segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Bom senso

No nosso país as questões que são do foro do bom senso dão, por norma, origem a verdadeiras telenovelas mexicanas. O jantar no Panteão já permitiu tanta opinião que, a partir de certa altura, começamos a perguntar se isto não será para nos desviarmos dos verdadeiros problemas do país.
A lei permitia, de facto, a realização do jantar, mas não devia fazê-lo, porque há locais que não servem senão para aquilo para que foram construídos. Ou seja, no caso, o cemitério daqueles a quem a Pátria deve honrar. E, até neste campo, como se sabe, as interpretações de quem lá deva ter lugar, podem divergir. 
Neste momento investiga-se, quase com morbidez, que outros repastos lá poderão ter ocorrido. A questão é do foro do mero bom senso. Aconteceu. Foi um lapso. Pediram-se desculpas de um lado e do outro dos intervenientes, que era a única possibilidade, para além da necessária mudança da lei. Será que vamos continuar a tentar encontrar "culpados" e a exigir a cabeça deles, quando o país tem reais problemas que, esses sim, urge debater?
Erros todos cometem. Chamou-se, e bem, a atenção para eles. Houve, ao que me dizem, pedidos de desculpa pública de quem organizou e de quem autorizou. Estou à vontade, porque neste assunto, só conheço o Ministro da Cultura que é pessoa que estimo, mas a quem não peço que saiba, ao pormenor, este género de coisas. É para isso que existe a delegação de poderes.
Seria necessário algo mais do que um pedido de desculpas, publico, do governo, pelo que aconteceu e vai ser corrigido? Haverá, de facto, motivo para que andemos, há dias sucessivos, a escalpelizar os vivos?!

HSC

sábado, 11 de novembro de 2017

Entre vivos e mortos...


Sabe-se que terá tido lugar no Panteão, à luz das velas e ao lado dos túmulos de Humberto Delgado e de Amália, um jantar privado, de encerramento do Web Summit, destinado a um grupo restrito de empresários e investidores. Quando li não acreditei. Mas tive de me render à realidade.
Com efeito, o aluguer de monumentos geridos pela Direção-Geral do Património Cultural é permitido e está regulado pelo despacho 8356/2014, promulgado pelo Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, membro do governo anterior.
O Panteão Nacional faz, portanto, parte desse conjunto de monumentos e a sua própria página oficial enumera os eventos que ali se podem realizar, nomeadamente “banquetes, recepções, conferências, recitais de música ou poesia, lançamento de livros, actos solenes, actividades de índole cultural, mostras, exposições”, acrescentando que tudo depende de “consulta prévia e condições a acordar”.
Não sei quem pagou, nem se foi pago. Não sei quem pediu nem sei quem autorizou. Não sei quem foi convidado e quem aceitou. Enfim, não sei nada a não ser que sinto algo que me incomoda neste repasto entre vivos e mortos ... de alto gabarito!

HSC

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Comentaristas

Já me tinham avisado de que ler comentários de jornais é ficar muito decepcionada com uma parte do país. Nunca me tinha dado a esse exercício, mas o facto de estar a orientar uma tese sobre um tema que se relaciona com este, permitiu-me ficar a conhecer uma realidade preocupante.
Quem comenta raramente se cinge ao tema e divaga bolsando as mais surpreendentes considerações sobre pessoas cuja vida ignoram totalmente. E o que dizem é de tal natureza, que eu me pergunto se uma parte razoável dos cidadãos deste país, não necessitaria de ir ao psiquiatra. Porque muito daquilo que exprimem é revelador do seu carácter.
Para mim, que gosto muito do país onde nasci e tenho uma enorme complacência em relação aos nossos defeitos tradicionais - de que a inveja será, talvez, o maior -, ler as atoardas que os jornais insistem em publicar, dá-me uma enorme tristeza. 
Nós, portugueses, que somos capazes de gestos de invulgar solidariedade, somos, na mesma medida, capazes de aviltar, denegrir, ultrajar, pessoas que não conhecemos, mas de quem não gostamos. Ou seja, passados tantos anos sobre a ditadura, a base em que a democracia assenta continua a ser a mesma. O que quer dizer que não estamos ainda, tantas gerações já passadas, em condições de viver e conviver democraticamente. 
Creio que tudo isto terá que ver com o que (não) aprendemos na escola e na família. E será certamente, também, consequência da perda de valores que um mundo cada vez mais avançado tecnologicamente, acabou de forma perniciosa, por permitir. É uma pena que assim seja. Mas algo me diz, que a comunicação social e as redes que, entretanto, a internet desenvolveu, têm uma boa parte de responsabilidade nesta situação. Se os comentários fossem moderados pelo editor, possivelmente a sanidade dos mesmos seria diferente...e todos ganhávamos com isso!

HSC

sábado, 4 de novembro de 2017

Porquê, só agora?!

Se o feminismo militante sempre me irritou um pouco pela agressividade de algumas das suas praticantes, o machismo militante irrita-me muito mais, porque atinge a minha dignidade.
De repente, sem bem se perceber porquê, foram desenterrados múltiplos casos de assédio sexual, em particular na área cinematográfica e em especial na velha Hollywood. O que me surpreende é que só passadas mais de três décadas, eles venham a lume com esta intensidade. 
Compreendo que à época fosse muito difícil às assediadas falarem dum assunto que não só era melindroso, como seria difícil de provar. Mas que diabo, passados dez ou quinze anos, a maioria dessas pessoas já estaria  certamente em condições de poder falar e de ser ouvida. 
Porque é que isso não aconteceu, por exemplo, na onda de casos como o de Clinton e só agora aparecem em catadupa? Confesso que, se me causa uma enorme repulsa o que à época terá acontecido, também me incomoda que, tendo o mundo neste intervalo de tempo, mudado tanto, só decorridos mais de 30 anos aquelas pessoas se venham confessar publicamente. Até porque continuam, na maior parte dos casos, a necessitar da confissão dos visados,  para provarem o que dizem.
O que terá levado a que actrizes/actores, de reconhecidos méritos e com uma carreira consolidada, só agora tenham encontrado a coragem de se expôr?!

HSC

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Uma caixa a mais...

“Uma caixa com mais de cem unidades (velas) de explosivo plástico PE4A foi furtada dos paióis de Tancos sem que o Exército tivesse registado a falta do material.
A falha foi revelada pelo próprio Chefe de Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte - numa conferência de imprensa na Unidade Apoio Geral Material do Exército (UAGME), Benavente, para fazer o ponto da situação da desativação dos Paióis de Tancos -, segundo o qual tinha aparecido uma "caixa a mais que não constava da relação inicial" entre o material furtado que foi recuperado pela Polícia Judiciária Militar (PJM), no passado dia 18, próximo da Chamusca.

                        Divulgado através da Comunicação Social


Este novo episódio da já longa e inédita "novela" sobre o furto do material dos paióis de Tancos, deixou perplexos alguns militares na reserva. Porque, afirmam, se "já fora mau ter sido furtado todo o material, ainda é pior saber-se, agora, pelo CEME, que até foi devolvida pelos bandidos uma caixa a mais, cuja falta ninguém tinha registado. 
E dizer-se, ainda por cima, que "é compreensível", torna-se simplesmente inadmissível, confessou um oficial de alta patente, que pediu o anonimato por ter "muita vergonha pelas Forças Armadas", do que se está a passar.
Como é que tudo isto acontece, Senhor Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas? Como é que tudo isto acontece Senhor Ministro da Defesa?
Provenho de uma família de militares e tenho nisso um enorme orgulho. Tudo o que de bom me foi transmitido, provém dessa seriedade, honorabilidade, verticalidade, enfim, ética, que sempre vi naqueles que conheci e que, julgo, morreriam de vergonha ao assistirem a uma telenovela destas.
O país não pode, Prof Marcelo Rebelo de Sousa, ver desacreditada a sua confiança nas mulheres e nos homens que garantem a segurança dos cidadãos. E não pode nem deve, registar este tipo de situações como se de algo normal se tratasse.

HSC

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Tempos críticos...

Parece que Puigdemont e os cinco ex-secretários – Borràs, Comin, Forn, Bassa e Serret - se terão deslocado para Bruxelas, um dia após o ministro de Asilo e Migração belga, Theo Francken, do partido nacionalista flamengo, ter provocado ampla polémica ao abrir a possibilidade de concessão de asilo ao ex-presidente, oferta logo depois negada pelo primeiro-ministro.
A viagem veio a público poucas horas depois do procurador-geral do Estado, José Manuel Maza, ter anunciado a existência de uma ação judicial formal contra Puigdemont e todos os ex-membros do governo catalão, por crime de rebelião, sedição e desvio de dinheiro público. Os quais dão, a meu ver, com esta "fuga", um triste exemplo de abandono, aos confiantes nacionalistas da Catalunha. 
E, mesmo o argumento de que se poderia estar a encarar a possibilidade de formação de um governo catalão no exílio pouco colhe, nas actuais circunstâncias. Como bem disse a Rainha D. Amélia quando embarcou com D. Manuel na Ericeira, do exílio não se regressa.
A representação catalã perante a União Europeia, cujo responsável assumiu, nesta segunda-feira, a destituição por parte do Executivo espanhol, afirmou não ter informações sobre aquela viagem. O partido nacionalista flamenco negou-se a confirmar ou a desmentir se representantes seus se reuniram com o ex-presidente da Generalitat.
Confesso achar estranho, que um país membro da União Europeia, possa ter recebido, nestas condições, estes eventuais "fugitivos". Mas se o fez, não consigo descortinar como o governo irá explicar à UE a situação. O que adivinho, sim, é que se o gesto pega, se avizinham tempos críticos...



HSC

domingo, 29 de outubro de 2017

Solidariedade


Ricardo Araújo Pereira começou esta semana, sozinho e por iniciativa própria, uma série de espetáculos solidários de apoio às vítimas dos incêndios. Vai no seu carro, sem qualquer espécie de acompanhamento e percorrerá as zonas mais sinistradas, para lhes trazer o conforto do humor, de que tanto devem carecer. Humor esse que que se irá transformar em dinheiro, integralmente destinado a minorar o sofrimento dessas gentes.
Confesso que sempre me impressionou quem mete mãos à obra, sozinho, usando e oferecendo aquilo que tem. No caso de Ricardo Araújo Pereira, a decisão que tomou merece, da minha parte, os maiores elogios, porque não sei se haveria muita gente capaz de fazer o mesmo. Para mim, ele ganhou um lugar muito especial no campo da solidariedade, porque não só contribui, mas também se envolve diretamente na acção.  
Eu que até não simpatizava muito com ele em determinada altura da minha e da sua vida, dou a mão à palmatória. Trata-se, de facto, de uma pessoa que merece a minha admiração, num campo em que sou sempre muito cautelosa. Aqui fica, portanto, o meu testemunho!

HSC