domingo, 10 de julho de 2011

Os tempos do tempo


Não há nada mais falível que a noção que temos de tempo. Sendo o bem mais precioso que possuímos - mais precioso do que a própria liberdade - é também aquele que mais desperdiçamos. Há tempos de alegria, tempos de tristeza, tempos de lazer, tempos de trabalho e, sobretudo, há o tempo que não damos ao tempo.
É quando alguem proximo desaparece ou adoece que, de repente, a noção de escassez dessa preciosidade nos assalta. Nuns casos porque a morte ou a doença acontecem em idades demasiado prematuras. Noutros casos porque, ao contrário, elas se verificam numa fase em que cada dia que passa já pertence a outro tempo.
Há tambem tempos fáceis e tempos difíceis. Queixamo-nos dos últimos, mas valorizamos muito pouco os primeiros. Esta estranha noção de temporalidade faz com que passemos metade da vida a libertar-mo-nos de quem toma conta de nós e outra metade a desejar que tomem conta de nós.
Portugal atravessou momentos de grande facilidade de que apenas alguns se deram conta. Agora que os ventos são tormentosos, as queixas são enormes. Parece que, afinal, só nas dificuldades é que tomamos consciência do tempo que passa sobre nós!

HSC

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Nada me faltará


Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.


Esta foi a última crónica escrita por Maria José Nogueira Pinto e publicada hoje no Diário de Notícias por seu expresso desejo. Exemplar!

HSC

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Chocante

Um amigo mandou-me este mail que, acredito, tenha obtido através da comunicação social. Confesso-me chocada e pergunto-me se a política não estará a colaborar activamente na degradação social mundial. A clivagem entre os que podem - pagos por todos os contribuintes - e os que nada têm, atingiu níveis que me ultrapassam. ´
Eu sei que nas outras instituições internacionais é tambem assim. E até lá temos os nossos representantes que, já aqui, ganhavam muitíssimo. Mas será que há trabalho ou representação oficial que justifiquem isto? Creio que não...apesar do futebol!

"Lagarde toma hoje posse da liderança do FMI e, num comunicado onde divulga os termos da sua nomeação, o Fundo atribui à ex-ministra francesa 551,7 mil dólares (cerca de 381,2 mil euros) por ano, o que dá quase 32 mil euros por mês.

O acordo feito com o seu antecessor, Dominique Strauss-Kahn, partia de uma remuneração de 496,3 mil dólares por ano (342,8 mil euros), ou seja, cerca de 28,6 mil euros por mês. Contudo, as regras do FMI pressupõem uma actualização anual dos salários, de acordo com o índice de preços no consumidor da área metropolitana de Washington, pelo que o ex-líder do FMI já estaria a ganhar uma remuneração superior quando teve de demitir-se, acusado de crime sexual.

Da remuneração que Lagarde irá receber faz parte o salário – 467,9 mil dólares anuais – mas também um complemento de 83,7 mil dólares por ano, destinado a que a nova líder do FMI “mantenha um nível de vida apropriado à sua posição de directora-geral e às necessidades de representação do fundo”.

Além disso, Lagarde irá receber ainda um complemento diário e terá pagas várias despesas, nomeadamente com hotéis. A ex-ministra francesa passará também a ter direito a receber uma reforma do fundo e um complemento adicional."


Ah! esquecia-me de lembrar que lá no FMI, como na UE há sempre uma "actualização anual de salário". Tal e qual o que acontece, neste momento, por causa deles, a todos nós!

HSC

O Insulto do rating

O texto que se segue é, na íntegra, o editorial de hoje do Correio da Manhã e resume muito bem a injustiça da decisão tomada de descer a notação de Portugal para "lixo".

"Da terrível trindade de casas de rating que falharam redondamente na crise financeira de 2008, mas que ainda ditam as regras no mercado e que decidem as margens de juros a aplicar a cada país, a Moody’s foi a primeira a baixar a nota de Portugal para o inferno.

Há o sério risco de a Fitch e a S&P acompanharem a tendência. É verdade que as contas do País não orgulham ninguém, mas atribuir a classificação de lixo ao crédito de um Estado que nos últimos 100 anos pagou sempre as suas contas é um insulto. E ainda é mais injusto atribuir nota tão baixa a um devedor que já assumiu publicamente que quer pôr ordem nas suas contas e anunciou sacrifícios. Já na crise grega as empresas de rating têm sido o principal obstáculo à reestruturação. Parte da tragédia do euro é não haver nenhuma empresa europeia com peso no mercado de avaliação de crédito. O cartel americano domina um mercado que tem interesses e, às vezes, quanto maior for a tragédia de uns, mais lucrativo é o negócio de outros.
A situação vai piorar e mesmo o guarda-chuva do resgate da troika não nos protege da tempestade. A seguir ao lixo do Estado, todas as empresas portuguesas vão sofrer agravamento de juros. Os bancos só podem contar com a ajuda de emergência do BCE, as médias empresas que geram emprego vão ter mais dificuldade de acesso ao crédito. As famílias endividadas vão sofrer mais penalização na prestação mensal a pagar ao banco.
Se Portugal era um náufrago a tentar sobreviver numa tempestade, as agências de rating, em vez de uma bóia, atiram-lhe uma pedra pesada. O País não tem força para atacar os avaliadores, mas a União Europeia deveria passar das palavras duras contra o cartel de rating e iniciar a acção com uma investigação profunda e eventual criminalização de acções ilegítimas que destroem países".


Claro que o facto de ter sido tornada pública a derrapagem orçamental que o anterior governo terá tentado esconder - lembro-me bem das declarações televisivas dos responsáveis na véspera de abandonarem os cargos -, afectou seriamente a já reduzida credebilidade do nosso país nos mercados internacionais que, como se sabe, não analisam "intenções" mas sim "dados". E, é face a eles, que avaliam o risco crescente de Portugal poder voltar a precisar de um segundo pacote de empréstimos internacionais, antes de conseguir regressar aos mercados financeiros. Terá sido este, supõe-se, um dos principais motivos que levou a agência Moody's a cortar o rating de Portugal para um nível considerado "lixo".
Acresce que, de acordo com aquela agência de notação financeira, continua a existir uma cada vez maior possibilidade de que seja imposta a pré condição da participação dos investidores privados num segundo plano de resgate a Portugal, à semelhança do que está a acontecer com a Grécia.
É evidente, que a imparcialidade destas agências se não é medíocre, anda lá perto. Mas Durão Barroso parece não encontrar razões para a criação da tão falada agência de notação financeira europeia... E a Vítor Constâncio também não mostra que o assunto lhe interesse. Claro, são cidadãos do mundo e só virão morrer a Portugal!

HSC

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Uma questão actual



"Todos os portugueses sabem que, excepto pelas costas, não se diz mal dos amigos e conhecidos. Felizmente, devo ter uma costela estrangeira e não me sinto obrigado à regra. Quando o novo secretário de Estado da Cultura, pessoa inteligente e óptima companhia, se estreia na função a prometer que o Acordo Ortográfico será "implementado" em 2012 nos "documentos oficiais e nas escolas" dado ser "um caminho sem retorno", eu gostaria de lembrar ao Francisco José Viegas que caminhos sem retorno também eram, ou são, o TGV, o aeroporto de Alcochete, a bancarrota, a gripe suína e o declínio do Belenenses. O trabalho de um governante consiste, suponho, em tentar contrariar as desgraças ditas inevitáveis. Aceitá-las de braços caídos tende um bocadinho para o fácil e talvez não justifique o salário.
Ainda por cima, às vezes sai mais caro, em esforço e em dinheiro, aceitar as desgraças ditas inevitáveis do que impedi-las. Na questão do AO, por exemplo, parece-me menos complicado deixar as coisas como estão do que proceder à inutilização de toneladas de papel e à revisão de gigabytes de informação "virtual" em nome de um compromisso pateta e de enigmática serventia. Vasco Graça Moura, aqui no DN, já aludiu ao prejuízo material que o AO implica, ao tornar obsoletos manuais escolares, dicionários e livros em geral. Se o objectivo do Governo eleito fosse torrar fortunas em disparates, a "implementação" do AO viria a calhar. Sucede que o momento é, ou assim nos garantem, de austeridade, por isso dói ver aumentos de impostos contrabalançados por desperdícios quantitativamente pequenos e simbolicamente desmesurados. Pior que tudo, além de tonto nos princípios e dispendioso nos meios, o AO é horroroso nos fins."

Alberto Gonçalves in DN de 29 de Junho de 2011

Não posso estar mais de acordo. Espero que Francisco José Viegas um homem de cultura que estimo, tenha consciência do que aqui se diz. É que não somos poucos a pensar assim. Nem somos todos néscios ou idiotas!

HSC

domingo, 3 de julho de 2011

"É a despesa, ...!"


Desculpem o título, mas uma leitura atenta do Expresso desta semana, obrigou-me a parafrasear a célebre expressão tão conhecida dos amanuenses da disciplina que diz "é a economia, estúpido!"
Com efeito o que para já se "vê" nas medidas governamentais é o aumento da receita através dos impostos. E até surgem os que são extraordinários, "só" para este ano. Será?!
Ou seja, nada mais que a velha receita de tributar o trabalho. Ou de aumentar o IVA, como todos os outros fizeram, e que só acaba por ferir os mais pobres. O resto,é tudo ainda e sempre do lado da receita e parece que virá de uma estranhas nacionalizações de coisas que, ou são recursos naturais - caso da REN e das Águas de Portugal, por exemplo -, ou dão lucro como os CTT. O que dá prejuízo, diz-se que será vendido, só não sabemos quando. Algo parecido com Durão Barroso que sabia que havia de ser PM, só não sabia era quando... E foi, de facto. Na pior altura para nós e na melhor altura para ele.
E a despesazinha, quando é falamos dela?! Ah! sim, acabam-se uns tantos governos civis, mais uns lugarzitos de pouca monta e zás! tudo o resto virá a ser oportunamente revelado.
Espero que, ao menos, saibam vender caro as "golden share", embora nada tenha visto referido acerca dessa mais valia que se pode e deve obter, mas que urge clarificar.
Mas e a despesazinha, se faz favor? Bom, parece que vão sobejar uns topos de gama, uns tantos assessores, umas empresas de marketing, enfim, talvez mesmo uns almoços no Eleven e equivalentes. A troika ditou, claro, algumas coisas na saúde, educação, enfim no núcleo duro das nossas vidas. Mas o que me interessa verdadeiramente saber e aos portugueses também, é que tranches da vultosa gordura do Estado serão cortadas. Vi pouco. Parece que tenho de ir ao oftalmologista. Às urgências...

HSC

sábado, 2 de julho de 2011

A noiva não estava feliz...


Este fim de semana tive notícias tristes. Apesar de ser "moçoila" forte, também tenho as minhas fraquezas. Infelizmente não me posso dar ao luxo de as mostrar, porque preciso de dar confiança aos meus, que julgam, sempre, que sou um rochedo!
Assim, não podendo ir para o mar carpir mágoas, resolvi ser um pouco "tontinha" e aliviar a alma a ver...o casamento dos príncipes do Monaco. É verdade.
Eu também tenho, claro, umas mediocridadezitas. Os casamentos reais - que agora se multiplicam - têm um efeito apaziguador na minha "alma de doméstica", como diria a minha Mãe, se fosse viva.E ali fiquei cerca de uma hora a olhar um casal em que a noiva mais parecia ir para um enterro do que para a felicidade.
As pessoas tristes sabem sempre reconhecer a tristeza dos outros. E eu não estava alegre. Talvez por tudo isto veio-me ao espírito a pergunta: mas para que é que eles se casam?!

HSC