terça-feira, 17 de junho de 2014

Ana Maria Adão e Silva

Há pessoas de quem gostamos, mal as conhecemos. Este fim de semana morreu Ana Maria Adão e Silva, que era uma delas. Nunca fomos íntimas, mas todas as vezes que nos cruzávamos - e foram muitas - havia muita alegria nesses encontros. Acresce que tínhamos grandes amigos comuns, o que facilitava que fossemos sabendo uma da outra.
Hoje estive com ela três longas horas antes da primeira missa que seria celebrada em sua intenção numa capela mortuária da Igreja da Ressurreição, nas Fontaínhas. Foi desta forma silenciosa, mas muito sentida, que me despedi dela, da sua boa disposição, da sua alegria, enfim, do gosto que tinha pela vida. E comigo esteve a Maria Nobre Franco que, além de sua vizinha, era também sua amiga.
Depois, com a aproximação da hora da missa, o local havia de ficar apinhado de gente, grande e humilde, numa comovedora cerimónia. Lá havia de encontrar o casal Adriano Moreira - amigos do peito - ou Maria Barroso e filha, lado a lado com o pessoal que a serviu e a quem ela nunca esqueceu.
Eu sei que há uma idade a partir da qual, todos os dias, vamos perdendo alguém de quem gostamos. Mas lá em cima podiam fazer esta "tarefa" de forma mais pontual. É que ultimamente tem sido uma enorme razia naqueles que estimo!

HSC

domingo, 15 de junho de 2014

Os psicopatas


Kevin Dutton é um psicólogo da Universidade de Oxford que concedeu uma entrevista ao jornal Publico que merece ser lida com atenção, já que quando falamos de psicopatas é sempre num sentido pejorativo. 
Pois bem aqui aprende-se alguma coisa a esse respeito, já que ele acaba de publicar um livro sobre o assunto que talvez leve a rever alguns preconceitos que a maioria de nós tem relativamente a esta "doença". 
Podem faze-lo carregando nas palavras a vermelho, porque vale a pena pensar no que ele diz.

HSC

O Eixo do mal

Não é programa que me prenda. Falam todos para o seu ego e abstenho-me de dizer o que penso de cada um, para além da intelectualidade profunda de que se mostram imbuídos. E, como parecem felizes assim, deixemo-los com as suas pequenas felicidades.
Mas hoje Clara Ferreira Alves foi substituída - com imensa vantagem, confesso - por Pedro Guerreiro, um jornalista que sabe pensar e, sobretudo, sabe o que diz e a forma como o diz. Não precisa corroer, chamar nomes, alterar-se ou ser grosseiro. É frontal, não faz joguinhos e é claríssimo quando se exprime. Por isso, coisa rara, assisti ao debate. 
O convidado deu uma verdadeira lição de política à inteligenzia que o rodeava e conseguiu tornar formativo, um programa que, na maior parte das vezes, só serve para satisfação dos umbigos de cada um. Felizmente que ainda há, na comunicação, pessoas assim!

HSC

sábado, 14 de junho de 2014

O futebol e a Espanha


O El País titulava hoje a derrota da Espanha como "DESCALABRO MUNDIAL", num delicioso trocadilho entre o mundial de futebol e a tremenda goleada sofrida. Apre, que até na desfeita matêm a raça de que são feitos…

HSC

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Eu


Quem for leitor deste blogue deve pensar que eu sou um anjo sem defeitos, tantos os elogios que me fazem. Ou, até, admitir que sou alguém que nasceu e cresceu sem grandes problemas. Nem uma coisa nem outra são verdadeiras. 
Não sou santa e às vezes peco mesmo com gosto. Sou humana. Já tive dores. Já tive dificuldades. Tenho dores e tenho dificuldades. Possuo, contudo, uma qualidade enorme que é reconhecer que quando se perde quase tudo, aquilo que nos resta é uma enorme riqueza. E tenho a vantagem de saber que em lugar de chorar o que perdi, o mais saudável é lembrar o que de bom vivi.
Assim, um divórcio, foi sobretudo um bom casamento que teve um fim. Mas a alegria e o prazer que ele me deu, esses ninguém mos tira e estão, ainda hoje, bem nítidos no meu coração. Acresce que a vida me deu a chance de comprovar que tais momentos não são irrepetíveis e que algumas pessoas têm segundas oportunidades que sabem agarrar.
Já a perda de um filho não tem cura. Mas, no meu caso, existe a segurança de que nos voltaremos a encontrar. E a de que eu continuo a viver com a alegria com que ele gostaria que eu vivesse. E a isso eu sou de uma fidelidade total. Aliás, eu gosto de ser fiel, porque sê-lo me torna feliz.
O resto é tão pouco, mas mesmo tão pouco, que só posso agradecer, uma vez mais, esse dom da vida que Deus me deu e os meus Pais corporizaram!

HSC

Na Feira


Sem orgulhos desmedidos, mas também sem sombra de falsa modéstia, devo ter sido uma das autoras - não sou escritora nem nunca deixei que de tal me apelidassem - que mais tempo passou na Feira. Estive lá nove dias, distribuindo-me diariamente por duas editoras, embora nos vinte e quatro anos que levo a publicar livros - e já publiquei vinte e um -, tivesse trabalhado com seis. E à excepção de uma delas, em todas fui bem tratada e de algumas fiquei, mesmo, amiga.
Muita gente me pergunta por que faço isto, que é bastante esgotante. Respondo sempre que devo isso aos meus leitores que, em lugar de comprarem uma vistosa peça de vestuário, preferem adquirir um livro meu. É deles que vivo - estaria menos bem, de certo, com a minha "vultuosa" ( é assim que costumam apelidá-la) pensão do Banco de Portugal - e, por isso, ouvi-los, conversar com eles ou dedicar-lhes um livro, é o mínimo que posso fazer pela gratidão que lhes devo.
Terminei oficialmente hoje. Os fãs deram-me churros, flores e até objectos. Um deles, com enorme deficiência física esperou, na sua cadeira de rodas, que eu lhe desse um sorriso. Dei-lhe um imenso abraço e comovi-me às lágrimas com a sua manifestação de apreço.
Vendi muito. Ganhei eu e as editoras. Mas a verdade, é que muito mais do que isso, foi aquilo aquilo que os outros me deram em estima pessoal. E que fez transbordar o meu coração!

HSC
Pedro Santos Guerreiropsg@expresso.impresa.pt
Um dia na vida
Hoje. Ao fundo, um homem sai de um gabinete. O gabinete do chefe. Do ex-chefe. Do ex-chefe que ainda é chefe, ex é ele: ex-empregado. Acaba de ser despedido. É um de um rol de muitos, um nome a mais numa lista, uma fila a menos numa folha de cálculo. Sai calado, pelo espaço aberto, outros olhos viram-se primeiro para ele, depois para baixo. Outro nome é chamado, lá vai ele, o mesmo gabinete, o mesmo destino. Hoje a empresa não é uma empresa, é um matadouro. Morrem empregos. Saiu nas notícias e tudo. É um dia na vida.
A vida já continuará, mas hoje não. “Fui eu? Foram eles? O que fiz de errado? O que farei agora? Como vou dizer? Como vou fazer? Quero um abraço. Não quero ver ninguém. Quero viver. Quero morrer. Merda para isto. Respira fundo. Mas para quê? Rosna. Chora. Põe-te de pé! Desaba… Com esta idade? Com esta idade.”
Todos os dias são um dia na vida. De quem é chamado para sair. De quem não é chamado e fica, às vezes com mais culpa que alívio. Ou mais raiva que tristeza. Fuma-se lá fora, conversa-se lá dentro, recebe-se chamadas aflitas, “não, eu safei-me”. O que se faz aos braços, esmurra-se, cruzam-se? Num jogo de cadeiras, só os que tocam música não estão a jogar. De manhã, a empresa fora sacudida pelo comunicado. Alguns diretores são chamados para a consumação. Outros diretores tiraram férias, fugindo à notícia da razia. Veio o administrador, despedimento coletivo, reestruturação, corte de custos, a crise.
Ontem. Dez de Junho. “Portugueses, este ano de 2014 abre um caminho de esperança. Mas, para ter esperança no futuro, devemos continuar a trabalhar no presente. Não podemos ficar à espera, passivamente, que a situação se altere por si mesma.” Passivamente.
O discurso político é o mesmo desde 2011. É tudo muito difícil, é tudo sem alternativa, é preciso reformas estruturais, é preciso um largo consenso entre partidos e que inclua também os parceiros sociais. Tirando o não-há-alternativa, o discurso fazia sentido em 2011 e faz sentido em 2014 e é isso que não faz sentido nenhum. A devastação económica e social destes três anos tinha de ter tido um propósito de regeneração que não teve. Se tivesse tido, o discurso já seria outro. Isso é o imperdoável. Esse é o falhanço. Se ainda precisamos do que precisávamos ainda estamos como estávamos. Tirando estarmos mais pobres. E mais desiguais. E mais desempregados. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.
Todos os dias são um dia na vida de alguém. Hoje foi naquela empresa, ontem foi noutra, e tudo seria compreensível se fizesse parte do ciclo da vida. Faz parte do ciclo da morte. O desemprego de longa duração, o desemprego de jovens e de velhos, a redução dos apoios sociais (flexisegurança sem segurança) não é sentido de justiça nem uma sociedade a funcionar. É uma nação que exclui. Quem perde sai. Às vezes até é notícia. Hoje foi. Um dia de cada vez. Um dia é de vez.
Amanhã?



"I read the news today oh boy
About a lucky man who made the grade
And though the news was rather sad
Well I just had to laugh
I saw the photograph
He blew his mind out in a car
He didn't notice that the lights had changed
A crowd of people stood and stared
They'd seen his face before
Nobody was really sure
If he was from the House of Lords"
A Day in the Life, The Beatles


Para quem não tenha tido a oportunidade de ler, aqui fica um excelente artigo de Pedro Guerreiro e o retrato do que estão a viver alguns amigos meus com os quais me solidarizo inteiramente. 

HSC