segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Solidariedade e banhos gelados

Fui educada em duas normas básicas: o trabalho deve ser pago e a solidariedade não se apregoa. Infelizmente parece que a tendência actual não é esta.
Todos nos pedem para que colaboremos gratuitamente em organizações que levam dinheiro pelo seu trabalho. No princípio da minha vida profissional era muito ingénua, aceitava e depois descobria que alguém tinha "recebido" por me ter conseguido levar aqui ou acolá. E, claro, os convites choviam.
Até que compreendi. A partir do momento em que fui confrontada com esse comportamento, tomei uma decisão que não mais abandonei. Trabalho "pro bono" em tudo o que seja estritamente solidário. O resto, ou é pago ao meu preço, ou não vou.
De nenhum deles faço alarde. Nem do que dou, nem do que me pagam. Mas em qualquer dos casos exijo reciprocidade. Ou seja, quando não cobro, peço declaração de que nada recebi. Quando cobro, passo o recibo verde respectivo. Assim evito dúvidas se terei ou não sido remunerada.
Vem este intróito a propósito dos banhos de água gelada em prol da esclerose lateral amiotrófica, para os quais alguém tentou aliciar-me. Apoiar uma causa, trabalhar por ela, contribuir materialmente, tudo me parece defensável. E pratico, sem alarde.
Fazer disso um movimento colectivo, no qual cada um se presta ao ridículo público e alardeia a sua contribuição, já não é a minha praia, como agora se diz. Além de tudo, tenho sérias dúvidas de que tal comportamento seja o mais dignificante para a instituição em causa.
O que eu dou ou não, é um problema meu. Prestar-me, na minha idade, ao ridículo, já não é só causa minha. E se nunca escondi os anos que tenho, também nunca me servi deles em benefício próprio. Porque juizinho e sentido do rídiculo, nunca são demais...

HSC

39 comentários:

Anónimo disse...

Olá Helena,

Sou tão, tão sua admiradora...
Cresci a ouvir falar de si. Bem. Muito bem. Infelizmente, a minha mãe - quem me 'apresentou" a si - passou por um desgosto como o seu. Perdeu a sua primeira de duas filhas. E eu perdi a minha única irmã. E ganhei um apreço, estima, carinho... tudo quanto há em relação às mães que experimentaram a dor da minha.
Admiro-a por tudo. Pelo bem que escreve, pelo bem que fala, pelo bem que pensa...and so on.
Mando-lhe um beijinho do tamanho da gratidão que lhe tenho por ter sido sempre um dos exemplos que mostrei à minha mãe para não deixar de (sobre)viver.
E, se me permite: onde escreve "demais", creio que deveria escrever "de mais". s.m.o.

Isabee

João Menéres disse...

Não posso discordar de uma única palavra !

Melhores cumprimentos.

maria isabel disse...

Tem toda a razão.
Também não acho grande graça,nem vejo necessidade desta brincadeira que mais não é ,neste momento, mera promoção social para algumas pessoas.

Anónimo disse...

Eu não disse?...adivinhei que a iam aliciar.
Mas tem toda a razão,nada de baldes gelados.Agora uma dança á chuva,tenho para mim que questionava!
http://youtu.be/-f-CqwYsyQc
:-)))

Fatyly disse...

Respeito a sua e a de muitos de não entrarem nesta "onda de banhos" por uma causa, agora já extensível a outras causas.

Mas eu tenho opinião inversa, já que se usa as redes sociais (nas quais não ando) para tanta porcaria/atrocidade sem nada de valor moral, ético etc., que venham os baldes de água pelo menos fazem-me rir e ver grupos entrar na "onda" é bom, muito bom!

Se me pedissem para o fazer, sinceramente não sei se seria capaz, diria que sim, mas sem ser filmada:)

Um abraço e um bom dia

Simplesmente Eu disse...

Bom dia!

Apesar de menos idade :) concordo plenamente consigo! Além do mais, concordando ou não com esta forma alardeante de ajudar o próximo, parece-me que, muitas das pessoas que aderem a essa causa, não estão a aderir à causa mas sim a um desafio, mostrando daquilo que é capaz ou não. Enfim..., ao menos que toda esta ostentação sirva a causa final!

Nuno

Anónimo disse...

Bom dia Helena!
Concordo 100% consigo!!!

«O trabalho deve ser pago e a solidariedade não se apregoa.»

Quem apregoa, o que dá e faz em prol da solidariedade, quer ser reconhecido, valorizado.
Ontem o meu marido ( com um grupo de 30 pessoas) foi para uma estação de metro, distribuir aos sem abrigo, produtos de higiene, comida.
No final o organizador, quiz tirar fotos, para colocar no face, o meu marido recusou entrar.
Tudo por pensa, o mesmo que nós.
Os banhos públicos, são uma palhaçada, quem os faz, é certo que quer contribuir para uma causa, mas ao mesmo tempo não imagina, a figura ridícula que faz!
Já fiz solidariedade, não com a minha presença gosto de ficar no anonimato, mas de outras formas.
No meu aniversário, pedi aos meus amigos para não me oferecerem presentes, mas sim comprarem ração/patê para uma associação de animais abandonados, fiquei contente com a aderência.
Contribuição essa que não foi entregue por mim, mas por uma voluntária que faz parte dessa organização.
No face da associação explicou a ideia, a partir de aí mais pessoas seguiram essa forma de donativo.

Carla

Helena Sacadura Cabral disse...

Isabee
Bem haja pelas suas palavras que me tocaram muito.
O meu "demais" - demasiado, excessivo - está certo com o que aprendi.
De mais juizo, de mais ridiculo- quantitativos -, esses sim seriam separados.
Já no livro AS MULHERES QUE AMARAM DEMAIS, a revisora queria separar e depois de consultarmos uma Professora de Linguística da Faculdade, mantivemos uma só palavra.
Mas agradeço-lhe na mesma.

Virginia disse...


Não sei donde proveio a ridícula ideia dos banhos gelados e confesso que a minha primeira repulsa foi pelo facto de se gastar litros de água que tantos e tantos não têm para o dia a dia, mesmo na nossa terra...

Para já, acho que a campanha foi aberrante, mera ostentação de quem pode e quer dar o seu dinheiro, mas ninguém ficou mais elucidado sobre a doença, nem do modo como ajudar os que dela padecem.

Em resumo, concordo com tudo o que escreve. Não é uma questão de idade, é uma mera reacção à estupidez humana.

Anónimo disse...

Bom-dia, cara Helena.
Mais do que ridículo, penso ser ostentação a força impulsionadora para tanta e desprendida solidariedade.
E quanto mais barulho melhor porque esse atrai atenções, e, claro; onde o ruído se manifestar haverá sempre alguém a gritar mais alto para se destacar. E às vezes cola.
Eu como sou um descrente na generosidade humana expressa através do barulho, acho que a bulha não convém a todos. Pode alguém reparar que queria ser um grande peixe num pequeno charco.
cumprimentos.
Corvo.

João Menéres disse...

Penso que o DEMAIS do título equivale a demasiado.
Portanto, será mesmo demais.

Melhores cumprimentos.

Anónimo disse...

Homens que Amaram Demais...
Ouvi dizer que vai ser construído no Alentejo um Taj Mahal em sua homenagem.
E se merece!

bea disse...

Não engraço com banhos gelados; desgosto de filmes públicos que não os do cinema; não vejo relação directa entre a doença e o desafio e convenço-me que muitos desafiados limitam a resposta à sua aceitação; é triste que sejam as pessoas comuns a contribuir para ajudar numa doença tão limitativa e problemática; parece-me uma ideia um bocadinho peregrina e, como hei-de dizer, meia desajustada.

Mas há muito mundo a pensar diferente. Oxalá tenham bons resultados. E seja boa a intenção:)

Marta Veloso disse...

Oh Helena, o que eu gosto de si! É que me entende perfeitamente!beijo grande e que viva muito!E bem!

Anónimo disse...

Dou-lhe toda a razão ao que diz.Mas olhe que ás vezes um pouquinho de loucura (da saudável) não faz mal a ninguém,pelo contrário...
Dizem que os loucos são mais felizes.
E acho que "alguém" hoje já a fez sorrir,a mim sim.
Tenha uma tarde agradável.
:-)))

Observador disse...

Não comento, aplaudo.

Anónimo disse...

Também não consigo perceber a relação entre banho gelado e doação. Mais ainda, depois de ver certas pessoas terem ficado tão" geladomolhadinhas", pensei que a tal conta bancária iria aumentar consideravelmente, mas ... nem por isso.
Esta é a opinião de uma sexagenária para quem os 30º da piscina de hidroginástica nem sempre são agradáveis à entrada.
Gosto muito de a ler e de a ouvir RIR.
Helena <Morais

Anónimo disse...

Ahhh!... Pudesse eu aliciá-la...e seria para uma chuva de ervilhas-de-cheiro e tulipas amarelas.
Isto sim,seria digno de si.
Sonhos,quimeras mil...e todos os que padecem seriam curados.

Enigma

Anónimo disse...


Bom dia Helena!
Hoje temos um dia cinzento, chuvoso, prefiro os dias com sol, alegres...
Partilho um poema, que adoro ,que nos faz pensar!

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não 'stás morto, entre ciprestes.

Neófito, não há morte.
Fernando Pessoa

Carla




Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 13:47
Vai ter que ser muito grande, porque os homens multiplicam-se em amores diversos...

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 00:19
Dançar sim. À chuva...bom, à chuva, talvez só com o amor da minha vida, porque nem sequer daria por ela!

Anónimo disse...

Dra Helena,onde andam os comentários dos anónimos das 13:47 e 00:19 que não encontro os comentários?!
Está bonito... ah ah ah


Anónimo disse...

Li algures que a escolha pelo balde de água gelada, visava mimetizar o sentimento (simbolicamente falando) que caracterizada a tomada de conhecimento de que se padece de uma doença como a que está aqui em apreço. De resto, a "parilisia reactiva" ao frio, que o banho proporciona (?) pretenderia, igualmente, ilustrar o que vive, em termos físicos, pessoas que dela padecem.

Não estou a dizer que concordo, ou discordo, mas achei que talvez pudesse ser informação "importante" a considerar na análise da questão.

Anónimo disse...

A propósito de "banhos",a festa do Avante levou cá um banho geral do S.Pedro.Está visto que quis que todos contribuíssem...ou então foi para apagar a fumaça.
Coisas de Santo.

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 14:17
Não faço a mínima ideia. Aqui neste blogue não se censuram comentários a menos que sejam gratuitamente agressivos.
Se não foi o caso, não chegaram. Tão simples quanto isto!

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 16:28
Olhe que Santo hoje é caminho inquinado. Portanto perigoso.
Mas suponho que a Festa do Avante acabou antes de chover...

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 16:12
Agradeço a informação. E julgo saber o efeito / banho gelado que se apanha perante uma tal notícia.
Mas ninguém ri dela. Ao contrário do que se passa no banho...

Anónimo disse...

Boa tarde Helena,
penso que o pretexto para o «banho de balde» não é a doença em si. É a pura chamada de atenção para quem o pratica, principalmente se o praticante for famoso! Atualmente o Homem busca em qualquer motivo e ação picos de adrenalina. Quando estes banhos passarem e a doença voltar de novo ao esquecimento, qual será a nova moda? Poderá ser o inverso, ficar um mês sem tomar banho para sentir na pele o que os sem abrigo sentem?! Cumprimentos
Fernanda

Anónimo disse...

Cara Dra Helena,sou o anónimo das 14:57.
Obrigado pela sua resposta,mas a Sra respondeu a comentadores aos quais pelas horas que diz eu não os encontro! Não sei se me fiz entender,mas acho que se enganou no horário das respostas.
É que estou atento! :-)

E gostei da explicação do anónimo das 16:12.Contudo acho inapropriado,pois,um banho gelado pode fazer mal.É um grande choque térmico para o corpo.Só aconselhado em casos de febres altas,penso eu.

Anónimo disse...

E mais Dra,eu penso que a sua resposta ao anónimo das 14:17 seja para mim que sou o das 14:57 certo?
Isto é que está aqui uma açorda! :-)))
Estarei certo ou errado?! Eu hoje até bebi um rosé,Mateus,ao almoço,mas,nada exagerado!
Ah ah ah...

Anónimo disse...

Ó dra Helena,o que já me ri por sua causa!
A Sra diz que não faz a mínima idéia onde estão os comentários,então como lhes responde?! Invisíveis? :-)
Também procurei os comentários aos quais respondeu e vejo 3 erros.
E já sei que vai gabar a minha paciência. :-( mas que está a precisar de uma lupa,está! Desculpe a sinceridade.
Gralhas

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 20:40
Se respondo aos comentários, então porque me pergunta onde estão?
Eu precisarei de uma lupa, mas o Anónimo vê demais!

Helena Sacadura Cabral disse...

Caros comentadores
Para satisfazer o Anónimo das 20:40, que pretende convencer-me que estou a precisar de uma lupa, esclareço que onde está 00:19 deveria estar 01:19 e onde está 13:47 deveria estar 13:44.
Com a lupa passei logo a ver melhor!

Anónimo disse...

:-( Fico muito triste se a ofendi.
Anónimo das 20.40- eu só perguntei porque "me dou"sempre uma margem de erro.
Deixo a minha vénia,e quanto á brincadeira da lupa,retiro a mesma.
E não pretendo nada...
Onde está 14:17 devia estar 14:57.
Passarei a silêncio absoluto e a não ver o que vejo,prometo.
:-( Gralhas Triste deseja-lhe uma boa noite e sem lupa.

Helena Sacadura Cabral disse...

Gralhas
Não se amofine com a lupa, que eu não me ofendi nada com ela.
Penso que tem uma vocação inata para revisor de textos, que é uma nobre profissão a quem os autores muito devem!

Anónimo disse...

Infelizmente, saberá, de facto o banho de água fria que é... (o que se sente)

Creio que os risos, acabam por ser de quem vê a careta que o banhado faz, por reacção ao frio (só vi um par de vídeos, na verdade; um deles o do Ben Affleck).

Mas concordo que seja dissonante face à seriedade que a natureza da situação (a doença em causa) implica, e por isso, - quase - ofensivo.

Anónimo disse...

A mensagem que se segue não tem qualquer relação com o teor do post, e compreendo, perfeitamente, que não o publique, só me interessa fazer chegar a mensagem, é que, sabe, depois de ter feito chegar a uma amiga o link da entrevista que Daniel Oliveira lhe fez, e na impossibilidade de lho comunicar de uma outra forma, cara Helena, aqui ficam mais dois testemunhos de plena admiração pelo (extraordinário) ser-humano que revela ser, e por se (nos) dar da forma que faz, permitindo a todos que aprendamos consigo, nos sintamos aconchegados, nos aqueça e encha o coração como faz.

A organização de afectos que revela ter... é magnífica. Oh binómio cabeça-coração, iluminado...!
A MR (a minha amiga) chorou hoje, quando a ouviu, mas no final, a nota que nos deixa é de conforto e alegria.

Qualquer das duas, dispõe, na sua rede de contactos, de alguém como a senhora, mas congratulamo-nos por ter oportunidade de, ainda assim, "tê-la" da forma possível.

Muitas bençãos, é o que ambas pedimos para si. E uma vida longa, preenchida, feliz, muito risonha com tudo o que de melhor houver.

:)

Um abraço apertado,
CA e MR.

Helena Sacadura Cabral disse...

CA e MR
Não tenho falsas modéstias. Sou apenas alguem que tenta dignificar a dádiva da vida que recebeu.
Por isso, muito obrigada pelos elogios.

Anónimo disse...


...vai ser do tamanho certo.Os homens,alguns sim.
Quem constrói um Taj Mahal só tem uma alma e um coração para uma única rainha.
Anónimo das 13:44