domingo, 9 de setembro de 2012

Mais pobres


Não costumo usar esta coluna para defender familiares. Mas também não posso calar uma injustiça, só porque ele recai sobre alguém que me é aparentado.
Refiro-me a João Paulo Sacadura, que vê a TVI acabar com a Livraria Ideal e o Cartaz das Artes que, do meu ponto de vista  e no de muito boa gente eram, naquele canal, os únicos programas de difusão cultural passíveis desse nome e daquilo que hoje tanto se discute e se apelida de serviço público.
João Paulo Sacadura é um excelente profissional que ajudou a tornar conhecidos o rosto e a obra de muitos dos nossos melhores escritores, num trabalho que sei ter sido muito árduo e profundamente honesto.
Se a cultura é a identidade de um povo e disso se tem consciência, não se pode, em simultâneo, permitir que ela se transforme no parente mais pobre dessa mesma identidade. Decisões desta natureza só conseguem deixar-nos cada vez mais tristes e preocupados.
Espero sinceramente que o meu querido João Paulo possa ser imediatamente aproveitado por quem, em televisão, também esteja interessado em divulgar quem somos na arte e na escrita.


HSC

sábado, 8 de setembro de 2012

Parole, parole, parole!

Ouvi ontem as palavras - parole, parole, parole - do Primeiro Ministro e fiquei irritada. De facto ser economista é uma menos valia nestas coisas da política.
Ou estes senhores que nos governam entendem que a classe média trabalhadora, os reformados e pensionistas dessa mesma classe média não aguentam mais sacrifícios, ou o caldo vai entornar.
Fazer trocadilhos com as palavras escolhidas para as decisões tomadas não resolve o problema. As medidas anunciadas envolvem um agravamento tributário sério e são injustas.
Governar é atenuar desigualdades, abrir oportunidades, evitar injustiças. Isso não está a acontecer e é bom que esses senhores que foram legalmente eleitos tenham consciência de que precisam de encontrar outro caminho. Este não serve e é necessário procurar alternativas. Para isso é que eles lá estão. E para isso também é que deve haver uma sólida oposição, na qual possamos confiar.

HSC

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Triste desígnio

Alguma coisa de grave se está a passar entre nós, que visa sobretudo mulheres e crianças e que não é apenas resultante da crise que atravessamos.
Em 2012 já foram assassinadas em Portugal vinte e seis mulheres, isto se apenas atentarmos nos números oficiais. Porque, se considerarmos que tal tipo de crime esconde outro, terrível, que é o da violência doméstica, o caso é mais grave. Com efeito, esse dificilmente é contabilizável, porque as vítimas não só ainda têm uma enorme vergonha de o confessar, como os serviços policiais na sua maioria - ia dizer totalidade -, não estão devidamente apetrechados para receber tal tipo de queixas.
Eu sei que, antes, a comunicação social não fazia eco de tais crimes, ao contrário do que hoje se passa. Mas se a eles juntarmos a violência sobre os velhos e as crianças, as violações sexuais praticadas com as faixas etárias mais baixas, somos levados a crer que nem a redução da ileteracia teve qualquer consequência digna de registo. Parece, até, que funcionou ao contrário. 
Enquanto estes problemas subsistirem na sociedade portuguesa, falar de quotas na política é quase ofensivo. Por isso até me abstenho de comentar o desejo da Comissão Europeia de obrigar as maiores empresas da UE a ter pelo menos 40% de mulheres entre os membros não executivos dos seus Conselhos de Administração
Claro que tinha que ser entre os não executivos. Porque os executivos, esses 60%, ficam reservados para os homens. 
Haja paciência para tanto descaramento e discriminação por parte destes inteligentes a quem se entregou o futuro da Europa. O resultado está à vista...

HSC

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Milagre...


No Palácio da Ajuda, quando tomou posse como ministro das Finanças, em meados de 2011, Vítor Gaspar afirmou: "Vou precisar de imensa sorte". 
Precisava ele e precisávamos nós. Mas isto da sorte não é para qualquer um e a experiência de Teixeira dos Santos já havia mostrado à saciedade que não basta ser um bom técnico para gerir as contas do país. É preciso ser político e essa tarefa é especialmente difícil para quem toda a vida se moveu como professor ou especialista de questões economico financeiras. Por norma, o vírus não está no seu ADN.
Resultado: Teixeira dos Santos perdeu a admiração de muitos dos seus colegas e Gaspar vai pelo mesmo caminho. O país está saturado, não suporta experimentações e não aguenta mais sacrifícios.
Assim, um ano depois, o actual Ministro que não teve muita sorte, vai agora precisar de um milagre. Eu até sou católica, mas tenho muita desconfiança dos milagres económicos.
Porém, hei-de voltar ao tema. Por enquanto, jogo no euromilhões...

HSC

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A Amizade

Sou, felizmente, daquelas que conta com amigos excelentes. Não muitos, porque a qualidade, por norma, é inimiga da quantidade...
Aos amigos deste tipo, que pertencem àquilo que denomino de segunda família, permite-se quase tudo. Chega a permitir-se tanto como aos do sangue, porque quando estamos em apuros é, muitas vezes com eles que contamos.
Porém, há duas matérias que, quem é inteligente - e eu não me considero burra -, jamais deveria discutir. Trata-se, como é óbvio, de política e de religião.
Porquê? Porque se a ideologia ou o credo são diferentes, por norma ninguém chega a acordo. Mas isto não basta. É que mesmo quando se pensa do mesmo modo, a visão das coisas e dos comportamentos pode ser muito diversa. 
Neste belíssimo Domingo até acontecia que todos nós pensávamos de modo semelhante. Montes de vezes, a política e a religião fora tema de agradável cavaqueio. E até de uma certa má língua, confessemos. 
Ora foi assim que a tertúlia começou. A meio, um dos meus amigos tomou a defesa de alguém que ele muito admirava e eu também. Concordei, mas terei expressado o meu desagrado relativamente à forma como essa sua estima estava a ser manifestada. 
Pum! Foi a bomba! A partir daí, claro que já ninguém saiu da sua, tanto mais que funcionamos como irmãos e, a defesa da posição deste amigo mais não era que pura estima pelo visado.
O caso mostra bem que, mesmo entre amigos, quando a coisa azeda, é melhor fazer marcha atrás. Pensar o mesmo, afinal, é diferente de "ver" o mesmo...

HSC

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Um belo dia

O fim de semana passou-se em intenso convívio. Sexta jantei com amigos, sábado a minha cunhada Paula fez um lauto lanche de aniversário e eu, ingrata, fui mas esqueci-me da comemoração e o Domingo passou-se entre gente de quem gosto muito mas não via há meses. 
O dia e o almoço, óptimos, decorreram na piscina e foram muito agradável. Acabamos por ir ficando à conversa e eis senão quando, ao jantar rebenta - nem sei bem como -, uma enorme discussão sobre matéria que, a nenhum título, eu deveria permitir que fosse abordada na minha presença.
Resultado, os efeitos do belo Domingo terminaram numa enxaqueca seguida de  expressiva subida de tensão. 
Hoje acordei - se é que consegui dormir -, numa espécie de ressaca e com um mau feitio terrível. Como conheço muito bem estes meus raros estados - para alguma coisa fiz análise -, não hesitei dois minutos. Peguei no carro e fui para a praia sozinha. Escolhi uma que tinha, felizmente, pouca gente. E ali me deixei ficar quieta. Cinco horas. Como se o mundo à minha volta não existisse.
Três fabulosos banhos num mar gelado, retemperaram-me e até tornaram tolerável a areia que detesto.
Saí da praia perto das oito da noite. Tomei um duche, petisquei, vim aqui dizer olá e fazer esta espécie de catarse. Amanhã falar-vos-ei das partidas que a amizade também nos prega.

HSC

sábado, 1 de setembro de 2012

A fuga de cérebros

Perante uma crise que parece ter-se instalado, a Europa mais  pobre está a assistir, desde 2008, a uma vaga de fuga de cérebros em procura de trabalho. 
Quem são este jovens que estão a sair dos seus países de origem? São engenheiros, médicos, consultores, investigadores que abandonam a Espanha, a Irlanda, a Grécia, a Itália e Portugal. A maioria deles ainda não tem trinta anos, nem família constituída. Possuem um diploma e não conseguem encontrar ocupação. Metem-se num avião low cost, com bilhete só de ida e partem à aventura alterando o saldo migratório que antes fazia dos seus países uma terra de acolhimento.
De facto, e falando só dos nossos vizinhos, aquele saldo perdeu  em 2011 mais de 50000 pessoas, tornando-se pela primeira vez negativo.
Por outro lado, uma análise da taxa de desemprego dos que possuem menos de 25 anos revela, para os chamados Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), números preocupantes. Assim, em Espanha situa-se nos 53,27%, na Grécia nos 51%, na Itália nos 36,2%, em Portugal nos 35,54% e na Irlanda nos 28,5%.
E para onde vai esta diáspora? Estudos realizados mostram que se deslocam para os países mais ricos, nomeadamente a Alemanha, a Suíça, a Austria, a Holanda, a Noruega...
Mas ensaiando primeiro as afinidades culturais os portugueses procuram o Brasil ou Angola, os espanhóis a América Latina, os jovens de origem turca retornam às margens do Bosforo, os irlandeses a Grã- Bretanha ou os Estados Unidos.
No fundo, qualquer dos elementos desta geração perdida, procura apenas realizar o seu sonho de um futuro melhor.
Se este fenómeno persistir sem que sejam acauteladas medidas de redenção para esta "economia da inteligência", as consequências económicas e demográficas serão pesadas. E nem sequer falo dos efeitos sociais em cada um dos países que estes jovens abandonam, onde a taxa de natalidade enfraquece e a de velhice acelera!

HSC