Há dias em que o futuro parece um lugar distante, já desenhado por forças maiores do que nós. Como se estivéssemos apenas a caminhar por um caminho que alguém traçou antes. Mas, quando olho com atenção para a minha própria vida, percebo que o futuro raramente chega pronto. Nasce, quase sempre, de pequenos gestos, de escolhas discretas, de ideias que pareciam frágeis quando surgiram.
Inventar o futuro não é prever o que vai acontecer. É
permitir-se imaginar o que ainda não existe. É guardar espaço para
possibilidades novas quando tudo à volta parece repetir-se. Há uma coragem
silenciosa nesse exercício: a coragem de acreditar que aquilo que somos hoje,
não esgota aquilo que podemos vir a ser.
Muitas vezes, imaginamos o futuro como um grande
acontecimento, uma transformação repentina. No entanto, ele costuma ser
construído em momentos quase invisíveis. Uma conversa que abre horizontes, uma
decisão tomada sem garantias. Um primeiro passo, dado antes de existir um mapa.
Talvez inventar o futuro seja precisamente isto: agir sem
possuir todas as respostas. Aceitar a incerteza não como uma ameaça, mas como
matéria-prima da criação. Porque aquilo que já está definido não precisa de
imaginação. Só o que permanece em aberto, pode ser reinventado.
Gosto de pensar que cada pessoa transporta dentro de si
futuros possíveis. Alguns adormecidos, outros à espera de oportunidade. Nem
todos se concretizam, mas todos nos ajudam a compreender que a vida é mais
ampla do que o presente imediato. Sonhar não é fugir da realidade; é
expandi-la.
O futuro não é, apenas, o lugar para onde vamos. É também
aquilo que começamos a construir agora, nas ideias que cultivamos, nas relações
que criamos e nas escolhas que repetimos. Inventá-lo é reconhecer que, mesmo
sem controlar o mundo, continuamos a participar na sua criação.
E, talvez exista uma beleza especial nessa condição: não
saber exatamente o que virá, mas ainda assim, continuar a imaginar, a tentar, a
criar. Como quem acende uma pequena luz no escuro e descobre que o caminho
surge à medida que se avança.
9 comentários:
O faduncho do destino traçado nunca me convenceu.
Uma óptima forma de justificar insucessos ou falhanços.
Não fui eu, foi o destino.
🌻🌻
💕
Fátima.
Sendo verdade que "o futuro muda a cada segundo" nada impede que se vão fazendo contas renováveis a cada minuto.
💎
Acordei hoje com a notícia da partida de mais um amigo de juventude.
Que tinha muitos sonhos.
E muitas realizações.
De repente tudo se esfumou.
O que não nos deve impedir de continuar a sonhar e viver.
Muito.
Tenha um excelente fim-de-semana
FALTA DE RESPEITO EXPOSTO
Os velhos
Pedro Correia, 23.06.26
Os velhos portugueses. Encontro-os solitários, sentados em bancos de jardins ou nas soleiras das portas. De olhar errante e vago. Mudos e quedos, parecem fixar um horizonte que já não lhes pertence enquanto se alimentam de memórias. Jamais os vejo com um livro, sequer com um jornal - talvez alguns deles não saibam ler. Outros, mais gregários, jogam à bisca ou empinam copos nas tabernas. Mas os solitários - e são tantos - parecem não se entreter com nada. Sempre de olhar perdido no infinito.
Passam velhos de outros países, que chegam em turismo de grande algazarra: os velhos portugueses solitários mal reparam neles. De mãos sobre os joelhos, camisa de algodão e calça de fazenda cinzenta escura, de boné sempre enterrado na cabeça, lembrarão os tempos de juventude, amores antigos, a energia já gasta? Impossível dizer: os rostos são impenetráveis.
Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim. Como se aguardassem a todo o instante um passaporte para a eternidade.
Mais uma vez
E por falar em Helena
Onde anda você?
🦋
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