segunda-feira, 4 de maio de 2026

AS RECORDAÇÕES

As recordações não chegam com aviso. Elas insinuam-se devagar, como luz atravessando uma fresta esquecida e, de repente, estamos lá — não aqui, não agora, mas num tempo suspenso onde tudo ainda pulsa. Há nelas um peso suave, quase contraditório: aquecem enquanto apertam.

Guardo lembranças como quem coleciona fragmentos de um espelho partido. Nenhuma mostra o todo, mas cada uma reflete um pedaço de quem fui. O riso solto numa tarde sem pressa, o silêncio partilhado que dizia mais do que palavras, o cheiro de algo que já não existe — tudo isso permanece, mesmo quando já não sei exatamente porquê.

Às vezes, as recordações são abrigo. Outras, são maré que insiste em voltar, trazendo consigo o que pensei ter deixado ir. Há dias em que me perco nelas, como quem percorre uma casa antiga, tocando paredes, abrindo gavetas, redescobrindo versões de mim que já não cabem no presente.

E, ainda assim, há uma beleza nisto tudo. Porque lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento, de afirmar que algo foi vivido, sentido, real. Mesmo que o tempo transforme contornos, mesmo que a saudade distorça detalhes, as recordações continuam sendo uma prova silenciosa de que existimos em mais de um momento, em mais de uma intensidade.

No fim, talvez sejamos feitos disso: camadas de memória sobrepostas, histórias que se cruzam dentro de nós, ecos de tudo o que já fomos. E, no intervalo, entre uma lembrança e outra, seguimos — incompletos, mas profundamente humanos.

 

Sem comentários: