terça-feira, 31 de março de 2026

APENAS UM CHEIRO DE PÁSCOA

Há um cheiro específico de Páscoa que não se compra em lado nenhum. É o cheiro da casa dos avós aquecida pela lareira, da canela em excesso no arroz-doce, do folar ainda morno, embrulhado num pano de linho. É o cheiro dum tempo a desacelerar.

Vivemos o resto do ano em fuga. Corremos de reunião em reunião, de tarefa em tarefa, de urgência em urgência. Mas a Páscoa tem este dom estranho: chega e impõe uma espécie de trégua. Como se o calendário dissesse, com a autoridade de um pai velho — agora, pára.

E paramos. Mal, às vezes. Com o telefone ainda na mão, meio envergonhados. Mas paramos.

A mesa comprida reaparece. Os primos que raramente se veem voltam a ter corpo e voz, com as caras mais crescidas, os novos filhos, as histórias que começam sempre por "então não sabes o que se passou...". A avó serve todos em demasia e fica magoada se alguém recusa. O avô adormece na cadeira, antes do café. E há algo de sagrado nessa banalidade toda.

Este tipo de Páscoa não exige grande coisa. Pede, apenas, que estejamos presentes. Que nos sentemos à mesa sem pressa. Que ouçamos as histórias que já conhecemos de cor, como se as ouvíssemos pela primeira vez. Que deixemos o tempo passar devagar, por uma vez.

Esta Páscoa não é sobre a Ressurreição. É sobre o regresso. Àquele lugar onde ainda somos tratados pelo nome de quando éramos pequenos. Onde nos sentamos no mesmo sítio do costume. Onde o tempo, por uns dias, se dobra sobre si próprio e nos deixa ser, em simultâneo, quem fomos e quem somos.

 

Sem comentários: