quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Inconstitucionalíssima mente

Como ando com um sentido do humor muito perverso, não resisti a "roubar" este texto ao Pedro Correia que o publica hoje no Delito de Opinião.

Janeiro de 2007: «O constitucionalista Jorge Miranda defendeu que, se o 'sim' vencer no referendo de 11 de Fevereiro, uma futura lei permitindo o aborto a pedido da mulher até às dez semanas violará a Constituição da República.»

Setembro de 2007: «Jorge Miranda considera que Simplex é inconstitucional ao prejudicar os notários.»

Outubro de 2007: «Um parecer de Jorge Miranda confirma as inconstitucionalidades do novo Estatuto do Jornalista.»

Novembro de 2008: «O constitucionalista Jorge Miranda critica a deliberação da Assembleia Regional da Madeira de suspender o mandato do deputado do Partido da Nova Democracia, José Manuel Coelho, por ser 'ilegal' e 'inconstitucional'.»

Março de 2010: «O constitucionalista Jorge Miranda reiterou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é inconstitucional.»

Março de 2010: «O constitucionalista Jorge Miranda não tem dúvidas sobre a inconstitucionalidade da norma aprovada pelos congressistas do PSD, que limita a liberdade de expressão dos militantes.»

Julho de 2010: «O constitucionalista Jorge Miranda considera que a exclusão da expressão ‘justa causa’ nos despedimentos ameaça os limites materiais da Constituição.»

Dezembro de 2010: «O constitucionalista Jorge Miranda considerou "manifestamente inconstitucional" a decisão do Governo Regional dos Açores em compensar os funcionários públicos dos cortes salariais, argumentando que viola os princípios constitucionais "fundamentais" da igualdade e solidariedade.»

Outubro de 2011: «O constitucionalista Jorge Miranda questiona como é que foi possível o memorando de entendimento com a 'troika', que, na sua visão, desrespeita a Constituição.»

Dezembro de 2011: «Jorge Miranda diz que se o aumento das taxas moderadoras na saúde for superior à inflação, é inconstitucional.»

Dezembro de 2011: «O constitucionalista Jorge Miranda mostra-se preocupado com a proposta do Governo para a instalação de câmaras de videovigilância, alertando que pode ser inconstitucional.»

Abril de 2012: «O constitucionalista Jorge Miranda defende que os cursos da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa leccionados em inglês são inconstitucionais.»

Junho de 2012: «Jorge Miranda aponta inconstitucionalidade na reforma de freguesias sem consulta ao município de Loures. O constitucionalista defende que a criação da freguesia do Parque das Nações, em Lisboa, com território de Loures, prevista na reforma administrativa de freguesias, viola a Constituição por não ter existido consulta ao município de Loures nem às freguesias de Moscavide e de Sacavém.»

Julho de 2012: «"Gostava que a extinção do Dia da Restauração fosse considerada inconstitucional. Porque tem uma relação directa com a independência nacional, que é um limite material da Constituição", afirmou Jorge Miranda.»

Agosto de 2012: «O pai da Constituição diz que a concessão da RTP a privados é inconstitucional.»

Outubro de 2012: «O constitucionalista Jorge Miranda defendeu que a redução dos escalões do IRS, prevista no Orçamento de Estado para 2013, viola a Constituição.»

Novembro de 2012: «O constitucionalista Jorge Miranda considera "manifestamente inconstitucional" a possibilidade de taxar o acesso ao ensino secundário.»

Será que para Jorge Miranda tudo é inconstitucional - do aborto aos cursos da Faculdade de Economia da Universidade Nova, do casamento homossexual à junta de freguesia do Parque das Nações?
Será que, no limite, até os doutos palpites do eminente constitucionalista poderão estar feridos de inconstitucionalidade?
Arrepio-me de indecisão: será que eu próprio, ao escrever estas linhas, estarei a ultrapassar alguma norma contida na nossa lei fundamental, incorrendo em flagrante, manifesta e imperdoável inconstitucionalidade?

HSC



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Bitaites

Começo por fazer, já, declaração de interesses. Eu dou bitaites, claro está. De vez em quando. Mas não tive cargos políticos, nem vivi da vida partidária. Ou seja não comi à mesa do governo. Nem deste, nem dos outros. Pago os meus impostos, vivo do trabalho, sou uma criatura séria. Logo, sendo portuguesa, cumpro o meu mister de opinar. Nem sempre acerto, mas o Dr. Gaspar também não. Ele é ministro e eu não.
O que me faz confusão são os bitaites daqueles quem têm obrigação de falar pouco. Ou porque antes falaram de menos, ou porque antes já fizeram o que agora criticam, ou porque, agora, não se dão conta de que a idade conta.
O mais trágico da velhice é não termos consciência dela...

HSC

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A importância de certas profissões

Eu sou doutora, sei cozer e cozinhar e, à falta de melhor, tenho a ousadia de tentar ser electricista. Escusado será dizer com as inenarráveis consequências... 
Mas tenho a desculpa. É que numa casa onde havia três homens e um deles até era arquitecto, ninguém - mas mesmo ninguém - levantava o rabete do seu poiso para mudar uma lâmpada. Era sempre aqui a donzela que, prenha ou não, cansada ou não, tratava destes negócios
Um dia marcharam os três de casa. E, algumas vezes, ainda acudi aos descendentes. Até que, um dia, dei o grito do Ipiranga e fiquei a ver os desaires acontecerem. Eram os frigoríficos que perdiam a luz, eram os ferros de engomar que não aqueciam, eram as anilhas que cediam, eram os filtros que entupiam e era aqui a menina a assobiar para o lado.
Há tempos, com um gosto de vingança retardada por parte dos três energúmenos moçoilos que abandonaram o lar, fui eu castigada. Por duas vezes quase seguidas, como vão ver. 
Com todas as mudanças atmosféricas esqueci-me de adaptar o esquentador ao modo inverno. Numa noite em que tinha vindo de arrolhar, na televisão, contra o governo, estafada, meti-me na banheira para o duche nocturno - tenho a mania de tomar duche antes de me deitar - e eis senão quando, fui submetida a uma torrente de água fria, gelada. Como não podia atravessar, encharcada, o caminho que me separava da cozinha, onde está o esquentador, aguentei firme o desafio. Mas, confesso, lembrei-me que a um deles já acontecera o mesmo, perante a minha passividade.
A outra foi pior. Dias depois, tentando eu, com adequada chave inglesa - tenho uma caixa de ferramentas de fazer inveja a um profissional -, colocar uma anilha na torneira da dita banheira, esqueci-me de fechar a água e, claro, acabei encharcada e sem o problema resolvido. 
Estes happenings convenceram-me duma verdade aterradora. É a de que não sou, definitivamente, capaz de substituir o canalizador. 
O qual, quando chegou para reparar a desgraça, me lançou a rir "mas porque é que a senhora não fica só pela cozinha e pelas escritas?". 
Ficarei. Mas que lhe vou demorar a pagar esta conta, lá isso vou... 

HSC

Os fiéis amigos

Cheguei aos 1800 leitores atentos. São três anos de blogosfera numa casa que não tem temática certa e apenas bate em compasso com a batida do meu coração.
Aqui tanto se fala de política, como de economia, como de afectos. Sobretudo destes, porque são o núcleo duro da minha vida. E, mesmo que dos mil e oitocentos companheiros, só uma pequena parte me siga com regularidade, sinto-me imensamente privilegiada.
Este blogue cumpre a missão que me propus quando saí de Diário de Notícias e que foi a de continuar aqui as crónicas do Fio de prumo que durante anos lá mantive. Se continuo, é por causa de vós e do incentivo que sempre me dão. Eu limito-me a ser disciplinada e a dar forma ao compromisso que fiz convosco.
Por isso, a todos os fiéis amigos, o meu abraço reconhecido.

HSC

domingo, 2 de dezembro de 2012

Câmara Clara

Acabou o Câmara Clara. Como já antes acabara o Acontece. Ou a Livraria do João Paulo Sacadura. E como acabarão os programas cujo share economicista seja a determinante da sua existência.
Paula Moura Pinheiro tem um conceito de cultura e de serviço público. Sabe o que faz e fa-lo bem. Além disso é mulher, é bonita e é inteligente. "Defeitos" que, no panorama actual não são muito apreciados.
Por que caminhos nos estarão a levar?!

HSC

sábado, 1 de dezembro de 2012

Para meditar...


Debate Orçamento do Estado

António Bagão Félix

Aprovado o OE 2013, Portugal arrisca-se a entrar no "Guinness Fiscal" por força de um muito provavelmente caso único no planeta: a partir de um certo valor (1350 euros mensais), os pensionistas vão passar a pagar mais impostos do que outro qualquer tipo de rendimento, incluindo o de um salário de igual montante! Um atropelo fiscal inconstitucional, pois que o imposto pessoal é progressivo em função dos rendimentos do agregado familiar [art.º 104.º da CRP], mas não em função da situação activa ou inactiva do sujeito passivo e uma grosseira violação do princípio da igualdade [art.º 13.º da CRP].

Por exemplo, um reformado com uma pensão mensal de 2200 euros pagará mais 1045 € de impostos do que se a trabalhar com igual salário (já agora, em termos comparativos com 2009, este pensionista viu aumentado em 90% o montante dos seus impostos e taxas!).

Tudo isto por causa de uma falaciosamente denominada "contribuição extraordinária de solidariedade" (CES), que começa em 3,5% e pode chegar aos 50%. Um tributo que incidirá exclusivamente sobre as pensões. Da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações. Públicas e privadas. Obrigatórias ou resultantes de poupanças voluntárias. De base contributiva ou não, tratando-se por igual as que resultam de muitos e longos descontos e as que, sem esse esforço contributivo, advêm de bónus ou remunerações indirectas e diferidas.

Nas pensões, o Governo resolveu que tudo o que mexe leva! Indiscriminadamente. Mesmo - como é o caso - que não esteja previsto no memorando da troika.

Esta obsessão pelos reformados assume, nalguns casos, situações grotescas, para não lhes chamar outra coisa. Por exemplo, há poucos anos, a Segurança Social disponibilizou a oferta dos chamados "certificados de reforma" que dão origem a pensões complementares públicas para quem livremente tenha optado por descontar mais 2% ou 4% do seu salário. Com a CES, o Governo decide fazer incidir mais impostos sobre esta poupança do que sobre outra qualquer opção de aforro que as pessoas pudessem fazer com o mesmo valor… Ou seja, o Estado incentiva a procura de um regime público de capitalização (sublinho, público) e logo a seguir dá-lhe o golpe mortal. Noutros casos, trata-se - não há outra maneira de o dizer - de um desvio de fundos através de uma lei: refiro-me às prestações que resultam de planos de pensões contributivos em que já estão actuarialmente assegurados os activos que caucionam as responsabilidades com os beneficiários. Neste caso, o que se está a tributar é um valor que já pertence ao beneficiário, embora este o esteja a receber diferidamente ao longo da sua vida restante. Ora, o que vai acontecer é o desplante legal de parte desses valores serem transferidos (desviados), através da dita CES, para a Caixa Geral de Aposentações ou para o Instituto de Gestão Financeira da S. Social! O curioso é que, nos planos de pensões com a opção pelo pagamento da totalidade do montante capitalizado em vez de uma renda ou pensão ao longo do tempo, quem resolveu confiar recebendo prudente e mensalmente o valor a que tem direito verá a sua escolha ser penalizada. Um castigo acrescido para quem poupa.

Haverá casos em que a soma de todos os tributos numa cascata sem decoro (IRS com novos escalões, sobretaxa de 3,5%, taxa adicional de solidariedade de 2,5% em IRS, contribuição extraordinária de solidariedade (CES), suspensão de 9/10 de um dos subsídios que começa gradualmente por ser aplicado a partir de 600 euros de pensão mensal!) poderá representar uma taxa marginal de impostos de cerca de 80%! Um cataclismo tributário que só atinge reformados e não rendimentos de trabalho, de capital ou de outra qualquer natureza! Sendo confiscatório, é também claramente inconstitucional.

Aliás, a própria CES não é uma contribuição. É pura e simplesmente um imposto. Chamarlhe contribuição é um ardil mentiroso. Uma contribuição ou taxa pressupõe uma contrapartida, tem uma natureza sinalagmática ou comutativa. Por isso, está ferida de uma outra inconstitucionalidade.

É que o já citado art.º 104.º da CRP diz que o imposto sobre o rendimento pessoal é único. Estranhamente, os partidos e as forças sindicais secundarizaram ou omitiram esta situação de flagrante iniquidade. Por um lado, porque acham que lhes fica mal defender reformados ou pensionistas desde que as suas pensões (ainda que contributivas) ultrapassem o limiar da pobreza. Por outro, porque tem a ver com pessoas que já não fazem greves, não agitam os media, não têm lobbies organizados.

Pela mesma lógica, quando se fala em redução da despesa pública há uma concentração da discussão sempre em torno da sustentabilidade do Estado social (como se tudo o resto fosse auto-sustentável…). Porque, afinal, os seus beneficiários são os velhos, os desempregados, os doentes, os pobres, os inválidos, os deficientes… os que não têm voz nem fazem grandiosas manifestações.

E porque aqui não há embaraços ou condicionantes como há com parcerias público-privadas, escritórios de advogados, banqueiros, grupos de pressão, estivadores. É fácil ser corajoso com quem não se pode defender.

Foi lamentável que os deputados da maioria (na qual votei) tenham deixado passar normas fiscais deste jaez mais próprias de um socialismo fiscal absoluto e produto de obsessão fundamentalista, insensibilidade, descontextualização social e estrita visão de curto prazo do ministro das Finanças. E pena é que também o ministro da Segurança Social não tenha dito uma palavra sobre tudo isto, permitindo a consagração de uma medida que prejudica seriamente uma visão estratégica para o futuro da Segurança Social. Quem vai a partir de agora acreditar na bondade de regimes complementares ou da introdução do "plafonamento", depois de ter sido ferida de morte a confiança como sua base indissociável? Confiança que agora é violada grosseiramente por ditames fiscais aos ziguezagues sem consistência, alterando pelo abuso do poder as regras de jogo e defraudando irreversivelmente expectativas legitimamente construídas com esforço e renúncia ao consumo.

Depois da abortada tentativa de destruir o contributivismo com o aumento da TSU em 7%, eis nova tentativa de o fazer por via desta nova avalanche fiscal. E logo agora, num tempo em que o Governo diz querer "refundar" o Estado Social, certamente pensando (?) numa cultura previdencial de partilha de riscos que complemente a protecção pública. Não há rumo, tudo é medido pela única bitola de mais e mais impostos de um Estado insaciável.

Há ainda outro efeito colateral que não pode ser ignorado, antes deve ser prevenido: é que foram oferecidos poderosos argumentos para "legitimar" a evasão contributiva no financiamento das pensões. "Afinal, contribuir para quê?", dirão os mais afoitos e atentos.

Este é mais um resultado de uma política de receitas "custe o que custar" e não de uma política fiscal com pés e cabeça. Um abuso de poder sobre pessoas quase tratadas como párias e que, na sua larga maioria, já não têm qualquer possibilidade de reverter a situação. Uma vergonha imprópria de um Estado de Direito. Um grosseiro conjunto de inconstitucionalidades que pode e deve ser endereçado ao Tribunal Constitucional. PS1: Com a antecipação em "cima da hora" da passagem da idade de aposentação dos 64 para os 65 anos na função pública já em 2013 (até agora prevista para 2014), o Governo evidencia uma enorme falta de respeito pela vida das pessoas. Basta imaginar alguém que completa 64 anos em Janeiro do próximo ano e que preparou a sua vida pessoal e familiar para se aposentar nessa altura.

No dia 31 de Dezembro, o Estado, através do OE, vai dizer-lhe que, afinal, não pode aposentar-se. Ou melhor, em alguns casos até poderá fazê-lo, só que com penalização, que é, de facto, o que cinicamente se pretende com a alteração da lei. Uma esperteza que fica mal a um Governo que se quer dar ao respeito.

PS2: Noutro ponto, não posso deixar de relevar uma anedota fiscal para 2013: uma larga maioria das famílias da classe média tornadas fiscalmente ricas pelos novos escalões do IRS não poderá deduzir um cêntimo que seja de despesas com saúde (que não escolhem, evidentemente).

Mas, por estimada consideração fiscal, poderão deduzir uns míseros euros pelo IVA relativo à saúde… dos seus automóveis pago às oficinas e à saúde… capilar nos cabeleireiros. É comovente… Economista, ex-ministro das Finanças

A propósito de liberdade e a pedido de muitos, aqui fica o contributo enorme do Prof. Bagão Felix sobre o "primoroso Orçamento de Estado" para 2013. 
Ouso perguntar: Senhor Presidente da República, vai Vossa Excelência ficar indiferente a este esbulho?

HSC


Liberdade

Para mim, hoje é e será sempre um dia para comemorar a liberdade. Aquela de sermos capazes de nos guiar pela nossa cabeça sem tutelas de ninguém que não sejamos nós próprios.
Voltamos a ter necessidade de recuperar essa liberdade!

HSC