Há um cheiro específico de Páscoa que não se compra em lado
nenhum. É o cheiro da casa dos avós aquecida pela lareira, da canela em excesso
no arroz-doce, do folar ainda morno, embrulhado num pano de linho. É o cheiro dum
tempo a desacelerar.
Vivemos o resto do ano em fuga. Corremos de reunião em
reunião, de tarefa em tarefa, de urgência em urgência. Mas a Páscoa tem este
dom estranho: chega e impõe uma espécie de trégua. Como se o calendário
dissesse, com a autoridade de um pai velho — agora, pára.
E paramos. Mal, às vezes. Com o telefone ainda na mão, meio
envergonhados. Mas paramos.
A mesa comprida reaparece. Os primos que raramente se veem
voltam a ter corpo e voz, com as caras mais crescidas, os novos filhos, as
histórias que começam sempre por "então não sabes o que se
passou...". A avó serve todos em demasia e fica magoada se alguém
recusa. O avô adormece na cadeira, antes do café. E há algo de sagrado nessa
banalidade toda.
Este tipo de Páscoa não exige grande coisa. Pede, apenas, que
estejamos presentes. Que nos sentemos à mesa sem pressa. Que ouçamos as
histórias que já conhecemos de cor, como se as ouvíssemos pela primeira vez.
Que deixemos o tempo passar devagar, por uma vez.
Esta Páscoa não é sobre a Ressurreição. É sobre o regresso.
Àquele lugar onde ainda somos tratados pelo nome de quando éramos pequenos.
Onde nos sentamos no mesmo sítio do costume. Onde o tempo, por uns dias, se
dobra sobre si próprio e nos deixa ser, em simultâneo, quem fomos e quem somos.
Sem comentários:
Enviar um comentário