Enquanto ia na maca para a sala de operações, talvez já um
pouco sedada, a questão que eu levantava a mim mesma, era a de não saber de que
lado estava o meu coração, porque era ele que ia ser reparado. Ainda hoje me
rio, com este quadro clínico. Quando já estava acordada, meia zonza, mas a
insistir na pergunta, lembro-me de que alguém, dada a estranheza da minha
pergunta, terá tido a paciência de me contar esta história.
“O coração humano está localizado predominantemente do
lado esquerdo do tórax, entre os pulmões, ligeiramente inclinado para a
esquerda. Embora muitas pessoas imaginem que ele fique totalmente à esquerda,
na verdade ele encontra-se quase no centro do peito, com cerca de dois terços
de sua massa voltados para o lado esquerdo do corpo.
Do ponto de vista anatómico, essa posição facilita a
distribuição eficiente do sangue para todo o organismo. O coração funciona como
uma bomba incansável, responsável por levar oxigénio e nutrientes às células e
retirar substâncias que o corpo não precisa. O seu lado esquerdo é
especialmente importante, pois é ali que ocorre o bombeamento do sangue rico em
oxigénio para todo o corpo através da artéria aorta”.
Sei hoje, que a minha pergunta “de que lado está o coração?”
ultrapassava a biologia. Simbolicamente, eu sabia que o coração é associado aos
sentimentos, ao amor, à empatia e às escolhas humanas. E era justamente essa, a
minha preocupação. Porque também sentia, com alguma lucidez, que nesse sentido,
ele não está apenas à esquerda ou à direita. Está do lado das atitudes, das
decisões que tomamos e da forma como nos relacionamos com os outros. Porque enquanto
a ciência nos ensina que o coração está fisicamente do lado esquerdo do peito,
a vida nos lembra que, simbolicamente, ele está sempre do lado daquilo que nos
torna mais humanos. Nessa altura o pano desceu e eu adormeci, para mais tarde
recordar tudo isto!