quinta-feira, 2 de abril de 2026

PÁSCOA CRISTÃ

A Páscoa cristã é uma das celebrações mais importantes do calendário religioso, pois comemora a ressurreição de Jesus Cristo, acontecimento central da fé cristã. De acordo com a tradição bíblica, Jesus foi crucificado na Sexta-feira Santa e ressuscitou ao terceiro dia, no Domingo de Páscoa, simbolizando a vitória da vida sobre a morte e a esperança de salvação para a humanidade.

Mais do que um simples evento histórico ou religioso, a Páscoa representa uma mensagem profunda de renovação, perdão e amor. Para os cristãos, este período é um convite à reflexão sobre a própria vida, incentivando a prática da solidariedade, da fé e da reconciliação com Deus e com o próximo.

A celebração da Páscoa é precedida pela Quaresma, um tempo de preparação marcado por oração, jejum e penitência. Durante a Semana Santa, os fiéis recordam os últimos momentos da vida de Jesus, desde a sua entrada em Jerusalém até à crucificação e, finalmente, à ressurreição.

Além do seu significado religioso, a Páscoa também é associada a tradições culturais, como a partilha de refeições em família e símbolos como os ovos, que representam vida nova e renascimento. No entanto, para os cristãos, o verdadeiro sentido da Páscoa está na renovação espiritual e na celebração da esperança que nasce com a ressurreição de Cristo.


 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A CONCAVIDADE DO SILÊNCIO

Hoje li um texto com este título do jesuíta padre Marco António e apeteceu-me pegar no conceito e, decerto, com menos espiritualidade, explicar como o vejo e sinto.

A concavidade do silêncio não é apenas ausência de som; é um espaço que se curva para dentro, como se o mundo, cansado de se expandir, decidisse, por um instante, recolher-se em si mesmo. Nesse recuo, o silêncio não se limita a calar ruídos — ele molda uma espécie de arquitetura invisível, onde o pensamento ecoa com mais nitidez, onde cada sensação ganha contornos mais densos.

Há silêncios que são planos, superficiais, como paredes lisas onde nada se fixa. Mas a concavidade do silêncio é diferente: ela acolhe. É uma cavidade que recebe o que foi dito e o que nunca chegou a ser pronunciado, guardando fragmentos de intenções, memórias e afetos. Nesse espaço curvo, o som não desaparece; ele se transforma, torna-se ressonância íntima, quase um sussurro interno, que só pode ser ouvido por quem se dispõe a escutar além da superfície.

Talvez seja por isso que o silêncio profundo cause desconforto em alguns. Porque ao entrar nessa concavidade, não encontramos o vazio, mas uma amplificação do que carregamos. O silêncio devolve, em forma de eco, aquilo que tentamos dispersar no ruído quotidiano. Ele não julga, mas também não suaviza. Apenas revela.

E, ainda assim, há uma estranha ternura nesse movimento. A concavidade protege. Como um abrigo escavado na matéria do tempo, ela permite que o ser repouse sem a urgência da resposta, sem a necessidade de preencher cada intervalo com palavras. Nesse espaço, existir é suficiente.

No fim, talvez o silêncio não seja o oposto do som, mas sua profundidade mais íntima — o lugar onde tudo o que poderia ser dito permanece em estado de possibilidade, suspenso, esperando não necessariamente por voz, mas por compreensão.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

APENAS UM CHEIRO DE PÁSCOA

Há um cheiro específico de Páscoa que não se compra em lado nenhum. É o cheiro da casa dos avós aquecida pela lareira, da canela em excesso no arroz-doce, do folar ainda morno, embrulhado num pano de linho. É o cheiro dum tempo a desacelerar.

Vivemos o resto do ano em fuga. Corremos de reunião em reunião, de tarefa em tarefa, de urgência em urgência. Mas a Páscoa tem este dom estranho: chega e impõe uma espécie de trégua. Como se o calendário dissesse, com a autoridade de um pai velho — agora, pára.

E paramos. Mal, às vezes. Com o telefone ainda na mão, meio envergonhados. Mas paramos.

A mesa comprida reaparece. Os primos que raramente se veem voltam a ter corpo e voz, com as caras mais crescidas, os novos filhos, as histórias que começam sempre por "então não sabes o que se passou...". A avó serve todos em demasia e fica magoada se alguém recusa. O avô adormece na cadeira, antes do café. E há algo de sagrado nessa banalidade toda.

Este tipo de Páscoa não exige grande coisa. Pede, apenas, que estejamos presentes. Que nos sentemos à mesa sem pressa. Que ouçamos as histórias que já conhecemos de cor, como se as ouvíssemos pela primeira vez. Que deixemos o tempo passar devagar, por uma vez.

Esta Páscoa não é sobre a Ressurreição. É sobre o regresso. Àquele lugar onde ainda somos tratados pelo nome de quando éramos pequenos. Onde nos sentamos no mesmo sítio do costume. Onde o tempo, por uns dias, se dobra sobre si próprio e nos deixa ser, em simultâneo, quem fomos e quem somos.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O DIA EM QUE ME CONHECI DE VERDADE

O dia em que me conheci de verdade não teve nada de extraordinário, por fora. O mundo continuava igual: pessoas apressadas, barulho nas ruas, o céu nem especialmente bonito, nem particularmente cinzento. Mas dentro de mim, algo finalmente fez silêncio.

Passei muito tempo a ser aquilo que esperavam de mim — respostas prontas, sorrisos treinados, caminhos escolhidos mais por medo do que por vontade. E, sem perceber, fui-me afastando de mim próprio. Não de repente, mas aos poucos, como quem se perde sem dar conta.

Nesse dia, porém, parei. Sem grandes planos, sem anúncios. Apenas parei. E no meio desse silêncio desconfortável, comecei a ouvir coisas que antes evitava: dúvidas antigas, medos escondidos, sonhos que eu tinha deixado para trás. Não foi bonito nem fácil. Foi cru. Foi honesto.

Percebi que me conhecia muito menos do que pensava. Que muitas das minhas certezas eram, na verdade, defesas. Que muitas escolhas eram fugas disfarçadas. Mas, pela primeira vez, não tentei mudar isso imediatamente. Apenas observei. Apenas aceitei.

E foi aí que algo mudou.

Conhecer-me de verdade não foi descobrir algo incrível ou admirável. Foi reconhecer as minhas contradições, os meus erros, as minhas fragilidades — e ainda assim continuar ali, sem fugir de mim. Foi entender que eu não precisava ser perfeito para ser real.

Nesse dia, deixei de procurar ser quem eu achava que devia ser… e comecei, finalmente, a ser quem eu sou.

E talvez esse seja o verdadeiro começo de tudo.

 

sábado, 28 de março de 2026

Estudar e Educar

Estudar e educar são processos fundamentais para o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. Embora muitas vezes sejam usados como sinônimos, esses conceitos possuem diferenças importantes. Estudar está relacionado ao ato de adquirir conhecimento, enquanto educar envolve formar valores, atitudes e habilidades que orientam a convivência em sociedade.

O ato de estudar exige disciplina, curiosidade e dedicação. Por meio do estudo, ampliamos nossa compreensão do mundo, desenvolvemos o pensamento crítico e adquirimos competências necessárias para enfrentar desafios pessoais e profissionais. Estudar não se limita à sala de aula; acontece em livros, experiências, conversas e na observação do cotidiano.

Já educar vai além da transmissão de conteúdos. É um processo mais amplo, que envolve ensinar a respeitar, a conviver, a tomar decisões responsáveis e a agir com ética. A educação começa na família, se fortalece na escola e continua ao longo de toda a vida. Um bom educador não apenas informa, mas inspira, orienta e contribui para a formação integral do indivíduo.

A relação entre estudar e educar é profunda e inseparável. Não basta apenas acumular conhecimentos se não houver formação humana. Da mesma forma, valores sem conhecimento limitam o potencial de crescimento. Quando estudo e educação caminham juntos, formam cidadãos conscientes, preparados para contribuir de maneira positiva para a sociedade.

Assim, investir no estudo e na educação é investir no futuro. Uma sociedade que valoriza esses pilares constrói bases mais sólidas, promove igualdade de oportunidades e favorece o desenvolvimento sustentável. Portanto, estudar e educar são não apenas direitos, mas também responsabilidades de todos.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

ESTUDAR E INVESTIGAR

Estudar e investigar são duas formas de adquirir conhecimento, mas diferem na sua natureza, objetivos e métodos.

Estudar refere-se, geralmente, ao processo de aprender conteúdos já existentes. Envolve a leitura de livros, apontamentos ou outros materiais com o objetivo de compreender e memorizar informações. É uma atividade mais orientada e estruturada, muitas vezes guiada por programas escolares ou académicos. Ao estudar, a pessoa procura assimilar conhecimentos que já foram organizados e explicados por outros.

Por outro lado, investigar implica ir além do conhecimento já estabelecido. Trata-se de um processo ativo de procura de novas respostas, questionando, analisando e explorando temas de forma mais profunda. A investigação envolve curiosidade, pensamento crítico e, muitas vezes, a formulação de hipóteses que são testadas através de métodos específicos. Em vez de apenas absorver informação, quem investiga procura produzir conhecimento novo ou interpretar a realidade de maneira original.

Em resumo, enquanto estudar está mais relacionado com aprender o que já se sabe, investigar está ligado à descoberta do que ainda não se conhece. Ambas as práticas são complementares e fundamentais para o desenvolvimento intelectual, pois primeiro é necessário estudar para depois investigar com base sólida.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

O impacto das redes sociais na forma como nos vemos

As redes sociais tornaram-se uma parte central do quotidiano, influenciando não apenas a forma como comunicamos, mas também a maneira como percebemos a nós próprios. Plataformas digitais como Instagram, TikTok e Facebook apresentam constantemente imagens idealizadas de beleza, sucesso e felicidade, criando padrões muitas vezes inalcançáveis.

Ao consumir esse tipo de conteúdo diariamente, é comum que as pessoas comecem a comparar a sua vida real com versões cuidadosamente editadas da vida dos outros. Essa comparação pode afetar a autoestima, levando a sentimentos de inadequação, ansiedade e até depressão. A busca por validação através de gostos, comentários e seguidores também contribui para uma dependência emocional, em que o valor pessoal passa a ser medido pela aprovação externa.

Além disso, o uso de filtros e edições cria uma realidade distorcida, dificultando a aceitação da própria imagem. Muitas pessoas passam a sentir-se insatisfeitas com a sua aparência natural, desejando corresponder a padrões irreais.

No entanto, as redes sociais não são exclusivamente negativas. Quando utilizadas de forma consciente, podem promover a autoexpressão, a diversidade e a conexão entre indivíduos com interesses e experiências semelhantes. Movimentos de aceitação corporal e autenticidade têm ganhado força, incentivando uma visão mais realista e saudável de si mesmo.

Em suma, o impacto das redes sociais na forma como nos vemos é profundo e complexo. Cabe a cada utilizador desenvolver um olhar crítico e equilibrado, lembrando-se de que o que se vê online nem sempre reflete a realidade.

 

terça-feira, 24 de março de 2026

LEMBRO-ME

Lembro-me do primeiro dia em que nos vimos, como se o tempo tivesse parado só para nos dar espaço. Não houve nada de extraordinário à primeira vista — o mundo continuava igual, as pessoas passavam, os sons eram os mesmos — mas dentro de mim algo mudou de lugar.

Os teus olhos encontraram os meus por um instante que pareceu maior do que ele realmente foi. E, naquele breve segundo, senti uma estranha familiaridade, como se já te conhecesse de antes, de algum sonho esquecido ou de uma memória que nunca vivi.

As palavras que trocámos foram simples, quase banais, mas carregavam um peso diferente. Cada sorriso teu parecia ter intenção, cada gesto parecia dizer mais do que mostrava. Eu tentava agir com naturalidade, mas por dentro havia um turbilhão silencioso que não sabia explicar.

Foi um encontro comum para qualquer outra pessoa. Mas, para mim, foi o começo de algo que ainda não tinha nome — uma história que começou sem aviso, naquele exato momento, em que os nossos caminhos decidiram cruzar-se.

E, desde então, nunca mais fui exatamente o mesmo.

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Vamos ter a 3ª Guerra Mundial?

Ao longo da história, o mundo já enfrentou conflitos devastadores, como a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial. Esses acontecimentos marcaram profundamente a humanidade, causando milhões de mortes e enormes destruições. Por isso, muitas pessoas hoje perguntam: será que um dia poderemos enfrentar uma terceira guerra mundial?

Atualmente existem tensões entre vários países, disputas políticas, económicas e militares. Conflitos regionais, rivalidades entre grandes potências e o aumento do investimento em armamento fazem algumas pessoas temer que uma grande guerra possa acontecer. Além disso, o desenvolvimento de armas nucleares torna qualquer possível conflito global muito mais perigoso do que no passado.

Por outro lado, também existem fatores que diminuem essa possibilidade. Organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas “deveriam” trabalhar para promover o diálogo entre países e evitar confrontos armados. Muitos governos sabem que uma guerra mundial teria consequências catastróficas para toda a humanidade, incluindo destruição económica, ambiental e social.

Assim, embora existam tensões no mundo, muitos especialistas acreditam que os países tentam evitar um conflito global direto. A diplomacia, a cooperação internacional e o diálogo continuam a ser ferramentas essenciais para manter a paz.

Em conclusão, a possibilidade de uma terceira guerra mundial preocupa muitas pessoas, mas o futuro depende das decisões que os países tomarem. Investir em paz, cooperação e entendimento entre nações é fundamental para evitar que tragédias como as do passado se repitam

 

sábado, 21 de março de 2026

Lobby

O lobby é uma prática comum nas democracias modernas e refere-se à atividade de indivíduos ou grupos que procuram influenciar decisões políticas, especialmente junto de governos, parlamentos e outras instituições públicas. O objetivo principal do lobby é defender interesses específicos — que podem ser de empresas, organizações não governamentais, associações profissionais ou grupos da sociedade civil.

O termo ganhou destaque sobretudo nos sistemas políticos como o dos Estados Unidos e da União Europeia, onde a atividade é amplamente regulamentada. 

Nesses contextos, os chamados lobistas apresentam informações, estudos, argumentos económicos e sociais aos decisores políticos, tentando demonstrar por que determinada lei ou política pública deveria ser aprovada, alterada ou rejeitada.

Apesar de ser uma forma de participação política, o lobby gera debates e críticas. Alguns especialistas consideram que ele contribui para o processo democrático, pois permite que diferentes setores da sociedade expressem os seus interesses e forneçam informação técnica aos legisladores. 

Por outro lado, críticos afirmam que o lobby pode favorecer grupos com maior poder económico, criando desigualdades na influência sobre as decisões públicas.

Para reduzir riscos de corrupção ou influência excessiva, muitos países adotaram regras de transparência, como registos obrigatórios de lobistas, divulgação de reuniões com políticos e limites a doações políticas.

Em resumo, o lobby é um mecanismo de influência política que pode ser legítimo quando transparente e regulado, mas que também levanta questões importantes sobre equidade, ética e funcionamento da democracia.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

A História das Notas

Numa época em que todos nos empenhamos em acabar com a iliteracia financeira da maior parte dos portugueses, aqui vai um vídeo que pode ensinar muita gente. Aproveito para agradecer- como antiga funcionária da casa da qual nunca se desligou – o que a instituição tem feito nesse caminho. Num gesto de parabéns ao meu Governador Álvaro Santos Pereira e aos colegas de Administração, publico o vídeo abaixo

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

A primavera vestida de inverno

Estou cansada de inverno vestido de outono e de primavera vestida de inverno. Preciso de sol e luz, de areia e mar para me sentir com o relógio biológico certo

Há dias em que a primavera chega devagar, quase em segredo. O calendário já anuncia a mudança da estação, mas o frio ainda permanece no ar, como se o inverno não quisesse partir. As árvores começam a despertar lentamente, embora muitos ramos ainda pareçam nus e adormecidos.

É nesse momento que dizemos que a primavera está vestida de inverno. O sol aparece com mais frequência, a luz torna-se mais suave e longa, mas o vento continua fresco e os casacos ainda são necessários. Pequenos sinais de vida surgem: um botão de flor que insiste em abrir, um pássaro que canta mais cedo pela manhã, a relva que volta a ganhar cor.

A natureza parece estar entre duas estações, como alguém que ainda usa o casaco pesado, mas já sente vontade de vestir algo mais leve. O inverno despede-se aos poucos, enquanto a primavera se prepara para mostrar toda a sua força.

Assim, a primavera vestida de inverno lembra-nos que as mudanças nem sempre acontecem de forma brusca. Muitas vezes, elas chegam lentamente, quase silenciosas, até que um dia, percebemos que o frio passou e que a vida voltou a florescer. 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

A Agonia do Homem Ocidental

A expressão agonia do homem ocidental refere-se à sensação de crise cultural, espiritual e moral que muitos pensadores identificam na civilização ocidental contemporânea. Ao longo da história, o Ocidente construiu valores fundamentais como a razão, a liberdade individual, a ciência e a democracia. Contudo, nas últimas décadas, diversos autores argumentam que esses pilares parecem enfraquecidos, gerando um sentimento de perda de sentido e de identidade.

Uma das causas dessa “agonia” seria o afastamento progressivo das tradições que durante séculos orientaram a sociedade ocidental, especialmente as tradições filosóficas e religiosas. Com o avanço do materialismo, do consumismo e da lógica de mercado, muitos indivíduos passaram a orientar suas vidas sobretudo pelo sucesso económico e pelo prazer imediato, deixando em segundo plano questões profundas sobre ética e propósito.

Outro fator frequentemente apontado é a rápida transformação social e tecnológica. O desenvolvimento científico trouxe enormes benefícios, mas também gerou novas incertezas. A aceleração da vida moderna e as mudanças constantes podem provocar sensação de desorientação.

Apesar do tom pessimista presente na ideia de “agonia”, a história do Ocidente mostra que períodos de crise também podem abrir espaço para reflexão, renovação e novos caminhos para a sociedade.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um tempo de coisas simples

Pertenci a um tempo em que a felicidade cabia em pequenos gestos. Um tempo em que brincar na rua até o pôr do sol era a maior aventura do dia e voltar para casa com os joelhos sujos de terra era sinal de uma infância bem vivida.

Era um tempo em que as conversas aconteciam olhos nos olhos, sentados na calçada ou à volta da mesa. Não havia pressa em responder mensagens, porque as mensagens eram dadas com a voz, com risos e com silêncio partilhado.

Pertenci a um tempo em que um pedaço de pão com manteiga, um copo de leite quente ou uma fruta colhida do quintal tinham um sabor especial. Não porque fossem raros, mas porque eram vividos com calma.

As tardes eram longas, o tempo parecia maior e a vida era feita de coisas que não custavam dinheiro: subir às árvores, correr atrás de uma bola, ouvir histórias dos mais velhos ou simplesmente observar o céu.

Pertenci a um tempo em que a simplicidade não era pobreza, era riqueza. Riqueza de momentos, de presença, de afetos verdadeiros.

Hoje o mundo mudou, tudo é mais rápido, mais barulhento, mais conectado. Mas dentro de mim ainda vive aquele tempo de coisas simples. E talvez seja essa memória que me lembra, todos os dias, que a verdadeira felicidade continua a morar nas pequenas coisas.

 

domingo, 8 de março de 2026

O Dia da Mulher aos Olhos de Hoje

O Dia Internacional da Mulher é mais do que uma data no calendário. Hoje, ele representa um momento de reflexão sobre as conquistas alcançadas pelas mulheres ao longo da história e, ao mesmo tempo, sobre os desafios que ainda precisam ser superados.

Durante muitos anos, as mulheres lutaram por direitos básicos como o acesso à educação, ao trabalho, ao voto e à igualdade de oportunidades. Graças à coragem e à determinação de tantas que vieram antes, hoje vemos avanços importantes em diversas áreas da sociedade. No entanto, ainda existem desigualdades, preconceitos e barreiras que precisam ser enfrentadas.

A forma de encarar, hoje, o Dia da Mulher, ultrapassa o gesto delicado de oferecer flores ou enviar mensagens bonitas. É um convite à consciência coletiva: reconhecer o valor, a força e a contribuição das mulheres em todos os espaços — na família, no trabalho, na ciência, na política, na cultura e na construção de um mundo mais justo.

Mais do que uma celebração, esta data deve ser um lembrete da importância do respeito, da equidade e das oportunidades iguais para todos. É também um momento para ouvir as vozes femininas, apoiar as suas causas e promover mudanças reais na sociedade.

Assim, o Dia da Mulher, visto pelos olhos de hoje, deve ser entendido como um símbolo de luta, resistência e progresso. Nos dois sentidos, já que hoje o que nós pretendemos é, sobretudo, respeito. E um futuro onde ser mulher não signifique enfrentar limitações, mas sim viver com liberdade, dignidade e igualdade.

 

sábado, 7 de março de 2026

HUMOR E HUMILDADE

Eu sei que os humoristas me vão matar e considerar alguém que não entende o seu trabalho. Não é verdade. A família já foi -é – alvo de diversos tipos de “humores” …

O humor e a humildade são duas características essenciais que influenciam significativamente a maneira como nos relacionamos com os outros e como percebemos o mundo ao nosso redor. Embora possam parecer opostos à primeira vista, quando combinados de maneira adequada, podem resultar numa abordagem equilibrada e saudável da vida.

O humor, quando utilizado com inteligência e sensibilidade, pode ser uma ferramenta poderosa para promover conexões interpessoais, aliviar tensões e enfrentar desafios com leveza. A capacidade de rir de si mesmo e encontrar o lado engraçado das situações, pode ajudar a reduzir o stresse e a ansiedade, além de promover um ambiente mais descontraído e inclusivo nas interações sociais.

No entanto, é importante exercer o humor com humildade e respeito pelos sentimentos dos outros. O que pode parecer engraçado para uma pessoa pode ser ofensivo para outra, e é fundamental estar ciente das diferenças individuais e dos limites de cada um. Além disso, é importante reconhecer que o humor não deve ser usado como uma forma de ridicularizar ou menosprezar os outros, mas sim como uma forma de criar conexões genuínas e até promover um sentido de camaradagem.

Por outro lado, a humildade é uma qualidade que nos permite reconhecer as nossas próprias limitações, aprender com os erros e aceitar as contribuições dos outros. Ao cultivar a humildade, somos capazes de nos relacionar de maneira mais autêntica e empática com os que nos rodeiam, demonstrando abertura para diferentes perspetivas e experiências.

A combinação de humor e humildade convida a abordar a vida com uma atitude de leveza e aceitação, reconhecendo a importância de não nos levarmos a nós mesmos tão a sério e estarmos abertos ao aprendizado contínuo. Ao integrar essas duas qualidades e nossa maneira de ser e interagir com o mundo, podemos criar relações mais significativas e construir um ambiente mais positivo e inclusivo para todos.

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

O MUNDO ESTÁ LOUCO!

Quando soube a notícia dei uma gargalhada e disse que não me surpreendia que tal acontecesse e os restantes países aceitassem. De que se tratava, afinal?

Melania Trump, primeira-dama dos Estados Unidos, presidiu há dias a uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque. A intervenção de Melania centrou-se em ligar educação, tecnologia e paz, incentivando governos e organizações a garantir que todas as crianças, mesmo em situações de conflito, tenham acesso à aprendizagem e ao conhecimento.

Foi a primeira vez na história, que uma primeira-dama presidiu a uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, onde, além de defender a “paz através da educação”, fez um discurso pedindo que os membros do Conselho se comprometessem com a proteção da aprendizagem e do futuro das crianças em situações de guerra.

O que se pretendeu com isto? É uma evidência que tal situação não devia ter acontecido. Mas aconteceu. E se aconteceu, é porque ninguém se levantou para contrariar o evento, nem ninguém abandonou a sala, deixando a senhora a falar sozinha!

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O QUE ME PARECE


Agora que já assentou a poeira e o tempo necessário para uma análise correta de um incidente que deu que falar, olhemos para ele com serenidade.

Um texto justo deve reconhecer que, em política, há sempre duas dimensões: a institucional e a partidária.

No caso da autarca de Coimbra perante a visita de um ministro à cidade, o comportamento deve ser analisado à luz do cargo que ocupa. Enquanto presidente da câmara, representa todos os munícipes, independentemente de divergências partidárias. Isso implica manter uma postura institucional, de respeito e cooperação, sobretudo quando estão em causa assuntos relevantes para o concelho.

Se houve críticas públicas, confrontação ou distanciamento, é legítimo que uma autarca defenda os interesses da cidade e pressione o Governo quando considera que Coimbra está a ser prejudicada. Essa firmeza pode até ser vista como sinal de defesa ativa do território. Contudo, a forma como essa posição é expressa faz diferença: o tom, o contexto e a abertura ao diálogo são determinantes para que a ação seja percebida como defesa institucional e não como mera disputa política.

Por outro lado, também é importante considerar que visitas ministeriais são oportunidades para reforçar compromissos, esclarecer impasses e promover soluções. Um ambiente excessivamente crispado pode comprometer esses objetivos.

Assim, a conclusão equilibrada parece-me esta: é legítimo que uma autarca confronte um ministro em defesa do seu concelho, mas espera-se que o faça com sentido institucional, respeito e foco nas soluções, evitando transformar um momento institucional numa “chicana” política.

terça-feira, 3 de março de 2026

Viver feliz, apesar da guerra

Viver feliz em tempos de guerra — mesmo quando ela acontece longe — não é ignorar a dor do mundo. É escolher, conscientemente, não deixar que o medo ocupe todos os espaços da vida.

A guerra chega-nos pelas notícias, pelas imagens repetidas, pelos números que parecem impossíveis. Conflitos como o da Ucrânia lembram-nos que a estabilidade é frágil. Há sofrimento real, perdas irreparáveis, vidas suspensas. E, ainda assim, aqui, longe das bombas, o sol continua a nascer. As crianças continuam a rir. O café da manhã continua a ter o mesmo cheiro.

Ser feliz apesar da guerra é um ato quase silencioso de resistência. É permitir-se celebrar aniversários, fazer planos, amar, aprender algo novo. Não por indiferença, mas porque a vida não pode ser totalmente sequestrada pelo horror.

Existe uma culpa subtil que às vezes acompanha essa felicidade — como se sorrir fosse desrespeitar quem sofre. Mas a felicidade não é traição; é preservação. Cuidar da própria saúde mental, manter vínculos, cultivar esperança são formas de não deixar que a violência se expanda para além das fronteiras físicas.

Também há outra dimensão: a felicidade pode tornar-se compromisso. Informar-se sem se afogar, ajudar quando possível, praticar empatia sem perder o equilíbrio. Viver bem, pode ser uma forma de honrar a paz que ainda se tem.

A guerra ensina, de maneira dura, que nada é garantido. Talvez por isso a felicidade, nesses tempos, deixe de ser superficial. Torna-se mais consciente, mais grata, mais atenta aos pequenos detalhes: uma conversa tranquila, um abraço demorado, uma noite silenciosa.

Viver feliz apesar da guerra é aceitar que o mundo contém luz e sombra ao mesmo tempo — e escolher, todos os dias, alimentar a luz sem fechar os olhos à realidade.

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O PERDÃO VALE MAIS QUE O ESQUECIMENTO?

Muitas pessoas acreditam que, para seguir em frente, é preciso esquecer o que nos magoou. No entanto, esquecer nem sempre é possível — e talvez nem seja o mais importante. O perdão, ao contrário do esquecimento, é uma escolha consciente. Ele não apaga o passado, mas transforma a forma como lidamos com ele.

Esquecer pode ser apenas uma consequência do tempo. As lembranças enfraquecem, os detalhes se apagam, e a dor perde intensidade. Porém, o sentimento pode continuar guardado, mesmo que silencioso. Já o perdão exige reflexão, maturidade e, muitas vezes, coragem. Perdoar é decidir não alimentar o ressentimento, mesmo lembrando claramente o que aconteceu.

Perdoar não significa concordar com o erro, justificar atitudes ou permitir que a situação se repita. Significa libertar-se do peso da mágoa. Quando alguém escolhe perdoar, deixa de ser prisioneiro da própria dor. O esquecimento pode aliviar, mas o perdão cura.

Além disso, o perdão fortalece relações e promove crescimento pessoal. Ele desenvolve empatia, compreensão e humildade. Em muitos casos, é o que permite reconstruir laços e restaurar a confiança. Mesmo quando não há reconciliação, o perdão interior traz paz.

Portanto, o perdão vale mais que o esquecimento, porque é um ato ativo de libertação. Esquecer pode depender do tempo; perdoar depende de decisão. E é essa decisão que transforma feridas em aprendizagem e sofrimento em amadurecimento.

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O ENCANTO DO LUAR

O luar sempre exerceu um fascínio profundo sobre a humanidade. Desde os tempos mais antigos, quando não havia luz elétrica e a noite era iluminada apenas pelas estrelas e pela Lua, o brilho prateado que se espalhava pela paisagem, despertava sentimentos de mistério, contemplação e poesia. O encanto do luar está na sua delicadeza: não ofusca como o sol, mas envolve tudo com uma luz suave, quase mágica.

Ao cair da noite, quando a Lua surge no céu, transforma cenários comuns em verdadeiros quadros vivos. As sombras tornam-se mais longas e suaves, os contornos das árvores parecem dançar com o vento, e o silêncio ganha uma presença especial. Sob o luar, o mundo parece desacelerar. Há uma sensação de calma que convida à reflexão, ao sonho e à imaginação.

A Lua também carrega simbolismos profundos. Está associada aos ciclos da vida, às marés, ao tempo e às emoções. Em muitas culturas, representa o feminino, a intuição e o mistério. Poetas e escritores encontraram no luar inspiração para versos românticos e histórias encantadas, enquanto enamorados o escolheram como cenário perfeito para promessas e declarações.

O encanto do luar não está apenas na sua beleza visual, mas na atmosfera que cria. Ele desperta memórias, traz à tona sentimentos escondidos e oferece um momento de pausa a meio da correria do dia a dia. Contemplar a Lua é, de certa forma, conectar-se com algo maior, eterno e silencioso.

Assim, o luar continua a encantar gerações, lembrando-nos de que há beleza na simplicidade e magia nos pequenos instantes. Basta erguer os olhos ao céu e permitir-se sentir o brilho suave que ilumina não apenas a noite, mas também o coração.

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A ÁRVORE DA VIDA

No meu escritório, está pendurado um azulejo com árvore da vida, que me foi dado pelo meu filho Miguel. Muitas vezes, é olhando para ele, que escrevo as minhas crónicas. Mais tarde havia de comprar uma que trago sempre comigo ao pescoço. Por isso para mim, esta Árvore da Vida, sempre foi mais do que um símbolo bonito — ela é quase um espelho da nossa própria história.

Quando penso nela, imagino raízes profundas, escondidas sob a terra. São as nossas origens, as pessoas que vieram antes de nós, as experiências que moldaram quem somos. Nem sempre vemos essas raízes, mas são elas que nos sustentam quando o vento sopra forte.

O tronco lembra o presente, o agora. É onde a vida realmente acontece. É aqui que enfrentamos desafios, crescemos, criamos marcas e seguimos em frente, mesmo quando não sabemos exatamente para onde os galhos se vão estender.

E os galhos… ah, os galhos são os sonhos. São os caminhos que escolhemos, as oportunidades que surgem, as mudanças inesperadas. Alguns crescem fortes, outros precisam ser podados, mas todos fazem parte do processo de crescimento.

A Árvore da Vida fala sobre ciclos. Sobre perder folhas e, ainda assim, continuar viva. Sobre aceitar que há estações de flores e estações de silêncio. Ela ensina que crescer nem sempre é visível, mas é constante.

No fundo, ela é um sinal delicado de que estamos todos conectados — à nossa história, às pessoas que amamos e ao mundo ao nosso redor. E que, mesmo nos dias mais difíceis, ainda estamos enraizados em algo maior.

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

HÁ DESTINO MARCADO?

Desde cedo ouvimos dizer que tudo acontece por uma razão. Que cada encontro, cada perda e cada conquista já estavam escritos em algum lugar invisível. Mas será que há mesmo um destino marcado para cada um de nós?

A ideia de destino traz conforto. Pensar que existe um plano maior pode aliviar o peso das incertezas e dos medos. Se tudo já está traçado, então os erros fariam parte de uma aprendizagem necessário e as dores teriam um propósito oculto. Essa visão aparece em diversas culturas e religiões ao longo da história, reforçando a crença de que a vida segue um roteiro previamente definido.

Por outro lado, acreditar apenas num destino fixo pode tornar - nos espectadores da própria vida. Se tudo já está decidido, qual seria o papel das nossas escolhas? A cada decisão — estudar ou desistir, amar ou se fechar, persistir ou recuar — abrimos novas possibilidades. Pequenas atitudes podem transformar completamente o rumo da nossa história.

Talvez o destino não seja uma linha rígida, mas um conjunto de caminhos possíveis. As circunstâncias podem até conduzir-nos a certas encruzilhadas, mas a direção final depende da coragem, dos valores e das decisões que tomamos.

No fim, mais importante do que saber se há um destino marcado é reconhecer que temos poder sobre os nossos passos. Mesmo que não possamos controlar tudo, podemos escolher como reagir, como crescer e como seguir em frente. E é nessa liberdade que, talvez, o verdadeiro destino se construa.

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

NO MEIO DE TANTO REBULIÇO. O QUE É QUE NOS DEFINE?

No meio de tanto rebuliço o que é que ainda nos definirá, como povo? Pensando bem e atendendo à nossa história mais antiga e à mais recente, talvez seja precisamente isso: o rebuliço.

Num país como o nosso, o que nos define não é a ordem perfeita nem a estabilidade absoluta, mas a capacidade quase teimosa de continuar apesar do caos. Somos feitos de contradições — queixamo-nos de tudo, mas defendemos tudo; desconfiamos do futuro, mas insistimos em ficar; resmungamos, mas ajudamos.

Define-nos a memória curta e a saudade longa. O improviso elevado a sistema. A ironia como mecanismo de sobrevivência. A tendência para achar que “isto nunca vai mudar” enquanto, silenciosamente, mudamos um bocadinho todos os dias.

Define-nos também uma certa humanidade teimosa: no meio do rebuliço, ainda há tempo para um café, para uma conversa, para “desenrascar alguém”. Mesmo quando o país parece andar aos solavancos, as pessoas continuam a segurar-se umas às outras.

No fundo, talvez o que nos define seja isto: não a ausência de crise, mas a forma quase íntima como aprendemos a viver dentro dela.

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O EXEMPLO DO GIRASSOL

O girassol não é apenas uma planta; é quase uma atitude perante a vida. Desde que nasce, segue um impulso simples e claro: procurar a luz. Mesmo quando o céu permanece fechado durante dias, mesmo quando a manhã tarda, continua a orientar-se para onde acredita que o sol surgirá. Por isso, em algumas tradições, tornou-se símbolo de uma fé prática - uma fé que não depende do que se sente, mas do que se escolhe.

Nos dias mais difíceis, a fé falha muitas vezes por um motivo discreto: a atenção fixa-se no que falta. O girassol faz o contrário. Não ignora a sombra, mas também não se submete a ela. Ensina uma forma de disciplina interior: orientar o coração para aquilo que sustenta, não para o que ameaça. Conviver com girassóis, mesmo num vaso, educa o olhar para a possibilidade. E isso transforma o estado emocional, porque a esperança deixa de ser uma ideia abstrata e passa a ser uma postura.

Há ainda uma lição de presença. O girassol ocupa o seu espaço com firmeza: alto, inteiro, sem pedir licença para existir. Em momentos de cansaço ou desânimo, observar essa estrutura viva, estável e luminosa desperta uma memória antiga: ainda há caminho. Ainda há sentido. Ainda há força guardada, mesmo que agora não consigas tocá-la.

Um gesto simples pode transformar este símbolo numa prática. De manhã, pára um minuto diante de um girassol e diz em voz baixa: "escolho a luz, mesmo sem garantias". Depois, respira fundo três vezes e imagina o peito a abrir-se, como uma corola. Não é fingimento; é alinhamento. A fé fortalece-se quando se torna um ato repetido com consciência.

O girassol não promete ausência de tempestade. Promete direção. E, quando tudo parece ruir, a direção é a forma mais simples — e mais rara - de milagre. (adaptado de autor desconhecido)

 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A MÁGOA ESQUECE-SE?

Dizem que o tempo cura tudo. Mas será que cura mesmo? Ou apenas ensina a conviver com o que doeu?

A mágoa não desaparece de um dia para o outro. Ela instala-se devagar, às vezes silenciosa, outras vezes pesada como uma pedra no peito. Pode nascer de uma palavra dita sem cuidado, de uma promessa quebrada ou de um silêncio que magoou mais do que qualquer grito. No início, arde. Depois, parece adormecer. Mas esquecer… esquecer é outra história.

Com o tempo, aprendemos a olhar para a mágoa de forma diferente. Já não dói com a mesma intensidade, já não nos tira o sono como antes. Contudo, ela deixa marcas. E talvez não seja para ser esquecida totalmente. Talvez a mágoa exista para nos ensinar algo — sobre limites, sobre amor-próprio, sobre quem merece permanecer na nossa vida.

Esquecer pode não ser possível, mas perdoar — aos outros ou a nós mesmos — pode ser libertador. Não porque o que aconteceu deixou de importar, mas porque escolhemos não carregar o peso todos os dias.

A mágoa pode não se apagar da memória, mas pode perder a força. E quando isso acontece, já não é uma ferida aberta — é apenas uma cicatriz. E as cicatrizes contam histórias de dor, mas também de superação.

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O EXEMPLO DOS OUTROS

O exemplo dos outros tem um impacto profundo na forma como pensamos, sentimos e agimos. Desde a infância, aprendemos muito mais pelo que observamos, do que apenas pelo que nos dizem. Pais, professores, amigos e figuras públicas, tornam-se referências que, consciente ou inconscientemente, influenciam as nossas escolhas, valores e atitudes.

Quando vemos alguém agir com honestidade, responsabilidade e respeito, sentimos uma motivação natural para seguir esse caminho. Um colega que se dedica aos estudos pode inspirar-nos a esforçarmo-nos mais. Uma pessoa solidária pode despertar em nós o desejo de ajudar o próximo. Assim, o exemplo positivo funciona como um guia silencioso, mostrando que determinadas atitudes são possíveis e trazem bons resultados.

Por outro lado, o exemplo negativo também nos afeta. Se estamos rodeados de comportamentos de desrespeito, desinteresse ou falta de ética, podemos acabar por normalizar essas atitudes. A influência do grupo é especialmente forte na adolescência, fase em que a necessidade de pertença pode levar alguém a imitar comportamentos, apenas para ser aceite.

Além disso, figuras públicas — como atletas, artistas ou líderes — exercem grande influência na sociedade. Quando usam a sua visibilidade para promover valores positivos, contribuem para mudanças construtivas. Porém, quando demonstram comportamentos prejudiciais, podem influenciar milhares de pessoas de forma negativa.

Em suma, o exemplo dos outros afeta-nos porque somos seres sociais. Aprendemos observando, imitando e adaptando comportamentos ao nosso contexto. Por isso, é fundamental termos consciência do impacto que as nossas próprias atitudes podem ter nos que nos rodeiam. Cada pessoa, mesmo sem perceber, torna-se um exemplo para alguém.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

PENSAR DIFERENTE DE NÓS

Pensar diferente de nós é uma das experiências mais desafiadoras, tolerantes e enriquecedoras da convivência humana. Desde cedo, construímos as nossas ideias com base na família, na cultura, na escola e nas vivências pessoais. Por isso, é natural acreditarmos, que nossa forma de ver o mundo é a mais lógica ou correta. No entanto, quando encontramos alguém que pensa de maneira diferente, temos a oportunidade de ampliar a nossa visão e desenvolver a nossa maturidade.

As redes sociais contribuíram para a criação de “bolhas”, ambientes em que as pessoas convivem apenas com opiniões semelhantes às suas. Isso fortalece preconceitos, dificulta o debate saudável e transforma diferenças de opinião em conflitos pessoais. Temas como democracia, liberdade de expressão e responsabilidade individual, são essenciais na construção de uma sociedade mais justa e plural.

Este tema também remete à tendência humana de rejeitar ou atacar aqueles que pensam diferente. Quem vive em democracia defende a importância do respeito às divergências e do diálogo, como ferramentas fundamentais para a convivência democrática. A intolerância pode levar ao enfraquecimento das instituições e à normalização de discursos autoritários.

Pensar diferente de nós não deve ser visto como uma ameaça, mas como uma oportunidade de aprendizagem. Ao abrir espaço para o diálogo e para o entendimento, crescemos como indivíduos e contribuímos para uma sociedade mais justa, plural e democrática.

Acrescento, com certo humor, que “para bom entendedor, meia palavra basta…!”

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

VIVER DEPOIS DE UMA CALAMIDADE

 Viver depois de uma calamidade é estranho.
É como acordar num mundo que continua funcionando… mas por dentro já não se é mais o mesmo.

Há dias em que tudo parece normal demais — e isso incomoda.
Há dias em que qualquer barulho, qualquer lembrança, faz o coração apertar.
E tem dias em que simplesmente não se sente nada. Só um vazio.

Depois de algo grande demais acontecer, a vida não volta ao que era. Ela vira outra coisa. E talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.

Às vezes sente-se culpa por seguir em frente.
Às vezes sente-se raiva porque ninguém nos entende.
Às vezes cansa ser “forte”.

Mas viver depois de uma calamidade não é ser forte o tempo todo.
É levantar quando se consegue.
É descansar quando não dá.
É permitir-se reconstruir devagar.

Há algo de que quase ninguém fala:
sobreviver muda a forma como se vê o mundo. Passa-se a perceber a fragilidade das coisas — e, ao mesmo tempo, a força que insiste em continuar.

Não é preciso ter respostas agora.
Não é preciso transformar dor em lição.
Às vezes, o primeiro passo é, mesmo, só continuar respirando.

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

E SE HOUVESSE UM EMPATE?

Não sou jurista. Infelizmente. Mas tentei, com os meus limites, averiguar o que se passaria em Portugal, se na segunda, houvesse um empate. Como o nosso país é muito especial, todas as hipóteses devem ser consideradas. Vejamos o que apurei e se houver erro que um advogado tenha a paciência de me corrigir porque todos agradecemos.

A Constituição da República Portuguesa e a Lei Eleitoral do Presidente da República não preveem explicitamente o que fazer em caso de empate exato na 2.ª volta.

Ou seja:

  • Não está prevista 3.ª volta
  • Não está previsto critério de desempate automático (idade, sorteio, etc.)
  • Não está prevista repetição imediata da votação na lei
  •  Então como se resolveria?

Seria um cenário absolutamente excecional e teria de ser resolvido por via institucional, muito provavelmente através de:

  • Interpretação do Tribunal Constitucional
  • Eventual intervenção da Assembleia da República
  • Possível marcação de nova eleição, mas já fora do procedimento normal.

Na prática, seria uma crise constitucional inédita, resolvida caso a caso.

Porque é que isto quase nunca é considerado?

Porque com apenas dois candidatos, um empate exato exigiria:

  • exatamente o mesmo número de votos
  • depois de recontagens, votos nulos analisados, votos do estrangeiro, etc.

É considerado teoricamente possível, mas estatisticamente improvabilíssimo. Daí a lacuna legal.

Resumo rápido

✔️  A 2.ª volta decide o vencedor
❌   A lei não diz o que fazer se houver empate
  O   A solução teria de ser constitucional/judicial, não automática

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A banalização pública do voto revela mais exibicionismo do que consciência cívica

O voto é um dos pilares fundamentais da democracia precisamente porque é livre, pessoal e protegido do olhar alheio. A sua natureza secreta não é um detalhe técnico, mas uma garantia essencial contra pressões sociais, julgamentos morais e alinhamentos forçados. No entanto, assiste-se cada vez mais à tendência de expor publicamente em quem se vota, como se essa revelação fosse, por si só, um ato de virtude cívica.

Esta prática pouco acrescenta ao debate democrático. Pelo contrário, empobrece-o. Em vez de se discutirem ideias, propostas ou consequências políticas, privilegia-se a exibição da escolha individual como marcador identitário. O voto deixa de ser resultado de reflexão crítica e passa a funcionar como instrumento de validação social ou afirmação de pertença a um grupo.

A democracia não se fortalece com listas públicas de votos nem com a transformação da política em palco de aprovação moral. Fortalece-se com confronto de argumentos, diversidade de pensamento e respeito pela autonomia individual. Confundir participação cívica com exposição pessoal é um erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de algum exibicionismo., erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de vaidade.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

PORQUE ESCREVO NAS REDES

Alguns amigos me têm feito esta pergunta, sabendo que não ganho nada com isto e que, até hoje, sempre recusei ser patrocinada por uma das boas marcas que me procuram. Ainda há bem pouco tempo, alguém me dizia que eu devia receber um balúrdio por escrever diariamente nas redes. Sorri e respondi que recebia muito mais que um balúrdio. Talvez por isso, que, para mim, foi quase ofensivo, resolvi dissertar sobre o assunto. Convosco.

Escrevo nas redes sociais apesar de elas serem tão criticadas. Talvez precisamente por isso. Escrevo porque escrever me dá prazer, porque a palavra é o lugar onde penso, respiro e me organizo por dentro. E porque, mesmo num espaço ruidoso e tantas vezes superficial, ainda acredito na força de um texto que toca, provoca ou simplesmente acompanha.

Não escrevo porque tenho certezas, nem porque tenho respostas. Escrevo porque não possuo outro trabalho senão este: o de tentar dizer. De partilhar o que penso e sinto, sem grande utilidade prática, mas com uma intenção simples — oferecer palavras a quem passa. Talvez isso seja uma forma modesta de voluntariado: não de grandes gestos, mas de presença. Uma tentativa de humanizar o fluxo, de criar pequenas pausas num lugar que corre depressa demais.

Se as redes falham, nós também falhamos. E talvez seja exatamente aí, que escrever ainda faça sentido.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A PAIXÃO É DESORDEM?

A paixão chega sem pedir licença. Ela rompe rotinas, baralha pensamentos, acelera o coração e desorganiza a lógica. Por isso, muitas vezes é associada à desordem: um estado em que a razão perde o controle e o equilíbrio parece escapar. Mas será mesmo justo reduzi-la a isso?

A paixão é desordem porque desestabiliza o que estava quieto. Ela desafia regras, ignora cálculos e nos empurra para escolhas impulsivas. Sob a sua influência, o mundo ganha cores mais intensas, e aquilo que antes era seguro passa a parecer insuficiente. Nesse sentido, a paixão confunde, tira o chão e pode levar ao erro.

No entanto, essa desordem não é necessariamente negativa. Ao quebrar a rigidez do quotidiano, a paixão também revela desejos escondidos, dá sentido ao que era mecânico e movimenta a vida. É ela que impulsiona grandes gestos, criações artísticas, descobertas e transformações pessoais. Onde há paixão, há risco — mas também há verdade.

Talvez o problema não esteja na paixão em si, mas na ausência de equilíbrio. Quando a paixão caminha sozinha, sem o diálogo com a razão, torna-se excessiva e destrutiva. Mas quando ambas coexistem, a desordem se transforma em movimento, e o caos ganha direção.

Assim, a paixão é desordem apenas à primeira vista. No fundo, ela pode ser um tipo diferente de ordem, uma ordem emocional, intensa e viva, que nos lembra que sentir também é uma forma de existir

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MEDO, AUTORIDADE E RESPEITO (A pedido de uma comentadora)

O medo sempre foi uma ferramenta rápida de controle. Ele cala vozes, endireita posturas e cria obediência imediata. Mas o que nasce do medo é frágil: dura apenas enquanto a ameaça está presente. Quando ela desaparece, sobra o ressentimento, a revolta silenciosa ou a vontade de desafiar.

A autoridade, por sua vez, não deveria depender do medo. Autoridade verdadeira é construída com coerência, responsabilidade e exemplo. Ela não precisa gritar para ser ouvida, nem punir para ser reconhecida. Quando alguém exerce autoridade apenas pela força, revela mais insegurança do que poder.

O respeito é diferente dos dois. Ele não se impõe, conquista-se. Surge quando há confiança, justiça e humanidade. As pessoas respeitam quem as escuta, quem age com firmeza sem humilhar, quem mantém limites sem violência. O respeito cria vínculos; o medo cria distância.

Onde o medo governa, o respeito desaparece. Onde o respeito existe, a autoridade se torna natural. E talvez esse seja o maior sinal de maturidade de qualquer relação - pessoal, social ou institucional-  quando ninguém precisa de ter medo para fazer o que é certo.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

DA UNANIMIDADE

Levei a minha vida inteira a ouvir louvar a unanimidade. Por razões de natureza pessoal sempre me senti melhor entre gente de pensamento diverso do meu, porque isso aguçava a minha mente! Vejamos.

A unanimidade costuma ser associada à harmonia, consenso e legitimidade, mas o seu valor, depende muito do contexto em que ocorre. Em situações técnicas ou científicas, por exemplo, a unanimidade pode indicar que diferentes análises independentes convergiram para a mesma conclusão, reforçando a confiança nos resultados. Ainda assim, mesmo nesses casos, a ausência de dissenso não garante verdade definitiva, pois o conhecimento é sempre provisório e aberto à revisão, diante de novos dados ou métodos.

Em contextos sociais, políticos ou organizacionais, a unanimidade tende a ser mais ambígua. Decisões unânimes podem resultar não de concordância genuína, mas de pressão social, hierarquias rígidas ou medo de conflito. Nesses cenários, a unanimidade pode ocultar problemas, silenciar perspetivas minoritárias e reduzir a qualidade das decisões. A diversidade de opiniões, ao contrário, costuma ampliar o campo de análise, revelar riscos não percebidos e estimular soluções mais robustas.

Portanto, a unanimidade não é, por si só, um valor absoluto nem um problema intrínseco. Ela pode ser um sinal positivo quando resulta de debate aberto, informado e livre. Mas torna-se questionável quando substitui o pensamento crítico, ou impede a expressão do desacordo. Avaliar o valor da unanimidade exige atenção aos processos que a produziram, e não apenas ao facto de todos terem chegado à mesma posição.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

QUANDO QUALQUER ESCOLHA É MÁ

Quando qualquer escolha é má, não estamos diante de um dilema comum, mas de um território onde a lógica falha e a consciência pesa. É o momento em que todas as alternativas carregam perdas, culpas ou consequências, que ferem algo essencial. Não há saída limpa, não há decisão que permita dormir em paz, sem que uma parte de nós fique acordada, cobrando explicações.

Nessas situações, escolher deixa de ser um ato de vontade e passa a ser um ato de resistência. Não se escolhe o bem, mas o mal que parece menos destrutivo, menos definitivo, menos contrário àquilo que acreditamos ser. Ainda assim, a sensação de falha persiste, porque o critério não é a vitória, e sim a sobrevivência — moral, emocional ou até física.

Quando qualquer escolha é má, o silêncio interior se torna ensurdecedor. Pensamos mais, adiamos mais, desejamos que alguém decida por nós, ou que o problema desapareça sozinho. Mas a ausência de escolha também é uma escolha, e muitas vezes a mais cruel, pois entrega o controle ao acaso ou ao medo.

Esses dilemas revelam algo profundo sobre a condição humana. É que nem sempre somos livres para fazer o certo, apenas responsáveis pelo que fazemos, diante do inevitável. É nesse ponto que a ética deixa de ser ideal e se torna trágica. Não há heróis, apenas pessoas tentando minimizar danos num mundo imperfeito.

Talvez a aprendizagem mais dura seja aceitar que errar, nesses casos, não significa falhar como pessoa. Significa apenas que a realidade impôs limites ao que era possível. Quando qualquer escolha é má, o que resta não é a certeza, mas a honestidade consigo mesmo, de escolher sabendo o peso, assumir as consequências e seguir em frente, mesmo carregando cicatrizes.

Porque, às vezes, viver é exatamente isso: continuar, mesmo quando nenhuma opção parece certa.