terça-feira, 19 de março de 2013

O meu Pai

Todos os anos neste dia dedicado a S. José, meu padrinho de baptismo - tardio e feito com vinte anos de idade por decisão própria -, relembro o meu Pai.
Não era um homem muito afectuoso porque tinha perdido o dele era ainda muito jovem e cresceu com a norma básica da família. A qual determinava que as alegrias se partilham, mas que as dores devem ser consumidas pelos próprios e sem alarde. 
Foi neste espírito que, aliás, também eduquei os meus filhos e julgo poder dizer que ninguém nos terá ouvido quaisquer queixas sobre o que na nossa vida possa ter corrido mal. A única excepção que faço a esta regra é conhecida e respeita ao meu ódio visceral ao poder e à política, herança paterna a qual, creio, durará até ao meu último suspiro. E não tenho a mais mínima intenção de malbaratar tão judicioso património.
Mas herdei também dele um enorme respeito pelo trabalho, pela ética e pela tolerância. Além disso, foi alguém que me ensinou que a cultura devia ser, sempre, o embrulho da minha existência e não foram poucos os sacrifícios para que dela beneficiasse.
Hoje lembrei-me muito dele e do que teria sofrido se visse o seu país na actual situação. Só quando envelhecemos é que percebemos bem o que recebemos daqueles que nos antecederam e nos deram a vida. Eu estou muito grata àquele que me ensinou quase tudo o que fez de mim a mulher que sou hoje.
Obrigada meu querido Pai!

HSC

12 comentários:

Anónimo disse...

Cara Helena,

Que lindas as suas palavras. Acredite que o texto podia aplicar-se também ao meu pai.

Ficou sem mãe com apenas dois anos e era pouco afectuoso, mas ensinou-me os princípios do respeito pelos outros e que os momentos menos bons ficam em casa.

A verdade é que fiquei sem o meu pai aos 20 anos e foi esse o meu comportamento, sem recorrer aos "choradinhos" tão enraízados na sociedade portuguesa.

Passadas quase três décadas sobre a sua morte, acedito que ficaria muito chocado com o estado a que chegou a Nação... já para não falar do Sporting (do qual era ferveroso adepto!).

Isabel BP

Dalma disse...


Talvez, pela profissão que tive, eu seja demasiado analítica uma vez que quando leio um post às vezes dou por mim a notar as contradições. Corrija-me se estou errada.
A certa altura diz, e cito “… A única excepção que faço a esta regra é conhecida e respeita ao meu ódio visceral ao poder e à política…” e mais a baixo diz : “…mas herdei também dele um enorme respeito pelo trabalho…e pela tolerância.”
Ora vejamos, ter “ódio visceral ao poder e à política” não é contraditório com “tolerância”?

miminhos cruzados disse...

Fiquei sem palavras...

Que bela mensagem querida doutora Helena!

Um abraço,
Vânia

zia disse...

É tão bom recordar o nosso Pai. Hoje mais do que nos outros dias lembro-me também o meu querido Pai e gosto de ter saudades dele. Que grande homem foi ao conseguir lutar trabalhando muito para que todos os filhos tivessem uma formação que ele não teve, antes estava sujeito ao que as estações do ano lhe davam a oportunidade de tirar do campo!
Muitos beijinhos,
lb/zia

Helena Sacadura Cabral disse...

Dalma
As excepções são isso mesmo. São comportamentos que não seguem as regras. E a minha tolerância tem limites. Que são os da ética!
Que meu Pai tinha e eu honro.

Carochinha disse...

Que lindo Helena!
Gosto tanto de a ler...
Um beijinho*

Teresa Peralta disse...


Memorias maravilhosas que correspondem, quase sempre, a mentes preciosas...
Um abraço pelo dia de S. José.

Anónimo disse...

Como pai, sou igualmente sensível a esta data.
Em casa, há pouco, antes de jantar, ao vasculhar e manusear livros que por cá tenho e muito estimo (os livros são, igualmente, os nossos melhores amigos), li umas palavras de Raúl Brandão dedicadas a seu pai – que achei muito comoventes, mas sobretudo belíssimas.
Gostei muito deste seu Post, neste dia muito especial para mim, até pelo facto de já não ser só eu pai, mas um dos meus filhos também.
Uma boa e repousante noite, Helena,
P.Rufino
PS: felizmente, ainda tenho meu pai vivo e de saúde!

Isto e aquilo disse...

Não sou muito dada a "dias de..." e o meu pai também não achava particular piada aoo Dia do Pai e a outros semelhantes.
Mas o seu texto, Helena, é uma linda homenagem e lê-lo faz-me inevitavelmente encher-me de ternura e lembrar, também, o meu pai.
Um grande beijinho
Isabel Mouzinho

Anónimo disse...

Como sempre que lindas palavras, que bela homenagem!
Também eu recordo cada dia mais o meu pai com saudade e lhe agradeço pelos valores transmitidos, principalmente o de ser uma pessoa humilde e trabalhadora para quem a palavra dada e a honestidade eram o seu maior bem!
Um grande beijinho
FL

Anónimo disse...

Realmente devemos ser quase todos, de uma geração em vias de extinção, aqueles a quem os pais tinham na palavra, a base da seriedade da honra do sacrifício.
Eu, foi o primeiro ano que não tive o meu, ao pé de mim, muito me custou apesar de não ligar a quase nenhum deste dias comemorativos, este era o dia em que eu lhe levava uma flor, de vaso normalmente que são as mais duradouras e das quais hoje vou buscar para lhe “enfeitar” a campa.
Bem haja por ser como é.
É sempre um prazer ler o que partilha com todos nós.
Beijinho
AC

Maria José Rocha Espinheira disse...

Querida Helena,
Tanta coincidência junta não será por acaso.
Tal como o seu pai, o meu e eu passamos pelo mesmo, com a diferença de termos partilhado uma vida muito afectuosa e ainda bem, pois apesar do curto tempo vivido foi esse afecto que ainda hoje me dá forças para enfrentar esta triste vida que todos vivemos.Também o meu ficaria desapontado com a situação do país, pensei nele, enviei-lhe um abraço daqui até ao céu, mas nada mais lhe disse, pois não o quero triste.
Um grande abraço e que o nosso S.José nos continue a acompanhar.
Maria