quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Por causa da maternidade!

No tempo em que fui mãe, as férias de parto não existiam. Nem existia qualquer apoio à maternidade. Tive os meus filhos, como muitas mulheres da minha geração, tentando conciliar vida profissional e vida familiar. Muitas horas de sono perdidas, mas muita satisfação à mistura. Porque se queria ter vida profissional, na época, era assim. Muito, felizmente, se evoluiu nesta área. E muito falta ainda fazer. 
O apoio da familia era escasso porque a do marido vivia no Alentejo e a minha estava em África. Venci todos estes obstáculos num tempo em que o companheiro preparava um doutoramento, já que o meu ficara adiado com a primeira gravidez. Foi difícil? Foi. Como terá sido para milhares  de mulheres deste país que não tinham sequer uma carreira, mas cujo salário era necessário ao sustento dos seus. Mulheres que, inclusivé, aceitaram trabalhar por turnos...
Há dias uma deputada não aceitou um convite para um debate, invocando a sua condição de mãe solteira de uma criança de 3 anos e explicando o excessivo tempo de trabalho desse dia, superior às tradicionais 8 horas. Fiquei surpreendida, confesso.
É que, talvez por ter tido a experiência que referi vejo, com alguma dificuldade, a aceitação de responsabilidades profissionais de grande exigência, quando se sabe, à partida, que elas irão impor sacrificios à vida familiar que se não está disposto a aceitar. Parece-me tremendamente injusto para o mundo laboral feminino que alguém as invoque, como explicação para aquilo que não faz ou não fará. 

HSC

16 comentários:

Dalma disse...

HSC, dos meus dois primeiros filhos, tive um mês de licença de maternidade e nos dois casos apanharam férias, de Páscoa e Natal (eu era professora), hoje esses as férias não são incluídas! Quando do meu mais novo, que já nasceu bem depois do 25 de Abril, já tive direito a três meses. Porém, para ser sincera, já estava fartinha de estar em casa a dar de mamar e mudar fraldas! Dois meses depois fui ao Liceu para voltar ao serviço (altura de exames) não me aceitaram porque, disseram-me ser ilegal! Dirão que não sou normal... talvez!

Pedro Coimbra disse...

Quem actua com reserva mental, seja em que domínio da vida for, não merece o meu respeito.

Virginia disse...



Concordo que o apoio à maternidade deve ser efectivo, real e mais que justo. Eu já beneficiei de tres meses e licença a que juntava mais um mês de férias, pois dois dos meus filhos nasceram em Agosto. Também tive uma gravidez de risco depois de ter tido três abortos espontâneos em Lisboa que me deixaram de rastos. Nessa altura faltei às aulas e os alunos eram prejudicados , pois na Beira Baixa não havia quem me substituisse. Já no Porto aquando do nascimento do meu filho mais novo houve substituição logo que meti licença de parto. O que acontece hoje em dia é que muitas mulheres trabalham nos tribunais, são mais que os homens nos cargos importantes de Juizas e procuradoras. Metem baixas a toda a hora por motivos familiares - muitas vivem longe de casa - e o sistema não prevê substituições a não ser pelos juizes- homens que trabalham nos mesmos tribunais e que já têm excesso de processos, acumulando ainda os das colegas em gravidez de risco, em baixas por doença ou licenças de parto. O meu filho que é solteiro queixa-se bastante desta situação, injusta para quem ganha o mesmo e para quem precisa de descanso como todos os mortais. Ele trabalha mais de dez horas por dia e vai para o tribunal de Bragança depois do jantar até à 1 da manhã muitas vezes. Sai as 7 à 6ª feira para vir para o Porto e traz ainda processos na pasta. Não é vida.

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara Dalma

É perfeitamente normal para quem está habituada a exercer a profissão que escolheu com gosto. Ser mãe só em casos raros é um objectivo exclusivo de vida!

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara Virginia

Não é de todo uma forma de vida. E a profissão não pode exigi-la a ninguém.
São situações como a que descreve que me entristecem, porque quando se escolhe ser juiz ou médico entrega-se a estes profissionais o que temos de mais importante: a segurança e a saúde. E é indispensável que esses profissionais tenham as condições necessárias para o exercício das mesmas!

Anónimo disse...

Penso exactamente o mesmo. Este filme tem um grau de maturidade - n\ao encontro outra palavra - diferente!

Fernado Tadeu

Virginia disse...

O meu marido costumava dizer que ser Juiz não era um modo de vida, mas de morte. Não queria que o nosso filho lhe seguisse as pisadas, mas ele acabou por escolher a magistratura e gosta do que faz, embora se queixe das horas infindas que passa no tribunal e da minúcia com que é preciso lidar com todos os casos, sem falar do contacto com os envolvidos, que exige delicadeza e capacidade de comunicação. O que me impressiona é a dedicação total que a profissão lhe exige. Não tem mulher, nem filhos, nem namorada, vive a 250 kms de casa, e só trabalha. O que seria se tivesse família?

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara Virgínia

É muito provável que, mais ou menos conscientemente, ele sinta que se criar família arrisca a que ela se dissolva com o tipo de vida que leva. Há dedicações profissionais incompatíveis com vida própria. Creia que sei do que falo!

Anónimo disse...

Quando a licença de "maternidade" passar a ser obrigatória a ambos progenitores, isto acaba. OBRIGATÓRIO, metade para cada um, poder disfrutar da criancinha.

Se vivem sozinhos(as), por opção ou outra, contratem ajudas.
Ou o salário não chega? Para tudo, talvez não...

Os filhos não podem ser desculpa para tudo. Não em cargos de topo.

Os empregados "normais" não se atrevem, perdem o emprego. Estes com salários menores e também menos responsabilidades, mas, com muitos sacrifícios.

Não concordo em "dedicações profissionais incompatíveis com vida própria".
São raros os casos de médicos casados com médicas, juízes com juízas, diplomatas com diplomatas, etc.
Alguém tem de ceder e, por enquanto só as mulheres conseguem parir.
Os incentivos à natalidade têm de ser outros e o maridinho também tem de sair da reunião.

A população cada vez mais envelhecida, pois...

Anónimo disse...

Hoje o grande apoio, para além do pai, são os avós, não sei o que seria sem eles.
Mas quem é mãe solteira, por qualquer motivo está separada, e não tem o apoio dos avós?
Não é fácil arranjar uma pessoa de confiança a quem se possa entregar a criança, é necessária a supervisão de alguém de confiança.
Isso logo à partida, faz com que a mãe, tenha de deixar para trás os sonhos sobre o curso (lic., mestrado ou doutoramento) e sobre a vida profissional.
Se a mãe tem um cargo de responsabilidade, é aceitável que possam existir situações pontuais que exijam sacrifício, mas sacrificar totalmente a vida pessoal à vida profissional, não me parece o caminho.
Sempre achei que nós, os portugueses, em muitos casos, não aproveitamos bem o tempo de trabalho: reuniões infindáveis, sem princípio nem fim, pouco produtivas, inconclusivas, debate de egos, jogos de poder. Marca-se mais uma reunião... e depois outra, e mais outra.
Já vimos noticiados casos de pais que são surpreendidos em direto, numa entrevista profissional, pelos seus filhos.
Apesar de, hoje, o pai já ter licença parental, de existir uma nova vivência do pai, há muito a fazer, porque continuam a ser as mães a ter de desistir da sua carreira.
Sinto empatia com a mãe com a criança de três anos.
Criar uma criança é um trabalho da máxima responsabilidade, e a mulher fica sempre a faltar nalgum lado, ou como mãe ou como profissional.
Temos de lutar contra, o facto de uma mulher ou um homem, não terem vida própria, devido à profissão.
Há uns anos, na Alemanha, impressionou-me o facto de todas as pessoas, com vários níveis profissionais, com quem me cruzei, depois de um dia de trabalho (terminavam cerca das 17/18h) irem ao ginásio, irem buscar os filhos para os levar a um parque infantil, para brincar com eles.
Isto é possível porque começam a trabalhar mais cedo, e são organizados, não desperdiçam tanto tempo como nós.
A maternidade é difícil, por muito que dourem a pílula.

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 16:37

E a paternidade, quando assumida em pleno, também será difícil.
O problema é que são as mulheres que, ao educar os filhos, muitas vezes os afastam de certo tipo de obrigações.
Compreendo perfeitamente o seu ponto de vista. Por isso é que entendo que o problema das creches é essencial na questão do equilíbrio familia/ profissão. Senão cairemos sempre no sentimento de culpa por se gostar de ter uma profissão. E ficamos, como tanta vez se vê, pais amargos e velhos desiludidos...

Anónimo disse...

Em Portugal trabalha-se muito no arame, como equilibrista.
Coordenei reuniões de vários tipos e vários grupos etários e, mesmo tendo já formação, tive de fazer mais formações várias, para conseguir dinâmicas democráticas.
Existia (em todas as idades) muito boicote, conversas paralelas, falavam todos ao mesmo tempo, uns por cima dos outros, havia descrédito na eficácia das reuniões, o preconceito de que não serviam para nada.
As pessoas em geral, preferiam manipular fora das reuniões, influenciar grupos de pressão, favorecimentos, mesmo sem terem muita consciência das suas estratégias. E isso tomava proporções dominantes, e desgaste, em relação às questões que era suposto debater e resolver.
Em geral, não existe em Portugal uma cultura democrática.
E agora, quando convém vai-se buscar o politicamente correcto, uma atitude que não interessa é politicamente correcta mas, mas se for «um amigo» a ter essa atitude, já não é politicamente correcta. É um pau de dois bicos.
Para muitas pessoas, pouco interessa resolver determinados problemas, o que interessa é ganhar, os problemas da vida das pessoas ficam por resolver.
Uma das estratégias que usei, para bem de todos nós, participantes da reunião, foi definir claramente qual o problema a resolver e em quanto tempo.
As reuniões, além de terem uma hora para começar, tinham marcada a hora de terminar e uma pausa-café para convívio, um pouco antes do meio da reunião.
Se juntarmos a tudo isto a responsabilidade parental (da mãe, do pai; conheço mais do que um pai solteiro) se estiverem envolvidas crianças pequenas, ou mesmo adolescentes, jovens adultos, filhos, enfim, certas vidas tornam-se insustentáveis.
Isso paga-se, pelo próprio, pelo país, existe muita depressão, muito desgaste, muito burn-out.
Como fazer? O que fazer?

Anónimo disse...

Não estou a dizer que é disso que aqui se fala, mas quem costuma trabalhar mais de 12h e ainda levar trabalho para casa, encaixa no perfil do workaholic, alguém que tem dificuldade com o seu lado emocional, sentindo como que um vazio na sua vida, que preenche com trabalho e mais trabalho.
Já fui workaholic e (pasme-se) sofria imenso com as...férias, não sabia o que fazer, não sabia como brincar com os meus filhos, não sabia como estar na praia, não sabia relaxar, não estava a ver nenhuma actividade que pudesse fazer (nem andar de bicicleta, nem jogar à bola, nada) só sabia trabalhar.
Tratei-me, recorrendo a várias terapias e todos beneficiámos com isso, além de mim, os meus filhos, os meus pais, os meus amigos, os meus colegas.
Peço desculpa, mas isto passou-se comigo e eu não dava por nada.
Mas cada um sabe de si, e comecei por dizer que pode não ser esse o caso.
Mas, seja como for, não é vida.

Anónimo disse...

Concordo completamente com a deputada.

Anónimo disse...

🌹

Virginia disse...

É mesmo isso. 😁