terça-feira, 27 de novembro de 2012

Também a França

A revista Le Point da semana passada faz duas curiosas análises políticas. 
Uma, relativa ao que se passou - e está a passar - no seio da chamada direita francesa e em particular no UMP, em que Copé bateu Fillon por 98 votos num processo com acusações de toda a natureza.
Outra, relativa à situação económica da França, que perdeu posição na classificação atribuída pela Moody's. Com efeito, esta agência de notação da-lhe um AA1, por considerar que o país:
1. Não demonstrou nos últimos vinte anos ser capaz de pôr em marcha reformas profundas, o que teve por consequência uma perda de competitividade, um mercado de trabalho muito rígido e serviços muito protegidos;
2. Está longe de poder garantir os seus compromissos orçamentais (3% do PIB em 2013), porque se desconhece como se comportarão as economias e, pior, a conjuntura está a degradar-se;
3. Não está em condições de resistir a eventuais choques financeiros na zona euro, sobretudo se a Espanha fizer parte deles. Os bancos franceses e o Estado estão excessivamente comprometidos nos países com dificuldades.

Por outro lado, quer o FMI quer a Comissão Europeia, olham com apreensão o facto da França estar a mergulhar docemente na recessão, dado que as suas previsões de crescimento para o próximo ano são bastante menos optimistas do que as de Bercy.
Com efeito, Hollande vai ter de arranjar alguns biliões de euros se quiser assumir os seus compromissos. É que os números são cruéis: a competitividade perdeu, em dois anos, seis lugares na Europa; o custo do trabalho é 10% superior ao da Alemanha e é real o aumento das despesas públicas e deficit comercial relativamente a 2011.
As agências de notação e os observadores comentam que entre uma Alemanha confiante no seu sucesso e uma Itália que se reforma, em grande, aos olhos de todos, a França continua a permanecer sob "perspectiva negativa".
Enfim, esta "Europa unida" começa a deixar muito a desejar...

HSC


7 comentários:

Anónimo disse...

Do alto do seu saber inquestionável, Stiglitz alerta para o preço da desiguldade... pergunto-me se a Europa está preparada, economica e principalmente politicamente, para suportar a desigualdade entre a França e a Alemanha ... é que suportar pequenas economias como a nossa, a grega e a irlandesa é bem diferente, também historicamente, de ter alemães a pagar para manter o nível de vida do 6e Parisiense.

Os tempos estão a mudar, cantava Dylan em 63, espero e creio que possamos aproveitar as alterações que se avizinham.

Nuno 371111

Observador disse...

Desculpe, cara Helena, disse 'Europa Unida'?

Importa-se de repetir?
:)

Cumprimentos

rmg disse...


Totalmente de acordo com a análise do 1º comentador e com o pedido do 2º comentador .

De facto , quando se elegem pessoas que prometem dar o que já sabem muito bem que não podem dar ou não tirar o que já sabem muito bem que vão ter que tirar , só se recolhem os frutos do primarismo dessa opção (como todos nós bem sabemos) .
O senhor Hollande já anda há muitíssimos anos na política e os franceses conhecem-no bem : lá como cá ou noutro sítio , quem se deixa enganar não se pode queixar depois de ter sido enganado.

Claro que as desgraças da França , tal como as da Espanha , nos vão caír em cima (já estão a caír) forte e feio , já não há condicionamento industrial que nos valha porque o país e o mundo já não são esses nem nós temos indústria (that is the question!),
A China irá ultrapassar os EUA em 2016 e até o Brasil nem aos 2% de crescimento vai chegar este ano (diz o Governo de lá , não sou eu , apontando como razões a crise mundial e o excessivo endividamento das famílias ...).
Safa-se a Alemanha pelas razões de sempre e a Itália que , não tendo um político como PM , não vive tão sujeita ao telejornal das 20 horas .

A Europa estava unida contra um passado que não queria que voltasse e não própriamente a favor de um futuro a construír (ainda que este desiderato abrangesse o outro).
Mas com uma população envelhecida , sem renovação de gerações há décadas e com uma total falta de competitividade face aos emergentes e aos emergidos, pouco lhe resta senão chorar glórias passadas .
Ou culpar os outros , como fazem os que deixaram de lutar ou nunca lutaram .

Os "bons velhos tempos " , na altura , não eram assim tão bons , nós é que éramos mais novos .

RMG

P.S. - Eu sei que a competitividade dos emergentes é feita à custa da exploração das condições de trabalho locais .
Todos os dias mo lembram os internautas a escrever em computadores "made in China" , com um olho no televisor "made in China" e com o jantar a aquecer num micro-ondas "made in China" .
Mas é como é .

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro/a RMG
Tem razão quanto aos emergentes. Mas porque é que o custo do trabalho em França será mais caro do que na Alemanha? Questão de competitividade? E se sim, porquê? Maior flexibilidade laboral?
Complicado...

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Nuno 371111
A minha velha descrença na Europa vem daí, dessa desigualdade entre os grandes e entre estes e os pequenos. Fui e sou, euro céptica. Infelizmente o tempo tem-me dado razão!

rmg disse...


Cara Drª Helena

Muito agradeço a sua atenção.
Também tenho pensado nisso , não só na comparação França/Alemanha mas também noutras comparações inter-europeias (ainda que aquela seja decerto a situação mais comparável, dada a dimensão económica , financeira , industrial e comercial dos dois países).
E não tendo chegado a qualquer conclusão definitiva mete-se sempre no meu caminho aquela sensação de que para os povos do norte da Europa o Estado "somos nós" e para os do sul da Europa o Estado "são eles" .
É como muito bem diz : complicado ...


Permita-me ainda que comente algo.
A Europa sonhada há 30 , 40 ou 50 anos foi num quadro mundial completamente diferente .
Económicamente pujante , em fase de acelerado crescimento , jovem e ousada , cheia de uma cultura milenar , ditando cartas , tendo nos EUA um parceiro forte (e que hoje já nem é parceiro e já nem será forte), tudo parecia fácil , vamos ser todos irmãos e os mais abastados ajudam os menos abastados .
Ao alargar-se , na sua ânsia de bem parecer , não percebeu algo de básico : não somos todos iguais , muito pelo contrário , as desigualdades - de que tão bem fala - são gritantes e , pior que isso , estruturalmente inultrapassáveis .

Assim , e num quadro de crise global em que os irmãos abastados também estão aflitos, acontece como em muitas famílias : é o salve-se quem puder .

P.S. - A Grã-Bretanha não conta aqui , não tanto por estar fora do Euro , mas porque nunca esteve de facto na União (o "trauma De Gaulle" nunca se esvaíu de todo).

Anónimo disse...

Drª HSC Sempre que penso em desigualdade ocorre-me pensar o que será a China daqui a 20 anos, manterá a união?!? E o que restará à Europa perante potências com os EUA, a Russia, a India, o Brasil e a China, se não unir-se verdadeiramente?!? Pensarão os alemães que continuarão a ser uma potência por si sós?! Não creio.! Daí ser um ex-futuro-euro-crente (a minha cegueira é tal que acredito no futuro aquilo que acreditei no passado e que o presente me provou errado).

PS. Obrigado por partilhar as suas reflexões.

Nuno 371111