sexta-feira, 10 de abril de 2026

O PRIMEIRO BANHO DE PRIMAVERA

A manhã chegou com aquela luz diferente — mais dourada, mais inclinada, como se o sol tivesse mudado de ideia sobre o ângulo certo para acordar o mundo. Era o primeiro dia que o calor pedia pele descoberta, e o rio lá em baixo parecia saber disso.

A água ainda guardava o frio de fevereiro nas camadas mais fundas, mas a superfície já se tinha rendido. Espelhava o azul de um céu sem nuvens e os ramos novos das árvores, que esticavam os primeiros verdes como dedos depois de um longo sono.

Entrar foi um ritual sem liturgia. Primeiro os pés — o choque, o riso involuntário, a vontade de recuar e a decisão de não recuar. Depois os tornozelos, os joelhos, e o momento de suspensão antes da entrega total. O mergulho.

Debaixo d'água, o mundo ficou quieto de um modo que só a água consegue. O frio apertou o peito como um abraço brusco de quem tem saudades. E então o corpo aceitou. A pele começou a perceber que aquilo não era agressão — era presença.

Quando a cabeça emergiu, havia algo diferente no ar. Não no ar, em si mas no modo de respirá-lo. Mais fundo. Mais atento. Como se o banho tivesse lavado também qualquer coisa por dentro, algum resíduo de inverno que nem se sabia que ainda estava lá.

A Primavera não começa no calendário. Começa quando se entra nessa água pela primeira vez e se percebe, com todo o corpo, que o mundo voltou a querer ser habitado.

 

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