Em Portugal, há quem sonhe em ser astronauta, futebolista ou
cantor de sucesso. E depois há quem, com coragem quase épica, decida querer ser
político. Não por vocação divina, mas por uma estranha mistura de idealismo,
resistência emocional e gosto por debates intermináveis.
Ser político em Portugal é aceitar, desde o primeiro dia, que
nunca se estará totalmente certo — mesmo quando se está. É falar para todos e,
ao mesmo tempo, ouvir que não se percebe nada do que se disse. É prometer
mudanças sabendo que a frase mais repetida será sempre: “Isto já vem de trás”.
O político português aprende cedo que a memória coletiva é
curta, mas o arquivo da internet é eterno. Uma frase mal colocada em 2009 pode
reaparecer em 2029, acompanhada de um comentário mordaz e um emoji a rir. A
política, hoje, faz-se tanto no Parlamento como nos comentários das redes
sociais, onde todos são especialistas e ninguém tem dúvidas.
Há, claro, o lado sério. Decidir leis, gerir recursos
públicos, representar pessoas reais com problemas reais. É uma tarefa pesada,
que exige responsabilidade, estudo e uma boa dose de paciência. Mas há também o
lado quase cómico: debates acalorados sobre temas urgentes interrompidos por
apartes, jogos de palavras e indignações estratégicas que duram apenas até ao
próximo ciclo noticioso.
Quem quer ser político em Portugal tem de saber rir — de si
próprio, dos outros e do sistema. Porque, sem humor, a política torna-se
insuportável e sem seriedade, torna-se inútil. O equilíbrio entre ambos é raro,
mas essencial.
No fundo, querer ser político em Portugal é acreditar que
ainda vale a pena tentar melhorar o país, mesmo sabendo que, no fim do dia,
alguém dirá: “São todos iguais”. E talvez seja precisamente essa teimosia —
meio ingénua, meio corajosa — que separa o riso fácil do compromisso sério.