sábado, 20 de dezembro de 2025

PESSOAS: MARIA SERUYA A MULHER DE MIL SUPERFICIES

 

Maria Seruya não cabe em rótulos. É daquelas presenças que, ao entrar numa sala, parecem expandir o ar, como se cada gesto contasse várias histórias ao mesmo tempo. Multifacetada — palavra que nela deixa de ser metáfora e se torna um modo de existir — Maria caminha por diferentes mundos, com a mesma naturalidade com que outros mudam de roupa.

Artista por intuição, pensadora por inquietação e criadora por necessidade vital, ela constrói pontes entre universos que, para muitos, jamais se tocariam. Num dia fala com a precisão de quem decanta ideias; no outro, cria imagens que parecem brotar diretamente do subconsciente. Maria tem o dom raro de transformar fragmentos em sentido, caos em ritmo, silêncio em linguagem.

Os seus projetos — sejam eles artísticos, humanos ou simplesmente quotidianos — sopram a mesma marca: a autenticidade. Nada em Maria é superficial. Cada escolha reflete uma camada dela, e há sempre outra por baixo, vibrando, chamando, pedindo para ser descoberta. Talvez seja por isso que tantos se sentem atraídos pela sua presença: ela é um convite permanente à curiosidade.

Mas o que realmente torna Maria Seruya multifacetada, não é a quantidade de coisas que faz, e sim a profundidade com que habita cada uma. Ela sabe ser plural sem perder o centro; sabe ser vasta sem se dispersar. Uma mulher que reflete muitas luzes — e, ainda assim, guarda o mistério de algumas sombras.

Maria Seruya, na sua multiplicidade, lembra ao mundo que ninguém precisa ser apenas uma coisa. Que a vida, quando vivida com coragem, pode ser um mosaico — e que a beleza está exatamente nisso.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

AS MALVADAS CONTAS

“O primeiro-ministro, que uns dias antes tinha sugerido aproveitar a oportunidade da possível mudança das leis laborais para elevar o salário mínimo para os 1.500 euros e o médio para 2.000 ou 2.500, disse não querer "que o salário médio chegue aos 1.600 ou 1.700", mas sim que "chegue aos 2.500, 2.800 ou 3.000 euros".

Não costumo falar de política, mas esta frase do primeiro-ministro, retirada das notícias que respeitam a economia do país, levantou-me algumas dúvidas, e por isso, obrigou-me a faze umas contas de matemática básica, em que apenas entrei com números que são do domínio público.

De acordo com elas, a afirmação parece-me, sobretudo, retórica e aspiracional. O primeiro-ministro projeta salários médios muito elevados (2.500–3.000 euros) para mostrar ambição política e distanciar-se de metas mais modestas. No entanto, do ponto de vista económico, esses valores parecem pouco realistas a curto prazo, sem um forte aumento da produtividade e reformas estruturais. Falta também clareza, sobre como esses objetivos seriam alcançados, o que reforça o carácter mais discursivo do que prático, da declaração. Isto de acordo com as minhas contas, claro!

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

GLENN MILLER ORCHESTRA

Fui ontem ao CCB - Centro Cultural de Belém-, ouvir a icónica Glenn Miller Orchestra, sob a direção do maestro Ray McVay , que retornou a Portugal para um concerto especial. Foi no fim da tarde de ontem, em que dirigiu os 20 talentosos músicos e cantores desta magnifica orquestra, num espetáculo que, como num estalar de dedos, nos faz recuar até aos anos 1930. Ainda consegui emocionar-me, tantas décadas depois, porque se trata de um dos compositores de quem mais gosto.

O prazer de ouvir a música de Glenn Miller está na forma como ela envolve o ouvinte com leveza, elegância e um sentimento de alegria serena. As suas peças marcadas, pelo som inconfundível dos metais e pelo ritmo suave do swing, criam uma atmosfera acolhedora, capaz de transportar a mente para outra época. Ao ouvir as suas composições, é fácil imaginar salões de dança iluminados, pessoas sorrindo e momentos de descontração que parecem suspensos no tempo.

 A música de Glenn Miller não é apenas entretenimento. É uma experiência que desperta nostalgia, tranquilidade e prazer, mostrando como a arte pode atravessar gerações e continuar a tocar o coração de quem a escuta.

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O PAI DA CLARA

Não, não venho falar de Clara Pinto Correia. Já muitos, antes de mim, o fizeram e com mais conhecimento de causa do que eu, que pouco a conheci. Venho falar de um homem que era meu amigo, salvou a minha vida e era pai da Clara. Venho falar do Professor José Pinto Correia, consensualmente aclamado como um dos maiores vultos da Gastroenterologia nacional e internacional, e que deixou pegadas demasiado marcadas para que o tempo o consiga apagar. Foi das melhores mais brilhantes pessoas que conheci. E que, enquanto viveu foi o médico que sempre me acompanhou.

Conhecemo-nos numa reunião da então JUC – Juventude Universitária Católica- e a partir daí, foram várias as razões que nos juntaram, para além da saúde. Havia um lado de humor e até de diversão nele, que só os mais próximos sabiam.

Conheci, assim, os pais muito antes das filhas. Mas a existência delas, sentia-se nos pais que conheci. Havia neles um amor repartido, treinado na partilha, um cuidado que sabia multiplicar-se sem perder profundidade. Não falavam de uma filha só, mas de um pequeno mundo construído a várias vozes.

Nos gestos, via-se a experiência de quem criou mais do que uma vida: a paciência, a atenção ao detalhe, a capacidade de ouvir. Clara vinha desse espaço cheio, onde ninguém cresce sozinho, onde se aprende cedo a existir com o outro ao lado.

Ao conhecer os pais, percebi que Clara — e as irmãs — eram fruto desse equilíbrio discreto: um amor firme, silencioso, que não distingue para diminuir, mas que sustenta todas por igual.

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O RECONHECIMENTO PÓSTUMO

Há vidas que passam silenciosas diante do mundo, mas intensas dentro de si. Pessoas que constroem, criam, inovam, servem, inspiram – e, mesmo assim, caminham à margem do aplauso. Só depois que se vai a presença, é que desperta a ausência. E com ela, surge aquele reconhecimento tardio, quase sempre acompanhado de um arrependimento coletivo: “Como não vimos antes?”

O reconhecimento póstumo revela, acima de tudo, a dificuldade humana de valorizar o que está perto, o que é quotidiano, o que não se impõe. É mais fácil admirar à distância do que contemplar quem está diante de nós. Talvez porque, no dia a dia, confundimos simplicidade com falta de grandeza, e humildade com falta de valor.

No entanto, quando alguém parte, a memória ilumina o que os olhos não enxergaram a tempo. Pequenos gestos ganham profundidade; contribuições antes discretas revelam-se essenciais; talentos ignorados tornam-se, de repente, irrefutáveis. A ausência escancara o tamanho da presença, que antes foi tratada como comum.

Mas o reconhecimento póstumo também serve como espelho. Nele refletimos nossa tendência a adiar elogios, silenciar gratidões e deixar para depois, a celebração de quem faz diferença. A partida transforma esse “depois” em nunca mais.

Por isso, lembrar que muitos só foram reconhecidos depois de partir, é um convite à urgência. A de valorizar hoje. quem merece ser visto. Celebrar em vida, o que tantas vezes, só se exalta na memória. Porque todos carregam dentro de si uma história digna de ser reconhecida — e é injusto permitir que o mundo só a descubra quando não houver mais tempo.

SERIA BOM PENSAR

Este tema, infelizmente, continua a ser objeto de preocupação das Famílias. Não será altura de tomar decisões por parte do Ministro da Educação, ou ele está inteiramente de acordo com o que aqui se transmite?
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ELOS QUE NÃO SE EXPLICAM


Há vínculos que desafiam a lógica com a mesma naturalidade com que a gravidade mantém os corpos próximos, sem que precisemos compreender o fenómeno. São laços que emergem antes do pensamento, como se encontrassem o seu fundamento em algo mais antigo do que as palavras — talvez na própria estrutura da experiência humana.

A filosofia tenta, muitas vezes, reduzir o mundo ao que pode ser dito. Mas há relações que pertencem ao domínio do indizível, aquilo que Wittgenstein chamaria de “o que se mostra”. Não são explicáveis, apenas reconhecíveis. Revelam-se em gestos mínimos como a familiaridade imediata, o conforto espontâneo, o sentido de continuidade sem história prévia.

Estes laços insinuam que o encontro entre duas consciências, não é apenas um cruzamento acidental, mas a atualização de possibilidades invisíveis, que existiam antes. Como se cada pessoa carregasse potenciais de afinidade, que só despertam diante de certas presenças - e não de outras - sem qualquer aparente explicação causal.

Aristóteles diria que há amizades que nascem da virtude ou da utilidade. Mas, talvez exista um tipo de afinidade, que antecede ambas, um modo de reconhecimento, que depende de uma espécie de harmonia ontológica. Dois modos de ser que, por razões insondáveis, vibram na mesma frequência.

O mistério desses laços lembra-nos que a vida não pode ser totalmente contida no racional. Há dimensões que a linguagem não captura e que, no entanto, orientam profundamente o nosso caminho. Talvez a função desses vínculos seja, justamente, ensinar-nos humildade diante do inexplicável, aceitar que nem tudo o que nos toca pode ser dissecado, e que parte da beleza da existência, reside justamente em convivermos com aquilo que apenas se sente e não se resolve, não se define.

Em última análise, os laços que não se explicam são um testemunho silencioso de que o humano ultrapassa o humano. São fissuras por onde o mistério escorre, lembrando-nos de que a vida acontece também no que escapa, no que surpreende, no que não cabe em nenhum porquê.