segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A banalização pública do voto revela mais exibicionismo do que consciência cívica

O voto é um dos pilares fundamentais da democracia precisamente porque é livre, pessoal e protegido do olhar alheio. A sua natureza secreta não é um detalhe técnico, mas uma garantia essencial contra pressões sociais, julgamentos morais e alinhamentos forçados. No entanto, assiste-se cada vez mais à tendência de expor publicamente em quem se vota, como se essa revelação fosse, por si só, um ato de virtude cívica.

Esta prática pouco acrescenta ao debate democrático. Pelo contrário, empobrece-o. Em vez de se discutirem ideias, propostas ou consequências políticas, privilegia-se a exibição da escolha individual como marcador identitário. O voto deixa de ser resultado de reflexão crítica e passa a funcionar como instrumento de validação social ou afirmação de pertença a um grupo.

A democracia não se fortalece com listas públicas de votos nem com a transformação da política em palco de aprovação moral. Fortalece-se com confronto de argumentos, diversidade de pensamento e respeito pela autonomia individual. Confundir participação cívica com exposição pessoal é um erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de algum exibicionismo., erro que fragiliza o espaço público e reduz a política a um exercício de vaidade.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

PORQUE ESCREVO NAS REDES

Alguns amigos me têm feito esta pergunta, sabendo que não ganho nada com isto e que, até hoje, sempre recusei ser patrocinada por uma das boas marcas que me procuram. Ainda há bem pouco tempo, alguém me dizia que eu devia receber um balúrdio por escrever diariamente nas redes. Sorri e respondi que recebia muito mais que um balúrdio. Talvez por isso, que, para mim, foi quase ofensivo, resolvi dissertar sobre o assunto. Convosco.

Escrevo nas redes sociais apesar de elas serem tão criticadas. Talvez precisamente por isso. Escrevo porque escrever me dá prazer, porque a palavra é o lugar onde penso, respiro e me organizo por dentro. E porque, mesmo num espaço ruidoso e tantas vezes superficial, ainda acredito na força de um texto que toca, provoca ou simplesmente acompanha.

Não escrevo porque tenho certezas, nem porque tenho respostas. Escrevo porque não possuo outro trabalho senão este: o de tentar dizer. De partilhar o que penso e sinto, sem grande utilidade prática, mas com uma intenção simples — oferecer palavras a quem passa. Talvez isso seja uma forma modesta de voluntariado: não de grandes gestos, mas de presença. Uma tentativa de humanizar o fluxo, de criar pequenas pausas num lugar que corre depressa demais.

Se as redes falham, nós também falhamos. E talvez seja exatamente aí, que escrever ainda faça sentido.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A PAIXÃO É DESORDEM?

A paixão chega sem pedir licença. Ela rompe rotinas, baralha pensamentos, acelera o coração e desorganiza a lógica. Por isso, muitas vezes é associada à desordem: um estado em que a razão perde o controle e o equilíbrio parece escapar. Mas será mesmo justo reduzi-la a isso?

A paixão é desordem porque desestabiliza o que estava quieto. Ela desafia regras, ignora cálculos e nos empurra para escolhas impulsivas. Sob a sua influência, o mundo ganha cores mais intensas, e aquilo que antes era seguro passa a parecer insuficiente. Nesse sentido, a paixão confunde, tira o chão e pode levar ao erro.

No entanto, essa desordem não é necessariamente negativa. Ao quebrar a rigidez do quotidiano, a paixão também revela desejos escondidos, dá sentido ao que era mecânico e movimenta a vida. É ela que impulsiona grandes gestos, criações artísticas, descobertas e transformações pessoais. Onde há paixão, há risco — mas também há verdade.

Talvez o problema não esteja na paixão em si, mas na ausência de equilíbrio. Quando a paixão caminha sozinha, sem o diálogo com a razão, torna-se excessiva e destrutiva. Mas quando ambas coexistem, a desordem se transforma em movimento, e o caos ganha direção.

Assim, a paixão é desordem apenas à primeira vista. No fundo, ela pode ser um tipo diferente de ordem, uma ordem emocional, intensa e viva, que nos lembra que sentir também é uma forma de existir

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MEDO, AUTORIDADE E RESPEITO (A pedido de uma comentadora)

O medo sempre foi uma ferramenta rápida de controle. Ele cala vozes, endireita posturas e cria obediência imediata. Mas o que nasce do medo é frágil: dura apenas enquanto a ameaça está presente. Quando ela desaparece, sobra o ressentimento, a revolta silenciosa ou a vontade de desafiar.

A autoridade, por sua vez, não deveria depender do medo. Autoridade verdadeira é construída com coerência, responsabilidade e exemplo. Ela não precisa gritar para ser ouvida, nem punir para ser reconhecida. Quando alguém exerce autoridade apenas pela força, revela mais insegurança do que poder.

O respeito é diferente dos dois. Ele não se impõe, conquista-se. Surge quando há confiança, justiça e humanidade. As pessoas respeitam quem as escuta, quem age com firmeza sem humilhar, quem mantém limites sem violência. O respeito cria vínculos; o medo cria distância.

Onde o medo governa, o respeito desaparece. Onde o respeito existe, a autoridade se torna natural. E talvez esse seja o maior sinal de maturidade de qualquer relação - pessoal, social ou institucional-  quando ninguém precisa de ter medo para fazer o que é certo.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

DA UNANIMIDADE

Levei a minha vida inteira a ouvir louvar a unanimidade. Por razões de natureza pessoal sempre me senti melhor entre gente de pensamento diverso do meu, porque isso aguçava a minha mente! Vejamos.

A unanimidade costuma ser associada à harmonia, consenso e legitimidade, mas o seu valor, depende muito do contexto em que ocorre. Em situações técnicas ou científicas, por exemplo, a unanimidade pode indicar que diferentes análises independentes convergiram para a mesma conclusão, reforçando a confiança nos resultados. Ainda assim, mesmo nesses casos, a ausência de dissenso não garante verdade definitiva, pois o conhecimento é sempre provisório e aberto à revisão, diante de novos dados ou métodos.

Em contextos sociais, políticos ou organizacionais, a unanimidade tende a ser mais ambígua. Decisões unânimes podem resultar não de concordância genuína, mas de pressão social, hierarquias rígidas ou medo de conflito. Nesses cenários, a unanimidade pode ocultar problemas, silenciar perspetivas minoritárias e reduzir a qualidade das decisões. A diversidade de opiniões, ao contrário, costuma ampliar o campo de análise, revelar riscos não percebidos e estimular soluções mais robustas.

Portanto, a unanimidade não é, por si só, um valor absoluto nem um problema intrínseco. Ela pode ser um sinal positivo quando resulta de debate aberto, informado e livre. Mas torna-se questionável quando substitui o pensamento crítico, ou impede a expressão do desacordo. Avaliar o valor da unanimidade exige atenção aos processos que a produziram, e não apenas ao facto de todos terem chegado à mesma posição.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

QUANDO QUALQUER ESCOLHA É MÁ

Quando qualquer escolha é má, não estamos diante de um dilema comum, mas de um território onde a lógica falha e a consciência pesa. É o momento em que todas as alternativas carregam perdas, culpas ou consequências, que ferem algo essencial. Não há saída limpa, não há decisão que permita dormir em paz, sem que uma parte de nós fique acordada, cobrando explicações.

Nessas situações, escolher deixa de ser um ato de vontade e passa a ser um ato de resistência. Não se escolhe o bem, mas o mal que parece menos destrutivo, menos definitivo, menos contrário àquilo que acreditamos ser. Ainda assim, a sensação de falha persiste, porque o critério não é a vitória, e sim a sobrevivência — moral, emocional ou até física.

Quando qualquer escolha é má, o silêncio interior se torna ensurdecedor. Pensamos mais, adiamos mais, desejamos que alguém decida por nós, ou que o problema desapareça sozinho. Mas a ausência de escolha também é uma escolha, e muitas vezes a mais cruel, pois entrega o controle ao acaso ou ao medo.

Esses dilemas revelam algo profundo sobre a condição humana. É que nem sempre somos livres para fazer o certo, apenas responsáveis pelo que fazemos, diante do inevitável. É nesse ponto que a ética deixa de ser ideal e se torna trágica. Não há heróis, apenas pessoas tentando minimizar danos num mundo imperfeito.

Talvez a aprendizagem mais dura seja aceitar que errar, nesses casos, não significa falhar como pessoa. Significa apenas que a realidade impôs limites ao que era possível. Quando qualquer escolha é má, o que resta não é a certeza, mas a honestidade consigo mesmo, de escolher sabendo o peso, assumir as consequências e seguir em frente, mesmo carregando cicatrizes.

Porque, às vezes, viver é exatamente isso: continuar, mesmo quando nenhuma opção parece certa.

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

DE QUE LADO ESTÁ O CORAÇÃO?

Enquanto ia na maca para a sala de operações, talvez já um pouco sedada, a questão que eu levantava a mim mesma, era a de não saber de que lado estava o meu coração, porque era ele que ia ser reparado. Ainda hoje me rio, com este quadro clínico. Quando já estava acordada, meia zonza, mas a insistir na pergunta, lembro-me de que alguém, dada a estranheza da minha pergunta, terá tido a paciência de me contar esta história.

O coração humano está localizado predominantemente do lado esquerdo do tórax, entre os pulmões, ligeiramente inclinado para a esquerda. Embora muitas pessoas imaginem que ele fique totalmente à esquerda, na verdade ele encontra-se quase no centro do peito, com cerca de dois terços de sua massa voltados para o lado esquerdo do corpo.

Do ponto de vista anatómico, essa posição facilita a distribuição eficiente do sangue para todo o organismo. O coração funciona como uma bomba incansável, responsável por levar oxigénio e nutrientes às células e retirar substâncias que o corpo não precisa. O seu lado esquerdo é especialmente importante, pois é ali que ocorre o bombeamento do sangue rico em oxigénio para todo o corpo através da artéria aorta”.

Sei hoje, que a minha pergunta “de que lado está o coração?” ultrapassava a biologia. Simbolicamente, eu sabia que o coração é associado aos sentimentos, ao amor, à empatia e às escolhas humanas. E era justamente essa, a minha preocupação. Porque também sentia, com alguma lucidez, que nesse sentido, ele não está apenas à esquerda ou à direita. Está do lado das atitudes, das decisões que tomamos e da forma como nos relacionamos com os outros. Porque enquanto a ciência nos ensina que o coração está fisicamente do lado esquerdo do peito, a vida nos lembra que, simbolicamente, ele está sempre do lado daquilo que nos torna mais humanos. Nessa altura o pano desceu e eu adormeci, para mais tarde recordar tudo isto!