quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O eterno problema

O estado das finanças públicas foi, desde Salazar, um problema de delicada abordagem. E, claro, o defice, outro tanto. Temas quase tabús.
A Comissão Europeia deu uma forte bolada nas nossas perspectivas, ao revelar, ontém, que havemos de sair da crise. Mas apenas lá para 2011. Todavia, com o endividamento que temos - mais de 90% do PIB -, o desemprego que temos - mais de 9% -, e o défice que tranquilamente temos - próximo dos 9% -, quem é que acredita que sairemos? Donde? Do quê?
Já aqui disse que 2010 vai ser o nosso ano mais duro. Mas é em 2011 que vamos começar a pagar uma factura muito alta.
E ninguém parece verdadeiramente interessado em rever posições. O governo apresenta um programa igual ao que já tinha em maioria absoluta. Perdeu-a. Fez alguma alteração? Não. Espera o quê? Que a oposição apoie o mártir? Porquê? Pelo amor à pátria? Mas acaso governo e oposição têm o mesmo conceito de pátria? É que, o mesmo modelo, não têm com certeza.
Eu, ignara cidadã, estou alarmada. Em muitos anos de economista já me não recordava do que "era crescer com base no endividamento". Lembrei-me agora. Claro, que associado, também me veio à memória, o tempo em que o FMI por aqui andava e mandava...
Porque terá sido?

H.S.C

Levy - Strauss

Morreu no último sábado uma das mais fecundas e importante mentes do sec. XX. Nascido na Bélgica e filho de judeus franceses, o fundador da moderna Antroplogia tinha 100 anos. Estudou na Sorbonne Direito e Filosofia. Em 1943 foi para o Brasil ensinar Sociologia na Universidade de S.Paulo e é aqui que descobre a sua vocação de etnólogo.
Os índios que rodeavam a cidade foram aqueles por quem primeiro se interessou. Depois, partiu para o Mato Grosso e Amazónia e começaria a divulgar as suas teses. Dois do seus livros, "As estruturas Elementares de Parentesco" (1949) e " Tristes Trópicos" (1950) iriam ter particular relevância. Este último chegou, mesmo, a ganhar o Goncourt.
Em 1958 a sua Antropologia Estrutural vem permitir o desenvolvimento do "estruturalismo", corrente de pensamento da qual foi o principal dinamizador e que, dito de um modo grosseiro, tenta aplicar aos acontecimentos humanos de natureza simbólica um método que permite encontrar o que é constante naquilo que tem conteúdos variáveis.
Entraria posterirmente, 1959, para o Collége de France onde titulava a Antropologia Social, e do qual apenas sai quando se reforma, em 1982. De algum modo foi, também um percursor dos movimentos ecologistas.
As Ciências Sociais estão assim de luto pela morte de um Homem a quem as mesmas muito devem!

H.S.C


Nota em tempo:
Numa entrevista concedida há quatro anos, Levy- Strauss terá, segundo o jornal Público, afirmado: "Dirigimo-nos para uma espécie de civilização à escala mundial(...) Estamos num mundo a que já não pertenço. Aquele que conheci, aquele de que gostei tinha 1500 milhões de habitantes. O mundo actual tem seis mil milhões de humanos. Já não é o meu".
Continuava com extrema lucidez, direi eu!
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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Uma Bolsa especial

A primeira Bolsa de Valores Sociais foi criada em 2003 na cidade de S.Paulo e partiu de uma ideia de Celso Neto. Por ela passaram já 400 milhões de euros que financiaram 100 projectos.
A segunda será em Portugal e foi ontém apresentada ao público, contando com os apoios da Euronext Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação EDP. Através dela podem comprar-se acções de organizações que visam fins sociais, não deixando de acompanhar o investimento feito, numa espécie de plataforma que se estabelece entre quem dá e quem recebe.
A partir das 00h.00 de hoje, quem quizer pode ir ao site http://www.bvs.org.pt/ e aplicar um mínimo de dez euros em quatro instituições na área da luta contra a pobreza e exclusão social.
A bolsa irá procurar organizações e projectos que ataquem as causas dos problemas sociais e não os seus efeitos.
Aqui, como nas outras bolsas, o funcionamento é semelhante. Junta-se uma empresa que quer ter ganhos com um investidor interessado e em relação ao qual é assumido um compromisso. Só que aqui o lucro não é financeiro mas sim social.
Sou uma entusiasta deste tipo de solidariedade. Seja o Banco do Tempo ou a Bolsa Social. Em qualquer deles cada um dá o que pode. E a entrega - tempo ou dinheiro - tem destino certo.
Uma boa ideia que, espero, tenha sucesso. O que também depende de nós!

H.S.C


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Portugal à espera...de si próprio!

Já aqui falei da estima e do respeito que tenho por Ernâni Lopes que, com Jacinto Nunes e Silva Lopes foram, no Banco de Portugal, as pessoas a quem mais devo. E como entre os meus defeitos, que são muitos, me esforço para que não conste a ingratidão, nunca acho demais repeti-lo. O que explica que esteja sempre muito atenta ao que dizem.
"Dez anos de tempo perdido" é o resumo que muitos economistas não políticos - entre os quais se coloca a autora deste post - fazem acerca da última década em Portugal.
Deles destaco dois que este fim de semana são referidos no Confidencial do Semanário O SOL. Trata-se de Ernâni Lopes e de Campos e Cunha. Deste último falarei mais tarde.
Reporto-me agora, apenas, a algumas afirmações do primeiro. Que, para já, tem dúvidas sobre se os sinais positivos de retoma da actividade económica correspondem a uma recuperação sustentada e fica surpreendido quando os responsáveis se animam muito pelo facto de uma quebra passar de 4,5% para 4%. É que a "quebra" continua, infelizmente, a existir...
E alerta para o facto de termos passado de uma crise no sistema financeiro para uma crise na economia, onde os ajustamentos, por se encontrarem longe de estar concluidos, vão arrastar-se por mais tempo na política e na sociedade. Por isso, o país demorará a sair da crise.
Com efeito, o nível de destruição da riqueza e da empregabilidade verificado nos últimos anos atingiu tais níveis que, ao falar-se de emprego e questões sociais, não há recuperação à vista. São suas as palavras que se seguem:
"Esta década revelou-se um registo muito pobre da vida portuguesa. É uma década sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem substância, sem densidade política.
(...)Mostrou uma percepção materialista da sociedade portuguesa, sem rasgo para o futuro e sem verdade, numa atitude vulgar e interesseira, vazia e sem horizontes. (...) Mais do que uma década perdida é uma década historicamente esvaziada".
Podem os governantes clamar que isto é bota baixismo. Podem até encolher os ombros. Mas o que não podem é negar a capacidade profissional de Ernâni Lopes - talvez o nosso melhor Ministro das Finanças -, ou o seu arreigado amor a Portugal. É que a dedicação à pátria não constitui exclusivo dos políticos que nos comandam. Pelo contrário...

H.S.C

Mimos quem os não quer?

Agora foi a vez da Teresa Santos do blogcronicasdateresa.blogspot.com
me mimar com um selo BLOG INSTIGANTE que pretende distinguir "os blog's que além da assiduidade da postagem e do esmero com que são feitos, nos provocam a necessidade de reflectir, questionar, aprender e - sobretudo - que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria".
Se eu tiver conseguido uma milionésima parte disto, já me sinto feliz e agradecida!
H.S.C

Amizade

A leitura de uma carta aberta a um amigo, no blog do Dr. Francisco Seixas da Costa, está na base deste post. Nela se fazem uma série de advertências a alguém que vai exercer determinadas funções publico - políticas. Não são, contudo, estas que aqui me interessam. O que me faz pegar no tema é, antes, o espírito ou, se quizermos, a essência do que se considera a amizade.
Amigo não é aquele que diz sempre sim, mas antes aquele que diz não, quando entende que o deve fazer. Amigo não é aquele que elogia o sucesso, mas sim o que adverte para os obstáculos que o mesmo comporta. Amigo não é aquele que espera contrapartidas, mas sim aquele que até sabe que dizendo o que pensa, as pode perder. Amigo não é aquele que elogia o que entende ser medíocre, mas sim aquele que é capaz de chamar a atenção, para essa mediocridade, visando que ela se não repita. Enfim, ser verdadeiramente amigo, é ter sempre a verdade na ponta da língua e, apesar de saber que pode não ser de imediato compreendido, nem por isso deixar de a dizer.
Pensando no assunto descobri que, felizmente, a maioria dos que estimo vem dos bancos da escola. O que diz alguma coisa sobre a sua qualidade...
Percebe-se, por isso, que não seja fácil ter amigos autênticos. E que os que se têm, possam ser de origem bastante diversa... Estranho, seria o contrário!

H.S.C

domingo, 1 de novembro de 2009

Camilo Castelo Branco

Ando cheia de trabalho e, por causa disso, com pouca vontade de "aparecer". Mas tinha assumido dois compromissos para Outubro e Novembro. Eram duas conversas. Uma, decorreu esta semana, em S. Miguel de Seide, a convite da Casa Museu de Camilo, que todas as últimas sextas feiras de cada mês, tem um convidado para falar ou de um livro ou de um filme. A outra, irá decorrer a 24 de Novembro, no Teatro D. Maria, em Lisboa.
Saí, assim, da capital na quinta feira, em direcção ao Norte, depois de ter escolhido o filme Gran Torino. Estreado em Portugal em Março, trata-se da última obra de Clint Eastwood, na qual ele é actor, produtor e realizador. Ainda hesitei entre "A idade da incência" e "Magnólia", ambos excelentes. Mas Gran Torino havia-me tocado muito particularmente quando o vi.
A sessão começou com a explicação das razões que me tinham levado àquela opção e com as minhas pistas para o modo como encarara a mensagem de Clint. Seguiu-se a projecção do filme e, finalmente, o diálogo. Fiquei muito contente com o resultado e espero que quem me ouviu também tenha ficado.
Mas depois, fiquei para me embrenhar em Camilo. Visitei a casa onde viveu e morreu, vi a exposição sobre as mulheres da sua vida. E passeei, até, por alguns dos locais onde decorreu parte da sua infância e que ele tão bem descreve nos seus livros.
Nesta digressão tive a sorte de ser acompanhada pelo Dr. José Manuel Oliveira que foi um guia excelente. De facto, não só fez uma criteriosa selecção de textos do autor, como teve a paciencia de mos ler nos lugares que os mesmos evocavam.
Tive ainda, pela sua mão, a oportunidade de visitar a Fundação Cupertino de Miranda e apreciar uma excelente mostra de pintura surrealista do tempo de Cruzeiro Seixas.
Finalmente, sabendo do meu apreço pela boa comida, o roteiro gastronómico foi de tal qualidade que não consigo eleger nem o melhor restaurante nem o melhor prato. Foi tudo pensado com tanto cuidado que só posso dizer que esta "digressão camiliana" me deixou rigorosamente de água na boca!

H.S.C