sábado, 27 de julho de 2013

Da sanidade mental

Disse aqui, há ano e meio, que o ritmo da minha vida tinha mudado muito depois de perder o meu filho. Outra morte dolorosa se lhe havia de seguir num relativamente curto espaço de tempo. 
Ambas fizeram com que passasse a demorar mais o meu olhar sobre aquilo que me rodeava e a dar mais valor às pequenas emoções do dia a dia: um café numa esplanada, um passeio à beira rio, um almoço com amigos, um ramo de flores frescas, enfim, às coisas simples da vida. Mas continuei a trabalhar demasiado.
A crise recente pela qual passámos obrigou-me - no meu caso particular de cidadã e de mãe - a um outro tipo de exercício. Que, sobretudo, conciliasse, as duas posições sabendo-se, como se sabe, que sempre pensei pela minha cabeça, e me não demito desse direito. E, embora haja ainda quem goste de me negar essa força identitária, ela existe e eu não abdico dela.
Assim e porque não vou ter ferias - corporizei-as no ar condicionado - reduzi o trabalho e tenho aproveitado para passear em Lisboa e "ver" aquilo que antes já lá estava, mas eu não reparava. Foi deste modo que pude, há dias, deliciar-me a ver o meu neto André - que estuda e trabalha -, no desempenho das suas funções laborais, sem que ele desse por isso...
A crise existe, eu sinto-a, mas tomei, de novo, a firme decisão de não ouvir políticos ou governantes nacionais, de modo a tentar manter esta sanidade interior o maior tempo possível. Fi-lo com Socrates e faço-o agora com Passos Coelho.
Ah! e preparo-me para passar Agosto em Lisboa, o que no meu caso, constitui já uma deliciosa forma de descanso...

HSC

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Tango

Por causa de um trabalho que me encomendaram, dei comigo a registar uma série de acontecimentos que, ou tiveram relevância na minha vida, ou espoletaram em mim reacções particulares.
Entre esses registos contam-se algumas cenas de filmes que consegui apanhar no youtube e de que vos irei dando conhecimento. A maioria deles tem o tango como protagonista principal, talvez porque se trata de um estilo que jamais me deixa indiferente. Para além de lhe encontrar alguns pontos comuns com o fado, considero que encerra uma dose de sensualidade difícil de encontrar noutras composições.
Aqui fica uma cena memorável do filme Scent of a Woman que entre nós, creio, passou como Perfume de Mulher e que, por motivos vários, não esqueço. Al Pacino interpreta um cego com uma peculiar história de vida - como sempre tendo a guerra como núcleo central - que aqui se esquece dos seus dramas pessoais e dança divinamente um lindíssimo tango de Gardel que se chama "Por una cabeza". Vejam esta notável interpretação.

HSC

Cá e lá mais feridas há!

"Segundo uma sondagem de opinião divulgada pela CNI (Confederação Nacional de Indústria) e pelo Instituto Ibope, a popularidade do Governo da Presidente Dilma Rousseff, sofreu uma queda acentuada de 24 pontos percentuais.
Tal situação ocorre após as manifestações provocadas pelo anúncio de um aumento das tarifas nos transportes públicos, a qual rapidamente alastrou à corrupção, falta de transparência no sistema político, falta de qualidade e acessibilidade de serviços básicos de educação e saúde.
Apesar do retrocesso dos governos estaduais, isso não impediu a queda da popularidade de Dilma Rousseff, que viu o seu estilo pessoal de governar passar de 71% de aprovação em Junho para os 45% actuais.
O mesmo inquérito de opinião mostra ainda que o número de pessoas que consideram o Governo mau ou péssimo quase triplicou.
A saúde é a area assinalado por 71% dos entrevistados, como tendo pior desempenho. Seguem-se a segurança pública, com 40% de respostas e a educação, com 37%.
 
A sondagem foi feita entre 9 e 12 de Julho, a 7.686 pessoas. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
" 
 
Dilma foi escolha absoluta de Lula. Ainda há bem pouco tempo, a propósito da situação portuguesa, ela disse, com alguma sobranceria, que o Brasil só "ajudava" países com classificação "triple A". Oxalá o país irmão não perca os seus A, nem venha a precisar de ajuda externa. Financeira ou outra. Um dos males dos actuais dirigentes é a falta de modéstia...

HSC 

O cancro

O cancro, na minha família, matou as duas pessoas que mais amei: a minha mãe e o meu filho. Ambos passaram pelo IPO. 
O Miguel fez do Instituto a sua casa. Recebia o partido, os amigos e a família como se todo aquele cenário fosse normal e o convívio destas três categorias de pessoas tornou-se na coisa mais natural do mundo. A mim, esse condição retirava-me a intimidade com ele e, por isso, confesso, em certas alturas custou-me imenso. Beijar ou acariciar um filho na presença de pessoas que apenas conhecia da televisão, foi muito complicado. Mas teve o condão de me fazer estima-las.
A minha mãe, no início, sofreu bastante porque os tratamentos eram muito duros. Mas encontrou em Inglaterra, onde o meu irmão mais velho então estava colocado, o médico que a salvou, pelo que o IPO lhe foi menos familiar.
Falo disto porque sei o que representa, numa família, ter um dos seus membros com tal doença. E sei que é preciso falar dela, para que o medo não se torne silencioso. O que todos mais tememos não é a morte, porque essa é segura e garantida. O que todos mais tememos é o sofrimento. E é esse que faz a grande diferença entre o que era esta doença há trinta anos, quando a minha mãe a teve, e aquilo que ela é agora, quando o meu filho a viveu.
Ambos morreram com extrema dignidade. A minha mãe, entregando-se a Deus. O Miguel, entregando-se a nós. É capaz, afinal, de não ser muito diferente!

HSC

terça-feira, 23 de julho de 2013

IPO

"Olho as pessoas à minha volta e sinto-me em casa. Desta vez não é por mim que franqueio o portão, não há hesitação ou angústia que me tolham os passos. Mas será sempre por mim que voltarei. Uma estranha nostalgia faz-me correr a revalidar o cartão, expirado há anos, que comprova a pertença e me dá a ilusão de uma garantia de segurança. De salvação. Quem por cá passa ou mora algum tempo sabe do que falo: fica-se íntimo, solidário, cúmplice de uma espécie de partilha desesperada que nos une para o resto da vida, valha esse prazo o que valer. Já quase não há caras familiares mas todas as caras são demasiado familiares. É meu pai o velho rabugento que mede forças com a cadeira de rodas, zangado com o mundo. É minha irmã a mulher magra, ainda coquette, que olha furtivamente em volta e ajeita a peruca loira, na esperança de que passe por cabelo verdadeiro. É minha filha a menina de olhar triste que brinca à sombra de uma árvore, lenço de cores berrantes amarrado a cobrir a ausência dos caracóis sedosos. Também eu já caminhei sem destino por estas ruas, sufocando nas entranhas um medo irracional. O maior pesadelo não é a dor física, é o terror. Também a mim já pareceram hostis estes muros, inóspitos estes bancos de jardim. Já fui aquela mulher que vejo agora no bar, agarrada à chávena de café como ao último e supremo prazer a que tem direito. Já me aturdi com a vozearia dos lamentos nas salas de espera. Para calá-los já fui bobo da corte, com graças estafadas para exorcizar fantasmas e arrancar sorrisos a quem se sente no corredor da morte, transido pelo medo e pela dor.  Já deixei lágrimas, suspiros e sorrisos nestes corredores, primeiro sombrios, depois esperançosos, finalmente libertadores. O tempo é sábio, esbate as mágoas e deixa-nos só as boas memórias. Foi aqui que aprendi a ler nas entrelinhas, a interpretar olhares mais do que palavras, a fintar as trevas, a saber esperar. Foi aqui que encontrei a maior condensação de humanidade que alguma vez me foi dado conhecer. Foi aqui que me questionei sobre o sentido da vida, o sentido da morte, e foi aqui que olhei ambas de frente. Estas paredes puseram-me à prova e revelaram-me o melhor de mim. Como posso sentir por elas alguma coisa que não seja gratidão?"

(Post "roubado" à Ana Vidal no blogue Delito de Opinião)

A Ana Vidal não carece de apresentação. Este texto, notável, define a admirável mulher que ela é. Sorte a minha que tenho tais amigas. 
As guerras políticas ao lado de problemas destes são de uma insignificante dimensão!

HSC



Pensar duas vezes...

"...Ontem, o Jornal de Negócios revelou que o Tribunal Administrativo e Fiscal (TAF) de Beja aceitou a providência cautelar interposta pelo município de Ferreira de Alentejo contra a Estradas de Portugal (EP), Ministério da Economia, Ministério da Agricultura, por causa de uma suspensão de obras na auto-estrada Sines-Beja. Até aqui, nada a opor, não fosse o caso de o tribunal, numa decisão inédita, ter decidido aplicar uma multa diária aos responsáveis políticos dos ministérios, Álvaro Santos Pereira e Assunção Cristas, e também ao presidente da EP, António Ramalho."... 
(http://economico.sapo.pt/noticias/o-regime-esta-doente_174014.html)
Ora aqui está uma boa razão para se pensar duas vezes, antes de se aceitar certos lugares, nomeadamente o de ministro do que quer que seja. Sobretudo, se apenas se viver do próprio salário...

HSC

Da tolerância

“…O apartheid entretanto acabou e Nelson Mandela algum tempo mais tarde foi eleito Presidente da República, revelando-se um político a todos os títulos excecional e de uma enorme humanidade.
Tive o privilégio de o conhecer e admirá-lo, salvo erro, antes e depois de ser Presidente. Lembro-me de um jantar em sua honra em que participei e em que estavam presentes dois dos seus carcereiros. Homem excecional. Mandela foi um dos mais notáveis políticos do século vinte, sem esquecer Roosevelt, Churchill, Mendès France, Mitterrand, Suarez, Willy Brandt, Olof Palme e alguns outros.
Nelson Mandela voltou a casar-se, com a viúva de Samora Machel, uma senhora excecional, que o tem acompanhado com enorme atenção e carinho. Oxalá Mandela volte a melhorar e viva ainda alguns anos. Continue a ser um exemplo único para um mundo hoje tão complexo e difícil. É um símbolo único com uma dimensão humanista e humana, como político, de que o mundo precisa."...

(Semana Parada, crónica de Mario Soares no DN)

Seria Mario Soares, algum dia, capaz de jantar com os seus carcereiros?

HSC