Há uns meses partilhei aqui, a minha decisão de mudar de
vida, ao fazer 91 anos. E mudei!
Há quem diga que, aos 91 anos, já não se muda nada. Quando
muito, muda-se o canal da televisão, a almofada de lado ou o lugar onde se põem
os óculos — que, naturalmente, nunca estão onde deviam estar.
Mas eu sou diferente e considero que esta é uma visão
demasiado pessimista da velhice. Talvez porque já me esqueci da infância e só
lembro o lado bom da juventude.
Aos 91 anos, mudar de vida, pode ser uma decisão
perfeitamente razoável e com uma grande vantagem: já não se tem tempo, para
perder tempo. A paciência para aturar disparates diminui, a tolerância para
pessoas maçadoras entra em regime de contenção, e começa-se, finalmente, a
perceber que dizer «não» é uma das grandes e indispensáveis conquistas da
idade.
Mudar de vida aos 91 não significa necessariamente vender a
casa, fugir para uma ilha ou apaixonar-se por um desconhecido inteligente —
embora nada disso esteja (felizmente) proibido! Pode significar, simplesmente, acordar
uma manhã e decidir que, a partir daquele dia, se vai fazer mais do que apetece
e menos do que esperam de nós.
É também uma idade excelente para cometer pequenas
extravagâncias. Comprar uma coisa desnecessária. Fazer uma viagem. Aprender
algo novo. Aceitar um convite que normalmente se recusaria. Mandar alguém
passear — sobretudo se a pessoa merecer, e ainda tiver pernas para acompanhar a
ordem.
Nos meus 91 anos, já acumulei experiência suficiente, para
saber que a vida raramente corre como estava previsto. No meu caso, foi mesmo o
oposto. Portanto, mudar de rumo, talvez seja apenas reconhecer o óbvio: o plano
original já deu o que tinha a dar. E há uma certa liberdade nisso.
Aos 91, ninguém deveria perguntar: «Mas não acha que é tarde
para começar?»
Tarde para quê? Para voltar aos noivados, ciúmes e amantes?
Eu não!
Para recomeçar? Talvez, talvez, talvez!
Para viver comandada? Nunca.
Porque a verdadeira idade, não está no número de anos que já passaram, mas no monte de curiosidade, enorme, que ainda resta aos que, como eu vêm. E, também já se tem idade suficiente para fazer, finalmente, aquilo que nos dá na gana. Com uma condição: que ninguém se meta na nossa vida!
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