segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

A espuma dos dias


A Europa está em risco de enfrentar a terceira recessão desde 2008. A Grécia está em vias de outra intervenção financeira externa de emergência. A Itália e a França não cumprem as metas do Tratado Orçamental. A Alemanha caminha para a estagnação da sua economia. Em Portugal pululam as crises partidárias sob o manto diáfano de uma eventual antecipação eleitoral que conduza ao milagre de uma maioria absoluta do PS.
E tudo isto se desenrola, como diz o Pedro Correia, na espuma dos dias, como se a dívida pública não permanecesse incontrolada e a despesa do Estado não cessasse de aumentar. Ou, quem sabe, como se o petróleo jorrasse, em força, nas Berlengas...

HSC

O novo Diário de Notícias


Saí do DN, para onde fui levada por Bettencourt Resendes, há sete anos, a quando da entrada de João Marcelino. Por lá permaneci, após a saída de quem me convidara, em excelente convívio com os três directores que se lhe haviam de seguir. De um deles guardo, mesmo, boas recordações, porque fez tudo o que pedi para me lá manter.
Assim, confesso, a saída de Marcelino - que, a meu ver, havia transformado o DN numa espécie de Correio da Manhã para gente mais ilustrada -, não me causou grande pena ou surpresa. 
Ao contrário, a entrada de André Macedo - cuja carreira conheço - e pelo que ultimamente tenho visto, faz-me acreditar que o jornal possa a vir a ser objecto da transformação desejada, já que, sob a batuta da anterior direcção, perdeu mais de metade dos seus leitores.
Irei, a título de observadora, passar a comprar, de novo, o DN. Oxalá Macedo consiga fixar-me, porque isso seria, do meu ponto de vista, um bom sinal!

HSC

Os Direitos da Criança


Começo por fazer uma declaração de interesses: sou amiga do casal Eanes que estimo, admiro e respeito. Em particular de Manuela Eanes que sempre esteve comigo nas boas e más horas. Isto para que se perceba o meu empenho em dar a notícia que se segue.
Amanhã e terça feira, dias 20 e 21 do corrente, irá decorrer no Auditório da Assembleia da República uma Conferência subordinada ao tema "Os Direitos da Criança - Prioridade, para quando? ", promovida pelo IAC - Instituto de Apoio à Criança - no âmbito da comemoração dos 25 anos da Convenção dos seus Direitos. Os oradores são pessoas cuja experiência pessoal e profissional poderá ser muito útil à discussão do tema.
Como se sabe o IAC nasceu há mais de trinta anos e a sua actividade em prol da criança desenvolve-se na família, na escola e na saúde, com especial enfoque na criança maltratada e sexualmente abusada, intervindo directamente em domínios não cobertos pelo Estado. Tem por objectivo principal contribuir para o desenvolvimento integral da criança, na defesa e promoção dos seus direitos, encarando-a na sua globalidade como sujeito de direitos na família, na escola, na saúde, na segurança social ou nos seus tempos livres.
É uma instituição sem fins lucrativos, criada em 1983 por um grupo de pessoas de diferentes áreas profissionais – médicos, magistrados, professores, psicólogos, juristas, sociólogos, técnicos de serviço social, educadores e tantos outros,  inspirados no Dr. João dos Santos, médico e pedagogo de grande sensibilidade e prestígio, que sabia que “uma política da infância deve ser obra de toda a comunidade com a participação activa e generalizada das pessoas e em trabalho coordenado das instituições” e que defendia que “o destino do homem se determina na forma como é gerado, no calor dos braços que se lhe estendem, na ideologia que o envolve e na liberdade que lhe é proporcionada para imaginar, experimentar e pensar”.
Manuela Eanes é a Presidente da Direcção e tem sido o seu rosto mais visível desde a fundação. Quem, como eu, a conhece, sabe o empenho e carinho que sempre dedicou a este projecto.

HSC

sábado, 18 de Outubro de 2014

Da tolice e da surpresa


Quem é que, em seu juízo perfeito, se lembraria de ir ao Corte Inglês, hoje, num sábado cinzento que se não decidia entre o sol radioso e as nuvens carregadas? Eu. E, claro, uma multidão de gente tão insana como a que vos escreve estas linhas.
Havia comprado, há uns dias, no citado estabelecimento, um lindíssimo blazer azul cobalto, na qual já me via glamourosa - é nesta altura que se costuma dizer que todas as idades têm o seu encanto... - combinando-o com uma calça cinza peito de rola, da qual muito gosto.
Porém, chegada a casa, o azul cobalto, por efeito da luz natural era, de facto, algo situado entre o beringela e o lilás. Pensei para comigo que teria de o ir trocar. Pensar, eu fui pensando. Ir é que não ia, porque se impunha faze-lo de dia, o que era sempre inviável.
Foi assim que, de postergação em postergação, acabei por me encontrar hoje, às 13:00, no meio de um mar de gente que fazia compras, comia, ou pacificamente esperava a sua vez de comprar bilhete para o cinema.
No meio de todo este caos, tive imensa pena de mim. E, quando tudo apontava para que fizesse marcha atrás e saísse dali, a decisão tola que tomei foi a de ficar, almoçar, ir ao supermercado. E, surpresa, trocar o blazer azul cobalto por um vestido branco e preto mais um casaco de malha de cor indefinida. Peças de que visivelmente não necessitava... Salvou-se terem tido uma boa redução de preço, mas não se salvou a minha manifesta estupidez.
Derreada, resolvi tomar um café, num pequeno espaço do andar onde fiz todos estes disparates. Já sentada e com uma imensa vontade de mandar os sapatinhos às urtigas, dei-me conta da azáfama com que as peças de vestuário iam desaparecendo dos cabides e das prateleiras para os sacos que as pessoas amontoavam nas suas mãos.
De repente, sem qualquer explicação plausível, só consegui pensar no Orçamento para 2015. Porque diabo havia eu de lembrar tamanha desgraça? Ignoro. Mas é por mais evidente, que devo estar a precisar de acompanhamento clínico especializado. Só pode ser isso!

HSC

O velório


Estiveram ambas lá no velório. Sentadas uma ao lado da outra. Não porque tenham procurado ficar assim, mas porque os amigos que as vinham abraçar, acabaram por se ir sentando de um lado e do outro de cada uma, acabando por deixá-las bem juntas.
Era estranho? Nem sei que vos responda. Afinal cada uma delas havia vivido com aquele homem uma boa parte da sua vida. Uma, a primeira, durante quinze anos. A outra, que veio a seguir, durante dezassete.
Assim, quem as abraçava havia conhecido ambas e a qualquer delas entendia dever testemunhar o seu apoio e carinho.
A certa altura, divagando um pouco sobre o que estava a acontecer, perguntei-me mesmo se esta não deveria ser a prática corrente, uma vez que nenhuma das duas poderia ter sido eliminada da vida daquele homem que ali estava. Nem a do passado nem a do presente. Uma e outra eram, naquele momento e de direito, as suas viúvas.
Ao fim de umas horas, a sala havia de fechar-se, porque era noite e havia chegado a hora de cerrar as portas.
Caminharam lado a lado até ao adro exterior da Igreja. Era já noite feita. Aí abraçaram-se sentidamente e seguiram cada uma para o seu destino. O enterro, esse, seria no dia seguinte.


HSC

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Tão simples, tão bom!


Com a vida que levo só tenho tempo livre ao fim de semana e, mesmo assim, é preciso que  não entre em convívios sociais. Muitas vezes me tenho perguntado porque trabalho tanto e a resposta mais honesta é a de dizer "porque gosto muito do que faço". Mas convenhamos, na minha idade, até os gostos devem ser controlados para não darem em desgostos...
A outra razão, que vem quase a seguir, é a de que gostaria, até ao fim dos meus dias, de manter o nível com que vivo. Não estou a queixar-me, mas se vivesse da minha "choruda pensão" - já aqui expliquei que pertenço a um dizimado grupo de trabalhadores do Banco de Portugal, cujas pensões nunca foram actualizadas - não poderia faze-lo. E, como não tenho rendimentos de capital, para tal acontecer, tenho de continuar a trabalhar. 
Vem este longo intróito a propósito do meu almoço de hoje, com uma amiga que é médica e trata não só dos meus olhos, como também de algumas fragilidades que tenho.
Perguntarão se fui a um banquete? Não. Fui a um local com vista de rio, arejado e com pouca gente. Mas o que me deu mais prazer foi te-lo feito, num dia de semana, sem pressas nem compromissos, com uma pessoa de quem gosto muito, que tem uma serenidade contagiosa e um enorme sentido do humor.
Quem pode dizer que a felicidade não é, afinal, um somatório de pequenas coisas simples e de momentos como este?!

HSC