terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma fase estranha


Ando numa fase estranha. A maior parte das coisas não me apetece. A outra pouco me move. Não se trata de querer ou não querer, de dever ou não dever, de sim ou de sopas.
Tenho nas mãos o último livro de Julian Barnes, The Sense of an Ending, que foi o vencedor do Man Booker Prize 2011. Tanto melhor. Foi por isso que o comprei. Mas será que um prémio diz alguma coisa sobre aquilo que eu julgo ser a qualidade literária? Devia dizer. Mas nem sempre diz. Melhor, muitas vezes não diz.
Folheei-o e nada me atraiu, além do título que é amargamente apelativo.
Passo os olhos pelos jornais. As notícias são para chorar. Ou tratam do presente cinzento, ou prevêem o negro futuro.
Ligo a televisão. É o black and grey em movimento. Todos virados para o umbigo da troika. Uns vêm-no. Outros nem tanto.
Ligo aos amigos. Se estão no poder ou perto dele, só falam de percentagens, acordos, cifras e quejandos. Se não estão, ou se queixam ou parece que não vivem aqui.
Será que é por tudo isto que ando numa fase estranha? Se calhar é...

HSC

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma ideia genial



"De facto, o que a União Europeia neste momento realmente precisava era de um embargo petrolífero ao Irão. No mesmo dia em que Christine Lagarde avisa a União Europeia para ter cuidado, pois a crise do euro pode significar uma nova Grande Depressão, nada melhor para apimentar ainda mais a coisa que criar um novo choque petrolífero, fazendo o preço dos combustíveis disparar ainda mais. E como a Espanha e a Itália estão em risco de precisar de uma ajuda externa que ninguém lhes pode dar, não há melhor que retirar-lhes desde já o acesso ao seu tradicional fornecedor de petróleo, forçando-as a procurar alternativas seguramente mais caras. Não sei quem foi o autor da ideia, mas ela merece desde já o prémio do disparate do ano ou, se calhar, do século."

(in delitodeopiniao.blogs.sapo.pt de autoria de Luis Menezes Leitão)

HSC

domingo, 22 de janeiro de 2012

Os descendentes


Faço já declaração de interesses: não aprecio o glamour de George Clooney. Limito-me a gostar do café da Nespresso. Também não vou muito de amores pelo seu amigo Brad Pitt. Portanto, estou nitidamente em posição minoritária - diria ínfima, mesmo -, uma vez que estes dois homens parecem congregar à sua volta a maioria do público feminino.
Dito isto, fui ver hoje "Os Descendentes", filme de que ele é protagonista e se considera como um dos favoritos na conquista dos Oscares. É uma história bem contada, sem lamechices, sem grandes concessões, e com um naipe de três bons actores.
Não vi ainda o outro candidato à estatueta, que conta a história de dama de ferro e de que Meryl Streep é personagem central. Apenas vi cenas que, confesso, me impressionaram pela semelhança conseguida com alguém que viveu no meu tempo, uma história política real e que, quer se goste, quer não marcou a Inglaterra.
Por isto não posso fazer comparações. Mas posso dizer que já vi filmes melhores que Os Descendentes ficarem sem o desejado prémio.
Clooney faz, possivelmente, a sua melhor interpretação. Só que, do meu ponto de vista, o seu trabalho anterior nunca foi de excelência. Logo, este, sendo bom, está longe de ser surpreendente.
Mas eu não sou crítica de cinema. Sou, apenas, uma apaixonada pela sétima arte. E esta película não me siderou. Talvez porque o seu principal actor seja bonito demais... É mesmo capaz de ser isso!

HSC

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A democracia nacional


"Apenas 56% dos portugueses consideram que "a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo", de acordo com o estudo "A Qualidade da Democracia em Portugal: a Perspectiva dos Cidadãos", da autoria de António Costa Pinto, Pedro Magalhães, Luís de Sousa e Ekaterina Gorbunova.
Assim, 82% dos inquiridos dizem estar em desacordo com a afirmação de que “a justiça trata ricos e pobres de forma igual” e 79% estão em desacordo com a ideia de que “a justiça trata de forma igual um político e um cidadão comum” .
O descrédito da Justiça é confirmado por 37% dos inquiridos, que estão em claro desacordo com a ideia de que “os juízes são independentes do poder político no exercício das suas funções”.
Apenas 14% concordam com a ideia de que “as decisões do Governo português não são muito condicionadas pela vontade de outros países” e 23% discordam frontalmente desta afirmação. Para 43% a afirmação de que “o poder político está protegido das pressões do poder económico” não corresponde à realidade.
Mas em contraponto com o descrédito da Justiça surge a confiança de 49% dos inquiridos na figura do Presidente da República,, possivelmente porque apenas 21% dos inquiridos reconhecem essa capacidade ao Provedor de Justiça e 37% ao Tribunal Constitucional. 


Quanto à imagem que os inquiridos fazem do Governo e dos partidos e à autonomia do poder político, o descrédito é também a tónica.No estudo confirma-se que os cidadãos não se reconhecem e não se vêem representados no poder e nos representantes políticos".
Alguém fica muito surpreendido com estes resultados?!

HSC

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As consequências


O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), que vive da contribuição de Estados soberanos, em particular dos possuidores de notação "triple A", perdeu o rating máximo atribuído pela agência Standard & Poor's (S&P), na sequência da quebra sofrida no rating máximo pela França e pela Austria.
Este Fundo é usado na ajuda financeira à Irlanda e a Portugal e deveria ser reforçado em caso de eventual necessidade de ajuda por parte de outros emitentes soberanos.
Com efeito o FEEF tem agora atribuída uma notação de "AA+", o que significa que os investidores vão exigir uma rendibilidade mais elevada para investirem na dívida deste emitente. O que também significa que Portugal deverá sofrer uma subida de taxa de juro em próximos financiamentos.
A expectativa de ontem quanto a essa possibilidade de "downgrade", já levou os juros da dívida pública portuguesa para máximos históricos desde a entrada no euro.
Por outro lado, a anterior decisão daquela agência, de colocar a dívida portuguesa ao nível do "lixo" poderá levar a que vários fundos de investimento internacionais, por imposição de regulamentos internos, se venham a desfazer das posições.
E tudo isto numa altura em que Portugal tem prevista para amanhã uma emissão de 2500 milhões de euros a 12 meses.

HSC

domingo, 15 de janeiro de 2012

Naufragar é preciso?’


"Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?
Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?
A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extra-terrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.
Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.
Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.
Questão de educação.
Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.
A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.
A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.
Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?
Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.
Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.
Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.
Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.
Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.
A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.
Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.
Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.
Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.
De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?"

O texto que acabaram de ler em itálico é de autoria de João Pereira Coutinho, escritor português e foi publicado na última terça feira na Folha de S. Paulo. Permito-me reproduzi-lo porque ele é o retrato do que penso a este respeito!

HSC

Comentários

O que abaixo se segue, em itálico, são comentários feitos pelos leitores do jornal Público a propósito das descidas de notação dadas pela agência S&P, que se me afiguram ser bastante paradigmáticas das reacções face à medida tomada.

No site da S&P pode ler-se: "As such, we believe that a reform process based on a pillar of fiscal austerity alone risks becoming self-defeating, as domestic demand falls in line with consumers’ rising concerns about job security and disposable incomes, eroding national tax revenues."

"...Just one day ago, European shares and the euro rose on positive comments on the region's outlook from the European Central Bank and the news of a successful Spain's bond auction. Meanwhile, ten-year bond spread of debt-ridden countries over that of German has also narrowed overtime, a key measure of investors confidence. As crisis is showing tentative signs of receding, the S&P's overwhelming downgrade has once again weighed on the market and dented investors' confidence. Having an estimated 95 percent of the global market for credit rating, the three ratings agencies - Moody's, S&P and Fitch Rating, played a pivot part in providing assessment of the ability of countries and companies to pay their debts. For this reason, it is of great importance for them to be objective…

“Até admito que sejamos um daqueles países lixeiros ou mesmo trash como eles agora nos tratam.... mas nunca ninguém nos explicou porque razão estes crânios classificavam a Lemann Brothers com AAA quando rebentou…”

HSC