quinta-feira, 31 de outubro de 2024

AMA-SE SEMPRE DA MESMA FORMA?

Não, ama-se de formas muito diferentes ao longo da vida e até numa mesma relação. O amor muda porque nós mudamos: as nossas experiências, desejos, necessidades, e até a nossa compreensão sobre o que é amar, evoluem com o tempo.
No começo de uma relação, o amor muitas vezes surge com intensidade, misturando paixão e curiosidade. Esse tipo de amor é frequentemente marcado por uma excitação e um foco na descoberta do outro. Já com o tempo, o amor tende a ganhar outras nuances, como a segurança, a admiração, a parceria, e até uma cumplicidade silenciosa que se fortalece com a convivência.
As diferenças entre um amor apaixonado e um amor maduro, por exemplo, mostram como o sentimento se transforma. Num amor maduro, as expectativas são ajustadas, e existe uma compreensão mais profunda das falhas e vulnerabilidades de cada um. Ama-se sabendo que o outro é humano, com qualidades e defeitos, e que a relação requer trabalho e empatia contínua.
Além disso, ama-se de forma diferente conforme o contexto: o amor familiar, por exemplo, envolve um vínculo que nasce da convivência e do cuidado, enquanto o amor romântico mistura desejo, afeto e conexão emocional. Assim, cada forma de amor tem a sua profundidade e significado. A intensidade de um primeiro amor raramente se repete do mesmo jeito, porque, conforme crescemos, aprendemos a equilibrar o amor com outras partes da vida, como carreira, família e os nossos próprios interesses.
Estas mudanças no modo de amar são uma adaptação natural, uma forma de nos ajustarmos e evoluirmos emocionalmente, aprendendo a amar com mais empatia, compreensão e aceitação e refletem o amadurecimento emocional e a capacidade de ver o outro de maneira mais completa. O amor pode renovar-se reinventar-se, ou, em alguns casos, perder a sua força, mas cada forma traz algo único e revelador sobre quem somos e como estamos dispostos a compartilhar a vida.

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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

QUE BONITO!

Uma boa parte da minha vida profissional decorreu na Direção Geral da Aeronáutica Civil – então DGAC – então sob o comando do saudoso Eng. Vitor Veres. Foi um tempo que, com ele corri o mundo e aproveitei da sua invulgar cultura, acerca de todos os lugares em que as reuniões decorreram. Devo-lhe muito!

Era casado com a admirável atriz Carmen Dolores, que algumas vezes nos pôde acompanhar e que eu tive a oportunidade de admirar. Formavam um casal encantador. Tinham um filho que seguiu os passos paternos.

Há dois dias recebi, pelo correio, um livro lidíssimo editado com imenso cuidado pela Guerra e Paz, dedicado a Carmen Dolores por ocasião do seu centenário, de autoria de Rui Veres, filho de ambos. Emocionei-me imenso, não só pelas dezenas e dezenas de fotos da artista, como pelo gesto deste filho para com sua mãe.

“O livro é dedicado a seus Pais bem como a todos os que preservam a lembrança de quem também foi, nas suas conversas e nos seus livros, uma memorialista empática do seu tempo. E das efémeras artes do palco.”

Só posso agradecer ao autor e editor, as gratas lembranças que este livro me trouxe. Bem hajam!

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Os anos passam tão depressa e tão devagar

Sim, é uma sensação estranha e fascinante. O tempo parece correr, os anos voam, e, quando olhamos para trás, parece que tudo passou num piscar de olhos. Ao mesmo tempo, os dias podem arrastar-se, levando a que certos momentos pareçam eternos.
Essa perceção contraditória tem muito a ver com a forma como a nossa mente armazena as memórias. Quando estamos em fases de muitas novidades e mudanças, os dias ficam mais "cheios" de lembranças, dando a sensação de que o tempo se expandiu. Por outro lado, quando a rotina se torna mais previsível, tudo parece passar rápido, pois o nosso cérebro não cria tantas memórias distintas.
É como se, ao mesmo tempo, o tempo fosse elástico — estica e encolhe, conforme o que estamos a viver e como escolhemos lembrarmo-nos dele.
Essa sensação do tempo que corre e arrasta é profundamente íntima. Nos momentos de alegria, ele parece escapar pelas frestas, voando e deixando-nos com um gosto de "já acabou?". Já nos instantes de espera, de introspeção, cada segundo se alonga, nos fazendo mergulhar em nossos próprios pensamentos, como se o tempo quisesse nos obrigar a olhar para dentro.
É curioso como o tempo, esse conceito tão abstrato, parece dobrar-se ao nosso estado de espírito. Nas memórias doces, ele volta e flui como um sopro suave, rápido e quase intangível. Nas lembranças mais difíceis, ele se expande, marcando-se em cada detalhe, em cada segundo vivido. É um segredo muito estudado pelos cientistas da memória!
No final, é como se o tempo fosse o espelho de nossa intimidade — o que estamos dispostos a sentir e a enfrentar, ele nos devolve com a sua própria intensidade.
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A serendipidade do amor

A serendipidade do amor é o encontro inesperado de algo precioso, a descoberta de um sentimento ou de uma conexão que surge de forma surpreendente, sem planeamento. Diferente da busca ansiosa ou da espera paciente, a serendipidade do amor acontece quando estamos a viver os nossos próprios caminhos, atentos ao mundo ao nosso redor, mas sem a expectativa específica de encontrar alguém especial.

Esses encontros parecem ocorrer como que ao acaso: uma pessoa cruzando a mesma esquina, uma conversa que começa em um contexto qualquer, um encontro marcado pelo destino. A beleza da serendipidade no amor é que ela revela o poder do imprevisível e nos lembra que, muitas vezes, os momentos mais importantes de nossas vidas acontecem sem esforço, como se estivessem aguardando o momento certo para nos surpreender.

A serendipidade do amor carrega um toque de magia, como se nos dissesse que, no fundo, algumas coisas são destinadas a acontecer, não importa o quanto tentemos ou deixemos de tentar. Ela ensina-nos a confiar nos encontros e desencontros da vida e a perceber que, mesmo sem procurar, podemos encontrar aquilo de que mais precisamos — um amor, uma amizade, uma inspiração.

 

domingo, 27 de outubro de 2024

Porque deixamos de amar

Deixar de amar é um processo íntimo e complexo onde, muitas vezes, o fim do amor não chega como uma rutura brusca, mas como um desgaste silencioso, uma coleção de pequenos esquecimentos e silêncios acumulados. É como se o sentimento, antes vivo e vibrante, se fosse retraindo para um canto mais profundo, um lugar que não alcançamos ou decidimos ignorar.

Amamos alguém, no começo, pela forma como nos vemos refletidos naquela relação – a maneira como aquela pessoa nos faz sentir vivos, únicos, compreendidos. Mas, à medida que o tempo passa, as mudanças internas, pessoais e muitas vezes invisíveis ao outro, começam a moldar o nosso sentimento dessa ligação. Passamos a olhar com mais atenção para as lacunas, para o que antes aceitávamos ou não enxergávamos. E assim, o amor pode começar a ceder espaço a uma frustração sutil, a uma quietude incómoda.

O amor alimenta-se de pequenas escolhas diárias, de vulnerabilidades que se renovam, de uma curiosidade pelo outro que não se esgota. Quando a rotina, o silêncio, ou as dores mal resolvidas se tornam maiores do que o espaço que damos à curiosidade e ao carinho, o amor se retrai. Não por uma decisão consciente, mas pelo cúmulo de desencontros, pela falta de cuidado na escuta, ou pela dificuldade de partilhar aquilo que nos inquieta.

Às vezes, deixamos de amar quando já não nos reconhecemos ao lado daquela pessoa ou quando as versões que construímos para nós mesmos já não encontram repouso naquele abraço. E, outras vezes, o amor acaba porque falta coragem para reinventá-lo, para fazer perguntas difíceis ou para ver no outro mais do que apenas a projeção dos nossos próprios desejos e medos.

O fim do amor é um luto silencioso. Porque mesmo sem brigas, sem grandes eventos que marquem o seu fim, ele deixa um vazio, uma saudade do que foi e do que poderia ter sido. Entender por que deixamos de amar é, na verdade, uma forma de entender por que deixamos de cuidar do vínculo, de priorizar o toque e a palavra, de alimentar o olhar.

sábado, 26 de outubro de 2024

O CORAÇÃO FINGE?

Sim, o coração finge, ou ao menos. a mente o faz. Esse é um tema fascinante abordado por poetas, filósofos e psicólogos. Fernando Pessoa, no seu poema “Autopsicografia”, explora-o, ao dizer que “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Ele sugere que o poeta (e, num sentido mais amplo, todos nós) tende a fingir sentimentos, até ao ponto de nos convencermos de emoções que talvez nem estejam lá.

No campo da psicologia, o "fingimento" emocional é, muitas vezes, associado à capacidade de adaptação. A mente cria defesas e ilusões, em parte para nos proteger. Em certos momentos, esse fingimento não é uma mentira intencional, mas sim, uma tentativa de lidar com realidades complexas, sejam elas dolorosas ou incertas. Um bom exemplo é o autoengano, no qual criamos uma versão mais suportável de nossas experiências ou sentimentos para evitar desconfortos maiores.

E há, também, o lado social desse fingimento, quando demonstramos emoções que achamos ser esperadas de nós – sorrindo quando estamos tristes, ou mostrando tranquilidade quando estamos ansiosos. Muitas vezes, ao fingir emoções, acabamos “acreditando” nelas, o que sugere que o fingimento emocional também molda a nossa perceção do que estamos realmente sentindo.

O coração finge, mas talvez não por maldade. Esse fingimento pode ser uma maneira de sobreviver, de encontrar significados e de, paradoxalmente, ser fiel à própria natureza humana.

O CORAÇÃO

O coração é um mundo secreto, onde se guardam os mais profundos desejos e as mais íntimas fragilidades. Ele pulsa de maneira única em cada um de nós, guiando os ritmos dos dias, as batidas descompassadas dos momentos intensos e a serenidade silenciosa que só o amor verdadeiro traz.

Às vezes, o coração se fecha, como uma flor que sente a ameaça do frio, mas em outros momentos se abre completamente, entregando-se sem reservas. É nele que moram as saudades, os medos, e as memórias que queremos eternizar. No seu ritmo constante, o coração guarda segredos que nem sempre temos coragem de revelar, mas que, de alguma forma, moldam a pessoa que somos e a história que contamos ao mundo.

E quando ele bate mais forte, tudo ao redor ganha novas cores, sentidos e possibilidades. Porque o coração tem essa capacidade quase mágica de transformar o ordinário em extraordinário, de fazer o impossível parecer ao alcance, e de acender faíscas de coragem em meio à escuridão. O coração nos lembra, sempre, que viver plenamente é arriscar-se a sentir de verdade.