terça-feira, 30 de junho de 2009

Eles dizem...

O Ministro das Finanças, apesar de ser um homem cauteloso, em época de eleições precisa de dizer coisas, de fazer afirmações, de prever acontecimentos. Pela positiva, claro. Compreende-se. Mas é uma forma arriscada de fazer política económica. Entre nós diria, mesmo, arriscadíssima...
Depois de aqui ter referido que o clima de confiança havia melhorado, eis que menos de 48 horas passadas, a OCDE veio apresentar números que desdiziam os nossos. Não é novidade. Já começamos a habituar-mo-nos a estas contradições entre dados nacionais e internacionais!
Bom, passadoo balde de água fria de há dois dias da citada Organização, era preciso reagir. Então, aquecemos os motores e, de acordo com os números de conjuntura do INE, descobre-se que, afinal, o clima económico continua a melhorar. Por dois meses consecutivos. Desta vez, só a industria transformadora parece não estar empolgada.
Teixeira dos Santos, prudente mas lépido, aproveita de imediato a oportunidade e vê naquelas estatísticas um eventual indicador de fim de crise. Teve, contudo, um esquecimento. Perdoável em tempo eleitoral. É que quando a crise do sub prime passar nos EUA e na Europa, nós vamos continuar com a nossa. A portuguesa, muito nacional.
Aquela que é anterior e deriva da falta de competitividade, do baixo crescimento, da míngua de inovação, da quebra do investimento, da perda de mercados. Essa é apenas nossa. Não é importada.
A tal que, para começarmos a pensar em resolvê-la, nos imporia uma taxa de crescimento de 6%. Ora como estamos muitíssimo longe disso, o resultado é que a produção interna não chega para o que comemos. Nem sequer para aguentar o Estado. Logo, continuamos a viver a crédito.
E fala-se num vislumbre de final de crise? Até quando vamos manter a fantasia?
H.S.C

7 comentários:

Margarida Pereira disse...

Sucede que tal só serve para fazer rir. Riso amarelo, é claro...
Apesar de desejarmos (muito, muito), todos sabemos que a coisa está para durar. Como tudo o que é mau.
Só o bem é de escassa duração, parece...
Ouvimos aquelas expressões e até nos condoemos de tanta encenação.
Às pessoas sérias estas piadas devem causar sérios danos nos órgãos internos.
A nós já nem causa nada.
A não ser incredulidade.

Anónimo disse...

Pertinente Post este que Helena Sacadura Cabral publica, depois do que se ouviu e aqui se repesca e comenta. É caso para se exclamar: “Realmente!” Será para dar confiança e motivar? Ou serão outras as razões de tais declarações sobre a “recuperação”? Creio que foi aqui que li a frase: “em quem acreditar?” Igualmente oportuno HSC recordar-nos a situação em que nos encontramos, cuja “receita” – a de um crescimento de 6% da nossa economia – parece não estar ao nosso alcance.
Como um amigo me dizia, aqui há tempos: “logo havia de nascer aqui, neste país!” (ao que respondi, “olha que se tivesses nascido em África, era capaz de ser pior!”).
Reiterando uma exclamação noutro Post aqui do blogue, “haja esperança!” …mas, acrescentaria, até quando?
P.Rufino

hfm disse...

...até que o direito à indignação seja superior à modorra em que se vive neste país pequenino.

JoãoG disse...

Obviamente que uma análise económica séria não se coaduna com conjunturas pré-eleitorais, onde as motivações políticas tendem a gerir expectativas reanimadoras para quem está no poder e arrasadoras para quem se vê na oposição. Contudo, a nossa, tão nossa, crise emergiu duma forma muito mais ameaçadora - e visível - quando deixámos de ter os instrumentos monetários e orçamentais que dispunhamos antes da entrada na zona Euro. Mais visível e com menos mecanismos de intervenção, resta-nos competir taco a taco com países como os do leste na captação de Investimento directo estrangeiro ( e nacional), agilizando processos e tornando-nos descaradamente mais competitivos do que eles. Aliás, a vantagem do IDE está directamente relacionada com o aumento de competências da mão-de-obra.
Por outro lado, dando um forte empurrão (à semelhança do que a Espanha fez há anos) às exportações ( e aqui não importa tanto se de produtos com mais ou menos valor acrescentado - preferencialmente os 1ºs, claro), flexibilizando de vez as leis laborais. As regalias no trabalho devem ser conquistadas pelo mérito e competência (competitividade) e nunca por decreto (salário mínimo, et caetera...).

Enfim, desculpe-me o arrazoado, mas é de economia (economia é uma ciência Humana!) que os nossos políticos mais deveriam ter conhecimento. Muito do resto vem por lógica e bom senso.

Joni disse...

Helena:antes de mais é uma querida ao comentar no meu blogue. Obrigado com direito a uma beijoca :)

Pode o ministro dizer o que quiser que, enquanto o País não criar riqueza a valer: só se cria com apoio às médias e pequenas empresas, não passamos da cepa torta. É o mesmo: de vitória em vitória até à derrota final.

Rui Pinho disse...

Já não é o primeiro a declarar o fim da crise. Manuel Pinho já cometeu o mesmo erro. Fazia o Sr. Ministro das Finanças uma pessoa bem mais cautelosa do que o da Economia. Aliás, parece-me que essa deve ser a postura dos Ministros das Finanças: Cautela e ponderação nas palavras e mesmo nos vaticínios, até porque passa uma mensagem de desleixo aos restantes parceiros de governo.

Blondewithaphd disse...

As primeiras imagens que tenho de Portugal (um pouco desfocadas pela pouca idade longínqua) são na televisão: protestos com bandeiras pretas, uma grande crise, falava-se de Lisnave, acho. Mais velha, li (forçada pela minha Mãe, por um lado, por obrigações académicas, por outro) o que escreviam o Eça e o Ramalho e o Antero e esses dessa Geração e o que eu noto, na minha lata ignorância económica, é que somos um país cronicamente em crise, cronicamente de braços caídos, hábil na auto-lastimação, célere na propalação das vozes da desgraça, da hecatombe que sempre nos aflige. Sinceramente? Acho-nos mais inteligentes do que os alemães (esses que eu conheço, que me deram a língua, a vida, a educação) ou outros povos ditos da vanguarda europeia e, por isso, constrange-me esta "cronicidade" (?) do pobrezinho eternamente a braços com uma crise. Até quando vamos manter a fantasia? Ad eternum?...