sábado, 3 de janeiro de 2026

QUEM QUER SER POLÍTICO EM PORTUGAL? (entre o sério e o riso)

Em Portugal, há quem sonhe em ser astronauta, futebolista ou cantor de sucesso. E depois há quem, com coragem quase épica, decida querer ser político. Não por vocação divina, mas por uma estranha mistura de idealismo, resistência emocional e gosto por debates intermináveis.

Ser político em Portugal é aceitar, desde o primeiro dia, que nunca se estará totalmente certo — mesmo quando se está. É falar para todos e, ao mesmo tempo, ouvir que não se percebe nada do que se disse. É prometer mudanças sabendo que a frase mais repetida será sempre: “Isto já vem de trás”.

O político português aprende cedo que a memória coletiva é curta, mas o arquivo da internet é eterno. Uma frase mal colocada em 2009 pode reaparecer em 2029, acompanhada de um comentário mordaz e um emoji a rir. A política, hoje, faz-se tanto no Parlamento como nos comentários das redes sociais, onde todos são especialistas e ninguém tem dúvidas.

Há, claro, o lado sério. Decidir leis, gerir recursos públicos, representar pessoas reais com problemas reais. É uma tarefa pesada, que exige responsabilidade, estudo e uma boa dose de paciência. Mas há também o lado quase cómico: debates acalorados sobre temas urgentes interrompidos por apartes, jogos de palavras e indignações estratégicas que duram apenas até ao próximo ciclo noticioso.

Quem quer ser político em Portugal tem de saber rir — de si próprio, dos outros e do sistema. Porque, sem humor, a política torna-se insuportável e sem seriedade, torna-se inútil. O equilíbrio entre ambos é raro, mas essencial.

No fundo, querer ser político em Portugal é acreditar que ainda vale a pena tentar melhorar o país, mesmo sabendo que, no fim do dia, alguém dirá: “São todos iguais”. E talvez seja precisamente essa teimosia — meio ingénua, meio corajosa — que separa o riso fácil do compromisso sério.

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

MUDAR DE VIDA

Aos 91 anos, decidi mudar de vida.
Não por crise existencial — essa já passou umas cinco vezes — mas porque percebi que continuar igual daria muito trabalho.

Primeiro mudei a agenda.
Antes, eu tinha pressa. Agora, tenho prioridade.
Se algo pode ser feito amanhã, ótimo. Se puder ser feito semana que vem, melhor ainda. Urgente mesmo só levantar da cadeira sem fazer barulho nos joelhos.

Também mudei de opinião.
Passei a concordar com mais gente, não porque eles estejam certos, mas porque discutir cansa. A experiência ensina: nem toda batalha merece um discurso, algumas só pedem um “é… pode ser”.

Resolvi mudar o estilo de vida.
Troquei excessos por cuidados, ambições por histórias, e planos de longo prazo por bons cafés. Descobri que o futuro existe, sim, mas ele começa depois do cochilo.

Mudei o jeito de amar.
Aos 90, o amor não corre, ele senta. Não promete, acompanha. Não exige, agradece. Amar virou um verbo silencioso, desses que se conjuga melhor com presença do que com palavras.

E mudei a relação com o tempo.
Antes eu o perdia. Agora ele é que me encontra — devagar, educado, quase pedindo licença. Cada dia é um bônus, não uma obrigação.

Mudar de vida aos 91 não é começar do zero.
É finalmente entender o que vale a pena manter.

E se alguém perguntar se não é tarde demais, eu respondo com toda a serenidade do mundo:
tarde é não mudar nunca!

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

UMA ESTADIA NO VALE DO GAIO

Meu querido Vasco,
Queremos agradecer-te, de coração cheio, a forma tão especial como nos recebeste no teu hotel. Mais do que uma estadia, foi um verdadeiro abraço — feito de atenção, de carinho, de muita gargalhada, e daquela hospitalidade rara que só nasce quando há amizade verdadeira.

Em cada detalhe sentiu-se o cuidado, em cada gesto a generosidade, e em cada conversa a alegria simples de estarmos juntos. Tudo isto envolto num Alentejo muito especial, sereno e autêntico, que parece ganhar outra alma quando vivido assim, entre amigos.

Levamos connosco memórias bonitas, o conforto de nos termos sentido em casa e a certeza de que esta amizade continua a crescer, tal como o encanto desse lugar que tão bem sabes cuidar, com aquele toque de qualidade que é o teu. Obrigado por tudo.

 

AS PONTES

Esta lindíssima escultura chamada "Tendiendo Puentes" (construindo pontes) do artista Lorenzo Quinn, foi apresentada na Bienal de Veneza em 2019. É composta por seis pares de mãos e braços gigantes entrelaçados, que têm um significado especial, que vale a pena relembrar, quando olhamos para ela.

A escultura simboliza a necessidade de união e a importância de superar divisões em tempos conturbados. Deste modo, elas formam uma ponte sobre um canal, no distrito de Castelli, em Veneza. As mãos simbolizam a necessidade de haver elos sólidos para superar diferenças e dificuldades.

Cada par de mãos representa um dos seis valores humanos do Universo, essenciais para construir pontes:  AMIZADE, SABEDORIA, SOLIDARIEDADE, FE, ESPERANÇA e AMOR. Aliás os valores que nos permitem, hoje, mais do que nunca, aspirar todos por um mundo melhor. Que elas continuem em 2026 a permitir que possamos dizer e sentir Feliz Ano Novo!

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A ÚLTIMA BADALADA

A passagem do ano é um instante suspenso no tempo. Não é apenas a mudança de um número no calendário; é um ritual íntimo, quase secreto, que cada pessoa vive à sua maneira. Há sempre uma certa expectativa, como se o futuro estivesse ali, a poucos segundos, pronto para ser tocado. É a sensação de que algo pode mudar — mesmo que nada mude de imediato.

Mistura‑se também uma nostalgia suave, aquela vontade de olhar para trás e revisitar o que fomos. Recordamos vitórias, tropeços, pessoas que chegaram, outras que partiram. É um inventário emocional que fazemos sem perceber, como quem arruma uma gaveta, antes de a fechar.

Ao mesmo tempo, nasce uma esperança teimosa. Mesmo quem não acredita em superstições, sente que a meia‑noite abre uma porta invisível. É o desejo de recomeçar, de fazer melhor, de deixar para trás o que pesou. É a promessa silenciosa que fazemos a nós próprios.

Mas há também uma certa melancolia, porque todo fim carrega um pequeno luto. O ano que passou não volta, e isso tem um peso. É um adeus discreto, mas sentido.

E, claro, existe a alegria — às vezes ruidosa, às vezes tranquila. A alegria de estar vivo, de estar com quem importa, de ter chegado até aqui. A alegria de contar em voz alta os últimos segundos e sentir o coração acelerar, como se fosse a primeira vez.

No fundo, a passagem do ano é um mosaico de emoções contraditórias: esperança e saudade, entusiasmo e medo, alegria e silêncio. É isso que a torna tão humana. É isso que a torna, também, tão pessoal.

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

NATAL EM TEMPO DE GUERRA

O Natal, tradicionalmente marcado pela esperança, pela união e pelo nascimento da paz, adquire um significado profundo e doloroso quando vivido em tempo de guerra. Enquanto em muitos lares o brilho das luzes e o calor das reuniões familiares anunciam celebração, em outros o som que ecoa é o das explosões, das sirenes e do choro silencioso de quem perdeu tudo.

Em cenários de conflito, o Natal deixa de ser apenas uma data no calendário e transforma-se  num ato de resistência. Celebrar, ainda que de forma simples, é afirmar a humanidade diante da destruição. Um pedaço de pão dividido, uma vela acesa, uma oração sussurrada ou um abraço apertado tornam-se símbolos poderosos de fé e sobrevivência. Onde a guerra tenta apagar sonhos, o Natal insiste em reacendê-los.

As crianças, que deveriam associar essa época a presentes e alegria, aprendem cedo demais o significado do medo e da ausência. Muitas esperam não por brinquedos, mas por notícias de pais que não retornaram, por um dia sem bombardeios, por uma noite de sono tranquila. Ainda assim, os seus olhares carregam uma esperança teimosa, como se acreditassem que a paz pode nascer mesmo no meio dos escombros.

O Natal em tempo de guerra também convida à reflexão daqueles que estão longe do conflito. Ele lembra que a mensagem de amor ao próximo não pode ser seletiva, nem limitada por fronteiras. A solidariedade, a empatia e o compromisso com a vida tornam-se presentes urgentes e necessários.

Assim, mesmo cercado pela dor, o Natal continua sendo uma chamada à paz. Um sinal de que, apesar da guerra, a humanidade ainda pode escolher a compaixão. Porque enquanto houver alguém disposto a amar, a partilhar e a esperar, o verdadeiro espírito do Natal não estará perdido — estará apenas lutando para sobreviver.

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

PESSOAS: MARIA SERUYA A MULHER DE MIL SUPERFICIES

 

Maria Seruya não cabe em rótulos. É daquelas presenças que, ao entrar numa sala, parecem expandir o ar, como se cada gesto contasse várias histórias ao mesmo tempo. Multifacetada — palavra que nela deixa de ser metáfora e se torna um modo de existir — Maria caminha por diferentes mundos, com a mesma naturalidade com que outros mudam de roupa.

Artista por intuição, pensadora por inquietação e criadora por necessidade vital, ela constrói pontes entre universos que, para muitos, jamais se tocariam. Num dia fala com a precisão de quem decanta ideias; no outro, cria imagens que parecem brotar diretamente do subconsciente. Maria tem o dom raro de transformar fragmentos em sentido, caos em ritmo, silêncio em linguagem.

Os seus projetos — sejam eles artísticos, humanos ou simplesmente quotidianos — sopram a mesma marca: a autenticidade. Nada em Maria é superficial. Cada escolha reflete uma camada dela, e há sempre outra por baixo, vibrando, chamando, pedindo para ser descoberta. Talvez seja por isso que tantos se sentem atraídos pela sua presença: ela é um convite permanente à curiosidade.

Mas o que realmente torna Maria Seruya multifacetada, não é a quantidade de coisas que faz, e sim a profundidade com que habita cada uma. Ela sabe ser plural sem perder o centro; sabe ser vasta sem se dispersar. Uma mulher que reflete muitas luzes — e, ainda assim, guarda o mistério de algumas sombras.

Maria Seruya, na sua multiplicidade, lembra ao mundo que ninguém precisa ser apenas uma coisa. Que a vida, quando vivida com coragem, pode ser um mosaico — e que a beleza está exatamente nisso.