O dia em que me conheci de verdade não teve nada de
extraordinário, por fora. O mundo continuava igual: pessoas apressadas, barulho
nas ruas, o céu nem especialmente bonito, nem particularmente cinzento. Mas
dentro de mim, algo finalmente fez silêncio.
Passei muito tempo a ser aquilo que esperavam de mim —
respostas prontas, sorrisos treinados, caminhos escolhidos mais por medo do que
por vontade. E, sem perceber, fui-me afastando de mim próprio. Não de repente,
mas aos poucos, como quem se perde sem dar conta.
Nesse dia, porém, parei. Sem grandes planos, sem anúncios.
Apenas parei. E no meio desse silêncio desconfortável, comecei a ouvir coisas
que antes evitava: dúvidas antigas, medos escondidos, sonhos que eu tinha
deixado para trás. Não foi bonito nem fácil. Foi cru. Foi honesto.
Percebi que me conhecia muito menos do que pensava. Que
muitas das minhas certezas eram, na verdade, defesas. Que muitas escolhas eram
fugas disfarçadas. Mas, pela primeira vez, não tentei mudar isso imediatamente.
Apenas observei. Apenas aceitei.
E foi aí que algo mudou.
Conhecer-me de verdade não foi descobrir algo incrível ou
admirável. Foi reconhecer as minhas contradições, os meus erros, as minhas
fragilidades — e ainda assim continuar ali, sem fugir de mim. Foi entender que
eu não precisava ser perfeito para ser real.
Nesse dia, deixei de procurar ser quem eu achava que devia
ser… e comecei, finalmente, a ser quem eu sou.
E talvez esse seja o verdadeiro começo de tudo.
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