quarta-feira, 23 de Julho de 2014

O odor


Prefiro a palavra "cheiro" ao politicamente correcto "olfacto". É o meu segundo sentido, depois do tacto, e quase tão importante como ele. Relembro sempre, a este propósito, a alegria com que os meus filhos jogavam, na cama de casal, "à almofadada" e como se digladiavam pela minha, dizendo, com ternura, que "cheirava a mãe".
Mais tarde, seria eu que abraçaria todas as roupas da minha progenitora e pensava, em silêncio, que elas tinham o odor da sua pele e do seu perfume. Ainda hoje, em certas ocasiões, sinto o cheiro do seu corpo bem hidratado, ao sair do banho e parece-me que, por segundos, a tenho, de novo, comigo. Foi uma mulher lindíssima e de uma enorme fidelidade às suas duas águas de colónia favoritas, uma de inverno e outra de verão.
A certos odores associo, também, algumas situações da minha vida. Assim, a alfazema estará sempre ligada à primavera e aos meus avós maternos, ou a limpezas e arrumações de estação, como os primeiros fumos da castanha assada presumem o outono, a minha estação preferida.
Detesto incensos que me recordam perdas e velórios, como me incomodam algumas águas de colónia masculinas, que identifico com certos intelectuais de pacotilha - estou a ser boazinha - que conheci e cujo perfume  era uma espécie de imagem de marca.
Gosto do odor de certos corpos lavados mas não perfumados, porque ele identifica o seu proprietário e acredito que pode até constituir "meio caminho andado" para se "olhar melhor" alguém.
Finalmente, não sendo tão fiel como a minha mãe, há muitos anos que tenho dois perfumes de eleição para cada uma das duas principais estações. Todos florais e cítricos já que, tendo a pele muito branca, a tendência natural é para adocicar as essências. E até há quem adivinhe a minha presença num local, justamente por causa dessas fragrâncias!

HSC

Inúteis, é pouco!

“Foi necessário que, na passada semana, Bagão Felix tivesse utilizado o seu "megafone" mediático para que as Finanças cuidassem de vir pressurosamente a terreiro, por fonte ainda assim anónima, a clarificar o que não era claro: que os funcionários públicos na reforma não estão impedidos de dar contributos que lhe sejam solicitados por entidades públicas, desde que pro bono, a título gracioso.

…Como muitas outras pessoas nas mesmas circunstâncias, interroguei-me quando vi publicada a Lei 11/14, de 6 de março. Contrariamente ao anónimo oráculo do Terreiro do Paço, não tomei o "wording" do texto legal à conta de um pretenso "excesso de zelo" (ficando por clarificar o que entendem por "zelo"). Tomei-o pelo que ele era, de facto, e que, agora e sob pressão do escândalo, o poder político teve atabalhoadamente de retificar, ainda assim com um mero "parecer"
...
Estes dois parágrafos foram extraídos do post intitulado "Os inúteis" de autoria de Francisco Seixas da Costa e hoje colocado no seu blogue Duas ou Tres Coisas - http://duas-ou-tres.blogspot.pt - cuja leitura completa vivamente aconselho.
A minha posição familiar não me pode impedir de constatar os erros que se cometam. Ainda bem que o nosso Embaixador abordou o assunto, porque o fez melhor do que eu o faria.
Mas eu vou mais longe. O trabalho deve ser sempre remunerado. A excepção será aquele que se faz por solidariedade. Ora o caso vertente é, apenas, mais uma obsessiva perseguição aos reformados. E como este governo não precisa de solidariedade, é pena que não haja uma saída colectiva de todos os visados, dos lugares onde prestam serviço, para ver como o Ministério das Finanças iria resolver o assunto.

HSC

terça-feira, 22 de Julho de 2014

O tacto


Cada indivíduo tem as suas particularidades. Eu, por exemplo, quando conheço alguém, o que primeiro chama a minha atenção são as mãos. Não porque sejam bem cuidadas ou maltratadas. Não é esse o sinal que elas me dão, dado que, neste caso, quando muito, a diferença entre ambas, seja a origem social. 
É com as mão que faço quase tudo que respeita ao tacto, um dos sentidos mais importantes do ser humano, embora face aos outros quatro seja, muitas vezes, menorizado. Por isso elas me falam tanto. Gosto de mãos vigorosas, que quando pegam as nossas o fazem de modo firme e caloroso.  
Seria capaz de reconhecer entre muitas, mas mesmo muitas, as mãos das pessoas que amei, as mãos dos meus filhos, as dos meus pais. Não sei exactamente a razão desta minha preferência, mas sempre tive a leitura de que as mãos reflectem muito dos seus proprietários. 
Para além de tudo isto, o tacto dá-me o lado sensual da vida, aquele que, por muito que o desvalorizemos, é uma parte importantíssima dela. E esta forma de sensualidade estende-se aos mais diversos campos. No meu caso, a impressão táctil vai do papel dos livros à textura dos tecidos, ao contacto da pele do corpo. Se entre mim e aquilo em que toco não houver o "clic" que torna essa espécie de rasto agradável, a reacção de recusa é imediata. Mas se, ao contrário, esse toque me apraz, ele vai ser o fio condutor do meu interesse, o qual pode, até, transformar-se numa descoberta. Como acontece com os invisuais, também para mim, o tacto é uma outra forma de olhar. De que gosto e de que preciso!

HSC

O silêncio das palavras


Todos os conhecemos esses silêncios que falam, encerrados num olhar, num gesto de ternura, numa mão que limpa uma lágrima, num abraço forte que se dá ou recebe e que mais não são, do que formas de dizer a uma pessoa que a amamos e que não queremos vê-la sofrer. Ou, também, que ficamos felizes com a sua felicidade.
Sendo a palavra o meio de comunicar por excelência, o facto é que este tipo de gestos contem, dentro de si, um mundo de silêncios que se sobrepõe a tudo o que poderia ser dito por palavras.
Quando nasceu o meu filho Miguel, eu não fui capaz de dizer nada. Tê-lo no meu colo depois do seu primeiro grito, olhá-lo depois de o trazer nove meses dentro de mim, só foi compatível com gestos de ternura. Levei muito tempo até me sentir capaz de exteriorizar o que me ia na alma. Tudo o que eu tinha para dizer, estava ali contido no meu olhar. 
A família vozeava as parecenças com o pai, com o tio, com a avó. Eu nem sequer lhes dava atenção. Apenas queria ter o meu filho nos meus braços e, em silêncio, poder garantir-lhe que, para sempre, eu estava ali.
Mais tarde, na minha vida, outros silêncios haviam de falar mais alto do que as palavras, quase sempre ligados às alegrias ou às dores dos meus ou daqueles que me estão próximos. 
Todos os que me lêem sabem a mágoa que tenho de ter tido marido e filhos na política. Ela destruiu o meu casamento e não destruiu o resto porque, a tempo, percebi que o meu silêncio sobre certos assuntos, era o maior apoio que lhes poderia dar. Ou, quando tal fosse impossível, que, pelo menos, o discurso fosse neutro e o humor tornasse a palavra mais suave. Foi assim que geri - e continuo a gerir - durante cerca de cinquenta anos, o profundo sentimento que sempre nos uniu, privilegiando mais o gesto de ternura do que a palavra racional. 
Foi, afinal, toda uma aprendizagem de vida que lhes fiquei a dever e que, de algum modo, fez vir ao de cima, o que terei de melhor!

HSC

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

O peso das palavras...


Por oposição ao meu último post, neste vou falar da palavra, daquela que é falada. Deixarei para outro post, as outras, aquelas que estão contidas num olhar, numa mão que nos acaricia, numa lágrima que, de modo sorrateiro, alguém nos limpa.
Fui sempre defensora do valor da palavra. Escrita ou falada. Talvez por isso, é dela que vivo. Mas também sei que pode ser através dela que nos escape aquilo que, apesar de pensarmos, não devemos dizer...
Assim, a palavra é uma moeda de duas faces. Se, por um lado, constitui a via, por excelência, de aproximação das pessoas, por outro, pode ser a ferramenta fatal que as dilacera.
Há muitos anos, mesmo muitos, uma amiga minha, grávida do seu primeiro filho, almoçava em minha casa com um grupo de amigos. Todos éramos, à época católicos praticantes. Demasiado praticantes, como na época entendi.
A meio da refeição, um deles pergunta ao marido da futura mãe, quem ele escolheria, no caso do médico vir a pôr a questão. Rápido, tão rápido que quase feriu, ele respondeu que optaria pelo filho, como mandava a Igreja, já que este estava no princípio da sua vida.
Eu fiquei gelada e ainda consegui dizer que ninguém escolhe ou é capaz de escolher desta forma. Para, depois, acrescentar que a mãe era única, eles poderiam ter mais filhos e que não era aquela exactamente a posição da Igreja. Mas, à época, assemelhava-se muito, de facto.
Tantos anos passados, nas arrumações que ando a fazer, peguei na "Escolha de Sofia" - um romance de 1979 de William Styron - e lembrei-me deste episódio e do que, na altura. ele me marcou. Porque se fosse ao contrário, a minha amiga teria, sei, então, escolhido o pai.
Haviam de separar-se depois sem que, alguma vez, o catolicíssimo pai, tivesse tido, felizmente, de optar. Mas a escolha virtual havia sido feita e a palavra proferida... Aqui, sim, é que o silêncio teria sido de ouro!

HSC

O som do silêncio...


Nunca tinha reparado que o silêncio tinha som, até que numa determinada noite percebi que ele existia mesmo. Tinha 30 anos e o meu marido acabava de levar os últimos livros da nossa casa. Tudo o resto, já havia saído.
Para lhe dar inteira liberdade, jantei fora com uma amiga e depois fomos ao cinema. Como se a vida prosseguisse sem qualquer alteração. Era assim que eu havia desejado que fosse.
Retornei ao lar - lar não, porque afinal havia deixado de o ser - ou, antes, a minha casa cerca da 01:30 da manhã. Enquanto o elevador subia, senti que aquela seria a primeira das muitas noites dos anos que se iriam seguir, e que era fundamental que não chorasse, que me não sentisse impotente para o que o futuro me reservasse. Tinha dois filhos e era neles que, naquela ocasião, eu tinha de pensar. Não em mim ou nas minhas dores.
Meti a chave à porta e entrei numa casa em total silêncio. Não fui sequer ao quarto dos crianças. Não fui capaz. Entrei directa na sala e desabei - é o termo - sobre o sofá. 
À minha frente, a janela rasgada mostrava pequenas luzes luxuriantes de uma Lisboa adormecida, em que um ou outro lar era, ainda, visível. Dentro da minha cabeça, a pergunta que me assaltava, ia-se, a escassos intervalos, sempre repetindo "será que serei capaz de conduzir sozinha este barco?".
Foi então que me apercebi que o silêncio da noite continha pequenos ruídos, dos quais, durante 10 anos, jamais me havia dado conta. Quase imperceptíveis ao ouvido comum, mas definidos e precisos, para quem, como eu, estava com os sentidos afinadíssimos.
Não chorei, de facto, mas fiquei ali, quieta, perdida, horas. Eram 6 da manhã quando, sentindo o corpo dormente, me levantei e fui espreitar os filhos que dormiam tranquilos.
Tomei um duche quente e deixei que a água me lavasse a alma. Passaram quase cinquenta anos e eu nunca mais esqueci o som do silêncio. Em especial daquele que veio, talvez, quem sabe, de dentro de mim!


HSC

sábado, 19 de Julho de 2014

Sobretudo, a incerteza


Ao longo da minha vida mantive sempre uma característica, que veio estritamente da educação recebida dos meus pais e da magnífica experiência vivida na minha vida familiar - hoje é assim que a vejo, pese embora, quando criança, eu apenas a julgasse original -, e que defino como a necessidade de trabalhar para conseguir manter um mínimo de certezas. Neste mínimo incluía a minha independência material e pessoal. E por ambas fiz esforços, por vezes, sobre-humanos. Não estou arrependida porque foram eles que forjaram o meu carácter, o qual, sem qualquer pinta de falsa modéstia, continua a marcar a minha vida.
Julgo que isto terá acontecido com muitos daqueles que, como eu, sofreram na pele as consequências da segunda guerra mundial. E até vivíamos acreditando que os sacrifícios feitos nos permitiriam ter uma velhice descansada...
Só que, desde a década de setenta, o mundo mudou tanto que os valores que tinham norteado a vida de cada um foram à vida e convenceram-nos que nesta, nada mais está já garantido. Foi então que vieram a voragem dos divórcios, das uniões de facto, dos abortos, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, das barrigas de aluguer, do desemprego, das drogas, do sucesso mediático, enfim, a lista seria imensa e muito diversificada. O que, até, poderia não merecer grandes julgamentos morais oficiais, se todas as condições de bem estar se tivessem mantido. Seriam, eram, escolhas que cada um podia, ou não, fazer.
Mas a entrada no novo século trouxe com ela a crise e esta trouxe consigo a incerteza. E é esta incerteza quanto ao dia de amanhã - já nem falo do futuro - que está a minar a nossa vida pessoal e a nossa vida colectiva.
No mundo actual nada está garantido e, talvez por isso, uma grande parte das pessoas não se envolve em projectos e limita-se a viver o dia a dia, incerto, que a vida lhe reservou. Mas como esse tipo de vivência, a partir de certa altura, se torna demasiado insatisfatório, a ansiedade, a depressão, a loucura tomam conta de muitos, que se sentem profundamente infelizes por a sua existência, de tão incerta, carecer de sentido. E é este sentimento que une, hoje, tristemente, os portugueses...

HSC