Hoje li um texto com este título do jesuíta padre Marco
António e apeteceu-me pegar no conceito e, decerto, com menos espiritualidade,
explicar como o vejo e sinto.
A concavidade do silêncio não é apenas ausência de som; é um
espaço que se curva para dentro, como se o mundo, cansado de se expandir,
decidisse, por um instante, recolher-se em si mesmo. Nesse recuo, o silêncio
não se limita a calar ruídos — ele molda uma espécie de arquitetura invisível,
onde o pensamento ecoa com mais nitidez, onde cada sensação ganha contornos
mais densos.
Há silêncios que são planos, superficiais, como paredes lisas
onde nada se fixa. Mas a concavidade do silêncio é diferente: ela acolhe. É uma
cavidade que recebe o que foi dito e o que nunca chegou a ser pronunciado,
guardando fragmentos de intenções, memórias e afetos. Nesse espaço curvo, o som
não desaparece; ele se transforma, torna-se ressonância íntima, quase um
sussurro interno, que só pode ser ouvido por quem se dispõe a escutar além da
superfície.
Talvez seja por isso que o silêncio profundo cause
desconforto em alguns. Porque ao entrar nessa concavidade, não encontramos o
vazio, mas uma amplificação do que carregamos. O silêncio devolve, em forma de
eco, aquilo que tentamos dispersar no ruído quotidiano. Ele não julga, mas
também não suaviza. Apenas revela.
E, ainda assim, há uma estranha ternura nesse movimento. A
concavidade protege. Como um abrigo escavado na matéria do tempo, ela permite
que o ser repouse sem a urgência da resposta, sem a necessidade de preencher
cada intervalo com palavras. Nesse espaço, existir é suficiente.
No fim, talvez o silêncio não seja o oposto do som, mas sua
profundidade mais íntima — o lugar onde tudo o que poderia ser dito permanece
em estado de possibilidade, suspenso, esperando não necessariamente por voz,
mas por compreensão.
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