Levei muito tempo a pensar que a paz interior só se obtinha quando perdoávamos todos os que, por um motivo ou por outro, nos tinham magoado. Tempo demais, julgo hoje, que sinto de forma diferente.
Explico-me melhor. A vida deu-me desgostos, algumas raivas, mas jamais ódios. Não sei odiar, não sei como seja possível faze-lo e não estou minimamente interessada em entender quem seja perito nestas questões.
Talvez o facto de ser católica me tenha ajudado. Mas acredito que geneticamente não recebi essa capacidade. Vivi numa familia em que muitos pensavam de forma diferente, mas isso nunca afectou o amor que os unia. Recebi, portanto, dos meus, essa dádiva.
Mas, para compensar este aspecto positivo, tenho uma memória de elefante, que não esquece nada, o que dificulta algumas vezes aquela paz interior. E ninguém a tem, se tiver mágoas.
Muito trabalho pessoal nesse sentido, alguma ajuda lá de cima e de quem me dirigia espiritualmente, acabaram por me reduzir a memória do que era menos bom e a aumentar a lembrança do que fizera a minha felicidade.
Os anos foram-me ajudando a perceber que as energias só devem ser gastas naquilo que nos torna melhores pessoas. Ora, para isso, não é preciso saber perdoar. É preciso saber aceitar. Aceitar nomeadamente a diferença.
Nem sempre é fácil, mas é absolutamente necessário para se ter, na minha idade, o prazer que, afinal, proporciona saber gostar dos outros como eles são, sem cair na tentação de os querer transformar à nossa imagem e semelhança.
Nem sempre é fácil, mas é absolutamente necessário para se ter, na minha idade, o prazer que, afinal, proporciona saber gostar dos outros como eles são, sem cair na tentação de os querer transformar à nossa imagem e semelhança.
HSC




