terça-feira, 27 de outubro de 2026

O QUE DESCREDIBILIZOU A POLÍTICA?

A política não perdeu a credibilidade de um dia para o outro. Foi-a perdendo aos poucos, através de promessas que ficaram por cumprir, de discursos que não corresponderam às ações e de uma distância cada vez maior entre aqueles que governam e aqueles que esperam ser governados com justiça.

O que desacreditou a política foi, sobretudo, a quebra de confiança. Quando os políticos prometem mudança durante as campanhas eleitorais, mas depois se esquecem das dificuldades de quem trabalha, de quem luta para pagar as contas, de quem espera por uma consulta médica ou de quem procura uma oportunidade para construir um futuro melhor, nasce a desilusão. E quando essa desilusão se repete, transforma-se em desconfiança.

Também contribuíram para esta realidade os casos de corrupção, a falta de transparência, os conflitos de interesses, os privilégios de alguns e a sensação de que nem todos são tratados da mesma forma perante a lei. Cada caso que fica por esclarecer, cada responsabilidade que não é assumida e cada promessa abandonada, alimentam a ideia de que os interesses pessoais podem estar acima do bem comum.

Mas seria injusto afirmar que toda a política é igual ou que todos os políticos agem da mesma maneira. Existem pessoas que entram na vida pública com vontade genuína de servir, de melhorar as condições de vida das populações e de contribuir para uma sociedade mais justa. O problema está em criar condições para que a ética, a competência, a responsabilidade e o interesse público prevaleçam sobre a ambição pessoal e os interesses particulares.

A política não deveria ser uma escada para alcançar poder, mas uma responsabilidade ao serviço das pessoas. Governar não é apenas conquistar votos, fazer discursos bonitos ou aparecer diante das câmaras. É tomar decisões, prestar contas, reconhecer erros e ter a coragem de cumprir aquilo que se prometeu.

O mais preocupante surge quando as pessoas deixam de acreditar não apenas nos políticos, mas também na possibilidade de a política transformar as suas vidas. Quando o cidadão sente que a sua voz só tem importância no momento de votar, cresce a indiferença, o afastamento e a descrença nas instituições democráticas.

Recuperar a credibilidade exige mais do que novas promessas. Exige exemplos, transparência, justiça, respeito pelos cidadãos e consequências para quem não cumpre as suas responsabilidades. A confiança não se exige: conquista-se com atitudes consistentes e resultados concretos.

No fundo, o que desacreditou a política foi a distância entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. E o que poderá devolver-lhe a credibilidade, será precisamente o contrário: menos promessas vazias, menos privilégios, menos interesses pessoais e mais verdade, responsabilidade e compromisso com as pessoas.

Porque a política só recuperará a confiança dos cidadãos quando deixar de ser vista como uma luta pelo poder e voltar a ser reconhecida como aquilo que deveria ser desde o início: uma forma de servir a sociedade e construir um futuro melhor para todos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A ironia na política

A ironia é, talvez, uma das armas mais subtis e eficazes da política. Com uma palavra, um gesto ou uma frase aparentemente inocente, é possível revelar contradições, expor incoerências e desmontar discursos que, de tão solenes, parecem imunes ao ridículo.

Na política, a ironia tem a particular virtude de dizer muito sem precisar de dizer tudo. É a arte de mostrar a distância entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica, entre as promessas feitas em público e as decisões tomadas em privado, entre os princípios invocados e os interesses defendidos.

Há, porém, uma ironia particularmente reveladora: a dos políticos que prometem transparência, mas se refugiam na ambiguidade; que falam em proximidade com os cidadãos, mas vivem cada vez mais distantes das suas dificuldades; que invocam o interesse nacional, mas parecem confundir, tantas vezes, o bem comum com a conveniência própria.

A ironia política não é necessariamente cinismo. Pelo contrário, pode ser uma forma de inteligência crítica, um exercício de lucidez perante os excessos do poder. O seu propósito não é apenas fazer rir, mas sobretudo fazer pensar. Porque, por vezes, uma frase irónica consegue revelar aquilo que páginas inteiras de argumentação não seriam capazes de demonstrar.

Contudo, há uma fronteira delicada entre a ironia e o sarcasmo. A primeira pode iluminar uma contradição; o segundo procura, frequentemente, humilhar o adversário. Quando bem utilizada, a ironia é elegante, incisiva e até pedagógica. Quando mal utilizada, transforma-se num simples instrumento de agressividade, destinado a conquistar aplausos fáceis em vez de esclarecer ideias.

A política precisa de humor, de inteligência e de sentido crítico. Precisa, sobretudo, da capacidade de rir de si própria. Um poder que não suporta a ironia revela, muitas vezes, uma preocupante dificuldade em aceitar a crítica. E uma democracia que perde a capacidade de rir dos seus próprios protagonistas corre o risco de confundir a solenidade com a seriedade e a autoridade com a infalibilidade.

No fundo, a maior ironia da política talvez seja esta: aqueles que mais falam em mudar o mundo são, por vezes, os que mais se esforçam por manter tudo na mesma.

E é precisamente por isso que a ironia continua a ser tão necessária: porque, quando as palavras deixam de corresponder aos atos, o ridículo pode tornar-se uma das últimas formas de verdade.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O MEU PRÉMIO


 A ISEG Alumni Económicas homenageia anualmente 5 Antigos Alunos do ISEG com currículo marcante e um percurso de desenvolvimento profissional de excelência e relevância em termos de funções desempenhadas e responsabilidades assumidas na sociedade portuguesa ou no estrangeiro, constituindo-se como referências para a atividade de Economista e/ou Gestor.

Este ano fui distinguida com o prémio de Antiga Aluna na Carreira Económica, Política e Social 2026.
Quero, por isso, expressar a minha profunda gratidão pela atribuição deste prémio, que muito me honra e sensibiliza.
Lamento sinceramente não ter podido estar presente, por mottivos de saúde nesta ocasião tão especial. Embora não me tenha sido possível partilhar convosco este momento pessoalmente, procurei estar presente através de um pequeno vídeo, feito em casa, com a simplicidade e a sinceridade que as circunstâncias permitiram.
Recebo esta distinção com enorme gratidão, não apenas pelo seu significado pessoal, mas também pelo reconhecimento do percurso que tenho procurado construir enquanto economista, sempre com a convicção de que a Economia deve estar ao serviço das pessoas e da sociedade.
Agradeço, muito reconhecidamente, a quem tornou possível esta homenagem e a todos os que, ao longo do meu percurso, contribuíram para o meu trabalho e me acompanharam nesta caminhada.
Muito obrigada por esta distinção e pela vossa generosidade. Mesmo à distância, foi com emoção e um profundo sentimento de gratidão que vivi este momento.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A SOMA DAS COISAS


Aqui estou eu, novamente, para vos falar do meu novo livro, intitulado A SOMA DAS COISAS. É o quarto, que fecha um quarteto da minha escrita, dedicado a pensar de uma forma mais profunda, naquilo que constitui a parte mais importante das nossas vidas.

Não é um romance, não é um diário, mas é um conjunto de reflexões que nos permitem, eventualmente, escolher o caminho mais adequado à nossa felicidade. E essa foi a real intenção do ciclo que agora fecho. Estará nas livrarias em Outubro!


 

sábado, 17 de outubro de 2026

JOAQUIM LETRIA

Só soube ontem, tarde, quando vinha de um jantar que acabou tardíssimo, que o Joaquim tinha falecido. Fiquei em choque, porque ia sempre sabendo como ele estava.

A nossa amizade vem de longe. Vem de uma entrevista que ele me fez, quando eu era ainda muito jovem, e que, na altura, deu que falar. Não tanto por mim que ninguém conhecia, mas pelo modo bem original, como ele me deu a conhecer.

Meses passados sobre essa entrevista, ele convidou-me para trabalhar com ele numa proposta publicitária, que lhe haviam feito. Há coisas que nunca rejeito, se vierem de alguém em quem confio e de quem gosto. Embarquei!

Joaquim Letria era uma pessoa com uma vida para além da figura pública: os seus afetos, as suas relações, a intimidade, as fragilidades, a maneira de estar com os outros e de enfrentar o passar dos anos.

Sobre a sua morte, há uma distinção importante: saber que alguém morreu não é o mesmo que conhecer as circunstâncias humanas da sua existência. Por isso no caso dele não quero inventar pormenores sobre o que sentia, sobre quem o acompanhou ou sobre a forma como viveu os seus últimos momentos.

Talvez o que procuro seja algo mais pessoal: como era Joaquim Letria enquanto homem, nos seus afetos, na sua vida familiar e na maneira como encarava a vida e a morte.

É por aí que devemos olhar para ele.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MERCADO ÚNICO EMPRESARIAL. ( Uma espécie de proposta) Uma espécie de proposta

“Uma empresa europeia deve poder trabalhar na Europa como se a Europa fosse o seu mercado.”

1. Uma empresa, uma porta de entrada

Uma empresa constituída legalmente em Portugal deveria poder tratar grande parte da sua expansão para outros países europeus, através de um único sistema digital europeu.

Não deveria ter de aprender um sistema diferente em cada país.

2. Menos papelada

Se uma informação já foi entregue ao Estado português, não deveria ser necessário voltar a entregá-la cinco vezes noutro país europeu.

3. Vender para toda a Europa

Uma pequena empresa de Braga, Beja ou Faro deveria poder vender os seus produtos ou serviços em qualquer país da União Europeia com regras claras e fáceis de compreender.

4. Contratar pessoas com mais facilidade

Uma empresa portuguesa que precise de contratar alguém noutro país europeu deveria encontrar um processo simples para o fazer, sem uma montanha de burocracia.

5. Crescer sem ter de ser uma grande empresa

Esta parte é essencial.

As grandes empresas conseguem contratar advogados, contabilistas e especialistas para entrar em novos mercados.

Uma pequena empresa não consegue.

Por isso, o Mercado Único Empresarial deveria ser pensado primeiro para quem tem 5, 10, 20 ou 50 trabalhadores.         

6. Um princípio muito simples

Sempre que uma empresa quisesse fazer uma algo legal num país europeu, a pergunta deveria ser:

“É mesmo necessário criar uma nova barreira?” Se for necessário, elimina-se.

E PORTUGAL?

Aqui está, julgo, a parte mais interessante.

Portugal tem muitas empresas pequenas e médias que poderiam crescer muito mais se fosse mais fácil chegar aos 450 milhões de consumidores europeus.

Em vez de pensarmos apenas:

“Como trazer empresas estrangeiras para Portugal?”

também deveríamos pensar:

“Como levar as empresas portuguesas para a Europa?”

Uma empresa portuguesa não deveria ter de se transformar numa multinacional para conseguir vender em vários países.

Deveria bastar ser uma boa empresa.

A ideia poderia resumir-se assim:

Um país para criar a empresa.
Uma Europa para a fazer crescer.

Dito de outro modo “Uma empresa europeia devia poder trabalhar na Europa, como se a Europa fosse o seu mercado.”

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A SOMA DAS COISAS

É este o título do meu novo livro, que dentro de dias, estará nas livrarias. Fecha-se, com ele, um ciclo de quatro livros, que, há já uns longos meses hibernava dentro de mim, à espera da minha disponibilidade de dar a conhecer as alterações profundas que, entretanto, fui sofrendo.

Perante um novo livro, o autor sente sempre qualquer coisa, difícil de explicar por palavras. É uma mistura de alegria, emoção, orgulho e, talvez, também, um pouco de medo. Porque ele nunca é apenas um conjunto de páginas impressas. É tempo, pensamento, memória, inquietação e, muitas vezes, uma parte de nós, que decidimos deixar à vista dos outros.

Há qualquer coisa de profundamente íntimo quando seguramos, pela primeira vez, um livro que escrevemos. Reconhecemos as palavras, lembramos os dias em que nasceram, as dúvidas que nos acompanharam, os momentos em que pensámos desistir e aqueles em que uma frase, finalmente encontrada, nos devolveu o entusiasmo. E percebemos que, a partir daquele instante, o livro já não nos pertence inteiramente. Vai partir ao encontro de outros olhares, de outras sensibilidades, de outras vidas.

Escrevemos, muitas vezes, para compreender melhor o mundo, para organizar o que sentimos ou, simplesmente, para dar voz, àquilo que não conseguimos dizer de outra maneira. Mas, quando o livro chega às mãos dos leitores, ganha uma vida própria, que já não podemos controlar.

E há também uma espécie de fragilidade neste momento. Por mais livros que tenhamos publicado, cada novo livro traz consigo a vulnerabilidade de quem começa de novo.

Por isso, cada novo livro é, em simultâneo, uma despedida e um começo. Despedimo-nos de um tempo que foi nosso e abrimos a porta a um tempo que será dos outros. E, mesmo sabendo que nem todos irão gostar, que nem todos irão compreender, fica-nos a felicidade de termos escrito aquilo que sentíamos ser necessário escrever.

Porque um livro novo não é apenas mais um livro. É uma parte de nós que ganha mundo. E há sempre uma emoção muito particular em deixar que esse mundo nos leia, nos descubra e, quem sabe, nos guarde um pouco dentro de si.