Há algo estranho em sermos humanos: não conseguimos ver-nos
diretamente. Não como vemos uma paisagem ou um objeto. Precisamos sempre de um
“reflexo” — e, muitas vezes, esse reflexo são os outros.
No início, isto até faz sentido. Quando somos mais novos, não
temos outra forma de perceber quem somos. Vamos recolhendo pistas: a forma como
nos olham, o tom com que falam connosco, os rótulos que aparecem quase sem
darmos conta. E, aos poucos, começamos a vestir essas ideias como se fossem
nossas. Nem sempre por acreditarmos nelas de imediato, mas porque estão ali,
repetidas, consistentes, difíceis de ignorar.
O problema é que essas perceções vêm de fora — e quem está de
fora vê sempre só fragmentos. Vê versões nossas em momentos específicos,
interpreta comportamentos com base nas suas próprias experiências e projeta
expectativas. Ainda assim, quando essas visões se repetem, ganham peso. Começam
a soar a verdade. E, a certa altura, deixam de parecer uma opinião alheia e
passam a soar como uma descrição objetiva de quem somos.
Há também um certo cansaço em resistir. Questionar
constantemente o que os outros pensam de nós exige energia, e nem sempre temos
essa energia. Então, às vezes, aceitamos. Não de forma consciente, mas subtil.
Como quem ajusta a postura sem reparar.
E há momentos em que isso encaixa mesmo em dúvidas que já
estavam cá dentro. Nessas alturas, a perceção externa não entra — ela confirma.
E a confirmação tem um poder enorme.
Mas no meio disto tudo, há uma verdade menos confortável e
mais libertadora ao mesmo tempo: aquilo que os outros veem nunca é o todo. É
uma versão. Às vezes próxima, às vezes completamente ao lado.
Talvez o mais difícil — e mais importante — seja criar um
espaço interno onde possamos perguntar: “Isto que dizem a meu respeito… faz
mesmo sentido para mim?” Não para rejeitar tudo, nem para aceitar tudo. Mas
para escolher, com algum cuidado, o que fica.
Porque, no fim, viver guiado apenas pelo reflexo dos outros,
é como tentar conhecer o próprio rosto, através de espelhos partidos — há
sempre partes que faltam, e outras que aparecem distorcidas.
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