terça-feira, 23 de julho de 2019

A paz interior

Levei muito tempo a pensar que a paz interior só se obtinha quando perdoávamos todos os que, por um motivo ou por outro, nos tinham magoado. Tempo demais, julgo hoje, que sinto de forma diferente.
Explico-me melhor. A vida deu-me desgostos, algumas raivas, mas jamais ódios. Não sei odiar, não sei como seja possível faze-lo e não estou minimamente interessada em entender quem seja perito nestas questões.
Talvez o facto de ser católica me tenha ajudado. Mas acredito que geneticamente não recebi essa capacidade. Vivi numa familia em que muitos pensavam de forma diferente, mas isso nunca afectou o amor que os unia. Recebi, portanto, dos meus, essa dádiva.
Mas, para compensar este aspecto positivo, tenho uma memória de elefante, que não esquece nada, o que dificulta algumas vezes aquela paz interior. E ninguém a tem, se tiver mágoas. 
Muito trabalho pessoal nesse sentido, alguma ajuda lá de cima e de quem me dirigia espiritualmente, acabaram por me reduzir a memória do que era menos bom e a aumentar a lembrança do que fizera a minha felicidade. 
Os anos foram-me ajudando a perceber que as energias só devem ser gastas naquilo que nos torna melhores pessoas. Ora, para isso, não é preciso saber perdoar. É preciso saber aceitar. Aceitar nomeadamente a diferença.
Nem sempre é fácil, mas é absolutamente necessário para se ter, na minha idade, o prazer que, afinal, proporciona saber gostar dos outros como eles são, sem cair na tentação de os querer transformar à nossa imagem e semelhança.

HSC

13 comentários:

Anónimo disse...

Dra Helena
Este seu texto é exemplar e ajudou-me a perceber que a minha maior dificuldade, o perdão, afinal é muito menos importante do que eu julgava. Não calcula o bem que me fez!

Catarina

Anónimo disse...

Gostei deste post. Equacionou muito bem a questão.

Pedro Coimbra disse...

Acredito piamente que o ódio consome mais quem odeia do que quem é odiado.
Um sentimento espúrio e estúpido.

Isabel Mouzinho disse...

Completamente de acordo, em particular com o último parágrafo, que para mim define o que em grande parte é o amor.

Beijinho :)

Anónimo disse...

Estou de acordo. Este post merece meditação, já que "perdão" vem de Deus para que Nele acredita. E aceitação / tolerância depende de nós.
A Dra Helena fez de cero um belo trabalho a seu respeito, porque a acho das mulheres mais desassombradas e com a mente mais aberta. Parabéns!

Cláudia disse...

Como sempre, um estar que me inspira e faz pensar, bem haja por esta reflexão sobre a vida.

Alma Aberta disse...

Sem dúvida, concordo consigo. ais do que perdoar é aceitar as pessoas como elas são de verdade. Também não quero moldar as pessoas à minha imagem. Sou apologista que as diferenças unem as pessoas. Ser positivo é uma grande ajuda.
Parabéns pelo texto, gostei muito.
Abraço,
Quito Arantes

A Limonada da Vida disse...

Por aceitação não se entende ter de lidar com pessoas de quem não gostamos ou cuja presença nos faz mal, certo? Aceito-os com eles são, mas prefiro que vão ser felizes longe de mim. Faz sentido?

Lúcia Gomes disse...

Aceitar a diferença - o essencial para a paz interior e não só!

Lua disse...

Dra. Helena Sacadura Cabral,

Pela primeira vez encontrei o seu cantinho das letras e adorei este último post.

A voz mulher que, creio, necessitava de escutar mais vezes.

Grata!

Anónimo disse...

Que bem exposto!
Fuincuinará como uma "via verde" nas relações interpessoais (é com ou sem hifen? Socorro!)

Manuela disse...

Ainda não consegui ultrapassar alguns traumas. Faço por isso. Deixo uma imagem que muitas vezes não é verdadeira. Sinto um vazio doloroso. Contudo, o caminho é para frente. Assim tenho de o seguir.

Unknown disse...

Concordo em absoluto. Essas "historietas" do perdão que por aí circulam...para podermos ser felizes... Blanka nunca me convenceram. Quem magoa, volta a fazê-lo mais cedo ou mais tarde. O perdão faz o quê??? Muda alguma coisa no outro ou em nós. Não. Temos é que aceitar o outro ser como ele é, é dependendo dos casos, aceitar até quando queremos privar.