domingo, 3 de maio de 2026

COMO NOS VEMOS

Há algo estranho em sermos humanos: não conseguimos ver-nos diretamente. Não como vemos uma paisagem ou um objeto. Precisamos sempre de um “reflexo” — e, muitas vezes, esse reflexo são os outros.

No início, isto até faz sentido. Quando somos mais novos, não temos outra forma de perceber quem somos. Vamos recolhendo pistas: a forma como nos olham, o tom com que falam connosco, os rótulos que aparecem quase sem darmos conta. E, aos poucos, começamos a vestir essas ideias como se fossem nossas. Nem sempre por acreditarmos nelas de imediato, mas porque estão ali, repetidas, consistentes, difíceis de ignorar.

O problema é que essas perceções vêm de fora — e quem está de fora vê sempre só fragmentos. Vê versões nossas em momentos específicos, interpreta comportamentos com base nas suas próprias experiências e projeta expectativas. Ainda assim, quando essas visões se repetem, ganham peso. Começam a soar a verdade. E, a certa altura, deixam de parecer uma opinião alheia e passam a soar como uma descrição objetiva de quem somos.

Há também um certo cansaço em resistir. Questionar constantemente o que os outros pensam de nós exige energia, e nem sempre temos essa energia. Então, às vezes, aceitamos. Não de forma consciente, mas subtil. Como quem ajusta a postura sem reparar.

E há momentos em que isso encaixa mesmo em dúvidas que já estavam cá dentro. Nessas alturas, a perceção externa não entra — ela confirma. E a confirmação tem um poder enorme.

Mas no meio disto tudo, há uma verdade menos confortável e mais libertadora ao mesmo tempo: aquilo que os outros veem nunca é o todo. É uma versão. Às vezes próxima, às vezes completamente ao lado.

Talvez o mais difícil — e mais importante — seja criar um espaço interno onde possamos perguntar: “Isto que dizem a meu respeito… faz mesmo sentido para mim?” Não para rejeitar tudo, nem para aceitar tudo. Mas para escolher, com algum cuidado, o que fica.

Porque, no fim, viver guiado apenas pelo reflexo dos outros, é como tentar conhecer o próprio rosto, através de espelhos partidos — há sempre partes que faltam, e outras que aparecem distorcidas.

 

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