quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A ARTE DE CRUCIFICAR

Há muitas formas de crucificar alguém, sem sequer tocar no seu corpo. Às vezes, basta uma palavra maldosa, um julgamento precipitado, uma acusação injusta ou um olhar carregado de desprezo, para fazer alguém sofrer em silêncio.

Vivemos num mundo em que muitas pessoas se sentem no direito de julgar a vida dos outros, apontar os seus erros e condenar as suas escolhas, como se fossem perfeitas e nunca tivessem falhado. Esquecem-se, claro, de que por detrás de cada rosto, existe uma história que desconhecem, feridas que não veem e batalhas que não imaginam.

É fácil atirar pedras, quando não somos nós que estamos no centro da tempestade. É fácil condenar, quando não conhecemos a verdade por inteiro. Difícil é ter empatia, estender a mão, ouvir sem julgar e compreender que todos somos humanos, todos erramos e todos precisamos, em algum momento da vida, de compreensão e perdão.

Antes de crucificar alguém com palavras, convém lembrar as  próprias fragilidades Antes de condenar uma história, procure conhecer os seus capítulos. E antes de apontar o dedo, olhe para dentro de si, porque ninguém é tão perfeito que tenha o direito de se considerar juiz da vida alheia. Já basta os que foram incumbidos de tal função!

Que nunca nos falte humanidade para compreender, humildade para reconhecer os nossos próprios erros e sabedoria para perceber que, muitas vezes, o silêncio é mais nobre do que o julgamento.

Porque destruir alguém com palavras pode levar apenas alguns segundos, mas as marcas deixadas no coração podem durar uma vida inteira.

Não crucifiquemos quem já tenta sobreviver às suas próprias dores. Sejamos abrigo, não tempestade; compreensão, não condenação. Afinal, o mundo já tem sofrimento suficiente para que sejamos nós a acrescentar-lhe mais.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O QUE DESCREDIBILIZOU A POLÍTICA?

A política não perdeu a credibilidade de um dia para o outro. Foi-a perdendo aos poucos, através de promessas que ficaram por cumprir, de discursos que não corresponderam às ações e de uma distância cada vez maior entre aqueles que governam e aqueles que esperam ser governados com justiça.

O que desacreditou a política foi, sobretudo, a quebra de confiança. Quando os políticos prometem mudança durante as campanhas eleitorais, mas depois se esquecem das dificuldades de quem trabalha, de quem luta para pagar as contas, de quem espera por uma consulta médica ou de quem procura uma oportunidade para construir um futuro melhor, nasce a desilusão. E quando essa desilusão se repete, transforma-se em desconfiança.

Também contribuíram para esta realidade os casos de corrupção, a falta de transparência, os conflitos de interesses, os privilégios de alguns e a sensação de que nem todos são tratados da mesma forma perante a lei. Cada caso que fica por esclarecer, cada responsabilidade que não é assumida e cada promessa abandonada, alimentam a ideia de que os interesses pessoais podem estar acima do bem comum.

Mas seria injusto afirmar que toda a política é igual ou que todos os políticos agem da mesma maneira. Existem pessoas que entram na vida pública com vontade genuína de servir, de melhorar as condições de vida das populações e de contribuir para uma sociedade mais justa. O problema está em criar condições para que a ética, a competência, a responsabilidade e o interesse público prevaleçam sobre a ambição pessoal e os interesses particulares.

A política não deveria ser uma escada para alcançar poder, mas uma responsabilidade ao serviço das pessoas. Governar não é apenas conquistar votos, fazer discursos bonitos ou aparecer diante das câmaras. É tomar decisões, prestar contas, reconhecer erros e ter a coragem de cumprir aquilo que se prometeu.

O mais preocupante surge quando as pessoas deixam de acreditar não apenas nos políticos, mas também na possibilidade de a política transformar as suas vidas. Quando o cidadão sente que a sua voz só tem importância no momento de votar, cresce a indiferença, o afastamento e a descrença nas instituições democráticas.

Recuperar a credibilidade exige mais do que novas promessas. Exige exemplos, transparência, justiça, respeito pelos cidadãos e consequências para quem não cumpre as suas responsabilidades. A confiança não se exige: conquista-se com atitudes consistentes e resultados concretos.

No fundo, o que desacreditou a política foi a distância entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. E o que poderá devolver-lhe a credibilidade, será precisamente o contrário: menos promessas vazias, menos privilégios, menos interesses pessoais e mais verdade, responsabilidade e compromisso com as pessoas.

Porque a política só recuperará a confiança dos cidadãos quando deixar de ser vista como uma luta pelo poder e voltar a ser reconhecida como aquilo que deveria ser desde o início: uma forma de servir a sociedade e construir um futuro melhor para todos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A ironia na política

A ironia é, talvez, uma das armas mais subtis e eficazes da política. Com uma palavra, um gesto ou uma frase aparentemente inocente, é possível revelar contradições, expor incoerências e desmontar discursos que, de tão solenes, parecem imunes ao ridículo.

Na política, a ironia tem a particular virtude de dizer muito sem precisar de dizer tudo. É a arte de mostrar a distância entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica, entre as promessas feitas em público e as decisões tomadas em privado, entre os princípios invocados e os interesses defendidos.

Há, porém, uma ironia particularmente reveladora: a dos políticos que prometem transparência, mas se refugiam na ambiguidade; que falam em proximidade com os cidadãos, mas vivem cada vez mais distantes das suas dificuldades; que invocam o interesse nacional, mas parecem confundir, tantas vezes, o bem comum com a conveniência própria.

A ironia política não é necessariamente cinismo. Pelo contrário, pode ser uma forma de inteligência crítica, um exercício de lucidez perante os excessos do poder. O seu propósito não é apenas fazer rir, mas sobretudo fazer pensar. Porque, por vezes, uma frase irónica consegue revelar aquilo que páginas inteiras de argumentação não seriam capazes de demonstrar.

Contudo, há uma fronteira delicada entre a ironia e o sarcasmo. A primeira pode iluminar uma contradição; o segundo procura, frequentemente, humilhar o adversário. Quando bem utilizada, a ironia é elegante, incisiva e até pedagógica. Quando mal utilizada, transforma-se num simples instrumento de agressividade, destinado a conquistar aplausos fáceis em vez de esclarecer ideias.

A política precisa de humor, de inteligência e de sentido crítico. Precisa, sobretudo, da capacidade de rir de si própria. Um poder que não suporta a ironia revela, muitas vezes, uma preocupante dificuldade em aceitar a crítica. E uma democracia que perde a capacidade de rir dos seus próprios protagonistas corre o risco de confundir a solenidade com a seriedade e a autoridade com a infalibilidade.

No fundo, a maior ironia da política talvez seja esta: aqueles que mais falam em mudar o mundo são, por vezes, os que mais se esforçam por manter tudo na mesma.

E é precisamente por isso que a ironia continua a ser tão necessária: porque, quando as palavras deixam de corresponder aos atos, o ridículo pode tornar-se uma das últimas formas de verdade.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O MEU PRÉMIO


 A ISEG Alumni Económicas homenageia anualmente 5 Antigos Alunos do ISEG com currículo marcante e um percurso de desenvolvimento profissional de excelência e relevância em termos de funções desempenhadas e responsabilidades assumidas na sociedade portuguesa ou no estrangeiro, constituindo-se como referências para a atividade de Economista e/ou Gestor.

Este ano fui distinguida com o prémio de Antiga Aluna na Carreira Económica, Política e Social 2026.
Quero, por isso, expressar a minha profunda gratidão pela atribuição deste prémio, que muito me honra e sensibiliza.
Lamento sinceramente não ter podido estar presente, por mottivos de saúde nesta ocasião tão especial. Embora não me tenha sido possível partilhar convosco este momento pessoalmente, procurei estar presente através de um pequeno vídeo, feito em casa, com a simplicidade e a sinceridade que as circunstâncias permitiram.
Recebo esta distinção com enorme gratidão, não apenas pelo seu significado pessoal, mas também pelo reconhecimento do percurso que tenho procurado construir enquanto economista, sempre com a convicção de que a Economia deve estar ao serviço das pessoas e da sociedade.
Agradeço, muito reconhecidamente, a quem tornou possível esta homenagem e a todos os que, ao longo do meu percurso, contribuíram para o meu trabalho e me acompanharam nesta caminhada.
Muito obrigada por esta distinção e pela vossa generosidade. Mesmo à distância, foi com emoção e um profundo sentimento de gratidão que vivi este momento.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A SOMA DAS COISAS


Aqui estou eu, novamente, para vos falar do meu novo livro, intitulado A SOMA DAS COISAS. É o quarto, que fecha um quarteto da minha escrita, dedicado a pensar de uma forma mais profunda, naquilo que constitui a parte mais importante das nossas vidas.

Não é um romance, não é um diário, mas é um conjunto de reflexões que nos permitem, eventualmente, escolher o caminho mais adequado à nossa felicidade. E essa foi a real intenção do ciclo que agora fecho. Estará nas livrarias em Outubro!


 

sábado, 17 de outubro de 2026

JOAQUIM LETRIA

Só soube ontem, tarde, quando vinha de um jantar que acabou tardíssimo, que o Joaquim tinha falecido. Fiquei em choque, porque ia sempre sabendo como ele estava.

A nossa amizade vem de longe. Vem de uma entrevista que ele me fez, quando eu era ainda muito jovem, e que, na altura, deu que falar. Não tanto por mim que ninguém conhecia, mas pelo modo bem original, como ele me deu a conhecer.

Meses passados sobre essa entrevista, ele convidou-me para trabalhar com ele numa proposta publicitária, que lhe haviam feito. Há coisas que nunca rejeito, se vierem de alguém em quem confio e de quem gosto. Embarquei!

Joaquim Letria era uma pessoa com uma vida para além da figura pública: os seus afetos, as suas relações, a intimidade, as fragilidades, a maneira de estar com os outros e de enfrentar o passar dos anos.

Sobre a sua morte, há uma distinção importante: saber que alguém morreu não é o mesmo que conhecer as circunstâncias humanas da sua existência. Por isso no caso dele não quero inventar pormenores sobre o que sentia, sobre quem o acompanhou ou sobre a forma como viveu os seus últimos momentos.

Talvez o que procuro seja algo mais pessoal: como era Joaquim Letria enquanto homem, nos seus afetos, na sua vida familiar e na maneira como encarava a vida e a morte.

É por aí que devemos olhar para ele.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MERCADO ÚNICO EMPRESARIAL. ( Uma espécie de proposta) Uma espécie de proposta

“Uma empresa europeia deve poder trabalhar na Europa como se a Europa fosse o seu mercado.”

1. Uma empresa, uma porta de entrada

Uma empresa constituída legalmente em Portugal deveria poder tratar grande parte da sua expansão para outros países europeus, através de um único sistema digital europeu.

Não deveria ter de aprender um sistema diferente em cada país.

2. Menos papelada

Se uma informação já foi entregue ao Estado português, não deveria ser necessário voltar a entregá-la cinco vezes noutro país europeu.

3. Vender para toda a Europa

Uma pequena empresa de Braga, Beja ou Faro deveria poder vender os seus produtos ou serviços em qualquer país da União Europeia com regras claras e fáceis de compreender.

4. Contratar pessoas com mais facilidade

Uma empresa portuguesa que precise de contratar alguém noutro país europeu deveria encontrar um processo simples para o fazer, sem uma montanha de burocracia.

5. Crescer sem ter de ser uma grande empresa

Esta parte é essencial.

As grandes empresas conseguem contratar advogados, contabilistas e especialistas para entrar em novos mercados.

Uma pequena empresa não consegue.

Por isso, o Mercado Único Empresarial deveria ser pensado primeiro para quem tem 5, 10, 20 ou 50 trabalhadores.         

6. Um princípio muito simples

Sempre que uma empresa quisesse fazer uma algo legal num país europeu, a pergunta deveria ser:

“É mesmo necessário criar uma nova barreira?” Se for necessário, elimina-se.

E PORTUGAL?

Aqui está, julgo, a parte mais interessante.

Portugal tem muitas empresas pequenas e médias que poderiam crescer muito mais se fosse mais fácil chegar aos 450 milhões de consumidores europeus.

Em vez de pensarmos apenas:

“Como trazer empresas estrangeiras para Portugal?”

também deveríamos pensar:

“Como levar as empresas portuguesas para a Europa?”

Uma empresa portuguesa não deveria ter de se transformar numa multinacional para conseguir vender em vários países.

Deveria bastar ser uma boa empresa.

A ideia poderia resumir-se assim:

Um país para criar a empresa.
Uma Europa para a fazer crescer.

Dito de outro modo “Uma empresa europeia devia poder trabalhar na Europa, como se a Europa fosse o seu mercado.”

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A SOMA DAS COISAS

É este o título do meu novo livro, que dentro de dias, estará nas livrarias. Fecha-se, com ele, um ciclo de quatro livros, que, há já uns longos meses hibernava dentro de mim, à espera da minha disponibilidade de dar a conhecer as alterações profundas que, entretanto, fui sofrendo.

Perante um novo livro, o autor sente sempre qualquer coisa, difícil de explicar por palavras. É uma mistura de alegria, emoção, orgulho e, talvez, também, um pouco de medo. Porque ele nunca é apenas um conjunto de páginas impressas. É tempo, pensamento, memória, inquietação e, muitas vezes, uma parte de nós, que decidimos deixar à vista dos outros.

Há qualquer coisa de profundamente íntimo quando seguramos, pela primeira vez, um livro que escrevemos. Reconhecemos as palavras, lembramos os dias em que nasceram, as dúvidas que nos acompanharam, os momentos em que pensámos desistir e aqueles em que uma frase, finalmente encontrada, nos devolveu o entusiasmo. E percebemos que, a partir daquele instante, o livro já não nos pertence inteiramente. Vai partir ao encontro de outros olhares, de outras sensibilidades, de outras vidas.

Escrevemos, muitas vezes, para compreender melhor o mundo, para organizar o que sentimos ou, simplesmente, para dar voz, àquilo que não conseguimos dizer de outra maneira. Mas, quando o livro chega às mãos dos leitores, ganha uma vida própria, que já não podemos controlar.

E há também uma espécie de fragilidade neste momento. Por mais livros que tenhamos publicado, cada novo livro traz consigo a vulnerabilidade de quem começa de novo.

Por isso, cada novo livro é, em simultâneo, uma despedida e um começo. Despedimo-nos de um tempo que foi nosso e abrimos a porta a um tempo que será dos outros. E, mesmo sabendo que nem todos irão gostar, que nem todos irão compreender, fica-nos a felicidade de termos escrito aquilo que sentíamos ser necessário escrever.

Porque um livro novo não é apenas mais um livro. É uma parte de nós que ganha mundo. E há sempre uma emoção muito particular em deixar que esse mundo nos leia, nos descubra e, quem sabe, nos guarde um pouco dentro de si.

DAR VIDA AOS ANOS

É cuidar de nós, sem esquecer os outros. É preservar a autonomia, respeitar os nossos ritmos, aceitar as mudanças e aprender a conviver com as limitações que o tempo, por vezes, nos impõe. É compreender que pedir ajuda não diminui a nossa dignidade e que a experiência acumulada ao longo dos anos constitui um património que merece ser partilhado.

Dar vida aos anos é, também, não adiar indefinidamente a felicidade. É telefonar a quem temos saudades, dizer «gosto de ti» enquanto vamos a tempo, perdoar quando o coração o permite, rir sem motivo especial e saborear os pequenos prazeres que tantas vezes passam despercebidos na pressa dos dias.

Há uma beleza particular na maturidade: a de quem já atravessou tempestades, conheceu alegrias e desilusões, perdeu algumas ilusões, mas aprendeu a distinguir o essencial do acessório. Com o tempo, percebemos que nem tudo merece a nossa inquietação, que há batalhas que não precisamos de travar e que a verdadeira riqueza está, muitas vezes, nas coisas mais simples.

Não se trata de fingir que o tempo não passa, nem de transformar cada dia numa obrigação de felicidade. Há dias difíceis, solidões que pesam e ausências que nenhuma palavra consegue preencher. Dar vida aos anos é também aceitar essa realidade, sem vergonha da fragilidade, mas sem desistir da esperança.

Porque viver não é apenas respirar, cumprir rotinas ou esperar pelo dia seguinte. Viver é participar, sentir, criar, amar, aprender e continuar a ter motivos para sair de casa, abrir um livro, passear à beira-mar, encontrar amigos ou simplesmente contemplar o mundo com olhos atentos.

A longevidade é uma conquista. Mas a verdadeira conquista está em dar qualidade, dignidade e significado a esse tempo adicional. Está em construir uma sociedade que respeite os mais velhos, que combata a solidão, que valorize a sua experiência e que não confunda idade com inutilidade.

Não queremos apenas acrescentar anos à vida. Queremos acrescentar vida aos anos.

E talvez seja essa uma das maiores sabedorias que o tempo nos ensina: não podemos escolher todos os acontecimentos que nos esperam, nem controlar o número de anos que viveremos. Mas podemos, dentro das nossas possibilidades, escolher a atitude com que enfrentamos cada etapa, a ternura que oferecemos, a curiosidade que preservamos e a marca humana que deixamos nos outros.

No fim, dar vida aos anos é continuar a sentir que vale a pena estar aqui. É reconhecer que, enquanto houver vontade de amar, de aprender, de partilhar e de sonhar, a vida não se esgota na idade que temos.

Porque os anos contam-se no calendário, mas a vida mede-se na intensidade dos momentos, na profundidade dos afetos e na capacidade de continuarmos a encontrar sentido em cada amanhecer.

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

IGUALDADE DE DIGNIDADE E IGUADADE DE RECOMPENSA

A distinção entre igualdade de dignidade e igualdade de recompensa é particularmente importante, quando discutimos justiça, mérito e organização da sociedade.

A igualdade de dignidade significa reconhecer que todas as pessoas têm o mesmo valor intrínseco, independentemente da sua profissão, riqueza, estatuto social, talento, origem ou grau de sucesso. Um médico, um agricultor, um professor, um empresário ou um trabalhador manual merecem igual respeito enquanto pessoas. Esta igualdade é um princípio moral: ninguém vale mais do que outro ser humano.

A igualdade de recompensa, pelo contrário, significa que todos deveriam receber exatamente o mesmo resultado — o mesmo rendimento, reconhecimento, posição ou benefício — independentemente do contributo, da responsabilidade, do esforço, da competência ou do risco assumido. É uma ideia muito diferente e, em muitos contextos, pode entrar em conflito com a própria noção de justiça.

Uma sociedade justa não precisa, portanto, de confundir igual valor humano com igual resultado social. Podemos defender que ninguém deve ser humilhado, discriminado ou privado de oportunidades por aquilo que é, sem concluir que todas as pessoas devam receber exatamente a mesma recompensa pelo que fazem.

O desafio está em encontrar o equilíbrio: igual dignidade à partida, oportunidades justas no caminho e reconhecimento proporcional da responsabilidade, do mérito e do contributo. A desigualdade de resultados pode ser legítima; a desigualdade de dignidade, nunca.

No fundo, trata-se de distinguir duas perguntas que frequentemente confundimos: “Quanto vale esta pessoa?” e “Quanto deve ser reconhecido aquilo que ela fez?”. A primeira deve ter uma resposta universal — todas as pessoas têm a mesma dignidade. A segunda admite diferenças, desde que essas diferenças sejam justificáveis e compatíveis com a justiça. 
 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

HUMANIZAR O TRABALHO

O mundo do trabalho está a mudar. Durante muito tempo, a produtividade e os resultados estiveram no centro das organizações. Hoje, cresce a preocupação em conciliar desempenho com bem-estar, dignidade e desenvolvimento pessoal.

Humanizar o trabalho significa reconhecer que, por detrás de cada função, existe uma pessoa com capacidades, emoções, necessidades e expectativas. Não significa diminuir a exigência, mas criar condições para que o profissional possa realizar o seu trabalho com responsabilidade, autonomia e equilíbrio.

A expansão da inteligência artificial e da automação torna esta questão ainda mais importante. À medida que muitas tarefas são realizadas pela tecnologia, ganham valor competências essencialmente humanas, como a criatividade, a empatia, o pensamento crítico, a comunicação e a capacidade de trabalhar em equipa.

Também as relações dentro das organizações estão a mudar. Modelos de liderança mais participativos, baseados na confiança, na autonomia e no reconhecimento, tendem a substituir formas excessivamente hierárquicas de gestão. A flexibilidade e os modelos híbridos reforçam igualmente a necessidade de encontrar um equilíbrio saudável entre vida profissional e pessoal.

Mas humanizar o trabalho não pode limitar-se a palavras como “bem-estar” ou “propósito”. Exige práticas concretas: respeito, escuta, reconhecimento, igualdade de oportunidades e ambientes onde as pessoas possam contribuir e desenvolver-se.

Num futuro marcado pela tecnologia e pela mudança constante, a questão não será apenas que trabalho faremos, mas também como queremos trabalhar e que lugar queremos dar à pessoa dentro das organizações.

sábado, 26 de setembro de 2026

O VALOR ATUAL DE UMA LICENCIATURA

Uma licenciatura continua a ter um valor significativo no mercado de trabalho atual, embora o seu papel tenha mudado. Hoje, o diploma não representa apenas a aquisição de conhecimentos numa determinada área: demonstra, também, capacidade de aprendizagem, pensamento crítico, autonomia, disciplina e preparação para enfrentar problemas complexos.

Num contexto profissional marcado pela transformação tecnológica, pela inteligência artificial e pela rápida evolução das profissões, uma licenciatura pode constituir uma base importante para a construção de uma carreira. Em muitas áreas, é ainda requisito de acesso a determinadas profissões e a funções que exigem maior especialização. Ao mesmo tempo, o diploma, por si só, já não garante emprego ou progressão profissional. A experiência, as competências digitais, o domínio de línguas, a capacidade de adaptação e a aprendizagem contínua assumem uma importância crescente.

Assim, o verdadeiro valor de uma licenciatura está menos no título que confere e mais, naquilo que permite construir a partir dele. Uma formação superior pode abrir portas, ampliar horizontes e fornecer ferramentas para acompanhar as mudanças do mundo profissional. O desafio atual é transformar esse conhecimento em competências concretas e continuar a aprender ao longo da vida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Pais e filhos: uma relação em mudança

As relações entre pais e filhos atravessam hoje uma transformação profunda. Não porque o amor tenha diminuído, mas porque mudaram as circunstâncias, os ritmos de vida e as expectativas de cada geração. A família continua a ser, para muitos, o lugar essencial de pertença, mas já não obedece aos mesmos códigos de autoridade que marcaram o passado.

Os pais de hoje vivem um paradoxo. Por um lado, desejam estar mais próximos dos filhos, ouvir as suas opiniões e respeitar a sua individualidade. Por outro, sentem-se frequentemente inseguros quanto aos limites que devem impor. A antiga autoridade, baseada sobretudo na idade e na posição dos pais, deu lugar a uma autoridade que precisa de ser explicada, negociada e, muitas vezes, justificada. Isto tornou a relação mais dialogante, mas também mais exigente.

Os filhos, por sua vez, crescem num mundo muito diferente daquele que os pais conheceram. Têm acesso imediato à informação, comunicam através de redes sociais e convivem com uma multiplicidade de referências que ultrapassam a família. Aprendem cedo a questionar, a comparar e a afirmar a sua identidade. Nem sempre aceitam como evidente aquilo que os pais lhes transmitem, o que pode ser interpretado como rebeldia quando, muitas vezes, é apenas a procura de autonomia.

Há ainda um novo elemento: a tecnologia. Nunca pais e filhos estiveram tão permanentemente ligados e, paradoxalmente, nunca foi tão fácil estarem distantes. Vivem na mesma casa, mas cada um pode permanecer fechado no seu próprio ecrã, absorvido por um universo particular. A convivência exige hoje um esforço consciente de presença, de conversa e de atenção que antes surgia de forma mais espontânea.

Apesar destas mudanças, os conflitos entre gerações continuam a ter uma raiz semelhante à de sempre. Os pais receiam pelo futuro dos filhos; os filhos desejam ser reconhecidos como pessoas independentes. Entre a proteção e a liberdade existe uma tensão inevitável. O desafio está em não transformar essa tensão numa guerra, mas numa aprendizagem mútua.

Talvez a grande diferença das relações atuais entre pais e filhos seja esta: já não basta amar. É preciso saber comunicar. Os pais precisam de aceitar que os filhos não serão a continuação das suas vidas, mas pessoas com escolhas próprias. E os filhos precisam de compreender que a preocupação dos pais nem sempre é controlo; muitas vezes é apenas a forma imperfeita que o amor encontra para se manifestar.

Uma relação saudável entre pais e filhos não é aquela em que nunca há desacordos, mas aquela em que, apesar deles, permanece o respeito. As gerações não têm de pensar da mesma maneira para se compreenderem. Basta que nenhuma deixe de escutar a outra. Num tempo em que tudo parece acelerar, talvez essa seja a maior responsabilidade de pais e filhos: preservar o diálogo, porque é nele que a família continua a reconhecer-se como um lugar de afeto, confiança e liberdade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

EVOLUÇÃO E MEMÓRIA

O Patriarca de Lisboa abençoou uma escola oficial, na companhia de diversas entidades oficiais. Alguém, com inteligência e sentido de observação, comparou a imagem de hoje com outra, tirada antes da Revolução.

A fotografia mudou. O tempo passou. O país transformou-se. Mas será que mudou verdadeiramente aquilo que trazemos dentro de nós?

Há mais de cinquenta anos, certas imagens, certos gestos e certas ideias faziam parte da normalidade de uma sociedade. Se hoje continuamos a reconhecê-los como naturais, talvez devêssemos perguntar se evoluímos tanto quanto gostamos de acreditar.

Porque um país pode modernizar as suas ruas, as suas casas, a sua tecnologia e até as suas instituições. Mas a verdadeira evolução é muito mais difícil: acontece quando se transformam as mentalidades, quando se questiona o que durante décadas foi aceite sem reflexão e quando uma sociedade deixa de confundir tradição com destino.

O tempo, por si só, não faz um país evoluir. Pode apenas envelhecê-lo. A evolução começa quando mudamos a forma de olhar para aquilo que sempre julgámos normal.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Os interesses da nova geração de jovens

A nova geração de jovens cresce num mundo muito diferente daquele em que viveram os seus pais e avós. A tecnologia, as redes sociais, a facilidade de acesso à informação e as rápidas mudanças na sociedade, influenciam profundamente os seus interesses, os seus sonhos e a forma como se relacionam com os outros.

Um dos principais interesses dos jovens atuais é, naturalmente, o mundo digital. O telemóvel, a internet, as redes sociais, os jogos e as plataformas de entretenimento fazem parte do seu quotidiano. Através desses meios, os jovens comunicam, aprendem, descobrem novas culturas e expressam as suas opiniões. A tecnologia também lhes permite desenvolver competências e ter acesso a conhecimentos que anteriormente seriam muito mais difíceis de alcançar.

Ao mesmo tempo, muitos jovens demonstram uma preocupação crescente com temas como o ambiente, as alterações climáticas, a igualdade de oportunidades, os direitos humanos e o futuro da sociedade. Existe uma maior vontade de participar, de questionar aquilo que consideram injusto e de procurar novas formas de viver e trabalhar. Ter uma profissão interessante e compatível com os seus valores é tão importante como alcançar estabilidade financeira.

Também mudaram as formas de encarar o sucesso. Para uma parte significativa da nova geração, ter tempo livre, preservar a saúde emocional, viajar, cultivar amizades e encontrar um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal são objetivos importantes. O sucesso já não é necessariamente associado apenas a uma carreira tradicional, a um salário elevado ou à aquisição de bens materiais.

No entanto, esta geração também enfrenta desafios. O excesso de informação, a pressão das redes sociais, a comparação constante com os outros e a necessidade de estar permanentemente ligado podem provocar insegurança e ansiedade. Além disso, a rapidez das mudanças tecnológicas e as incertezas económicas tornam mais difícil imaginar como será o futuro.

Apesar das diferenças em relação às gerações anteriores, há algo que permanece: os jovens procuram reconhecimento, amizade, amor, liberdade e um sentido para a sua vida. Talvez a grande diferença esteja nas ferramentas que utilizam e no mundo em que foram educados.

Compreender os interesses da nova geração exige, por isso, mais do que criticar os seus hábitos. É necessário escutá-la. Os jovens não são apenas os adultos do futuro; são também cidadãos do presente, com ideias, preocupações e aspirações próprias. 

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A MINHA NOVA VIDA

 

Continuo a cumprir a minha decisão de mudar de vida, procurando, pouco a pouco, construir uma forma diferente de estar no mundo.

Uma das coisas que mais me tem surpreendido é descobrir como essa mudança me tornou mais disponível para aquilo que acontece à minha volta. E há algo especialmente valioso nisso: não se trata apenas de “mudar de vida” em abstrato, mas de começar a viver de outra maneira, prestando atenção ao que nos pode trazer prazer e sentido.

Tenho-me alegrado com acontecimentos culturais que, de outro modo, provavelmente nem saberia que existiam. Concertos, exposições, peças, conversas, livros, encontros — pequenas oportunidades de sair da rotina e de me deixar surpreender por coisas novas. São momentos que talvez pareçam simples, mas que têm para mim um significado especial, porque representam uma vida mais aberta, mais curiosa e mais atenta.

Percebo agora que mudar de vida não significa, necessariamente, fazer grandes mudanças de um dia para o outro. Pode, também, significar a recuperação da curiosidade, aceitar convites, experimentar coisas diferentes e permitir que o mundo nos traga possibilidades que antes não procurávamos.

E é precisamente essa sensação que quero conservar: a de que ainda há muito para descobrir e de que, quando nos abrimos a novas experiências, podemos encontrar alegria em lugares e acontecimentos que antes nem faziam parte do nosso horizonte.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

VIVER SEM TER VOZ

Há pessoas que vivem entre nós, caminham pelas mesmas ruas, sentam-se à nossa mesa e cruzam diariamente o nosso olhar, mas permanecem invisíveis. São aqueles que, por medo, pobreza, abandono, violência ou simplesmente por não encontrarem quem as escute, vivem sem voz.

Não ter voz não significa não ter pensamentos, sentimentos ou sonhos. Muitas vezes, significa apenas não ter espaço para dizer aquilo que se sente. Há quem tenha aprendido a calar-se porque, ao longo da vida, descobriu que ninguém escutava. Há quem tenha medo de falar porque sabe que a sua palavra poderá trazer consequências. E há ainda aqueles cuja dor é tão antiga que já nem encontram palavras para a explicar.

Os que não têm voz vivem, muitas vezes, numa espécie de silêncio imposto. Podem estar dentro de uma família onde as suas opiniões não contam, num trabalho onde são tratados como peças substituíveis, numa sociedade onde a pobreza os torna quase invisíveis ou simplesmente numa solidão que ninguém percebe.

É fácil falar por aqueles que não têm voz. Mais difícil é parar para os ouvir. Ouvir verdadeiramente exige tempo, atenção e respeito. Exige compreender que nem todas as pessoas conseguem gritar a sua dor e que, por vezes, o silêncio é o pedido de ajuda mais profundo que alguém consegue fazer.

Uma sociedade verdadeiramente humana não se mede apenas pela forma como trata os que têm poder, conhecimento ou dinheiro. Mede-se, sobretudo, pela maneira como olha para os mais frágeis, para os esquecidos e para aqueles cuja palavra raramente chega aos ouvidos de quem decide.

Dar voz não é falar em nome do outro. É criar condições para que ele próprio possa falar. É reconhecer a sua dignidade, a sua história e o seu direito a ser ouvido.

Talvez muitos dos que vivem sem voz não precisem de grandes discursos. Precisem apenas de alguém que se sente ao seu lado e diga: “Eu estou aqui. Pode falar. Eu vou ouvir.”

Porque, quando alguém é finalmente escutado, o silêncio deixa de ser uma prisão. E, nesse momento, uma voz que parecia perdida pode começar, lentamente, a nascer.

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O AMOR NÃO MORRE

 

Para esclarecimento prévio das palavras que se seguem, digo já que sou muito amiga do Cláudio Ramos, o que me permite acreditar, que isso só enriquece o valor que elas possam ter!

O Amor Não Morre, traz de novo à escrita, Cláudio Ramos, com um livro profundamente ligado às emoções humanas. Através de diferentes histórias de amor e desamor, o autor questiona aquilo que fazemos quando uma relação muda, quando alguém parte ou quando continuamos a acreditar que ainda é possível recomeçar.

Mais do que falar apenas de relações amorosas, o livro aborda sentimentos universais: a esperança, a ausência, a solidão, a fragilidade e a dificuldade de deixar para trás, aquilo que, um dia, nos fez felizes. As histórias mostram que não existe apenas uma forma de amar e que cada relação tem as suas próprias marcas, imperfeições e contradições.

Um dos aspetos mais curiosos da obra é, precisamente, a ideia de que o amor pode transformar-se, e não desaparecer completamente. Às vezes, aquilo que parecia eterno torna-se pequeno. Outras vezes, mesmo depois de uma desilusão, a vontade de esperar e acreditar, permanece.

Com uma escrita próxima e emocional, Cláudio convida o leitor a reconhecer, nas suas personagens, sentimentos que também fazem parte da sua própria experiência. O Amor Não Morre acaba, assim, por ser uma reflexão sobre a capacidade humana de amar, perder, esperar e continuar.

No fundo, o livro deixa uma mensagem simples, mas poderosa: mesmo quando uma história de amor acaba, aquilo que sentimos e aprendemos com ela, pode permanecer. E talvez seja, justamente aí, que o amor encontra uma outra forma de existir. Penso exatamente o mesmo, com muito mais anos de experiência!

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A IMPREVISIBILIDADE

A vida tem uma característica que, por mais que tentemos ignorar, está sempre presente: a imprevisibilidade. Podemos fazer planos, estabelecer metas, organizar o futuro e acreditar que temos algum controlo sobre o caminho que percorremos. Mas basta um acontecimento inesperado, para nos lembrarmos de que nenhuma certeza é absoluta.

A imprevisibilidade pode assustar porque obriga a abandonar a ilusão de controlo. Queremos saber o que acontecerá amanhã, prever as atitudes dos outros, antecipar as dificuldades e proteger-nos das desilusões. No entanto, há acontecimentos que não dependem da nossa vontade, e circunstâncias que surgem sem aviso, alterando profundamente aquilo que julgávamos seguro.

Também as relações humanas estão sujeitas ao inesperado. Pessoas que julgávamos conhecer podem surpreender-nos; vínculos que pareciam sólidos podem enfraquecer; outros, que nunca imaginámos importantes, podem ganhar um significado inesperado.

Contudo, a imprevisibilidade não deve ser vista apenas como uma ameaça. Ela também pode trazer oportunidades, mudanças necessárias e novos caminhos. Muitas vezes, aquilo que inicialmente interpretamos como uma rutura ou uma perda, acaba por nos obrigar a crescer, a repensar escolhas e a descobrir capacidades que desconhecíamos possuir.

Aceitar a imprevisibilidade não significa viver sem planos ou sem responsabilidades. Significa compreender que os planos devem coexistir com a capacidade de adaptação e reconhecer que não controlamos tudo o que nos acontece, mas podemos, sempre, escolher a forma como reagimos ao que acontece.

Talvez uma das maiores formas de maturidade seja precisamente essa: aprender a viver sem exigir da vida garantias que ela não pode oferecer. A segurança absoluta não existe. O futuro permanece, inevitavelmente, parcialmente desconhecido. E é nesta incerteza que somos chamados a viver. Não com imprudência, mas com lucidez; não com medo permanente, mas com preparação interior. Porque a imprevisibilidade faz parte da condição humana e, embora não possamos determinar tudo o que nos espera, podemos procurar construir dentro de nós, a serenidade necessária, para enfrentar, aquilo que ainda não conhecemos.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A MINHA MUDANÇA

Há uns meses partilhei aqui, a minha decisão de mudar de vida, ao fazer 91 anos. E mudei!

Há quem diga que, aos 91 anos, já não se muda nada. Quando muito, muda-se o canal da televisão, a almofada de lado ou o lugar onde se põem os óculos — que, naturalmente, nunca estão onde deviam estar.

Mas eu sou diferente e considero que esta é uma visão demasiado pessimista da velhice. Talvez porque já me esqueci da infância e só lembro o lado bom da juventude.

Aos 91 anos, mudar de vida, pode ser uma decisão perfeitamente razoável e com uma grande vantagem: já não se tem tempo, para perder tempo. A paciência para aturar disparates diminui, a tolerância para pessoas maçadoras entra em regime de contenção, e começa-se, finalmente, a perceber que dizer «não» é uma das grandes e indispensáveis conquistas da idade.

Mudar de vida aos 91 não significa necessariamente vender a casa, fugir para uma ilha ou apaixonar-se por um desconhecido inteligente — embora nada disso esteja (felizmente) proibido! Pode significar, simplesmente, acordar uma manhã e decidir que, a partir daquele dia, se vai fazer mais do que apetece e menos do que esperam de nós.

É também uma idade excelente para cometer pequenas extravagâncias. Comprar uma coisa desnecessária. Fazer uma viagem. Aprender algo novo. Aceitar um convite que normalmente se recusaria. Mandar alguém passear — sobretudo se a pessoa merecer, e ainda tiver pernas para acompanhar a ordem.

Nos meus 91 anos, já acumulei experiência suficiente, para saber que a vida raramente corre como estava previsto. No meu caso, foi mesmo o oposto. Portanto, mudar de rumo, talvez seja apenas reconhecer o óbvio: o plano original já deu o que tinha a dar. E há uma certa liberdade nisso.

Aos 91, ninguém deveria perguntar: «Mas não acha que é tarde para começar?»

Tarde para quê? Para voltar aos noivados, ciúmes e amantes? Eu não!

Para recomeçar? Talvez, talvez, talvez!

Para viver comandada? Nunca.

Porque a verdadeira idade, não está no número de anos que já passaram, mas no monte de curiosidade, enorme, que ainda resta aos que, como eu vêm. E, também já se tem idade suficiente para fazer, finalmente, aquilo que nos dá na gana. Com uma condição: que ninguém se meta na nossa vida!