segunda-feira, 4 de julho de 2011

Uma questão actual



"Todos os portugueses sabem que, excepto pelas costas, não se diz mal dos amigos e conhecidos. Felizmente, devo ter uma costela estrangeira e não me sinto obrigado à regra. Quando o novo secretário de Estado da Cultura, pessoa inteligente e óptima companhia, se estreia na função a prometer que o Acordo Ortográfico será "implementado" em 2012 nos "documentos oficiais e nas escolas" dado ser "um caminho sem retorno", eu gostaria de lembrar ao Francisco José Viegas que caminhos sem retorno também eram, ou são, o TGV, o aeroporto de Alcochete, a bancarrota, a gripe suína e o declínio do Belenenses. O trabalho de um governante consiste, suponho, em tentar contrariar as desgraças ditas inevitáveis. Aceitá-las de braços caídos tende um bocadinho para o fácil e talvez não justifique o salário.
Ainda por cima, às vezes sai mais caro, em esforço e em dinheiro, aceitar as desgraças ditas inevitáveis do que impedi-las. Na questão do AO, por exemplo, parece-me menos complicado deixar as coisas como estão do que proceder à inutilização de toneladas de papel e à revisão de gigabytes de informação "virtual" em nome de um compromisso pateta e de enigmática serventia. Vasco Graça Moura, aqui no DN, já aludiu ao prejuízo material que o AO implica, ao tornar obsoletos manuais escolares, dicionários e livros em geral. Se o objectivo do Governo eleito fosse torrar fortunas em disparates, a "implementação" do AO viria a calhar. Sucede que o momento é, ou assim nos garantem, de austeridade, por isso dói ver aumentos de impostos contrabalançados por desperdícios quantitativamente pequenos e simbolicamente desmesurados. Pior que tudo, além de tonto nos princípios e dispendioso nos meios, o AO é horroroso nos fins."

Alberto Gonçalves in DN de 29 de Junho de 2011

Não posso estar mais de acordo. Espero que Francisco José Viegas um homem de cultura que estimo, tenha consciência do que aqui se diz. É que não somos poucos a pensar assim. Nem somos todos néscios ou idiotas!

HSC

21 comentários:

Naná disse...

Bravo, uma ovação e de pé ao que aqui está escrito!

PAL disse...

Francisco José Viegas, ao contrário de alguns elementos deste novo Governo, há muito tinha a mesma opinião sobre o AO:

«Acordo ortográfico: talvez sim

Ouro Preto (em Minas Gerais, Brasil) até poderia ser o cenário ideal para falarmos do assunto: no fundo, a sede da primeira grande conspiração contra o domínio português e o palco onde foram expostos os restos mortais do supliciado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é uma cidade que mantém a memória desse cruzamento entre Portugal e o Brasil. Foi aí que decorreu mais um Fórum das Letras, e que contou com participações dos vários mundos da Língua Portuguesa, chegados de Portugal, do Brasil e de África. Em várias das mesas e debates que compuseram o encontro o tema (que não fazia parte da lista de assuntos para discussão) aparecia com a mesma volatilidade com que se escondia: deve, ou não, assinar-se um Acordo Ortográfico que unifique a grafia da Língua Portuguesa?

O debate sobre o assunto corre a várias velocidades e a ritmos diferentes. Geralmente, como tive oportunidade de referir num encontro no Rio de Janeiro, quando não há mais nada para discutir, discute-se o Acordo Ortográfico. Não é um assunto de primeira grandeza; mas é um elo diplomático e político no desconcerto linguístico.

A primeira sensação, vivida por escritores brasileiros ou portugueses tem a ver com a sensação, iniludível, de uma perda afectiva – o trema, as consoantes mudas, os acentos nas paroxítonas, o fim do acento agudo nos ditongos abertos, três novas consoantes adoptadas, mais um certo número de casos que mudarão a grafia aqui e ali.

Se no caso brasileiro só 0,45% das palavras mudarão de ortografia, o caso português acrescenta um pouco mais: menos de 3%, suponho. Diante dessa baixa percentagem de mudanças, qualquer posição soará como insignificante. Os políticos assumem que a Língua Portuguesa ficará “mais forte” e que essa unificação levará a uma maior credibilização no domínio internacional. Talvez seja um argumento pífio, mas convém desdramatizar: o essencial do português de Portugal e do português do Brasil não mudará substancialmente. Continuaremos a dizer “autocarro” quando os brasileiros escrevem e dizem “ônibus”, manteremos “talho” onde no Brasil se usa “açougue”. A Língua Portuguesa não sofrerá com isso. Os onze ou doze milhões de falantes europeus, os cento e oitenta milhões da América, e os cerca de vinte milhões de África terão, portanto, uma grafia idêntica. Passaremos a escrever “ação” em vez de “acção”. Os brasileiros deixarão de escrever “acadêmico” e tirarão o trema a “tranqüilo”.

Perder-se-á muito? Ganharemos em comunicabilidade? É legítima essa mudança? Ou seja: pode um grupo de linguistas, iluminados ou não (geralmente tenho dúvidas), decretar essa mudança?

Acontece que nós não somos donos da nossa língua. Ela é mais falada fora das nossas fronteiras do que em Portugal. Acontece que a maior parte das inovações, rasgos de originalidade e de criatividade que têm sido acrescentados à nossa Língua, têm chegado de fora – e do Brasil mais do que de outro lugar.

Infelizmente, chegámos a um momento, na história da nossa Língua, em que manter o fechamento e a inflexibilidade pode acabar por custar-nos caro no futuro (o Português é, actualmente, a quinta mais falada do mundo em termos absolutos – e a terceira no Ocidente, atrás do Inglês e do Espanhol). Certamente que perderemos uma parte da nossa “excentricidade” linguística; mas é muito provável que ganhemos alguma vantagem na uniformização do padrão linguístico ou ortográfico. Não é verdade que os “manuais escolares” e os “livros didácticos” passem a ser os mesmos nos três continentes – mas se abrirmos esse corredor de comunicação entre as diferentes formas de falar e de escrever o Português, talvez prolonguemos a sua vida e o horizonte da sua existência. Cedendo aqui, ganhando ali, empatando mais tarde.

in Jornal de Notícias – 12 Novembro 2007»

Jorge Greno disse...

O Programa de Governo foi escrito em Português pré-AO.
Será que isso não tem significado político?

Blondewithaphd disse...

Que mais será preciso ainda dizer sobre a triste ideia deste acordo e de como uma ideia triste é tão realmente... triste?

ERA UMA VEZ disse...

Junto a minha à voz dos que defendem o NÃO AO ACORDO. Vale pouco, eu sei. Vale o que vale.

Os argumentos que o defendem acabam sempre na história da "quantidade de falantes"... Porquê a quantidade?
Não seria mais legítimo uma MATRIZ?
Quando queremos nós mesmos ir à raiz da língua...não dizemos que vimos do LATIM?
E no entanto é uma língua morta. Mesmo assim se impõe.

E os séculos de História e a nossa identidade?
Caramba, até nisto, temos de ser submissos?
AINDA NÃO CHEGA???

Pão de Ló disse...

Estou precisamente a viver em carne e osso, o deperdício causado pela implementação do AO e penso que vai trazer alguma confusão à cabeça dos jovens aprendizes.
Tenho um filho que vai entrar para o 4º ano e outro para o 2º ano. Frequentam o mesmo Colégio. O mais velho fez toda a aprendizagem de acordo com a ortografia antiga. O mais novo teve, no 1º ano, os manuais e Livros de Leitura Obrigatória escritos de acordo com a antiga ortografia. Para o 2º ano, foram designados pela Professora manuais com escrita de acordo com o AO, mas os Livros de Leitura Obrigatória adoptados foram os mesmos de anos anteriores e de autores "clássicos" (Alice Vieira, Sophia, etc). Estes livros (pelo menos as Edições que comprei há 2 anos para o amis velho e que se pretende sejam utilizados pelo mais novo) estão escritos de acordo com a antiga ortografia e eu acho que vai ser um pouco confuso para as crianças. Mas eu sou só Mãe, não sou especialista nas questões da pedagogia, nem da língua e muito menos governante!

Um abraço.

Pão de Ló

Anónimo disse...

Concordo com HSC. A good point made by Jorge Greno.
Quanto ao comentário de PAL, "bloguista" que muito respeito, não fiquei convencido.
Na Velha Albion ou em terras de Cervantes e de Victor Hugo ninguém se dá ao trabalho de ter este tipo de preocupações. Em minha opinião, as Línguas devem evoluir NATURALMENTE e nunca por Decreto.
Espero que FJV recue. Como sucedeu com este seu Governo quanto ao TGV.
Pertinentíssimo Post, Helena!
Sou absolutamente contra o A.O e asim continuarei a ser. E a escrever de acordo com esta discordância.
P.Rufino

PAL disse...

Caro P.Rufino, só salientei a coerência de FJV, quanto ao AO "jamé"! Sou subscritor do NÃO!

Helena Oneto disse...

Subscrevo os que dizem não ao AO. Há outras prioridades. O AO pode esperar mais uns anos quando as vantagens (se realmente há) forem mais visíveis/ imprescindíveis.

Fada do bosque disse...

Não há problema nenhum... o Povo paga.
O povo paga para que o esfolem, por isso siga p´ra bingo!
Ainda agora ouvi o presidente Cavaco a dizer que o País ía entrar em tempos de fome e miséria... mas isso é para nós que nos deixamos parasitar!
Vem dar conferências de imprensa a avisar que temos de ser solidários. A pouca classe média que existe, que se desgrace a cuidar dos pobres que eles não estão cá! Ora quem me dera poder emigrar já, falar e escrever noutra língua para não ter de presenciar tamanha pouca vergonha.
Manuais escolares herdados?! Não... somos um País rico e têm de se comprar todos os anos...
Agora o AO, é também muito bom para enriquecer ainda mais o lobby das editoras, que até queimam livros às toneladas, em vez de os mandar para os Países mais pobres.
Depois estão constantemente a divulgar a idéia de que vivemos acima das nossas possibilidades e que a culpa é nossa. Um jogo muito sujo.

Isabel O. disse...

Acho que agora é tarde... todos os novos manuais adotados para o 6º ano, e o novo de Língua Portuguesa para o 5º, estão escritos desse modo. Imagino que todos os outros manuais novos também.
De há umas semanas para cá eu própria tenho tentado escrever assim, pois, a partir de Setembro, é obrigatório usá-lo na escola.
Olhar para as palavras amputadas é o que custa mais. Escrever, nem por isso. Até é um bocadinho mais rápido.
Quanto à confusão entre anos e manuais é uma questão de tempo, uma vez que nem todos mudam.
Por mim estava bem, mas a minha profissão não me permite ficar acantonada a gritar "não escrevo, não escrevo".

Anónimo disse...

Sou ANTI-AO porque não consigo vislumbrar uma única vantagem!!!

Isabel BP

Marcolino disse...

Estimada Helena,
Se me sentir em minoria na vaga das transformações Globais e Universais, o melhor que tenho e fazer, será reformular a minha minuscula Ilha...!
Nutro enorme consideração por si!
Marcolino

Mar disse...

Absolutamente NAO ao A.O, e tal como P. Rufino jamais deixarei de escrever como aprendi,francamente nao percebo o interesse deste acordo em que a maioria dos portugueses discorda. Na heranca linguistica de um povo, nao se mexe levianamente.
Muito bom ter-nos revelado este artigo. Obrigado

Tanita disse...

Um aplauso a quem diz mal pela frente.

igualmentedesiguais.blospot.com disse...

Rubricado!!
Tudo isso e ainda o facto ( ora tomem lá com o "c" )das discrepâncias entre signo e significado que daí advirão ( aqui também se tiraria o "d"?).
Com efeito à custa de todos quererem ser politicamente correctos ( e pimba!!) corremos o risco de nos tornarmos invertebrados linguisticos.

marianinha disse...

Helena estou aqui para lhe dar um nome de um livro sobre África como li no seu livro que gosta muito desse país resolvi dar-lhe o nome de um que um amigo blogger me deu é uma história de amor passada na antiga cólonia portuguesa.

O livro chama-se O perfume da Savana o escritor é Ludgero Santos e a editora é pé de página.

Espero que goste desta sugestão.

Anónimo disse...

nÃO! E NÃO! Se fôr necessário vou para a rua gritar NÃO AO ACORDO ORTOGRáFICO! Junto a minha à vossa voz. Odiei o primeiro e os seua bués. Qual o intewresse? e as vantagens? Neste tempo de crise em que todos nos pedem para apertar o cinto, vai-se gastar mais uns milhares? Só vejo uma razão: um amiguito com uma tipografia.ai, ai bendita crise que à tua sombra muitos bolsos se vão enchendo com estas e outras ideias.
À quantidade de chineses que já cá vivem um destes dias alguem fará uma mudança na nossa lingua visando a china e o seu povo.

Ana Teresa disse...

Eu diria que o grande impulsionador desta ideia, é gerar maior consumo.
Imaginem o que vai ser gasto nisto...e em altura em que a pobreza alastra.
Superficialidades e uma tamanha falta de ética.
é triste. Enquanto milhões de seres humanos morrem de sede e fome, gasta-se em "cosmética".
Não, o ser humano não está num bom caminho.

Anónimo disse...

Não consigo sentir o menor respeito pelo FJV, nem por tantos troca tintas que andam por aí...

Coitadinha da minha neta!

Parece-me que estamos a começar a ficar fartos!

Concordo com o artigo e com os seus comentários.

Bj grande

Vera

Anónimo disse...

Muito bem! Concordo a 100%.