sábado, 20 de dezembro de 2014

Uma vez mais!


Desta feita a sessão de autógrafos foi nos CTT de Aveiro, terra pela qual nutro especial carinho. Se descrevesse, como devia, a forma como fui tratada, correria o risco de julgarem que estava a ser exagerada.
Não posso, todavia, deixar de referir a alegria, a boa mesa, a música ao vivo e as fotos. Duvido que se pudesse receber melhor alguém que apenas escreve. Quando me mandarem as imagens hei-de mostrar-vos só os manjares para vos fazer roer de inveja. E sei que não é só comigo. Outros autores poderão dizer da instituição e da sua gente, exactamente o mesmo. Merece os mais sinceros parabéns a excelente equipa que tão bem trata de nós.
No meio de tudo isto - não há coincidências - encontrei duas primas saídas de família bem chegada e que, afinal, não conhecia. Para quem como eu, do Natal tem, sobretudo, tristes recordações - a morte da minha Mãe - estas sessões, que são naturalmente muito cansativas por obrigarem a percorrer o país, com ida e retorno no mesmo dia têm, contudo, um reverso de ternura que suaviza muito aquela mágoa que a ausencia dos que já partiram me traz sempre nesta altura.

HSC

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Viuvez




“...Viuvez de homem parece mais difícil de suportar que a de mulher. Não que a mulher não sofra igualmente; a diferença é que elas "se adaptam" melhor, digamos assim. A mulher tem intimidade mais visceral com a vida e com a morte. Elas não só dão a vida; estarão sempre mais próximas dos doentes, darão a mão aos moribundos e, nos velórios, estarão mais junto ao morto. Os homens são mais desajeitados numa trajectória que vai do ato de carregar um bebé ao de aproximar-se do caixão de um defunto. Acresce que, até pela evidência estatística de que é mais frequente os maridos morrerem primeiro, as mulheres como que estão mais "preparadas" para a nova situação. "
"...O almoço solitário, em casa, o travesseiro vazio ao lado, ao despertar, a falta da companheira no sofá, diante da televisão, compõem um cenário que não parece real, não pode ser verdade...”

Roberto de Pompeu Toledo
O brilho do bronze in Revista Veja de 10/12/14


Já aqui tenho falado, várias vezes, da necessidade de encarar e preparar a morte com a naturalidade que ela merece, até porque é a unica certeza que verdadeiramente possuimos na nossa existência.
Pompeu Toledo escreve um belíssimo texto na sua coluna na revista brasileira Veja, a propósito de um livro recentemente saído que aborda o tema. O excerto que reproduzo acima, retrata uma realidade sobre a qual nunca me tinha debruçado com particular atenção, mas que me parece bastante autêntica. De facto, o viúvo está, por norma, menos bem preparado para o desaparecimento da companheira do que esta para a perda do marido. 
Acredito que os solteirões empedernidos olhem para estas linhas e não as compreendam já que sempre viveram sozinhos. Mas para todos aqueles que partilharam a sua vida, durante anos, com alguém, elas soam com uma terrível ameaça.

HSC

Os íntimos e os próximos



Perguntaram-me há pouco tempo o que era, para mim, a intimidade. Respondi que a palavra implicava uma habilidade pessoal para ter coisas em comum.
Mas fiquei a matutar no assunto e acabei por dar comigo a distinguir entre “íntimos” e “próximos”, que são conceitos muito diferentes. De facto, tenho vários próximos – por educação, gosto, admiração – mas íntimos tenho muito poucos. Talvez mesmo só tenha dois e com um tipo de intimidade diferente com cada um deles!
A intimidade é um sentimento que se cultiva, que se aprofunda e que em certos momentos quase se torna como uma espécie de extensão de nós próprios.
É complexo definir intimidade . Ela varia de relação para relação e pode, inclusive, num mesmo relacionamento, ir tomando aspectos diversos ao longo do tempo.
Os meus filhos foram e são os meus mais próximos, mas não são os meus mais íntimos. E, pensando bem, creio que a intimidade, no sentido que lhe atribuo – a nudez da alma de um face a outro - não deve ser a tónica mais importante do sentimento que une pais e descendentes. Todavia muitos acreditam que esse sentimento comporta uma forma de intimidade emocional. Mesmo que assim seja, a própria natureza da relação pais/filhos impõe certos limites, que levam a que nenhum dos membros do binómio se desnude inteiramente face ao outro. Nalgumas famílias o fulcro é, diz-se, a intimidade intelectual, a familiaridade de interesses comuns. No entanto, aqui, a diferença geracional também pode ser factor inibitório.
A maior parte das vezes, julga-se que a intimidade está ligada ao sexo, pelo que o desejo mutuamente satisfeito e os eventuais sentimentos de afecto daí decorrentes, podem ser confundidos com ela.
Noutros casos a intimidade manifesta-se sob a forma de momentos partilhados. Porém este tipo de partilha é comum também aos que nos estão próximos.
Assim, parece-me que a intimidade nasce em primeiro lugar daquilo que nós estamos dispostos a partilhar com os outros e depois da escolha desses outros. Ora é na diferenciação deste binómio que irão colocar-se aqueles que são íntimos e aqueles que são próximos.


HSC 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A dura realidade

Se outras razões não houvesse, a Comissão de Inquérito ao BES, já teria valido a pena só pelo que nos mostrou das fragilidades do sistema financeiro nacional. E ainda não ouvimos tudo. Na verdade, quando se assiste aquilo a que temos assistido, podemos perguntar-nos que outras fragilidades não existirão e que nós desconhecemos.
Alguém me dizia, há tempos, que a prova de força de uma família se faz por ocasião das partilhas. Quando se acompanha o desenvolvimento de toda esta saga familiar de interesses patrimoniais, perguntamo-nos o que é que fica dos afectos, do respeito, do orgulho por um nome comum. Por muitos anos, aqueles que o usarem irão ser lembrados pelas piores razões.
Não tenho grande património e vivo, ainda, do meu trabalho. Mas já fiz testamento, para que o que cá possa ficar, seja distribuído como eu quero e não como a lei me imporia, no caso de eu não manifestar a minha vontade própria.
Assistir ao desenrolar  destes acontecimentos, se nunca me fez duvidar dos meus, tem-me feito pensar que ter muito dinheiro é meio caminho andado para o inferno. Ou, dito de outra maneira, é meio caminho andado para perceber a dura realidade!


 HSC

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Informar versus opinar


"...Ora, quando os jornalistas escrevem opinião  —  dizendo o que entendem sobre o que entendem  —  estão a arriscar-se a subordinar o seu dever de informação, bem como o peso social gerado pela visibilidade da função de informar, ao seu direito de ajustarem contas, de tomarem partido, até de suspeitarem. É porque são jornalistas com coluna publicada ou com editorial que a sua opinião conta, ou seja, importam porque se presume que farão o trabalho de jornalistas, mesmo quando o estão a contrariar, substituindo informação por uma campanha. Naturalmente, quando se dedicam a fazê-lo sob a forma sublime da conversa de café, o uso do poder discricionário da sua opinião sentenciosa é mais flagrante."

                                  Eduardo Pitta in daliteratura.blogspot.com

Este texto foi retirado de um outro, mais longo, sobre Sócrates. Já aqui disse que me não pronunciaria sobre tal tema, antes de serem conhecidas todas as peças do processo. É uma questão de idoneidade e bom senso não falar daquilo que se não sabe.
Aquilo que me faz reproduzi-lo é o facto de ele abordar uma questão grave que se refere à confusão estabelecida entre jornalista e opinador. Ao primeiro, enquanto tal, compete informar de modo isento e sem estados de alma que influenciem esse dever. 
Ao contrário os outros podem opinar - é mesmo isso que se lhes pede - porque não estão abrangidos por essa espécie de juramento que, aliás, também existe noutras profissões. 
Quando o jornalista confunde estes dois campos e se serve do seu poder de informar, para influenciar em determinado sentido a opinião pública, comete uma forma de perjuro. O qual, infelizmente, se está a tornar muito comum entre nós. É pena!

HSC