quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

NO MEIO DE TANTO REBULIÇO. O QUE É QUE NOS DEFINE?

No meio de tanto rebuliço o que é que ainda nos definirá, como povo? Pensando bem e atendendo à nossa história mais antiga e à mais recente, talvez seja precisamente isso: o rebuliço.

Num país como o nosso, o que nos define não é a ordem perfeita nem a estabilidade absoluta, mas a capacidade quase teimosa de continuar apesar do caos. Somos feitos de contradições — queixamo-nos de tudo, mas defendemos tudo; desconfiamos do futuro, mas insistimos em ficar; resmungamos, mas ajudamos.

Define-nos a memória curta e a saudade longa. O improviso elevado a sistema. A ironia como mecanismo de sobrevivência. A tendência para achar que “isto nunca vai mudar” enquanto, silenciosamente, mudamos um bocadinho todos os dias.

Define-nos também uma certa humanidade teimosa: no meio do rebuliço, ainda há tempo para um café, para uma conversa, para “desenrascar alguém”. Mesmo quando o país parece andar aos solavancos, as pessoas continuam a segurar-se umas às outras.

No fundo, talvez o que nos define seja isto: não a ausência de crise, mas a forma quase íntima como aprendemos a viver dentro dela.

 

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