segunda-feira, 20 de março de 2017

As biografias

Esta moda dos ex Presidentes decidirem publicar memórias, sejam de sua própria pena ou da pena de jornalistas, convenientemente autorizados, está a dar uma imagem que só vem confirmar a má impressão  de que gozam politicos e comunicação social.
Claro que é um direito que todos têm de se explicar ao país. O problema é que nessas explicações, acabam por envolver outras pessoas que, por sua vez, também se não calam e querem explicar-se. O resultado está à vista.
Se estes exemplos se começam a multiplicar, vamos ter os chefes de gabinete, os ministros e os secretários que deixaram de o ser, a seguir o mesmo caminho e a desentenderem-se uns com os outros...
Julgo que para escrever biografias é preciso não só distância temporal como distância do meio em que os acontecimentos se deram. Ou seja, um período longo de nojo, no sentido analítico do termo. E, depois, muito cuidado com as pessoas que se vêem envolvidas sem terem sido consultadas. Para não falar, já, claro, da avaliação que possamos fazer do interesse que esses livros possam ter, sabendo-se de antemão que irão ser contraditados!

HSC

domingo, 19 de março de 2017

Igreja: a predominância do masculino (3)

Uma das dificuldades que tenho na minha relação com a Igreja é a predominância do seu lado masculino. Explico-me melhor. Como já aqui referi, foi muito tardíamente que descobri a amizade feminina. Quando nasci, as limitações do género a que pertenço eram muitas e as mulheres da minha família salvaguardavam, acima de tudo, a família. 
Porém, tive a sorte de de ter uma mãe que sempre questionou esse quadro de referência e que soube transmitir-me que não deveria haver "segundos sexos". A ajudar, acabei por trabalhar em ambientes de predominância masculina, pelo que foi nos homens que fiz os amigos mais sólidos.
Assim e ao que me lembro, devo ter descoberto o mundo feminino por volta dos trinta e tal anos e as amigas que mantenho, fizeram-se a partir de então. Felizmente que, pese embora esse facto, continuo a fazer novas amizades nesse novo mundo. 
Talvez por isso, a minha espiritualidade, teve uma marca. Eu rezava a Deus Pai, a Deus Filho, a Deus Espirito Santo e muito pouco à Virgem Maria. Só muito recentemente me dei conta de tal circunstância e de que a Igreja tem, nesse comportamento, alguma responsabilidade.
Mas dado que este ano, Mariano, Fátima acolherá, de novo, um Papa, parece-me ser altura para sugerir que em todas as missas se reze a Ave Maria, antes da benção final. Pode não ser muito importante do ponto de vista formal, mas é com certeza um passo na direção, que se me afigura correcta, de destacar o lado feminino da oração. Não seremos completamente originais, já que, em alguns países como a França e a Bélgica, essa prática há muito que é seguida!

HSC

O meu padrinho

Mas se hoje é dia do Pai porque é que o titulo deste post refere o meu padrinho, perguntarão? É simples. Quando, aos vinte anos fui baptizada, escolhi S. José para olhar por mim enquanto aqui estivesse. Portanto, hoje decidi que não escreveria sobre o meu progenitor, mas sim sobre aquele que, lá em cima, o substitui.
Não sei, exactamente, por que razão terei feito, há seis décadas, esta escolha. À distancia, creio agora, que foi pela confiança que a figura me inspira. José foi o companheiro de Maria, o educador do Filho, o protagonista de uma história de amor cuja base é, a meu ver, uma enorme prova de coragem aceitando, sem duvidar, que o seu destino se cumprisse.
Eu que sou algo resmungona, que preciso sempre de perceber a causa das coisas, que sou bastante pragmática no essencial da minha vida, escolhi para me proteger, alguém cuja história pessoal se baseia na pura aceitação daquilo que lhe estava reservado. 
Nunca me arrependi da escolha feita. Por isso, no dia de hoje, é a S. José e à sua sabedoria, que dedico este post, no terceiro Domingo da Quaresma.

HSC

sexta-feira, 17 de março de 2017

Do erro...

Num post de 12 do corrente, José Ricardo Costa, no seu blog Ponteiros Parados - ponteirosparados.blogspot.pt - a propósito de uma afirmação do meu filho Miguel, escreve um curiosíssimo texto sobre o “erro”.
Agora que estou pelo segundo ano a frequentar um curso de filosofia, tenho muito mais atenção às implicações de certas afirmações que fazemos, quase sem nos darmos conta das “armadilhas” que as mesmas podem encerrar.
Gostava de ter podido escrever aquele texto, não por nele se abordarem os meus filhos, mas porque o mesmo encerra um principio ao qual sou fiel há muito tempo e que talvez explique a “sabedoria” com que sempre tentei conduzir uma família em que cada um faz gala de pensar pela própria cabeça.
De facto, há matérias em relação às quais podemos dizer que existe um erro. Se eu afirmar que Coimbra é capital de Portugal estou manifestamente a cometer um erro sem apelo nem agravo. Mas se eu disser que o que eu penso politicamente está certo e o que pensa o meu vizinho está errado, ou tentar impor a este o que defendo, a coisa complica-se porque, neste caso, não se trata de erro, mas sim de ponto de vista.
O que “interessa aqui é a noção de erro quando associada às ideias de outra pessoa que pensa de um modo diferente e, à luz do que é a filosofia política, saber se faz algum sentido falar em ideias certas ou erradas”, diz José Ricardo Costa e eu julgo que ele tem inteira razão.
O que mais me desagrada na política, na religião, no futebol é justamente esta certeza absoluta de que a escolha de cada um é que é a “verdade” e, como tal, não deve, sequer, ser objecto de discussão.
Portugal tem verdadeiros campeões nesta matéria e talvez seja por isso que a nossa democracia se revela tão especialmente débil...

HSC 

terça-feira, 14 de março de 2017

Dez anos e parece que foi há dias...

A propósito do tempo e do post anterior, acabo de reparar que abri esta casinha há 10 anos, quando deixei de escrever o meu Fio de prumo no Diário de Noticias e entendi continuá-lo aqui. Bom, os dois primeiros, sozinha no meu canto e sem pedir ajudas a ninguém, perdi textos, eliminei parágrafos, andei à nora para perceber onde me tinha metido. Por isso, só em 2009 é que passei a ter produção regular nesta casa que hoje é tanto minha como daqueles que aqui deixam os seus comentários. Como seria de esperar, parecia-me que a tinha aberto há dias...
E, no entanto, neste período, morreu o meu filho Miguel, morreu o amor da minha vida, morreram amigos e morreram pessoas que o não sendo, marcaram o meu caminho. O mundo e o país que amo e onde vivo foram alvo de profundas transformações, nasceram seres que amanhã darão que falar, fugiram pessoas à morte como destino, e morreram outras em atentados sem explicação.
Ganhei na net bons amigos, que concordando ou não comigo, me visitam sempre que podem, outros atravessaram as paredes virtual e estão agora presentes fisicamente na minha vida, onde sei que conto com eles e eles comigo.
Julgo que tudo terá contribuído para que eu continue a desejar ser uma pessoa melhor e para que o sentimento de partilha, antes estendido apenas aos meus conhecidos, seja hoje uma realidade bem mais ampla.
Enfim, penso que terei recebido de todos vós tanto ou mais do que aquilo que tentei pôr à vossa disposição. Mas o que mais me alegra é que eu não sinto nada que aqui estejam 10 anos do meu percurso. É que foi mesmo há dias que esta aventura começou e todos vós entraram nela!

HSC

segunda-feira, 13 de março de 2017

Tempo

Não tenho uma noção muito precisa do tempo. Ou seja, o meu tempo não se mede pelos mesmos padrões pelos quais é medido o da maior parte das pessoas.
Sei a idade que tenho, mas já sinto dificuldade em "dar anos" àquilo de que gosto. Possuo peças de roupa que uso com frequência e, se por algum motivo tenho que as datar, sinto um calafrio quando tomo consciência de que foram compradas há 30 anos ou mais. 
Não sei explicar a razão disto acontecer, mas o certo é que me apraz que tal aconteça e me dá um imenso prazer vestir um casaco da minha querida mãe, que ainda mantém a marca da sua água de colónia preferida. Assim, quando enterro a cabeça na raposa que orla o sua gola, penso de imediato que ela "cheira a mãe".
Há dias, ao arrumar carteiras, abri uma. Dentro, estava um envelope com uma carta que me escrevera alguém que foi muito importante na minha vida. Sorri, porque me lembrei logo dos motivos que a tinham ditado. Mas, para mim, ela podia ter sido escrita ontem. Com efeito, a temporalidade dos objectos ou dos acontecimentos marcantes do meu caminho está ligada não às datas, mas sim à importância que tiveram na minha vida. E, confesso, agrada-me este meu pequeno defeito de fabrico!

HSC

domingo, 12 de março de 2017

Igreja: um retiro (2)

Há muitos anos que não fazia um retiro orientado. No tempo da Universidade, este tipo de prática religiosa durava três dias e era excessivo para reconfortar as almas mais impacientes das praticantes mais jovens. 
Mas eram muito úteis, porque nos obrigavam a centrar o pensamento de uma forma sistemática, naquilo que considerávamos ser mais importante para nós. Claro que havia sempre quem não aguentasse aquele tempo de silêncio e o tentasse furar. Mas isso tinha mais a ver com disciplina pessoal do que com os temas tratados.
E, confesso, há muito que me estava a apetecer renovar esta experiência. Consegui ontem, finalmente, fazê-lo em novos moldes, na Capela do Rato. Já não foram três dias mas sim perto de três horas, das quais duas são orientadas e a outra fica sob a alçada do que a alma nos pedir.
Na parte conduzida, Tolentino de Mendonça falou-nos, primeiro, da curtíssima vida de Etty Hillesum, desaparecida em 1943 com 29 anos e, depois, do seu doloroso caminho para Deus, que terminaria em Auschwitz. 
Na primeira hora serviu-se dos seus escritos para nos mostrar como somos aprendizes na arte de escutar e na de entrarmos dentro de nós próprios, ouvindo o nosso coração.  Em seguida ficámos livres uma hora para cada um deixar o seu espirito voar. Finalmente, na terceira parte havia de nos mostrar a difícil arte de ajoelhar, ainda através das palavras de Etty. 
A fechar aquele período de intimidade pessoal vivida em comunidade, a leitura do Evangelho de S. Mateus ilustrou como seria bom que todos pudéssemos ser como os lírios do campo e soubéssemos que, se primeiro procurarmos o reino de Deus e a sua justiça, tudo o mais virá por acréscimo.
Terminaríamos cantando em uníssono, o lindíssimo poema de Rainer Maria Rilke que transcrevo, numa tradução de Paulo Quintela:

                  Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te
                  Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te,
                  e sem pés posso ainda ir para ti,
                  e sem boca posso ainda invocar-te.
                  Quebra-me os ossos, e posso apertar-te
                  com o coração como com a mão,
                  tapa-meo coração, e o cérebro baterá
                  e se deitares fogo ao cérebro, 
                  hei-de continuar a trazer-te no sangue.

Cheguei a casa de alma lavada. Nunca o seu silêncio num sábado à tarde, sem ninguém á minha volta, me soube tão bem!

HSC