sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

APÓS O VOTO

Depois de votar, fica no ar uma sensação difícil de definir. É uma mistura de alívio por ter cumprido um dever cívico e de inquietação pelo peso da escolha feita. O gesto é simples — um papel, uma cruz, uma urna — mas o significado é profundo. Por alguns instantes, sente-se que a própria voz ganhou forma, ainda que pequena, dentro de um processo muito maior.

Há também um silêncio interior que acompanha o momento seguinte: perguntas sobre o futuro, dúvidas sobre se a decisão foi a melhor, esperança de que o voto represente mudança ou, ao menos, continuidade responsável. O estado anímico oscila entre a confiança e a apreensão, entre o orgulho de participar e a consciência de que os resultados escapam ao controlo individual.

No fim, votar deixa uma marca emocional discreta, mas duradoura. É a sensação de pertença a uma comunidade que decide em conjunto, carregando tanto expectativas como receios. Mesmo sem certezas, permanece a ideia de que participar importa — e que, naquele breve momento, cada escolha contou.

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

AS NOSSAS ELEIÇÕES (Entre o sério e o sorriso)

Chegou a época das eleições, esse período mágico em que ninguém tem passado, todos têm esqueletos no armário e alguns até descobrem que o armário afinal era um motel. Não faltou nada: corrupção, cunhas, mensagens apagadas, amizades repentinas, moralidade retroativa e, claro, sexo — porque sem sexo não há campanha digna desse nome.

Os programas eleitorais passam para segundo plano, substituídos por dossiês, memórias seletivas e denúncias arqueológicas. Vale tudo: escândalos fresquinhos, boatos requentados e até acusações que parecem ter sido desenterradas com pincel e cuidado, como fósseis. Melhor do que isto só mesmo o caso do Iglesias, que aos 81 anos é agora apontado por alegados assédios cometidos há 30 — um prodígio temporal que faz da política a única ciência onde se envelhece para trás.

Nesta altura, não se escolhem ideias, escolhem-se sobreviventes. Ganha quem tropeça menos nas pedras que convenientemente aparecem no caminho — pedras essas que ninguém viu durante anos, mas que brotam do chão assim que alguém sobe nas sondagens.

No fim, vota-se cansado, desconfiado e com a sensação de que participou não numa eleição, mas numa novela mal escrita, onde todos juram inocência, todos têm provas “graves” e a verdade… bem, a verdade ficou presa numa comissão parlamentar qualquer.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

À espera dos resultados eleitorais,

O país quase sustém a respiração.
Não são apenas resultados que se aguardam,
mas caminhos possíveis para a nossa forma de viver em conjunto.

Em cada número há decisões que chegam à escola, ao hospital,
ao trabalho, à casa onde se tenta chegar ao fim do mês.
Há direitos que podem ser fortalecidos ou fragilizados,
há vozes que podem ser ouvidas — ou silenciadas.

A espera é tensa porque sabemos que a escolha não é neutra.
Ela define quem é protegido, quem é esquecido
e que ideia de futuro estamos dispostos a defender.
Entre a esperança e o receio, aguardamos,
conscientes de que amanhã pode exigir mais luta
ou permitir mais dignidade.

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A alegada calúnia sobre Cotrim Figueiredo pode acabar por o beneficiar

Não falo habitualmente de política. Especialmente, num quadro eleitoral como este que atravessamos que ultrapassa tudo o que se considera democrático. Mas vou abrir uma exceção,

Na vida pública, nem todas as tentativas de difamação produzem o efeito desejado. Em alguns casos, uma alegada calúnia dirigida a uma figura política pode transformar-se num fator de fortalecimento da sua imagem. Quando a acusação é percebida como injusta ou infundada, a reação do público tende a ser de solidariedade e defesa do visado.

No caso de Cotrim Figueiredo, se surgirem ataques que não sejam sustentados por provas, estes podem contribuir para reforçar a sua credibilidade e visibilidade. A atenção mediática gerada por situações deste tipo, muitas vezes permite que o próprio esclareça os factos, reafirme os seus valores e consolide a confiança dos seus apoiantes.

Além disso, numa sociedade cada vez mais atenta à desinformação, acusações levianas podem prejudicar mais quem as faz do que quem as recebe. O público tende a valorizar a coerência, a transparência e a postura serena perante a adversidade, o que pode transformar um ataque num ganho político e pessoal.

Assim, embora a calúnia seja sempre condenável, a verdade é que, em certos contextos, ela não só não atinge o seu objetivo, como pode acabar por compensar quem é alvo dela, fortalecendo a sua posição perante a opinião pública.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

ENFRENTAR A DESILUSÃO

Quem é que nunca sofreu uma desilusão? Respondo, convicta e segura, ninguém!

Enfrentar a desilusão, é um ato silencioso de coragem. Ela chega quando as expectativas se quebram, quando as pessoas, os planos ou os sonhos, não correspondem ao que imaginávamos. Dói, porque nasce da esperança — e só se desilude quem acreditou de verdade.

A desilusão obriga-nos a encarar a realidade sem os filtros do idealismo. No primeiro momento, tudo parece perda: a confiança abalada, o entusiasmo diminuído, o coração mais cauteloso. Mas, com o tempo, percebemos que ela também carrega uma aprendizagem profunda. Ao cair o véu, ganhamos clareza. Passamos a enxergar quem somos, quem são os outros e, o que realmente, merece o nosso investimento emocional.

Enfrentar a desilusão não significa endurecer ou deixar de sonhar. Significa amadurecer. É aprender a alinhar as expectativas com a realidade, sem abrir mão da sensibilidade. É entender que nem toda a queda é um fim — algumas, são apenas redireccionamentos.

Quando aceitamos a desilusão, transformamos a dor em força. Ela ensina-nos os limites, fortalece a autoestima e aproxima-nos de relações mais verdadeiras.

Seguir em frente, depois de uma desilusão, é um gesto de amor-próprio. É reconhecer o que feriu, acolher o sentimento, e escolher continuar, agora com mais consciência e menos ilusões. Nenhuma desilusão merece a nossa dor!

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

UM SOPRO DE ETERNIDADE

Já vivi momentos assim. Que, por mais que nos esforcemos para os descrever, se não conseguem explicar. As palavras não são suficientes para dar uma pálida ideia daquilo que eles representam.

São instantes que não passam. Apenas se recolhem em nós, como se o tempo, por descuido ou gentileza, se tivesse esquecido de continuar.

Aquele “fragmento de eternidade” nasceu pequeno, quase invisível, mas denso demais para caber no “agora”. Não durou mais que um segundo — e, ainda assim, permanece em nós. Vive no intervalo entre a lembrança e o sentimento, onde nada envelhece por completo.

Não era feito de grandes gestos. Era um olhar sustentado um pouco além do necessário, um silêncio que dizia mais do que as palavras ousariam, um respirar fundo, antes de tudo mudar. Nesse fragmento, o mundo parecia suspenso, como se o infinito tivesse aceitado ser breve só para provar que existe.

Talvez seja isso a eternidade: não um tempo sem fim, mas um momento que se recusa a morrer. Algo que o corpo guarda, mesmo quando a vida segue, mesmo quando tudo ao redor, insiste em continuar.

E assim, aquele fragmento permanece — não no relógio, mas em quem o sentiu. Intacto. Inexplicável. Eterno, o suficiente.

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

O mais importante não é compreender

Vivemos numa época obcecada por explicações. Queremos entender tudo, dar nome a tudo, encaixar cada experiência numa lógica confortável. No entanto, há momentos da vida em que compreender, não é o essencial. Há sentimentos que não se explicam, dores que não cabem em palavras e encontros que só fazem sentido quando são vividos, não analisados.

Compreender exige distância. Sentir, ao contrário, exige presença. Quando tentamos entender demais, corremos o risco de nos afastar da experiência real, de transformar o que é vivo em conceito, o que é profundo em teoria. Nem tudo foi feito para ser decifrado. Algumas coisas existem, apenas, para ser acolhidas.

O amor, por exemplo, não precisa de ser compreendido para ser verdadeiro. A fé não depende de provas absolutas para existir. A arte não se esgota em interpretações. Há uma sabedoria silenciosa em aceitar o mistério, em reconhecer que nem tudo precisa de resposta imediata.

O mais importante, muitas vezes, não é compreender, mas escutar, sentir, permanecer. É permitir-se viver a experiência como ela é, com as suas ambiguidades e incertezas. É confiar que, mesmo sem entender tudo, ainda assim, podemos crescer, aprender e seguir em frente.

Porque há verdades que não se revelam à mente, mas ao coração. E há caminhos que só se mostram quando aceitamos caminhar sem mapa.