quarta-feira, 13 de março de 2013

Fumo branco

Um muito muito obrigada àqueles que manifestaram a sua preocupação com o meu silêncio. Ele teve, de facto, razões muito fortes. Mais uma vez, a morte veio levar-me pessoas que amo. E uma vez mais tentarei fazer com que a minha vida prossiga, não faltando aos compromissos assumidos.
Ainda não será, por isso, o tempo de chorar, mas apenas o de aceitar, recordando que aqueles que partem, deixam, por norma, um rol de boas memórias. São essas que quero, no momento, recordar.
Aos poucos irei retomando a escrita, porque ela como o restante trabalho que faço, são parte da minha catarse. Por enquanto, aguardo o fumo branco na Praça de S. Pedro!

HSC

quinta-feira, 7 de março de 2013

O Dia da Mulher

Daqui a umas duas horas comemora-se o Dia da Mulher. Embora reconheça a importância da data, não sou muito dada a este tipo de celebrações colectivas. Até porque afinal há um mundo em que as mulheres praticamente "não existem" e um outro que, congratulando-se dos direitos que lhes concede, escamoteia aqueles que, na realidade, lhes não faculta.
Nunca pretendi ser igual a um homem. Gosto muito de ser mulher. Mas ainda sinto necessidade de reivindicar a igualdade de oportunidades. Que está longe de poder considerar-se alcançada, apesar de se pretender, sempre, apresentar a minoria que o conseguiu, como um exemplo do que "todas" podem obter.
Sou uma privilegiada. Possuo um curso, tenho trabalho, pertenci e pertenço a um certo meio cultural e até tive um palmito de cara, que, ao fim e ao cabo, me prejudicou mais do que facilitou. Mas sei que uma parte significativa das mulheres portuguesas não dispõe disto. É certo que trabalhei muito para chegar até aqui, porque nasci numa época em que o meu género ou era propriedade do pai ou do marido. Mas, a verdade é que cheguei e há quem não consiga.
O Dia da Mulher deixará de ter importância quando for igualmente fácil ou difícil o acesso de ambos os géneros aos lugares para que se encontram devidamente preparados!

HSC  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hugo Chavez


O texto que se segue é de Rui Rocha e foi postado hoje no blogue colectivo Delito de Opinião a que também pertenço. Trata-se de uma análise serena e objectiva que traduz o que penso deste acontecimento. Permiti-me, por isso, transcreve-lo na íntegra:

"Uma análise isenta sobre o percurso político de Chávez deve ter presente alguns aspectos essenciais. Desde logo, o ponto de partida. Os protagonistas que o precederam deixaram o país mergulhado na corrupção, a braços com uma profunda crise política, económica e social e com níveis de desigualdade absolutamente escandalosos, num processo que terminou noimpeachment de Carlos Andrés Pérez. O sucesso da proposta chavista deve-se, para além das óbvias manobras e golpes de manipulação das regras democráticas, ao falhanço estrepitoso das forças políticas mais à direita. Não encontraram, antes de Chávez, propostas políticas credíveis e, depois, não souberam resgatar-se do passado nem foram capazes de apresentar alternativas de renovação. Muitos anos passaram até que esse espectro político encontrasse, com Capriles, um projecto percebido como sério pelos eleitores. Depois, o balanço não pode ficar pela apresentação, a seco, da evolução dos indicadores económicos e sociais do chavismo. É preciso, contextualizá-los, antes de mais, com a subida vertiginosa do preço de matérias-primas como o petróleo que beneficiaram muito a Venezuela. E é necessário, sobretudo, perceber que o sucesso em certos indicadores não justifica, em caso algum, práticas anti-democráticas de caudilhismo, manipulação da realidade e repressão da libedade de expressão. Caso contrário, teríamos de reconhecer que certas experiências totalitárias, que condenamos com justificadas razões, deveriam ser reabilitadas em função de algum sucesso económico que tivessem promovido. Por último, não se pode deixar em claro o aproveitamento grotesco que Chávez e os seus putativos sucessores fizeram da doença e da morte, utilizando-a como arma de arremesso político e de legitimação das suas aspirações. O sofrimento e a perda, independentemente da simpatia que temos ou não pela pessoa e pelo político, devem ser respeitados. Ponto é que essa contenção inclua também o próprio e os que lhe estão próximos".

HSC

terça-feira, 5 de março de 2013

Reformas douradas


Oiço e não quero acreditar. Constituiu-se um movimento de protesto dos pensionistas com altas reformas, que se insurge contra os cortes que lhes foram feitos. Acabo de ve-los na televisão. Senti-me incomodada.
Não estou com este governo, como se pode depreender do que aqui escrevo. Nem como economista nem como cidadã. Sofri na pele um rombo significativo nos meus rendimentos de trabalho, que são os únicos que possuo. Discordo da política económica que está a ser seguida.
Mas que, no meio de um país onde há fome e até as pensões mínimas foram apanhadas nesta voragem cega, se possa constituir um grupo, forçosamente elitista - pelo dourado das suas reformas -, para lutar contra a contribuição pedida, é algo que me ultrapassa.
Parece evidente que o capital de queixa deste coro privilegiado não pode e, sobretudo, não deve, sobrepor-se ao dos outros reformados e pensionistas que, esses sim, sofreram cortes implicando novos e muito mais baixos padrões de vida ou até mesmo a queda para a fronteira da pobreza.
Face a isto, nem sei o que hei-de dizer aos meus netos, que recebendo por morte do pai uma pensão de 600 euros cada um, se viram perante uma redução substancial da mesma...
O mundo ensandeceu e já nem sequer reage a coisas destas!

HSC

domingo, 3 de março de 2013

Para finalizar o Domingo


Oiça até ao fim. Relaxe. Comece a reagir. Vale a pena, depois das manifestações de ontem e de um eventual Domingo igual a tantos outros!

HSC

Quem me dera entender...

O texto que se segue foi-me enviado como sendo da autoria de Teolinda Gersão. Escritora, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Te-lo-á escrito depois de ajudar os netos a estudar Português.
"Redacção - Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas
a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português
são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a
mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano
passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o
complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do
sujeito.”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do
sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma
característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus,
a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e
agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo,
lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o
desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a
funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não
é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a
complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos
directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há
verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser
instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento
prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas
sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e
outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do
tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante
possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções
coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão
a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram,
”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de
um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado
seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase
declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de
polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a
janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o
sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que
aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? A professora
também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas,
mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da
gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado.
Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem
chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo
ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser
cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que
me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o
que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com
valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do
modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia,
meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e
interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto,
prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e
implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário
inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos
bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para
esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a
mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6
letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.) Mas eu estou farto.
Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles,
excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às
vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam
duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros
desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser
por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já
não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes
até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias
de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber
o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e
inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros,
detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com
um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a
escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou
ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve
redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa
nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de
superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos
pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e
julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do
tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos.
Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos
trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não
sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a
setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está
nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do
sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática" 

Riem-se? Não deviam. Que o diga quem tem filhos ou netos nesta situação...

HSC

sexta-feira, 1 de março de 2013

Fraternidade e bom senso...

A meu ver são lamentáveis as declarações de D. Januário Torgal Ferreira e do Padre Carreira das Neves sobre a opção sexual de D. Carlos de Azevedo. E reparem que apenas me estou a referir a estas e não às de assédio que também lhe foram feitas.
As últimas, a serem provadas, se com menores, constituiem crime público. As primeiras dizem respeito à vida privada e como tal deveriam ser olhadas. Pelo Estado e pela Igreja.
Carreira das Neves já veio retratar-se. É pena que tenha tido de o fazer. Mandava o bom senso que se não pronunciasse sobre uma questão desta natureza, em particular de um seu "irmão".
Quanto a D. Januário a memória começa a faltar-lhe porque, por muito menos, se considerou vítima de um linchamento político, há bastante pouco tempo. As suas afirmações relativamente a D. Carlos de Azevedo são, no mínimo, um linchamento de carácter, porque até se ser condenado, todos somos presumidos inocentes. Falar da homossexualidade de alguém, num país que legalizou as uniões entre pessoas do mesmo sexo é, a meu ver, de uma tremenda falta de senso. E de fraternidade!

HSC