terça-feira, 11 de julho de 2017

CAMINHOS E DESTINOS A memória dos outros


Apresentar um livro de um autor com o qual nos identificamos muito, não é tarefa fácil. Assim quando o Embaixador Marcello Duarte Mathias me pediu que apresentasse o seu ultimo livro, tive dois tipos de reacção. De um lado, senti muita satisfação de poder falar de um escritor que admiro muito e de quem conheço quase tudo o que escreveu. Por outro lado, temi que a plateia que me esperava pudesse achar estranha a escolha do meu nome para tal tarefa. Julgo que correu bem. E, como várias pessoas me pediram o texto da apresentação, decidi que a melhor forma de falar sobre o livro seria publicar aqui as palavras que, então, disse


CAMINHOS E DESTINOS
A memória dos outros

Começo por fazer duas advertências para tranquilidade vossa. A primeira respeita ao hábito que tenho de fazer apresentações curtas, que terei adquirido em mais de duas décadas de ensino universitário. De facto, creio, mais de quinze minutos de oratória, levam a plateia a viajar por outros mundos.
Assim, pelo menos desta vez ficarão todos libertos da última moda nesta matéria, ou seja, três apresentadores seguidos de um pequeno número musical, como me aconteceu nos últimos eventos a que fui...
A segunda advertência vem do facto de eu gostar muito – nas suas diversas formas - da escrita do Senhor Embaixador, pelo que as minhas palavras sendo, espero, lúcidas, podem também ser parciais.
De facto, toca-me o seu olhar, sem excessos, sobre o mundo que o rodeia, mas sem nunca se privar de exprimir sentimentos; emociona-me o intimismo com que escreve, sem jamais ultrapassar a barreira da privacidade; surpreende-me a análise crítica que tece sobre uma série de assuntos que vão da política, à carreira, à literatura, à defesa da língua e que, por razões várias, constituem preocupações que também partilho.
Esclarecidas estas duas questões não posso deixar de declarar que só por muita ousadia da minha parte é que aceitei vir apresentar este livro. Com efeito, se por um lado contava com a benevolência de quem me convidou, por outro, admitia ir encontrar um público que pudesse estranhar a escolha  do meu nome, pouco intelectual das letras e sem filiação em correntes literárias.
Gosto muito de escrever, mas a única certeza que tenho é a de que devo à leitura de certos autores, uma boa parte de quem sou. Mas nunca me apelidei de mais do que de “escrevinhadora”.
Bem haja pois, Senhor Embaixador, pela confiança que em mim depositou.
Entremos então, na tarefa que aqui me trouxe. A primeira questão que gostaria de colocar é a de definir o que, para mim, constitui apresentar um livro. Do meu ponto de vista, o primeiro objectivo é expressar o que sentimos acerca do seu conteúdo. Para depois tentar descobrir o que as suas linhas acabam por revelar do autor. E isto, claro, tendo em conta que essa revelação será, por sua vez, também ela, sempre feita pelo olhar do “outro”, daquele que apresenta.
Ou seja, a apresentação de uma obra envolve, sempre, uma dupla percepção na qual, escritor e apresentador caminham lado a lado, mas sem que este último tenha alguma certeza de que aquilo que lobriga desse caminho é mais sobre o autor do que sobre si mesmo.
Dito por outras palavras, cada um acaba por ver na obra e no escritor, uma parte de si próprio. E, a meu ver, se alguém aceita dar a conhecer um livro é porque sente que nesses dois percursos feitos, existem  encruzilhadas comuns de que vale a pena falar.
Assim, as minhas palavras são, naturalmente, a consequência daquilo que no livro mais me impressionou, me tocou, me surpreendeu, num itinerário que, obviamente, neste caso concreto, tem múltiplas veredas.
Para quem, como eu, conhece a escrita diarista de Marcelo Mathias, encontra aqui uma prosa que, numa primeira leitura, parece diferente, até porque nos ensaios a tendência não é intimista. Mas à medida que nos embrenhamos nos vários textos, acabamos por perceber que esse lado personalista continua bem vivo nas análises feitas.
São muito diversos os temas que preenchem as páginas deste volume de crónicas e ensaios. Livro que também é um determinado retrato do nosso tempo, feito por entre escritores e políticos, através da memória de uns e do percurso de outros.
Retratos e memórias que, confesso, nalguns casos, me são muito familiares, mercê de duas circunstâncias. Uma, o facto pertencer à mesma geração de quem escreve este livro. Embora não tenhamos tido as mesmas mundividências, a sociedade que nos rodeou foi a mesma. Outra, a circunstância de ter nascido no seio de uma família que não só se interessava e discutia uma parte significativa das temáticas que aqui se abordam, como sempre incentivou os mais novos a nelas participarem.
Daí que, percorrer as páginas lindíssimas sobre Biarritz e sobre o esplendor de Sophia, ou ler os comentários sobre o livro Equador, ou sobre as Cartas de Amor de Pessoa a Ofélia –cuja utilidade ainda hoje não percebi -, me tenham feito sentir uma proximidade quase fraterna, já que me recordaram as animadas conversas com o meu irmão mais velho, também ele  Embaixador.
Não faltam nestas folhas apreciações profundas sobre alguns nomes literários como Tabucchi, Torga, Eugénio Lisboa, Almeida Faria, ou Vasco Graça Moura, para só citar estes, de quem sou mais próxima ou cuja leitura continua  mais fresca.
Ler as palavras de e sobre Graça Moura acerca da identidade cultural da Europa não deixa ninguém indiferente. Nem eu própria, que continuo a sentir que a minha identidade é só uma, a de ser portuguesa e de dificilmente admitir viver noutro lugar que não seja Portugal.
Igualmente presente está a visão do diplomata acerca de alguns colegas de carreira e da forma como vêem a Diplomacia. Aqui, perdõem-me todos os outros, mas escolho decididamente fazer referência a António Pinto da França, personagem fascinante e um homem de quem se diz que tem relógio e tem tempo, mas desconhece a urgência. A sua permanente curiosidade permite-lhe viver em osmose com o tempo dentro e fora dele, algo que faz lembrar um fundo quase oriental. Não é frequente encontrar alguém assim!
Julgo, enfim, poder dizer que estamos perante um livro, que fala de lugares e de países – Biarritz, Goa, India, França, América – mas também de pessoas, sejam elas políticos, escritores, pensadores ou diplomatas. 
Trata-se, a meu ver, de um livro, com uma acentuada marca francófona – que bem que sabe aos que, como eu, são francófilos – e se ocupa na política de personagens que vão de Giscard a Balladur ou a Sarkozy - e de escritores como Malraux, Aragon, Drieu La Rochelle ou Camus. De caminho, percebe-se como estes homens enriqueceram a França e e como a pátria fez deles os seus heróis contraditórios.
Permitam-me aqui uma pequena anotação sobre esta família de notáveis diplomatas. A França está mesmo no seu ADN e não é certamente por acaso que o livro tem essa inclinação francesa que referi.
É que três gerações sucessivas serviram Portugal naquele país. O avo Marcello foi embaixador em Paris em duas longas temporadas; o pai Marcello - autor deste livro - foi embaixador na UNESCO que tem sede em Paris. E o neto Marcello, outro diplomata por quem nutro uma grande ternura, a caminho de França vai.
Por coincidência ainda se deu o caso de Marcello pai ter servido na UNESCO ao mesmo tempo que o seu irmão Leonardo chefiava a missão bilateral em Paris. Três gerações diferentes: o mesmo apelido; o mesmo patriotismo; a mesma vocação; o mesmo destino!
Et cela va sans dire, todos tão diferentes, todos tão interessantes! 
E se isto não fosse já muito, seguem-se páginas preciosas sobre as epístolas trocadas entre Saint-John Perse e Calouste Gulbenkian, ou a correspondência entre Roosevelt e Estaline, tão reveladoras do período político que se aproximava. 
Impossível citar todas as peregrinações interiores de outros, de que o autor se ocupa ou entrar no detalhe sobre os ensaios que este livro contem. A escolha dos textos é um labirinto conduzido, no fundo, pelo trabalho de quem, há muitos anos, pensa sobre o que os outros pensam, sem contudo, se esquecer de pensar sobre si próprio.
É por isso que a nossa memória é,  também, sempre um bocado da memória dos outros e a nossa revolta, mais ou menos contida, resulta uma amálgama entre a que sentimos e a dos que nos rodeiam, pese embora estes últimos possam, até, nem ser pessoas de quem estejamos próximas.
Confesso que os primeiros textos que li foram aqueles que considerei terem laivos mais pessoais. Explico-me melhor.
Gosto, como já disse, da escrita intimista, de tipo diarista,  na qual considero o Embaixador Marcello Mathias um autor verdadeiramente especial. Assim, comecei por Biarritz, essa estância de que o meu Pai tanto falava e a que, mais tarde voltaria tantas vezes. Nestas suas linhas está tudo o que o meu olhar tinha, outrora, registado. Como também está, uma outra Biarritz, que só o autor conheceu, e cuja partilha me encantou.
Não menos interessantes e surpreendentes são essas linhas das Memórias femininas, memórias cruzadas, em que tão subtilmente se recorda a frase de Louis Scutenaire que afirma que “o homem olha, a mulher vê”, num paradigma com o qual me identifico plenamente.
Há, aliás, em todo o livro a marca de um reconhecimento do feminino - ao qual eu jamais serei indiferente - que está presente mesmo quando não se fala dele.
Quase no final do livro o autor escreve um ensaio sobre esse estranho ano de 1938 em que nasceu. Recorrendo à belíssima definição do professor Adriano Moreira, 1938 foi 'tempo de vésperas'. Os homens ainda viviam em paz mas os lúcidos já pressentiam que a guerra - a horrível II Grande Guerra - estava ao virar da esquina. Este ensaio é sobre tudo o que vai acontecendo enquanto o essencial ainda não aconteceu.
Às vezes receio - a minha idade avisa-me –, que as loucuras do mundo de hoje não estão longe de um pressentimento sombrio. Espero não ter razão!

No fundo, e repito-me, o que fascina neste Caminhos e Destinos é o fio condutor que une a diversidade de deambulações entre a critica, a crónica, o ensaio e que nos leva, afinal, a percorrer um caminho que, sendo dos outros é, simultaneamente, também nosso.
A Memória dos outros é o fulcro deste livro. Só é possível falar dela, porque ela, ou melhor, elas,  representam uma pluralidade de recordações que constitui um perfil da sociedade portuguesa, suas gentes, ambientes e costumes
Como é dito no prefácio deste livro ‘escrever é ir ao encontro do que nos comove, intriga ou indigna, de tudo aquilo que afinal nos chama porque nos é próximo ou, pelo contrário, suscita a nossa curiosidade porque se filia num passado feito de outros cenários e recordações. Em definitivo, toda a memória é sempre memória dos outros.’». Foi ela - a minha e a dos que me rodeiam - que aqui encontrei. E que, como sempre, me comoveu e deixou presa da primeira à ultima folha destes CAMINHOS E DESTINOS.

HSC

7 comentários:

Maria Isabel Mesquita disse...

Sem querer tornar-me repetitiva Doutora Helena não nos prive dos seus escritos.
Se foi a escolhida do escritor, ele lá sabe porquê e nós também.
Parabéns
Maria Isabel

Anónimo disse...

Belo e sentido texto Helena.
Vou ler!

Anónimo disse...

A sua apresentação despertou-me a curiosidade. Não conheço o autor, mas vou comprar e ler. Deve ser muito interessante.

Anónimo disse...

Comprei o livro e fiz a leitura de acordo com o que me suscitou mais interesse. Estou a meio e a gostar muito. A sua apresentação corresponde exactamente ao que estou a sentir. Sou homem e acho as suas palavras muito justas.

Anónimo disse...

🌷

Anónimo disse...

Que extraordinário texto de apresentação! Claro que me abriu mais o apetite de o ir comprar para ler já.

Anónimo disse...

Acabei de assistir na tv24, às 18 horas, ao discurso de Macron de homenagem às vítimas do atentado de Nice (presentes Hollande, Sarkozy e Príncipe Alberto). Um arrepio e o sentido de Estado, à francesa, de que gosto muito e a minha amiga também. Não é só a Literatura, o Cinema, a Pintura. Quando eles dizem «la République», sejam de direita, ou de esquerda, não é em vão.
BOM DESCANSO para si e seu querida Filho!