A manhã chegou com aquela luz diferente — mais dourada, mais
inclinada, como se o sol tivesse mudado de ideia sobre o ângulo certo para
acordar o mundo. Era o primeiro dia que o calor pedia pele descoberta, e o rio
lá em baixo parecia saber disso.
A água ainda guardava o frio de fevereiro nas camadas mais
fundas, mas a superfície já se tinha rendido. Espelhava o azul de um céu sem
nuvens e os ramos novos das árvores, que esticavam os primeiros verdes como
dedos depois de um longo sono.
Entrar foi um ritual sem liturgia. Primeiro os pés — o
choque, o riso involuntário, a vontade de recuar e a decisão de não recuar.
Depois os tornozelos, os joelhos, e o momento de suspensão antes da entrega
total. O mergulho.
Debaixo d'água, o mundo ficou quieto de um modo que só a água
consegue. O frio apertou o peito como um abraço brusco de quem tem saudades. E
então o corpo aceitou. A pele começou a perceber que aquilo não era agressão —
era presença.
Quando a cabeça emergiu, havia algo diferente no ar. Não no
ar, em si mas no modo de respirá-lo. Mais fundo. Mais atento. Como se o banho
tivesse lavado também qualquer coisa por dentro, algum resíduo de inverno que
nem se sabia que ainda estava lá.
A Primavera não começa no calendário. Começa quando se entra
nessa água pela primeira vez e se percebe, com todo o corpo, que o mundo voltou
a querer ser habitado.
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