quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

UMA ESTADIA NO VALE DO GAIO

Meu querido Vasco,
Queremos agradecer-te, de coração cheio, a forma tão especial como nos recebeste no teu hotel. Mais do que uma estadia, foi um verdadeiro abraço — feito de atenção, de carinho, de muita gargalhada, e daquela hospitalidade rara que só nasce quando há amizade verdadeira.

Em cada detalhe sentiu-se o cuidado, em cada gesto a generosidade, e em cada conversa a alegria simples de estarmos juntos. Tudo isto envolto num Alentejo muito especial, sereno e autêntico, que parece ganhar outra alma quando vivido assim, entre amigos.

Levamos connosco memórias bonitas, o conforto de nos termos sentido em casa e a certeza de que esta amizade continua a crescer, tal como o encanto desse lugar que tão bem sabes cuidar, com aquele toque de qualidade que é o teu. Obrigado por tudo.

 

AS PONTES

Esta lindíssima escultura chamada "Tendiendo Puentes" (construindo pontes) do artista Lorenzo Quinn, foi apresentada na Bienal de Veneza em 2019. É composta por seis pares de mãos e braços gigantes entrelaçados, que têm um significado especial, que vale a pena relembrar, quando olhamos para ela.

A escultura simboliza a necessidade de união e a importância de superar divisões em tempos conturbados. Deste modo, elas formam uma ponte sobre um canal, no distrito de Castelli, em Veneza. As mãos simbolizam a necessidade de haver elos sólidos para superar diferenças e dificuldades.

Cada par de mãos representa um dos seis valores humanos do Universo, essenciais para construir pontes:  AMIZADE, SABEDORIA, SOLIDARIEDADE, FE, ESPERANÇA e AMOR. Aliás os valores que nos permitem, hoje, mais do que nunca, aspirar todos por um mundo melhor. Que elas continuem em 2026 a permitir que possamos dizer e sentir Feliz Ano Novo!

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A ÚLTIMA BADALADA

A passagem do ano é um instante suspenso no tempo. Não é apenas a mudança de um número no calendário; é um ritual íntimo, quase secreto, que cada pessoa vive à sua maneira. Há sempre uma certa expectativa, como se o futuro estivesse ali, a poucos segundos, pronto para ser tocado. É a sensação de que algo pode mudar — mesmo que nada mude de imediato.

Mistura‑se também uma nostalgia suave, aquela vontade de olhar para trás e revisitar o que fomos. Recordamos vitórias, tropeços, pessoas que chegaram, outras que partiram. É um inventário emocional que fazemos sem perceber, como quem arruma uma gaveta, antes de a fechar.

Ao mesmo tempo, nasce uma esperança teimosa. Mesmo quem não acredita em superstições, sente que a meia‑noite abre uma porta invisível. É o desejo de recomeçar, de fazer melhor, de deixar para trás o que pesou. É a promessa silenciosa que fazemos a nós próprios.

Mas há também uma certa melancolia, porque todo fim carrega um pequeno luto. O ano que passou não volta, e isso tem um peso. É um adeus discreto, mas sentido.

E, claro, existe a alegria — às vezes ruidosa, às vezes tranquila. A alegria de estar vivo, de estar com quem importa, de ter chegado até aqui. A alegria de contar em voz alta os últimos segundos e sentir o coração acelerar, como se fosse a primeira vez.

No fundo, a passagem do ano é um mosaico de emoções contraditórias: esperança e saudade, entusiasmo e medo, alegria e silêncio. É isso que a torna tão humana. É isso que a torna, também, tão pessoal.

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

NATAL EM TEMPO DE GUERRA

O Natal, tradicionalmente marcado pela esperança, pela união e pelo nascimento da paz, adquire um significado profundo e doloroso quando vivido em tempo de guerra. Enquanto em muitos lares o brilho das luzes e o calor das reuniões familiares anunciam celebração, em outros o som que ecoa é o das explosões, das sirenes e do choro silencioso de quem perdeu tudo.

Em cenários de conflito, o Natal deixa de ser apenas uma data no calendário e transforma-se  num ato de resistência. Celebrar, ainda que de forma simples, é afirmar a humanidade diante da destruição. Um pedaço de pão dividido, uma vela acesa, uma oração sussurrada ou um abraço apertado tornam-se símbolos poderosos de fé e sobrevivência. Onde a guerra tenta apagar sonhos, o Natal insiste em reacendê-los.

As crianças, que deveriam associar essa época a presentes e alegria, aprendem cedo demais o significado do medo e da ausência. Muitas esperam não por brinquedos, mas por notícias de pais que não retornaram, por um dia sem bombardeios, por uma noite de sono tranquila. Ainda assim, os seus olhares carregam uma esperança teimosa, como se acreditassem que a paz pode nascer mesmo no meio dos escombros.

O Natal em tempo de guerra também convida à reflexão daqueles que estão longe do conflito. Ele lembra que a mensagem de amor ao próximo não pode ser seletiva, nem limitada por fronteiras. A solidariedade, a empatia e o compromisso com a vida tornam-se presentes urgentes e necessários.

Assim, mesmo cercado pela dor, o Natal continua sendo uma chamada à paz. Um sinal de que, apesar da guerra, a humanidade ainda pode escolher a compaixão. Porque enquanto houver alguém disposto a amar, a partilhar e a esperar, o verdadeiro espírito do Natal não estará perdido — estará apenas lutando para sobreviver.

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

PESSOAS: MARIA SERUYA A MULHER DE MIL SUPERFICIES

 

Maria Seruya não cabe em rótulos. É daquelas presenças que, ao entrar numa sala, parecem expandir o ar, como se cada gesto contasse várias histórias ao mesmo tempo. Multifacetada — palavra que nela deixa de ser metáfora e se torna um modo de existir — Maria caminha por diferentes mundos, com a mesma naturalidade com que outros mudam de roupa.

Artista por intuição, pensadora por inquietação e criadora por necessidade vital, ela constrói pontes entre universos que, para muitos, jamais se tocariam. Num dia fala com a precisão de quem decanta ideias; no outro, cria imagens que parecem brotar diretamente do subconsciente. Maria tem o dom raro de transformar fragmentos em sentido, caos em ritmo, silêncio em linguagem.

Os seus projetos — sejam eles artísticos, humanos ou simplesmente quotidianos — sopram a mesma marca: a autenticidade. Nada em Maria é superficial. Cada escolha reflete uma camada dela, e há sempre outra por baixo, vibrando, chamando, pedindo para ser descoberta. Talvez seja por isso que tantos se sentem atraídos pela sua presença: ela é um convite permanente à curiosidade.

Mas o que realmente torna Maria Seruya multifacetada, não é a quantidade de coisas que faz, e sim a profundidade com que habita cada uma. Ela sabe ser plural sem perder o centro; sabe ser vasta sem se dispersar. Uma mulher que reflete muitas luzes — e, ainda assim, guarda o mistério de algumas sombras.

Maria Seruya, na sua multiplicidade, lembra ao mundo que ninguém precisa ser apenas uma coisa. Que a vida, quando vivida com coragem, pode ser um mosaico — e que a beleza está exatamente nisso.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

AS MALVADAS CONTAS

“O primeiro-ministro, que uns dias antes tinha sugerido aproveitar a oportunidade da possível mudança das leis laborais para elevar o salário mínimo para os 1.500 euros e o médio para 2.000 ou 2.500, disse não querer "que o salário médio chegue aos 1.600 ou 1.700", mas sim que "chegue aos 2.500, 2.800 ou 3.000 euros".

Não costumo falar de política, mas esta frase do primeiro-ministro, retirada das notícias que respeitam a economia do país, levantou-me algumas dúvidas, e por isso, obrigou-me a faze umas contas de matemática básica, em que apenas entrei com números que são do domínio público.

De acordo com elas, a afirmação parece-me, sobretudo, retórica e aspiracional. O primeiro-ministro projeta salários médios muito elevados (2.500–3.000 euros) para mostrar ambição política e distanciar-se de metas mais modestas. No entanto, do ponto de vista económico, esses valores parecem pouco realistas a curto prazo, sem um forte aumento da produtividade e reformas estruturais. Falta também clareza, sobre como esses objetivos seriam alcançados, o que reforça o carácter mais discursivo do que prático, da declaração. Isto de acordo com as minhas contas, claro!

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

GLENN MILLER ORCHESTRA

Fui ontem ao CCB - Centro Cultural de Belém-, ouvir a icónica Glenn Miller Orchestra, sob a direção do maestro Ray McVay , que retornou a Portugal para um concerto especial. Foi no fim da tarde de ontem, em que dirigiu os 20 talentosos músicos e cantores desta magnifica orquestra, num espetáculo que, como num estalar de dedos, nos faz recuar até aos anos 1930. Ainda consegui emocionar-me, tantas décadas depois, porque se trata de um dos compositores de quem mais gosto.

O prazer de ouvir a música de Glenn Miller está na forma como ela envolve o ouvinte com leveza, elegância e um sentimento de alegria serena. As suas peças marcadas, pelo som inconfundível dos metais e pelo ritmo suave do swing, criam uma atmosfera acolhedora, capaz de transportar a mente para outra época. Ao ouvir as suas composições, é fácil imaginar salões de dança iluminados, pessoas sorrindo e momentos de descontração que parecem suspensos no tempo.

 A música de Glenn Miller não é apenas entretenimento. É uma experiência que desperta nostalgia, tranquilidade e prazer, mostrando como a arte pode atravessar gerações e continuar a tocar o coração de quem a escuta.

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O PAI DA CLARA

Não, não venho falar de Clara Pinto Correia. Já muitos, antes de mim, o fizeram e com mais conhecimento de causa do que eu, que pouco a conheci. Venho falar de um homem que era meu amigo, salvou a minha vida e era pai da Clara. Venho falar do Professor José Pinto Correia, consensualmente aclamado como um dos maiores vultos da Gastroenterologia nacional e internacional, e que deixou pegadas demasiado marcadas para que o tempo o consiga apagar. Foi das melhores mais brilhantes pessoas que conheci. E que, enquanto viveu foi o médico que sempre me acompanhou.

Conhecemo-nos numa reunião da então JUC – Juventude Universitária Católica- e a partir daí, foram várias as razões que nos juntaram, para além da saúde. Havia um lado de humor e até de diversão nele, que só os mais próximos sabiam.

Conheci, assim, os pais muito antes das filhas. Mas a existência delas, sentia-se nos pais que conheci. Havia neles um amor repartido, treinado na partilha, um cuidado que sabia multiplicar-se sem perder profundidade. Não falavam de uma filha só, mas de um pequeno mundo construído a várias vozes.

Nos gestos, via-se a experiência de quem criou mais do que uma vida: a paciência, a atenção ao detalhe, a capacidade de ouvir. Clara vinha desse espaço cheio, onde ninguém cresce sozinho, onde se aprende cedo a existir com o outro ao lado.

Ao conhecer os pais, percebi que Clara — e as irmãs — eram fruto desse equilíbrio discreto: um amor firme, silencioso, que não distingue para diminuir, mas que sustenta todas por igual.

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O RECONHECIMENTO PÓSTUMO

Há vidas que passam silenciosas diante do mundo, mas intensas dentro de si. Pessoas que constroem, criam, inovam, servem, inspiram – e, mesmo assim, caminham à margem do aplauso. Só depois que se vai a presença, é que desperta a ausência. E com ela, surge aquele reconhecimento tardio, quase sempre acompanhado de um arrependimento coletivo: “Como não vimos antes?”

O reconhecimento póstumo revela, acima de tudo, a dificuldade humana de valorizar o que está perto, o que é quotidiano, o que não se impõe. É mais fácil admirar à distância do que contemplar quem está diante de nós. Talvez porque, no dia a dia, confundimos simplicidade com falta de grandeza, e humildade com falta de valor.

No entanto, quando alguém parte, a memória ilumina o que os olhos não enxergaram a tempo. Pequenos gestos ganham profundidade; contribuições antes discretas revelam-se essenciais; talentos ignorados tornam-se, de repente, irrefutáveis. A ausência escancara o tamanho da presença, que antes foi tratada como comum.

Mas o reconhecimento póstumo também serve como espelho. Nele refletimos nossa tendência a adiar elogios, silenciar gratidões e deixar para depois, a celebração de quem faz diferença. A partida transforma esse “depois” em nunca mais.

Por isso, lembrar que muitos só foram reconhecidos depois de partir, é um convite à urgência. A de valorizar hoje. quem merece ser visto. Celebrar em vida, o que tantas vezes, só se exalta na memória. Porque todos carregam dentro de si uma história digna de ser reconhecida — e é injusto permitir que o mundo só a descubra quando não houver mais tempo.

SERIA BOM PENSAR

Este tema, infelizmente, continua a ser objeto de preocupação das Famílias. Não será altura de tomar decisões por parte do Ministro da Educação, ou ele está inteiramente de acordo com o que aqui se transmite?
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ELOS QUE NÃO SE EXPLICAM


Há vínculos que desafiam a lógica com a mesma naturalidade com que a gravidade mantém os corpos próximos, sem que precisemos compreender o fenómeno. São laços que emergem antes do pensamento, como se encontrassem o seu fundamento em algo mais antigo do que as palavras — talvez na própria estrutura da experiência humana.

A filosofia tenta, muitas vezes, reduzir o mundo ao que pode ser dito. Mas há relações que pertencem ao domínio do indizível, aquilo que Wittgenstein chamaria de “o que se mostra”. Não são explicáveis, apenas reconhecíveis. Revelam-se em gestos mínimos como a familiaridade imediata, o conforto espontâneo, o sentido de continuidade sem história prévia.

Estes laços insinuam que o encontro entre duas consciências, não é apenas um cruzamento acidental, mas a atualização de possibilidades invisíveis, que existiam antes. Como se cada pessoa carregasse potenciais de afinidade, que só despertam diante de certas presenças - e não de outras - sem qualquer aparente explicação causal.

Aristóteles diria que há amizades que nascem da virtude ou da utilidade. Mas, talvez exista um tipo de afinidade, que antecede ambas, um modo de reconhecimento, que depende de uma espécie de harmonia ontológica. Dois modos de ser que, por razões insondáveis, vibram na mesma frequência.

O mistério desses laços lembra-nos que a vida não pode ser totalmente contida no racional. Há dimensões que a linguagem não captura e que, no entanto, orientam profundamente o nosso caminho. Talvez a função desses vínculos seja, justamente, ensinar-nos humildade diante do inexplicável, aceitar que nem tudo o que nos toca pode ser dissecado, e que parte da beleza da existência, reside justamente em convivermos com aquilo que apenas se sente e não se resolve, não se define.

Em última análise, os laços que não se explicam são um testemunho silencioso de que o humano ultrapassa o humano. São fissuras por onde o mistério escorre, lembrando-nos de que a vida acontece também no que escapa, no que surpreende, no que não cabe em nenhum porquê.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

COMO SE PASSA DE POBRE A MENOS POBRE (com leveza, porque rir é de graça)


Passar de pobre a menos pobre é espécie de videogame: começa-se sem itens, sem moedas e com um monstro chamado “conta de luz a perseguir-nos. Mas dá para avançar.

Primeiro, terá de descobrir para onde seu dinheiro se some, ou melhor, foge. Controlar gastos é, basicamente, pôr uma coleira neste bicho.

Depois, vem o ritual de expulsar dívidas. Não é exorcismo, mas quase. Renegoceia aqui, corta juros ali e, de repente, sobram uns trocados que antes se evaporavam misteriosamente.

A seguir, aparece a fase de ganhar um qualquer extra. Vender algo, fazer um biscate, aceitar, sim, aquele concerto que não queremos, mas que o dono quer. Cada moeda a mais, deixa-nos menos na masmorra.

Aprender algo novo também ajuda. Quanto mais habilidades, mais valemos — tipo Pokémon evoluindo, só que mais cansado.

E, claro, começa a guardar um pouquinho. Mesmo que seja tão pouco, que nem vale a pena pensar “para quê?”.  

Calma: isto é a armadura anti- imprevistos. Sem ela, qualquer problema vira desastre total.

No fim, ficar “menos pobre” é isto: controlar o caos, ganhar uns extras, aprender coisas e juntar migalhas até virar pão.

E quando se dá conta… ops! Já subiu um degrauzinho. Não é riqueza, mas já dá para respirar (e talvez até para pedir sobremesa de vez em quando).

É assim que, uma modesta economista, explica como se fica menos pobre, sem ter, sequer o suficiente!

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O ESPANTO

O espanto é uma das experiências humanas mais antigas e fundamentais. Ele surge no intervalo entre o que conhecemos e o que excede a nossa compreensão, abrindo uma fissura no quotidiano pela qual percebemos, ainda que por um instante, a dimensão profunda do real. Não é apenas surpresa; é um estremecimento que reorganiza o olhar, uma chamada silenciosa que nos faz reconsiderar aquilo que julgávamos estável.

Diante do espanto, a mente suspende os seus automatismos. As explicações prontas perdem força, e o mundo revela aspetos que passam despercebidos quando estamos presos ao ritmo habitual da vida. Esse estado desperta uma lucidez particular: ao mesmo tempo em que nos sentimos pequenos perante o desconhecido, reconhecemos a vastidão das possibilidades que existem além das fronteiras do familiar.

O espanto é também fértil. Dele nascem perguntas, investigações, teorias, obras de arte. A filosofia, por exemplo, encontra na capacidade de espantar-se a sua origem. É quando algo nos desacomoda que começamos a pensar com profundidade. A ciência, igualmente, avança quando o espanto diante de um fenómeno desafia certezas e exige novas respostas.

Num tempo marcado pela pressa, cultivar o espanto é quase um ato de resistência. Exige atenção, presença e a disposição de admitir que não sabemos tudo — talvez, nem mesmo, o essencial. Mas é justamente essa abertura, que permite que o mundo continue a ser uma fonte inesgotável de sentido.

O espanto, portanto, não é, apenas, uma emoção. É uma forma de despertar. Ele lembra que a realidade é maior do que as nossas explicações, e que a vida, em toda a sua complexidade, ainda pode — e deve — surpreender-nos!

 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A IMPORTÂNCIA DE UM TIL

Vamos, hoje, aprender um pouco da língua portuguesa. Julgam que sabem tudo? Vamos ver e brincar um pouco com o til.

O til (~) é um sinal gráfico fundamental na língua portuguesa e exerce um papel importante na correta pronúncia e compreensão das palavras. Ele aparece principalmente sobre as vogais a e o, formando as sequências ã e õ, que indicam nasalização. Essa nasalidade muda completamente o som e, muitas vezes, o sentido das palavras.

Sem o til, diversas palavras ficariam ambíguas ou teriam significados completamente diferentes. Por exemplo, “maca” e “maçã”, “pelo” e “pêlo”, “cor” e “côr” eram tradicionalmente diferenciados por acentos e sinais gráficos; no caso específico do til, ele é indispensável em termos como “cão”, “irmã”, “maçã”, “nação” e tantos outros, nos quais a nasalização é parte essencial da forma correta.

Além disso, o til cumpre uma função histórica, já que muitos de seus usos derivam de abreviações de antigas letras ou combinações de vogais nasais. A sua presença ajuda a preservar a identidade sonora da língua portuguesa e garante que a leitura e a escrita sejam coerentes com a fala.

Portanto, o til não é apenas um detalhe gráfico, mas um elemento que assegura clareza, precisão e musicalidade ao idioma. Sem ele, a escrita perderia parte de sua expressividade e dificultaria a comunicação. Então, sabiam?

 

domingo, 7 de dezembro de 2025

A TRADIÇÃO COMO VANGUARDA

Num mundo que avança a ritmo vertiginoso, onde cada inovação parece superar a anterior, antes mesmo de amadurecer, há um movimento silencioso — porém cada vez mais evidente — que resgata o valor do que já existiu. A tradição, muitas vezes vista como algo estático ou ultrapassado, ressurge como força criativa, como fonte de identidade e como instrumento de resistência cultural.

A verdadeira vanguarda de hoje não está apenas no rompimento com o passado, mas na capacidade de revisitá-lo com novos olhos. O antigo torna-se matéria-prima para o novo: as técnicas artesanais ganham releituras contemporâneas, as narrativas ancestrais inspiram expressões artísticas modernas, e os valores que pareciam esquecidos reaparecem como contraponto ao excesso de superficialidade do presente.

A tradição, quando reinterpretada, não limita — expande. Ela ancora, dá profundidade, oferece autenticidade. É justamente essa combinação entre raízes sólidas e olhar renovado que define o espírito da nova vanguarda. Um futuro que não teme dialogar com o seu passado.

 

ANIVERSARIANDO

Hoje é meu aniversário – dizem, porque eu não me lembro de nada. Acreditando que assim seja, parabéns a mim própria, que consegui sobreviver mais um ano, sem virar meme, sem fugir para um planeta desabitado e sem ser abduzida (embora eu não descartasse a última opção).

Trata-se daquele dia especial, em que as pessoas dizem “aproveita muito!”, como se eu fosse fazer algo extraordinário… tipo pular de paraquedas, aprender mandarim e reorganizar minha vida inteira entre o bolo e os parabéns…
A realidade? Julgo que com a gripe que apanhei, vou comer, rir, fingir que estou mais sábia e aceitar que a minha maior conquista do dia, é não dormir durante os festejos longos demais.

Também vou receber mensagens do tipo “mais um ano de vida!”, como se eu tivesse ganhado isto numa promoção. Adoraria ganhar cupons, inclusive. Ou cashback. Mas não. Ganhei mais responsabilidades, rugas e a chance de preencher mais formulários. E perdi, de acordo com a futura legislação, a minha liberdade de conduzir para onde quisesse e quando me apetecesse.

De qualquer forma, aqui estou eu a comemorar convosco mais um capítulo da minha saga anual, torcendo para que este, seja o ano em que, finalmente, descubro o segredo da vida… ou pelo menos onde deixei as minhas chaves.

Enfim, ironicamente, parabéns para uma das mulheres mais interessantes do país, a quem desejo que venham mais 365 dias de caos estiloso, expectativas duvidosas e boas histórias para contar.

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

LEMBRAR OS VIVOS SEM ESQUECER OS MORTOS

Há épocas do ano em que o tempo parece diminuir o passo, convidando-nos a olhar para dentro. São dias em que os encontros ganham outro brilho, e a memória, silenciosa, também pede lugar à mesa. É então que percebemos, como é importante lembrar os vivos sem esquecer os mortos.

Porque aqueles que estão connosco a hoje precisam do nosso cuidado, da nossa presença inteira, dos gestos que constroem o que ainda pode ser vivido. São eles que continuam a escrever, ao nosso lado, a história que segue adiante.

Mas os que partiram também permanecem — não no mesmo lugar, não da mesma forma, mas naquilo que deixaram em nós. Honrar a sua memória é reconhecer que uma parte do que somos foi moldada pelos passos que já não ouvimos, mas que ainda nos acompanham. Lembrá-los não é ficar no passado; é permitir que o amor, mesmo transformado, continue a iluminar o presente.

Assim, entre o que permanece e o que falta, aprendemos a equilibrar a saudade com a gratidão. Celebramos os vivos com alegria e abraçamos os mortos com a ternura da lembrança. E é nesse gesto duplo que a vida encontra profundidade — porque nenhuma ausência apaga o valor de uma presença, e nenhum luto impede que a esperança continue a crescer.

A minha mãe morreu no dia de Natal e levou com ela, uma parte da minha alegria nesta época. Mas o mano mais novo adorava reunir todos em casa dele e até há dois meses era assim que faríamos. A sua morte, completamente inesperada, vai tornar este período mais difícil. Primeiro lembraremos os ausentes e só depois abraçaremos os presentes. Para o ano será melhor!  

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O LAMENTÁVEL DESÂNIMO

Pessoalmente, não sou dada a desânimos. Mas, às vezes, fico verdadeiramente impressionada com “os desânimos” que vejo por aí. E ontem pensei bastante no assunto, porque uma malvada gripe me deixou num estado lamentável.

O desânimo chega silencioso. Às vezes, ele não anuncia a sua chegada: apenas se encosta ao nosso lado, pesa nos ombros e sussurra que nada vale a pena. Ele é aquele intervalo sombrio entre o que queremos ser e o que conseguimos fazer, entre o que sonhamos e o que, na prática, enfrentamos.

É normal sentirmo-nos assim. O desânimo faz parte da experiência humana. Ele aparece quando estamos cansados, quando algo não saiu como esperávamos ou quando o caminho parece maior do que as nossas forças. Mas é importante lembrar que o desânimo é um estado, não uma sentença. Ele não define quem somos, nem determina onde vamos chegar.

Há momentos em que parar é necessário. Respirar. Reorganizar. Permitir-se sentir. Mas, após essa pausa, vale a pena olhar ao redor e perceber que ainda há motivos para continuar. No fundo há pequenos progressos que talvez não tenhamos notado, pessoas que torcem por nós, capacidades que ainda nem sequer foram exploradas.

Superar o desânimo não é dar um salto. Muitas vezes, é apenas, dar o próximo passo — pequeno, simples, mas na direção certa. E cada passo feito com coragem, mesmo quando a vontade falta, é uma vitória silenciosa que fortalece o coração.

O desânimo pode até visitar, mas não precisa morar em nós. Há luz que espera, para além do momento escuro. E nós, mesmo sem perceber, carregamos o brilho necessário para a alcançar. Talvez seja esta a razão, para eu não ser dada a desânimos, mesmo quando a gripe ma apanha…