quarta-feira, 10 de maio de 2017

Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

A rotina era sempre a mesma. Saía de casa mal amanhado e ia para o jardim do Principe Real. Agora nem isso, aquilo estava transformado num pandemónio, nem o seu banco lhe deixaram, tão atafulhado aquilo estava. Nem sei porque é que para aqui venho pensava enquanto apertava a banda do casaco, que a manhã estava fria. Era a Lisete que o levava ali. A Lisete quando era viva, pois fora naquele banco de jardim que a conhecera. Ela tinha-lhe sorrido e foi esse sorriso que os havia de juntar. Tanto amor. E o José era a prova, não se lembrava de quando é que o vira, mas sabia que ele estava bem, porque senão alguém havia de lhe dizer que ele estava mal. 
A tosse, esta maldita tosse, que viera com o fim do tabaco, mas ao preço a que ele estava, como não deixar de fumar? Fora isso que o médico do Centro de Saúde lhe tinha dito, que não havia dinheiro para vícios. 
Lá estava o banco cheio de embrulhos, paciência, ia-se sentar no da frente. A Lisete havia de gostar de saber que ele continuava a ir ao jardim dela. Mas este banco apanhava sol e ele queria mesmo era sombra. Sombra? Sombra que bastasse tinha ele lá no quartito onde vivia. Apesar disso, não se mexeu. 
Para quê mexer se daqui a bocado o sol vira sombra, era o que lhe diria a Lisete que já explicara isso ao filho. Será que o Zé também terá explicado o mesmo ao filho dele? Como é que o miúdo se chamava? Parece que era Bernardo, mas que nome mais esquisito. Mas ele não conhecia o garoto, por isso não tinha que o chamar. Se a Lisete fosse viva havia de saber chamá-lo, mas talvez esteja enganado. Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

HSC

6 comentários:

Maria Isabel Mesquita disse...

Não sei o que se passa hoje, só leio coisas que me tocam, porque estou a ver este " filme" vezes demais.
Lindo!!! O que eu conheço é igual.
Abraços grandes
Maria Isabel

Silenciosamente ouvindo... disse...

Uma triste realidade - em muitas pessoas.

Os meus cumprimentos, drª. Helena.

Irene Alves

Anónimo disse...


Helena
Dessa doença ninguém está livre, gostei mas é triste.

Já viu na National Geographic a série Genius?
Hoje dá o 3ª episodio às 23 horas , a vida de Einstein além da mente , muito bom.

Abraço
Carla

Anónimo disse...

Deprimente. Estou desolada. O João Paulo Sartre tinha razão...
Bancos de jardim... de existencial falência! E não há Banco Central que me/nos assista! Vou consultar o Jardim Gonçalves...
LISETE

Anónimo disse...


Helena
Estas palavras dizem muito do Papa Francisco, simpatizo com ele.

Sou um pecador entre pecadores
Papa Francisco

Abraço Forte bem apertadinho
Carla

Maria Eugénia disse...

Solidão ( não desejada?) é MUITO triste em qualquer idade, mas na velhice é dolorosa. O abandono pelos filhos agrava a situação e infelizmente cada vez mais frequente...
Bjs da Maria do Porto