terça-feira, 11 de janeiro de 2011

E são eles que proibem a bofetada...

"Tribunal da Relação de Lisboa iliba militar que mandou superior «prò c...». A fundamentação dos juízes é um autêntico tratado sobre a palavra proibida
Segundo o Diário de Notícias, o caso remonta a Agosto de 2009, quando o militar em causa reagiu com desagrado à recusa de um superior em permitir uma troca na escala de serviço: «Não dá para trocar, então pró c...».
O oficial ofendido, um sargento, decidiu apresentar uma queixa-crime por insubordinação, e o Ministério Público quis levar o cabo a julgamento.
No entanto, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu arquivar o caso. O desabafo do militar não é nennhum crime, mas apenas uma demonstração de «virilidade verbal», conta o DN.
Os juízes desembargadores que fundamentaram o arquivamento explicam que «c... é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo, 'pró c...' é usado para representar algo excessivo. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas ('chove pra c...'; 'o Cristiano Ronaldo joga pra c...'; 'o ácaro é um animal pequeno pra c...'; esse filme é velho pra c...')».
Mais ainda, os juízes admitem que o palavrão funciona por vezes como «verdadeira muleta oratória», sobretudo «no Norte de Portugal», onde «não há nada a que não se possa juntar um 'c...'». E ainda ensinam que há duas teorias para a origem de 'c..'. Ou vem do latim caraculo, que significa pequena estaca, ou é uma palavra genuinamente portuguesa, referente a mastro, muito utilizada na época dos descobrimentos.

Já em 2009, a Procuradoria Distrital de Lisboa tinha arquivado um caso semelhante. Um agente da PSP apresentou queixa contra um procurador que reagiu de forma exaltada durante uma operação stop: «Eu não pago nada, apreenda-me tudo, c...!». ( in SOL , 11/ de 2010)

Vem este texto do Sol a propósito de um post de Rita Ferro, no seu Actofalhado.blogs.sapo.pt de hoje, que refere um artigo de Helena Matos, publicado no Publico, no qual se dá conhecimento duma lei recente de "nuestros hermanos", que prevê multas de milhares de euros para quem dê a entender que acha o outro feio. Julgo que acontecerá o mesmo para quem "achar" outras coisas sobre quem quer que seja.
Mas o mais delicioso do artigo é a referência a "uma lei que obriga os funcionários das escolas a impedir as criancinhas de terem brincadeiras "sexistas" - ou seja os clássicos rapazes a jogarem à bola versus as raparigas a esnobarem deles".
Confesso que não conhecia nenhuma destas inteligentíssimas disposições espanholas. Nem sequer que, agora, qualquer nacional, de ambos os géneros, poderá mandar para o c... quem muito bem entenda, sobretudo se for um superior.
Porque se tivesse sido o oficial a mandar o sargento para o c... duvido que a Justiça fosse tão branda!
De facto, num país em que os Pais já não podem dar um tabefe a um filho, sem incorrer no risco de serem penalizados, só faltava mesmo esta última manifestação de tolerância.
Alguém já terá pensado que existe na educação como em tudo o resto, algo que se chama AUTORIDADE, sem a qual nenhum barco vai a bom porto?!

HSC

12 comentários:

Anónimo disse...

Excelente Post, Helena!
P.Rufino

Lura do Grilo disse...

Curiosamente a primeira sentença é exactamente igual a uma proferida em Espanha num caso idêntico.

Recentemente, também em Espanha, uma mãe que deu um tabefe no rebento refilão, que teimou em não fazer os trabalhos de casa, foi inocentada. Contudo a Sra esteve "a ferros" pois o miúdo correu para fora de casa a queixar-se do correctivo.

Cravo de Carne disse...

Sou do Norte. Nunca digo "c". Mas confesso que, ao ler este tratado sobre (mal)dito e, atendendo a que tal se enquadra nas suas utilizações frequentes, como descrito em tão douta sentença, me apetece dizer "c" para tanta falta de senso! (nem precisa de ser do bom, bastaria mesmo ser senso).
Um processo disciplinar ou coisa que o valha não teria dado mostra da referida autoridade, preservando-a do ridículo de que esta sentença cobre o caso e todos os ilustres "c" que o levaram tão longe e tão a peito?

diogo disse...

é por essas e por outras que este barco anda à deriva

António R. disse...

Não duvido que se eventualmente fosse um funcionário judicial de um tribunal a mandar um juiz para o c..., a decisão teria sido outra. E bem diferente.
Quanto à educação a HSC disse tudo o que há a dizer, nem vale a pena falar do modo como muitos professores são tratados pelos alunos nos liceus.

Anónimo disse...

Incrível!

Foi pena o oficial no final não mandar os juízes do Tribunal da Relação de Lisboa para o c... para ver se eram tão liberais.

De facto, os valores em Portugal andam pelas ruas da amargura :(

Isabel BP

Francisco Seixas da Costa disse...

É, de facto, notável! Fica a dúvida sobre o que faria o juíz em causa se um oficial de diligências o mandasse para sítio idêntico.

Pedro disse...

os pais podem não poder dar um tabefe a um filho, mas ainda podemos fazer alguma diferença, por exemplo:

combustível
em tempo de crise as gasolineiras tiveram lucros recordes
à custa de subidas de preços permanentes;
posso fazer-me bem à bolsa e fazer alguma diferença:

eu não compro GALP nem BP
e você?

estas palavras podem ser usadas, copiadas, transmitidas, entregues bichanadas, sussurradas, tudo; e, especialmente, praticadas :-)

Blondewithaphd disse...

Expressão de virilidade verbal?! Pois sim... Eu queria ver se eu enviasse um dos meus alunos para esse sítio...

Nilton Nunes disse...

Olá Helena!

Com estas situações, acabamos por nos aperceber de duas situações que ocorrem no nosso mundo, ou estamos a ficar velhos cada vez mais novos ou então anda demasiado acelerado para nós o acompanharmos.
: ))

(c) P.A.S. disse...

Sobre este assunto aproveito para contar duas "Histórias" com H grande, mais não sejam por envolverem a minha paternidade.

A primeira é passada num espaço de festa num espaço da Lusofonia durante o período da guerra colonial. Um soldado do continente atira várias vezes a boina ao ar naquela atitude de imberbe que perdeu a compostura. Um Oficial de carreira chega-se a ele e dá-lhe um enorme raspanete público.

A segunda passa-se numa rua também de um espaço da Lusofonia. Um soldado, por acaso Africano, mas era indiferente, durante o ano de chumbo pré-descolonização, completamente bêbado mete-se com os transeuntes chamando-lhes nomes e ameaçando-os. O mesmo Oficial de carreira chega-se ao pé dele e dá-lhe voz de prisão, ao que o soldado reage atirando-se a ele. O Oficial riposta e com os seus 183 cm e os seus 100 kilos atira-se para cima dele e imobiliza-o, prendendo-o debaixo do seu peso até a polícia militar o vir deter. Duas atitudes, um tempo em que independentemente do regime, a postura, o brio, o sentido de serviço e o sentido de colectivo ainda era regra.

Anónimo disse...

Essa da virilidade verbal, leva-me a pensar nas «acesas» discussões na AR, ao fim e ao cabo, sem essa virilidade verbal, não passam de «conversas pra boi dormir» tal como alguns brasileiros usam dizer...
Agora entendo, sou mesmo ingénuo,vou deixar de ficar assombrado, quando escuto na rua, nos transportes públicos, e não só, certas vozes femininas usarem impropérios para sublinhar uma ideia; haja virilidade verbal, no feminino e no masculino e, já agora, porque não nas religiões, além da politica, há que lhes dar ênfase, já que as palavras perderam o seu encanto e a sua força...
M.O.