Não sou de grandes queixumes. Cá vou aceitando o que a vida me dá, umas vezes mais contente, outras vezes menos satisfeita. Mas nada que dê origem a grandes perturbações.Até agora. Até chegar este calor desalmado, que me faz parecer uma criatura fugida de um qualquer goulag e que seca os poucos neurónios que ainda mantenho.
Há anos que o aguento. Há anos que suporto, estoicamente, as consequências de viver no último andar de um edifício virado para o mar. Mais concretamente num andar com quatro devassadoras janelas viradas a sul. Acopladas a um terraço onde se poderiam grelhar ditadores da América do Sul sem que se desse por isso.
Há anos que luto para não colocar ar condicionado, receando os efeitos maléficos do mesmo nesta carcassa que está longe de ser nova.
Pois bem, este calor, este capacete cinzento sobre a minha cabeça, este ar irrespirável que se apoderou do país faz com que pela primeira vez me queixe e reclame dum clima que se diz temperado.
Temperado, uma figa, digo eu que ainda permaneço com um resquício de educação! Basta de tempero. Venha o destempero, venha a chuva, mesmo sem ter ido ainda para férias...
HSC




