domingo, 27 de maio de 2012

O tempo e as casas


Há casas que nos marcam. Outras, nem tanto. Vá-se lá saber porquê, a casa do meu Pai marcou-me muito. Tal como a dos meus avôs.
Há dias fui à Baixa que, para mim, está irreconhecível. Desapareceram lojas que eu conhecia, apareceram outras que nem suspeitava que existissem naquelas bandas e mantiveram-se umas quantas que perderam muito do atractivo, do cheiro, da magia que antes possuíam.
As velhinhas retrosarias, algumas leitarias, umas poucas sapatarias ainda lá estão. Mas o que há trinta anos era chic apresenta, agora, um ar deslocado de loja de província.
Parei na Rua de S. Julião, onde vivi dos doze anos até à maioridade. O prédio e a placa evocativa de Chaby Pinheiro ainda lá estavam. Algum comércio também. Mas tudo parecia diferente. Não porque tivesse mudado  a arquitectura. Mas porque o aspecto exterior envelhecera e, sobretudo, o meu olhar já não era o mesmo.
É verdade que o passado muda muito, quando visto com os olhos do presente...

HSC

17 comentários:

Anónimo disse...

Tem toda a razão querida helena!
Para mim é chocante ver a chamada "rua direita" em viseu, completamente vazia! Ta mesmo, diria eu, irreconhecível!
Os comerciantes da rua desapareceram, a maioria das lojas fechou e a rua agora encontra se practicamente sem ninguem, imagem rua que em tempos era tao movimentada, tao cheia de pessoas....
da me vontade de chorar! Assustador. .
um enorme beijinho para si helena!

Anónimo disse...

A sua ultima frase é uma grande verdade. Muitas vezes já senti o mesmo.
Margarida Damas

Vânia disse...

Pois olhe, Dr-ª Helena, para mim a casa dos meus avós continua viva antigamente. Está em remodelação mas, quando penso nela não imagino outro cenário que a velha casa velhinha, com um forno de cozer o pão incrustado na parede e um espaço mais elevado onde se notavam as marcas de uma lareira que eu nunca vi acesa... Também não conheci os meus avós, mas a diposição da escassa mobília, a simplicidade com que a casa esteve alguns anos decorada faziam-nos presentes. Tal como as lojas da baixa da sua infância, estava casa (velhinha, como lhe chamamos) sofreu alterações e não tem o encanto de outrora mas felizmente, enquanto ela ainda conservava a fachada original, com uma vidraça da janela partida eu tive a ideia de me pôr à janela e tirar lá uma fotografia que conservo com estima e que preenche o ambiente de trabalho do meu pc.

Para que vejam do que falo, mudarei a fotografia de perfil e perceberão.

Um abraço,
Vânia Batista

Paulo Abreu e Lima disse...

Diz-se que "não se deve voltar ao lugar onde já se foi feliz"... Não sendo adepto de uma memória intocável, ou revisitada, parece-me um bom lema ou, pelo menos, suficientemente avisado.

Isto e aquilo disse...

Concordo completamente com essa ideia de que há casas que nos marcam. E diria até que essa marca é ainda mais forte quando se trata da casa onde passámos a infância e a adolescência. Vivi até aos 18 anos na Conde Valbom, numa daquelas casa enormes das Avenidas Novas. Depois porque o prédio do lado ruiu e o nosso ameaçava um destino semelhante, tivémos de sair dali mais ou menos à pressa. Indizível a sensação quando se vê a casa demolida e no seu lugar um enorme buraco... Agora, passados anos e tendo encontrado em Alfragide um lugar onde também me sinto "em casa", continua a ser a velha casa da Conde Valbom a que sempre aparece nos meus sonhos, talvez porque aquela continua a ser "a casa".

Blondewithaphd disse...

Se muda!! Mas a Baixa para mim, que sempre a vi com olhos estrangeiros, continua a ser dos locais mais nostálgicos e únicos desta nossa capital.

Pi disse...

Olá Helena...será abusivo tratá-la desta forma?
Primeiro de tudo gostaria de lhe dizer que é uma pessoa que eu admiro e estimo muito...pertence ao restrito grupo dos seres humanos iluminados, é um privilégio estar à distância de um "click" deste blog fantástico que é o seu "Fio de Prumo".Sinto-me privilegiada !
Identifico-me bastante com o que escreveu: ainda à poucos dias comentava com uma familiar a desilusão que tive, quando 25 anos depois voltei ao nosso "Portugal dos Pequeninos", em Coimbra. No meu caso o que senti, foi que o tempo, apagou a magia com que em tempos eu tanto me diverti naquele local...

Bem haja!

Pi

Anónimo disse...

A casa da minha avo era um porto de abrigi repleto de amor, tolerancia e optimismo. Tinha o jardim mais belo do mundo.
Foi vendida ha muitos anos e por acaso procurei-a, ha uns tempos, no google earth e reparei que deixou de me interessar. Ttetlffi 1861udo o que os meua avos me deram, ficou gravado na minha alma.

Anónimo disse...

Drª. Helena,

Também gosto de visitar a zona onde vivi e cresci mas muitas vezes, em busca de memórias deparo-me com a desilusão e outras apenas com a saudade.
Tudo mudou, o lugar mudou, as pessoas que davam sentido aquele lugar já lá não estão, os cheiros, os ruidos, já não são os mesmos!
O lugar onde cresci parece-me frio e pouco familiar, vivo melhor só com as memórias desse lugar e do tempo em que lá morei.
O ano passado fez-me muito bem ir à aldeia do meu pai (que faz parte das longas férias de verão) "procurá-lo".
Foi como se o reencontra-se........

Um abraço!
FL

Silenciosamente ouvindo... disse...

Compreendo perfeitamente este seu
post, eu durante 30 e poucos anos
todos os ias andava pela baixa
lisboeta e agora quando passo
(muito raramente) sinto o que a
srª. escreveu.
Mas também é verdade que o nosso olhar
muda com a idade. Bj.Irene Alves

Raúl Mesquita disse...

Mas dói tanto…

Raúl.

Maria disse...

Helena:
Nasci em Tomar e adoro a minha terra.
Ultimamente não tenho lá ido. Dói-me ver a minha linda terra, transformada num monte de ruínas e lixo. Dói-me ver as antigas lojas, fechadas. Dói-me, ver os antigos jardins floridos, transformados em mato.
Amo Lisboa, com o amor que amo Tomar.
Também aqui, há chagas medonhas. Lisboa, a que foi menina, é hoje uma velha decrepita, com restos de beleza.
Beijo, querida.
Maria

Maria disse...

Adorei a sua reflexão sobre "o ter sucesso" e "ser bem sucedido"! A Senhora é um exemplo. Nunca nos vimos pessoalmente, não nos conhecemos, mas consegue transmitir afeto, proximidade e valores tão em desuso na sociedade atual(portuguesa e não só), que parece que nos conhecemos há anos...A Senhora é um ser humano de exceção! Obrigada por ser como é.
Um beijo do coração.
Maria

Julia Macias-Valet disse...

Dear Helena,

Quando era pequena vivi na Avenida Menedez Pelayo em Madrid. Atravessava-a com a minha avo para "voar" nos baloiços do Retiro ou visitar o Prado quando o frio apertava. Recordo-me que atravessar essa avenida era uma aventura IMENNNNSA, com passadeiras para peoes e semaforos.
A minha avo faleceu em Fevereiro de 75, as idas a Madrid começaram a espaçar-se. Ha uns anos atras voltei à capital espanhola com o meu filho Raphaël e num ataque de nostalgia fi-lo percorrer os dias da minha infância castelhana...E eis senao quando...MAS !?...quem encolheu a avenida MP ? Ja nao tive coragem de entrar no prédio para verificar se ainda existiam as banquetes forradas de veludo purpura no interior do elevador.

Nos meus olhos de infância so o meu Alentejo era grande, permanece e permanecera sempre grande ! : )

Julia Macias-Valet disse...

"As cidades são um palimpsesto."

Esta frase é o inicio de um texto que abre um livro de fotografia : "Moura-Bissau" que um amigo meu (de sangue) escreveu (e fotografou) ha dois anos.

Porque o texto de HSC me trouxe à memoria este outro, aqui fica...

"As cidades são um palimpsesto. As cidades escrevem-se no tempo e são a escrita do tempo. As cidades escrevem-se devagar, ao longo de séculos ou de milénios. Os séculos mudam-nas, apagam e reescrevem as suas páginas. Que são refeitas vezes sem conta. De dia e de noite, porque as cidades são, como as consoantes do alifato, solares e lunares. Os dias de Bissau e as noites de Moura fazem parte dessa escrita, que nem sempre é linear. E que nunca é silenciosa.

Os sítios não são um acaso da sorte ou do destino. Os primeiros a chegar foram, ao mesmo tempo, geólogos e geógrafos e arquitectos e urbanistas. Não sabiam que o eram, mas esse é o detalhe menos importante da história. Preferiram pontos altos e a proximidade dos rios, para se protegerem das ameaças que conheciam e, sobretudo, das que não conheciam.

As ruas das cidades contam-nos a história das cidades, e a vida de quem lá viveu. Os séculos sobrepõem-se e anulam-se, como na face de um velho palimpsesto. Cada troço de rua, cada esquina, cada porta nos conta uma história ou parte de uma história. Dentro de uma cidade esconde-se sempre outra, com o que ficou de tempos idos a ler-se, por vezes com dificuldade, por entre o que foi cortado e acrescentado ao longo dos séculos. Onde havia uma pequena rua exige-se agora uma passagem larga para circularem automóveis, onde estava o regato fez-se uma via rápida, onde havia um pequeno cais há agora um aterro e o porto novo, para navios grandes, fez-se mais além, mais perto do mar. Essas alterações pressentem-se, mas nem sempre são claras, na luz baça e quente das manhãs de Bissau ou na escuridão recortada e fria das madrugadas de Moura.

As cidades coloniais são obra de militares, traçadas com a régua do poder. As plantas dessas cidade, vistas só em planta, são um enredo de ruas, direitas e com rigidez castrense. Aí fica Bissau velho, mas a nós há-de parecer-nos quase novo, com linhas direitas e precisas e sem muita gente à vista. Onde o braço do poder não chegou uma lassidão curvilínea apoderou-se do desenho das ruas. Surgem nomes de sons estranhos a ouvidos europeus: Missirá e Bandim, para oeste, Pefiné e Amedalai, para noroeste. Vivem nesses bairros pessoas que nos chamam à passagem. Uma vez e outra.

Bissau é cidade recente. Há uns séculos atrás ninguém passeava ao longo da corrente rápida do Geba porque a cidade ainda não existia. Os primeiros que chegaram, há muitos anos, encostaram-se ao litoral, e nele copiaram tudo o que sabiam da maneira de fazer fortificações, de desenhar ruas e de construir cidades. Por aí ficaram. Terra dentro e rio acima era o desconhecido. Aí ficava o coração das trevas.

Agora é Inverno em Bissau, aceitemos que 35º possam ser Inverno, e por isso o tempo é muito seco. O calor ainda vem longe e mais longe ainda está a chuva. Tenho dificuldade em imaginar como serão os dias de Verão, com a chuva que não pára, os mosquitos e um calor terrível, que só conhecemos dos compêndios de geografia.

Julia Macias-Valet disse...

(Continuaçao...)

O dia cansou-se e, mais a norte, vem a noite. Na noite cheia de luz do norte fica Moura. Em tempos, os viajantes reconheciam as cidades pelo perfil que se recortava no horizonte. A sombra escura do castelo que se desenhava ao longe era, muitas vezes, o único ponto de abrigo em território hostil. O desenho das sombras da noite de Moura não mudou em muitos séculos. À noite, mais que nunca, é preciso olhar a luz para ver as sombras. O dédalo do norte é mais ordenado que o do sul. Ou parece sê-lo. As casas do norte também têm paredes em terra. Mas a cor da terra é aí coberta pelo véu da cal. E, assim, as paredes brancas contrastam mais com a pele escura da noite.

Quando nos afastamos para as ruas laterais, onde há sempre menos gente, as cidades parecem-nos mais velhas e gastas. Mas não é assim em todas as cidades e em todos os sítios, com os prédios antigos com rugas traçadas pelo ar salgado ou pela secura do interior? Não é assim em todos os sítios que foram uma coisa e deixaram de o ser? Há casas onde viveu gente e agora não mora ninguém, o que faz delas apenas um conjunto de muros abandonados e a memória de glórias usadas e esquecidas. As cidades são isso, também.

No outro dia, quando a noite já não era noite e o dia ainda só espreitava, as ruas estavam desertas e sem um som. Nos largos apenas se ouvia o rumor dos papéis que o vento levantava e depois íam pousar no mesmo sítio, exactamente no mesmo sítio. Alguns toldos balouçavam devagar com a primeira aragem da manhã, enquanto as luzes se iam apagando devagar e ficando sem préstimo. Moura parecia ter ficado deserta e sido varrida da face da Terra. Onde estão “os que há pouco dançavam, cantavam e riam ao pé das fogueiras acesas?”

Chove a norte e a sul. A água do norte lança brilho sobre o deserto das calçadas. A sul chovem, na perpendicular, raios de um sol impiedoso. Não pára de chover. Num sítio porque é um Inverno de sol, no outro porque o Inverno é frio e de chuva.

Um dia, vão ficar para trás as sombras e o frio. Nesse dia quando voltarmos a encontrar o caminho do sul, iremos em direcção a um inverno de sol. Onde haverá acácias e bonitas mulheres, cujas pulseiras rivalizam com a curva do Geba, antes deste se perder no coração das trevas."

Santiago Macias

Helena Sacadura Cabral disse...

Minha querida Júlia
Que belíssimos textos de duas cidades tão especiais. Bem haja!