terça-feira, 6 de janeiro de 2026

ESTUDAR DEIXOU DE COMPENSAR?

Durante muito tempo, estudar foi considerado como o caminho mais seguro para a subida na vida. Tirar boas notas, fazer uma faculdade, conquistar um diploma eram os meios de garantir um bom emprego e estabilidade financeira. Hoje, no entanto, para muitas pessoas, essa promessa parece cada vez mais distante da realidade.

O mercado de trabalho mudou. Os diplomas multiplicaram-se, mas as oportunidades de qualidade não acompanharam o mesmo ritmo. Muitos profissionais, altamente qualificados, enfrentam salários baixos, contratos precários ou até o desemprego. Ao mesmo tempo, vemos pessoas sem formação académica tradicional, obterem sucesso financeiro por meio do empreendedorismo, das redes sociais ou de trabalhos informais, o que reforça a sensação de que estudar deixou de compensar.

Além disso, o custo da educação é alto. Anos de dedicação, mensalidades caras, transporte, materiais e, muitas vezes, dívidas. Quando o retorno não vem na forma de reconhecimento profissional ou estabilidade, a frustração é inevitável. Estudar passa a ser visto não como investimento, mas como um risco.

No entanto, afirmar que estudar não compensa, pode ser uma generalização perigosa. O problema talvez não esteja no ato de estudar, mas no modelo de educação e nas expectativas criadas em torno dele. Estudar, apenas para obter um diploma, sem desenvolver pensamento crítico, habilidades práticas e capacidade de adaptação, realmente tende a gerar pouco retorno.

Hoje, mais do que nunca, estudar precisa de ter sentido. Aprender a aprender, desenvolver competências relevantes, buscar conhecimento de forma estratégica e contínua, pode fazer a diferença. A educação ainda transforma vidas, mas não de forma automática nem garantida como antes.

Portanto, talvez a questão não seja se estudar deixou de compensar, mas como, o que e para quê estamos a estudar. Sem essa reflexão, o estudo perde valor. Com ela, pode continuar a ser uma poderosa ferramenta de mudança.

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

FAZER AS PAZES COM O PASSADO

Fazer as pazes com o passado, é um passo essencial para viver o presente com leveza e construir um futuro mais consciente. O passado carrega experiências que moldaram quem somos: alegrias, conquistas, erros, perdas e feridas. Ignorá-lo ou lutar contra ele, não o apaga. Ao contrário, muitas vezes, torna-o mais pesado e presente, nas nossas decisões, medos e relações.

Quando não resolvemos pendências emocionais, acabamos revivendo antigas dores, em novas situações. Mágoas não elaboradas, transformam-se em ressentimento, culpa ou medo de repetir erros. Fazer as pazes com o passado não significa concordar com tudo o que aconteceu, nem justificar injustiças sofridas, mas sim reconhecer os fatos como parte da nossa própria história, e aceitar que eles não podem mais ser mudados.

Este processo exige coragem e honestidade. É preciso olhar para trás, com compaixão, inclusive consigo mesmo, entendendo que muitas escolhas foram feitas com os recursos emocionais e o conhecimento disponíveis naquele momento. O perdão — seja ao outro ou a si próprio — surge como um elemento libertador, porque rompe o vínculo de dor que nos mantém presos ao que já passou.

Ao reconciliar-se com o passado, a pessoa recupera o poder sobre o presente. Em vez de agir movida por feridas antigas, passa a escolher com mais clareza e responsabilidade. O passado deixa de ser um peso e transforma-se em aprendizagem, fonte de amadurecimento e de autoconhecimento.

Portanto, fazer as pazes com o passado, não é esquecer, mas integrar. É reconhecer a sua própria história, acolher as marcas deixadas por ela, e seguir em frente com mais equilíbrio, permitindo-se viver plenamente o agora e abrir espaço para novas possibilidades.

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

QUEM QUER SER POLÍTICO EM PORTUGAL? (entre o sério e o riso)

Em Portugal, há quem sonhe em ser astronauta, futebolista ou cantor de sucesso. E depois há quem, com coragem quase épica, decida querer ser político. Não por vocação divina, mas por uma estranha mistura de idealismo, resistência emocional e gosto por debates intermináveis.

Ser político em Portugal é aceitar, desde o primeiro dia, que nunca se estará totalmente certo — mesmo quando se está. É falar para todos e, ao mesmo tempo, ouvir que não se percebe nada do que se disse. É prometer mudanças sabendo que a frase mais repetida será sempre: “Isto já vem de trás”.

O político português aprende cedo que a memória coletiva é curta, mas o arquivo da internet é eterno. Uma frase mal colocada em 2009 pode reaparecer em 2029, acompanhada de um comentário mordaz e um emoji a rir. A política, hoje, faz-se tanto no Parlamento como nos comentários das redes sociais, onde todos são especialistas e ninguém tem dúvidas.

Há, claro, o lado sério. Decidir leis, gerir recursos públicos, representar pessoas reais com problemas reais. É uma tarefa pesada, que exige responsabilidade, estudo e uma boa dose de paciência. Mas há também o lado quase cómico: debates acalorados sobre temas urgentes interrompidos por apartes, jogos de palavras e indignações estratégicas que duram apenas até ao próximo ciclo noticioso.

Quem quer ser político em Portugal tem de saber rir — de si próprio, dos outros e do sistema. Porque, sem humor, a política torna-se insuportável e sem seriedade, torna-se inútil. O equilíbrio entre ambos é raro, mas essencial.

No fundo, querer ser político em Portugal é acreditar que ainda vale a pena tentar melhorar o país, mesmo sabendo que, no fim do dia, alguém dirá: “São todos iguais”. E talvez seja precisamente essa teimosia — meio ingénua, meio corajosa — que separa o riso fácil do compromisso sério.

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

MUDAR DE VIDA

Aos 91 anos, decidi mudar de vida.
Não por crise existencial — essa já passou umas cinco vezes — mas porque percebi que continuar igual daria muito trabalho.

Primeiro mudei a agenda.
Antes, eu tinha pressa. Agora, tenho prioridade.
Se algo pode ser feito amanhã, ótimo. Se puder ser feito semana que vem, melhor ainda. Urgente mesmo só levantar da cadeira sem fazer barulho nos joelhos.

Também mudei de opinião.
Passei a concordar com mais gente, não porque eles estejam certos, mas porque discutir cansa. A experiência ensina: nem toda batalha merece um discurso, algumas só pedem um “é… pode ser”.

Resolvi mudar o estilo de vida.
Troquei excessos por cuidados, ambições por histórias, e planos de longo prazo por bons cafés. Descobri que o futuro existe, sim, mas ele começa depois do cochilo.

Mudei o jeito de amar.
Aos 90, o amor não corre, ele senta. Não promete, acompanha. Não exige, agradece. Amar virou um verbo silencioso, desses que se conjuga melhor com presença do que com palavras.

E mudei a relação com o tempo.
Antes eu o perdia. Agora ele é que me encontra — devagar, educado, quase pedindo licença. Cada dia é um bônus, não uma obrigação.

Mudar de vida aos 91 não é começar do zero.
É finalmente entender o que vale a pena manter.

E se alguém perguntar se não é tarde demais, eu respondo com toda a serenidade do mundo:
tarde é não mudar nunca!

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

UMA ESTADIA NO VALE DO GAIO

Meu querido Vasco,
Queremos agradecer-te, de coração cheio, a forma tão especial como nos recebeste no teu hotel. Mais do que uma estadia, foi um verdadeiro abraço — feito de atenção, de carinho, de muita gargalhada, e daquela hospitalidade rara que só nasce quando há amizade verdadeira.

Em cada detalhe sentiu-se o cuidado, em cada gesto a generosidade, e em cada conversa a alegria simples de estarmos juntos. Tudo isto envolto num Alentejo muito especial, sereno e autêntico, que parece ganhar outra alma quando vivido assim, entre amigos.

Levamos connosco memórias bonitas, o conforto de nos termos sentido em casa e a certeza de que esta amizade continua a crescer, tal como o encanto desse lugar que tão bem sabes cuidar, com aquele toque de qualidade que é o teu. Obrigado por tudo.

 

AS PONTES

Esta lindíssima escultura chamada "Tendiendo Puentes" (construindo pontes) do artista Lorenzo Quinn, foi apresentada na Bienal de Veneza em 2019. É composta por seis pares de mãos e braços gigantes entrelaçados, que têm um significado especial, que vale a pena relembrar, quando olhamos para ela.

A escultura simboliza a necessidade de união e a importância de superar divisões em tempos conturbados. Deste modo, elas formam uma ponte sobre um canal, no distrito de Castelli, em Veneza. As mãos simbolizam a necessidade de haver elos sólidos para superar diferenças e dificuldades.

Cada par de mãos representa um dos seis valores humanos do Universo, essenciais para construir pontes:  AMIZADE, SABEDORIA, SOLIDARIEDADE, FE, ESPERANÇA e AMOR. Aliás os valores que nos permitem, hoje, mais do que nunca, aspirar todos por um mundo melhor. Que elas continuem em 2026 a permitir que possamos dizer e sentir Feliz Ano Novo!

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A ÚLTIMA BADALADA

A passagem do ano é um instante suspenso no tempo. Não é apenas a mudança de um número no calendário; é um ritual íntimo, quase secreto, que cada pessoa vive à sua maneira. Há sempre uma certa expectativa, como se o futuro estivesse ali, a poucos segundos, pronto para ser tocado. É a sensação de que algo pode mudar — mesmo que nada mude de imediato.

Mistura‑se também uma nostalgia suave, aquela vontade de olhar para trás e revisitar o que fomos. Recordamos vitórias, tropeços, pessoas que chegaram, outras que partiram. É um inventário emocional que fazemos sem perceber, como quem arruma uma gaveta, antes de a fechar.

Ao mesmo tempo, nasce uma esperança teimosa. Mesmo quem não acredita em superstições, sente que a meia‑noite abre uma porta invisível. É o desejo de recomeçar, de fazer melhor, de deixar para trás o que pesou. É a promessa silenciosa que fazemos a nós próprios.

Mas há também uma certa melancolia, porque todo fim carrega um pequeno luto. O ano que passou não volta, e isso tem um peso. É um adeus discreto, mas sentido.

E, claro, existe a alegria — às vezes ruidosa, às vezes tranquila. A alegria de estar vivo, de estar com quem importa, de ter chegado até aqui. A alegria de contar em voz alta os últimos segundos e sentir o coração acelerar, como se fosse a primeira vez.

No fundo, a passagem do ano é um mosaico de emoções contraditórias: esperança e saudade, entusiasmo e medo, alegria e silêncio. É isso que a torna tão humana. É isso que a torna, também, tão pessoal.