A banalidade infiltra-se silenciosamente no quotidiano, como um véu tão fino que quase não percebemos sua presença. Ela ocupa os intervalos entre grandes acontecimentos, preenche a rotina com gestos automáticos e palavras repetidas. À primeira vista, parece desprovida de valor — o contrário do extraordinário, do memorável, do urgente. Mas é justamente nela que se escondem, muitas vezes, os contornos mais autênticos da vida.
É na banalidade que descobrimos quem somos, quando não
estamos tentando ser nada especial. Nos rituais mínimos — preparar um café,
observar a rua pela janela, procurar uma chave perdida — revelam-se formas de
sensibilidade, paciência, inquietação ou alegria que, raramente, aparecem em
momentos grandiosos. A repetição pode cansar, mas também pode confortar, porque
oferece um chão, um ritmo, uma espécie de continuidade que nos protege do caos.
Ao mesmo tempo, a banalidade pode funcionar como anestesia.
Quando tudo se torna igual, o olhar se embacia. O que antes era vivo e pulsante
se transforma em paisagem estática. É por isso que a banalidade exige atenção. Não
para ser evitada, mas para ser percebida. Quando a olhamos de verdade, ela
deixa de ser mera repetição e transforma-se em matéria poética — uma chance de
redescobrir o mundo no que ele tem de mais simples.
Assim, a banalidade não é inimiga do sentido. Ela é o
território onde o sentido pode nascer sem alarde, devagar, quase tímido. Entre
o extraordinário e o vazio, há esse espaço discreto que sustenta os nossos
dias. Olhar para ele é, de certa forma, olhar para nós mesmos.
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