No meio de tanto rebuliço o que é que ainda nos definirá,
como povo? Pensando bem e atendendo à nossa história mais antiga e à mais
recente, talvez seja precisamente isso: o rebuliço.
Num país como o nosso, o que nos define não é a ordem
perfeita nem a estabilidade absoluta, mas a capacidade quase teimosa de continuar
apesar do caos. Somos feitos de contradições — queixamo-nos de tudo, mas
defendemos tudo; desconfiamos do futuro, mas insistimos em ficar; resmungamos,
mas ajudamos.
Define-nos a memória curta e a saudade longa. O
improviso elevado a sistema. A ironia como mecanismo de sobrevivência. A
tendência para achar que “isto nunca vai mudar” enquanto, silenciosamente,
mudamos um bocadinho todos os dias.
Define-nos também uma certa humanidade teimosa: no
meio do rebuliço, ainda há tempo para um café, para uma conversa, para “desenrascar
alguém”. Mesmo quando o país parece andar aos solavancos, as pessoas continuam
a segurar-se umas às outras.
No fundo, talvez o que nos define seja isto: não a ausência
de crise, mas a forma quase íntima como aprendemos a viver dentro dela.
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