As recordações não chegam com aviso. Elas insinuam-se
devagar, como luz atravessando uma fresta esquecida e, de repente, estamos lá —
não aqui, não agora, mas num tempo suspenso onde tudo ainda pulsa. Há nelas um
peso suave, quase contraditório: aquecem enquanto apertam.
Guardo lembranças como quem coleciona fragmentos de um
espelho partido. Nenhuma mostra o todo, mas cada uma reflete um pedaço de quem
fui. O riso solto numa tarde sem pressa, o silêncio partilhado que dizia mais
do que palavras, o cheiro de algo que já não existe — tudo isso permanece,
mesmo quando já não sei exatamente porquê.
Às vezes, as recordações são abrigo. Outras, são maré que
insiste em voltar, trazendo consigo o que pensei ter deixado ir. Há dias em que
me perco nelas, como quem percorre uma casa antiga, tocando paredes, abrindo
gavetas, redescobrindo versões de mim que já não cabem no presente.
E, ainda assim, há uma beleza nisto tudo. Porque lembrar é
uma forma de resistir ao esquecimento, de afirmar que algo foi vivido, sentido,
real. Mesmo que o tempo transforme contornos, mesmo que a saudade distorça
detalhes, as recordações continuam sendo uma prova silenciosa de que existimos
em mais de um momento, em mais de uma intensidade.
No fim, talvez sejamos feitos disso: camadas de memória
sobrepostas, histórias que se cruzam dentro de nós, ecos de tudo o que já
fomos. E, no intervalo, entre uma lembrança e outra, seguimos — incompletos,
mas profundamente humanos.
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