breve segundo, senti uma estranha familiaridade, como se já te conhecesse de antes, de algum sonho esquecido ou de uma memória que nunca vivi.

As palavras que trocámos foram simples, quase banais, mas carregavam um peso diferente. Cada sorriso teu parecia ter intenção, cada gesto parecia dizer mais do que mostrava. Eu tentava agir com naturalidade, mas por dentro havia um turbilhão silencioso que não sabia explicar.

Foi um encontro comum para qualquer outra pessoa. Mas, para mim, foi o começo de algo que ainda não tinha nome — uma história que começou sem aviso, naquele exato momento, em que os nossos caminhos decidiram cruzar-se.

E, desde então, nunca mais fui exatamente o mesmo.

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Vamos ter a 3ª Guerra Mundial?

Ao longo da história, o mundo já enfrentou conflitos devastadores, como a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial. Esses acontecimentos marcaram profundamente a humanidade, causando milhões de mortes e enormes destruições. Por isso, muitas pessoas hoje perguntam: será que um dia poderemos enfrentar uma terceira guerra mundial?

Atualmente existem tensões entre vários países, disputas políticas, económicas e militares. Conflitos regionais, rivalidades entre grandes potências e o aumento do investimento em armamento fazem algumas pessoas temer que uma grande guerra possa acontecer. Além disso, o desenvolvimento de armas nucleares torna qualquer possível conflito global muito mais perigoso do que no passado.

Por outro lado, também existem fatores que diminuem essa possibilidade. Organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas “deveriam” trabalhar para promover o diálogo entre países e evitar confrontos armados. Muitos governos sabem que uma guerra mundial teria consequências catastróficas para toda a humanidade, incluindo destruição económica, ambiental e social.

Assim, embora existam tensões no mundo, muitos especialistas acreditam que os países tentam evitar um conflito global direto. A diplomacia, a cooperação internacional e o diálogo continuam a ser ferramentas essenciais para manter a paz.

Em conclusão, a possibilidade de uma terceira guerra mundial preocupa muitas pessoas, mas o futuro depende das decisões que os países tomarem. Investir em paz, cooperação e entendimento entre nações é fundamental para evitar que tragédias como as do passado se repitam

 

sábado, 21 de março de 2026

Lobby

O lobby é uma prática comum nas democracias modernas e refere-se à atividade de indivíduos ou grupos que procuram influenciar decisões políticas, especialmente junto de governos, parlamentos e outras instituições públicas. O objetivo principal do lobby é defender interesses específicos — que podem ser de empresas, organizações não governamentais, associações profissionais ou grupos da sociedade civil.

O termo ganhou destaque sobretudo nos sistemas políticos como o dos Estados Unidos e da União Europeia, onde a atividade é amplamente regulamentada. 

Nesses contextos, os chamados lobistas apresentam informações, estudos, argumentos económicos e sociais aos decisores políticos, tentando demonstrar por que determinada lei ou política pública deveria ser aprovada, alterada ou rejeitada.

Apesar de ser uma forma de participação política, o lobby gera debates e críticas. Alguns especialistas consideram que ele contribui para o processo democrático, pois permite que diferentes setores da sociedade expressem os seus interesses e forneçam informação técnica aos legisladores. 

Por outro lado, críticos afirmam que o lobby pode favorecer grupos com maior poder económico, criando desigualdades na influência sobre as decisões públicas.

Para reduzir riscos de corrupção ou influência excessiva, muitos países adotaram regras de transparência, como registos obrigatórios de lobistas, divulgação de reuniões com políticos e limites a doações políticas.

Em resumo, o lobby é um mecanismo de influência política que pode ser legítimo quando transparente e regulado, mas que também levanta questões importantes sobre equidade, ética e funcionamento da democracia.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

A História das Notas

Numa época em que todos nos empenhamos em acabar com a iliteracia financeira da maior parte dos portugueses, aqui vai um vídeo que pode ensinar muita gente. Aproveito para agradecer- como antiga funcionária da casa da qual nunca se desligou – o que a instituição tem feito nesse caminho. Num gesto de parabéns ao meu Governador Álvaro Santos Pereira e aos colegas de Administração, publico o vídeo abaixo

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

A primavera vestida de inverno

Estou cansada de inverno vestido de outono e de primavera vestida de inverno. Preciso de sol e luz, de areia e mar para me sentir com o relógio biológico certo

Há dias em que a primavera chega devagar, quase em segredo. O calendário já anuncia a mudança da estação, mas o frio ainda permanece no ar, como se o inverno não quisesse partir. As árvores começam a despertar lentamente, embora muitos ramos ainda pareçam nus e adormecidos.

É nesse momento que dizemos que a primavera está vestida de inverno. O sol aparece com mais frequência, a luz torna-se mais suave e longa, mas o vento continua fresco e os casacos ainda são necessários. Pequenos sinais de vida surgem: um botão de flor que insiste em abrir, um pássaro que canta mais cedo pela manhã, a relva que volta a ganhar cor.

A natureza parece estar entre duas estações, como alguém que ainda usa o casaco pesado, mas já sente vontade de vestir algo mais leve. O inverno despede-se aos poucos, enquanto a primavera se prepara para mostrar toda a sua força.

Assim, a primavera vestida de inverno lembra-nos que as mudanças nem sempre acontecem de forma brusca. Muitas vezes, elas chegam lentamente, quase silenciosas, até que um dia, percebemos que o frio passou e que a vida voltou a florescer. 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

A Agonia do Homem Ocidental

A expressão agonia do homem ocidental refere-se à sensação de crise cultural, espiritual e moral que muitos pensadores identificam na civilização ocidental contemporânea. Ao longo da história, o Ocidente construiu valores fundamentais como a razão, a liberdade individual, a ciência e a democracia. Contudo, nas últimas décadas, diversos autores argumentam que esses pilares parecem enfraquecidos, gerando um sentimento de perda de sentido e de identidade.

Uma das causas dessa “agonia” seria o afastamento progressivo das tradições que durante séculos orientaram a sociedade ocidental, especialmente as tradições filosóficas e religiosas. Com o avanço do materialismo, do consumismo e da lógica de mercado, muitos indivíduos passaram a orientar suas vidas sobretudo pelo sucesso económico e pelo prazer imediato, deixando em segundo plano questões profundas sobre ética e propósito.

Outro fator frequentemente apontado é a rápida transformação social e tecnológica. O desenvolvimento científico trouxe enormes benefícios, mas também gerou novas incertezas. A aceleração da vida moderna e as mudanças constantes podem provocar sensação de desorientação.

Apesar do tom pessimista presente na ideia de “agonia”, a história do Ocidente mostra que períodos de crise também podem abrir espaço para reflexão, renovação e novos caminhos para a sociedade.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um tempo de coisas simples

Pertenci a um tempo em que a felicidade cabia em pequenos gestos. Um tempo em que brincar na rua até o pôr do sol era a maior aventura do dia e voltar para casa com os joelhos sujos de terra era sinal de uma infância bem vivida.

Era um tempo em que as conversas aconteciam olhos nos olhos, sentados na calçada ou à volta da mesa. Não havia pressa em responder mensagens, porque as mensagens eram dadas com a voz, com risos e com silêncio partilhado.

Pertenci a um tempo em que um pedaço de pão com manteiga, um copo de leite quente ou uma fruta colhida do quintal tinham um sabor especial. Não porque fossem raros, mas porque eram vividos com calma.

As tardes eram longas, o tempo parecia maior e a vida era feita de coisas que não custavam dinheiro: subir às árvores, correr atrás de uma bola, ouvir histórias dos mais velhos ou simplesmente observar o céu.

Pertenci a um tempo em que a simplicidade não era pobreza, era riqueza. Riqueza de momentos, de presença, de afetos verdadeiros.

Hoje o mundo mudou, tudo é mais rápido, mais barulhento, mais conectado. Mas dentro de mim ainda vive aquele tempo de coisas simples. E talvez seja essa memória que me lembra, todos os dias, que a verdadeira felicidade continua a morar nas pequenas coisas.