terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Às vezes chamo-me Alice

Às vezes chamo-me Alice. Entro no espelho e corro pela floresta. Encontro o coelho e falo com ele. Pergunto-lhe: quanto tempo dura o eterno? E ele responde-me: às vezes apenas um segundo. 
Mais adiante lobrigo o gato e peço: podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui? Isso depende muito do local para onde queres ir. Acrescento que me preocupa pouco para aonde ir. Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas, diz-me o bichano.
Mesmo ao meu lado o grilo segreda-me que única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível. E eu, do lado de lá do espelho, penso que ele tem razão.
Cruzo-me com o chapeleiro e pergunto-lhe se ele me acha louca? Claro que sim. Louca, louquinha, mas as melhores pessoas são-no. Aliás, todos aqui são loucos. Respondo que me não quero encontrar com gente louca. Mas tu não pode evitar isso, replicou o gato que me ouviu. Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco, tu és louca". E como é tu sabes que eu sou louca? Deves ser, disse o gato, ou não estarias aqui. 

Deixem-me pensar: eu era a mesma quando me levantei esta manhã? Tenho uma ligeira lembrança de que me senti um bocadinho diferente. Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta será: afinal de contas quem é que eu sou? Ah, este é o grande enigma!

HSC 

Donde venho


Perguntaram-me, há dias, "donde vinha". Achei graça à pergunta a que prometi responder. Não logo. Porque venho de muitos mundos, que preciso enumerar.
Venho do ventre materno. De um ventre que foi só meu durante nove longos meses. Venho da minha mãe, da sua carne, do seu instinto, do seu desejo. E dos do meu pai também. Do seu sopro de vida, no começo.
Venho dos pais dos meus pais, os meus avós. Sobretudo maternos, com quem cresci. Venho da Beira e do Alentejo, de onde eles eram naturais. Venho dos irmãos que me abraçam. Venho dos tios e dos primos com quem brinquei em criança e me ensinaram a rir. Venho dos filhos que alojei no meu ventre, como a minha mãe fizera comigo e a sua antes dela. Venho da casa dos amigos, onde passei noites e dias. Venho dos amores que tive, dos afectos que dei e recebi. Venho, enfim, de Ti que me deste, com amor, a vida que não pedi!

HSC

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Setembro

O mês de Setembro é, para mim, aquele que, dos doze, eu prefiro. Quase tudo o que a vida me trouxe de agradável aconteceu nos seus dias. Em sentido inverso tudo o que me foi doloroso passou-se em Abril, mês que detesto. Não é carne nem peixe, não é frio nem é quente, já não habita o inverno e ainda não pertence ao Verão. É, convenhamos, incaracterístico, o que diz tudo do que eu não gosto.
Neste primeiro dia, com os útimos textos revistos e entregues à editora, resolvi sair e passear. A intenção era mesmo sentar-me numa esplanada, munida de um livro em que provavelmente não pegaria, e ver as gentes passarem. O que eu chamo de "flanar", palavra que vem do francês flanner e muito possivelmente até não existe no nosso idioma. Engano meu e má fortuna, já que amor ardente não estava nos meus planos...
Mal pus o pé na rua, o bafo quente foi tão intenso que julguei estar no Brasil. Hesitei e ponderei se o café forte de que sentia necessidade valeria o sacrifício. Não valia! 
Assim, fiz marcha atrás, voltei para o meu quarto, liguei o ar condicionado, bebi um café suave, escolhi a música, peguei no livro e fiquei a gozar as delícias de um clima temperado, neste primeiro dia de Setembro!

HSC

domingo, 31 de Agosto de 2014

De volta ao real

Para uma grande parte dos portugueses, amanhã será o retorno ao trabalho. Para mim, que ainda não saí dele, será antes o regresso da cidade à quase normalidade. As televisões voltarão a ter as mesmas caras a darem as más notícias, os frente a frente serão retomados, os debates para as primárias no PS terão início sem que se vislumbre grande novidade, para além de uma piadas indirectas de mau gosto, os cinemas estrearão novos filmes e, passado o Natal, iremos ser de novo bombardeados com os esclarecimentos eleitorais para os meses seguintes. Portanto, a leste nada de novo. Apenas lá por Bruxelas e Estrasburgo algumas dificuldades estão a surgir para conseguir apanhar umas mulheres para cumprir o sagrado dever das quotas. É que aquelas estão cada vez mais lúcidas e a prestar-se, cada vez menos, para as "representações" que lhes pedem. Fazem bem, porque esses papéis não nobilitam ninguém e nós não existimos para "fazer número".
E o mundo, assanhado como anda por umas guerrazinhas, é capaz de vir a ser confrontado com uma muito séria, dado que os príncipios básicos que presidiram à constituição da UE, parece que já estão esquecidos. Passámos pelas guerras económicas e financeiras, pelas religiosas e voltamos às militares, que julgámos estarem ultrapassadas. Mas o mundo não aprende. 

HSC

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

O retorno

Judite de Sousa voltou ontem ao ecrã da TVI, com uma entrevista a Cristiano Ronaldo. As marcas da dor pela qual passou - e passa - estão bem visíveis. Não no rosto, ou no vestuário, impecáveis. Mas no olhar e na voz porque, esses, não há tecnologia que disfarce. Pelo contrário, intensifica-os.
Nunca escondi a minha admiração por Cristiano Ronaldo. Pelo homem que veio menino sozinho para Lisboa traçar o seu futuro, pelo desportista que fez mais pelo nome de Portugal do que muitos "emproados" que a tal se outorgam e pelo chefe de família em que se transformou. Mas, sobretudo, por esse orgulho de ser quem é, de ser português e de nunca renegar as suas origens. Não é pouco, no mundo actual. O resto são floreados.
A primeira parte da longa entrevista referiu-se, sobretudo, à vida profissional. Não sendo especialista na matéria, julgo que Cristiano respondeu sabiamente às perguntas que lhe foram feitas. Já não é, mais, o jovem que cometeu alguns erros. É um homem que soube tirar deles as devidas lições e que os não nega. 
Tocou, aliás, numa matéria muito importante: a ideia que cada um tem de si próprio. Para dizer que precisa de se considerar o melhor para fazer o que faz, mas que isso não implica que ele seja o melhor. Só esta resposta merecia, por si só, uma entrevista. A ele Cristiano e a muitos de nós.
Judite esteve bem. Triste, mas boa profissional. Hoje veremos, ao que sei, a parte afectiva e familiar do nosso craque. Da qual falarei amanhã, se a matéria o justificar.
Mas dei por bem empregue o tempo que passei junto ao televisor. É que a conversa valeu muito mais do que os medíocres debates televisivos a que, por norma, estamos sujeitos.

HSC

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

"François Hollande ment tout le temps"


Não servirá de consolo a ninguém que o PS francês esteja a atravessar momentos difíceis. Mas é certamente importante ouvir o que o seu ex ministro da economia diz do que foi a sua experiência de governação. E, de caminho, pensar um pouco sobre aquilo que também entre nós se está a passar.
Desde o início que Hollande nunca me convenceu e disso falei aqui, antes mesmo de ele ser eleito. Sempre julguei que o Presidente da França não podia ser um homem normal, como ele próprio se classificou no debate com Sarkozy. 
Esta biografia sobre Montebourg acabada de sair e que, embora não autorizada, mereceu um diálogo entre o biógrafo e o biografado revela bem o estado a que chegou o governo de Valls sob a batuta de François Hollande.

HSC

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

O essencial e o acessório

Se há luta que, ao longo dos anos, tenha travado comigo mesma, é, sem dúvida, a de tentar saber distinguir, sem muitos rodeios, entre o essencial e o acessório. Mas nem sempre é fácil, sobretudo nos dias de hoje, em que este último se traveste, frequentemente, do primeiro.
Com efeito, para fazer esta distinção é necessário possuir robustez moral, força de vontade hercúlea e, sobretudo, o desejo de fazer da nossa vida algo de que possamos orgulhar-nos. Não pelo orgulho em si, mas para podermos chegar ao fim com a sensação de que terá valido a pena viver.
A existência da grande maioria de nós desenrola-se entre dois mundos distintos. O da profissão e o da família ou, se quisermos ser mais precisos, entre o labor e os afectos. No primeiro, nem todos temos o que se apelida de vocação, a qual, só por si, quando levada a bom termo, é redemptora da vida. Grande parte de nós tem uma profissão - que muitas vezes até nem escolheu - da qual vive, de que até gosta, mas que não corresponde a qualquer tipo de chamamento interior. Tem aquela como poderia ter outra, igualmente satisfatória.
No segundo, o que antes valia bastante, vale agora muito pouco. A família é, nos dias que correm, um núcleo alargado de pessoas, onde os laços de sangue são apenas um dos factores que as ligam entre si. Existem outros, não menos importantes.
Ora é no equilíbrio entre estes dois pratos da balança da vida de cada um que é forçoso descobrir o essencial, o que vale de facto a pena, o que justifica que sejamos quem somos. Com a agravante de que a sociedade actual tende a dar prevalência à vida profissional em detrimento da familiar. Erro crasso que, mais tarde ou mais cedo, se irá pagar muito caro. Em particular, quando perante a reforma, somos confrontados com aquilo que fizemos do tempo que já vivemos!

HSC