quarta-feira, 1 de abril de 2009

A Felicidade

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade! "

( Texto de João Pereira Coutinho)

Permito-me aqui reproduzir um texto de um jovem culto e talentoso, que aborda um tema que para mim é recorrente e que aqui tenho referido a propósito de diversos aspectos da nossa sociedade. Ele constitui um bom exemplo da esperança que deposito nas novas gerações, em particular a dos alunos que na Universidade passam pelas minhas mãos e também na dos netos que tenho. Oxalá esta minha expectativa não seja gorada, porque a vida acabou por corromper muitos daqueles que, na minha época, tinham um passado prometedor!

H.S.C

4 comentários:

alice disse...

Talvez tenha querido dizer "um futuro prometedor". Melhores cumprimentos.

criativemo-nos disse...

Que fazer senão apludir (e de pé!)? Sou fã dele desde os saudosos tempos do 'Indy'.
Escrita portentosa; às vezes (quando se distrai) até transcendental.
Bom augúrio, essa declaração de esperança nas novas gerações.
Só que, face a tal democratização do ensino, o apuro final é uma escassíssima elite.
Fiquemo-nos, resignadamente, atentos à 'crème de la crème'.
E com essa crença tão bonita que aqui revela.

Helena Sacadura Cabral disse...

Não Alice. Eles tiveram, de facto, um passado prometedor. O futuro é que, infelizmente, nalguns casos, não correspondeu...

muipiti disse...

Gostei particularmente deste texto que nos trouxe aqui de João Pereira Coutinho. Palavras sábias que contribuem para reflectirmos sobre que sociedade afinal queremos para nós e para a gerações futuras!