sábado, 21 de junho de 2014

Estrela da tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria. 
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

A Patricia Reis lembrou hoje o Ary dos Santos neste belo pedaço de poesia. Porque será que, de repente, tive tantas saudades deste homem com quem convivi?!

HSC 

22 comentários:

Anónimo disse...

Este poema é belíssimo. Tão belo que até dói.
Obrigada por nos lembrar dele.
Maria L

João Menéres disse...

Esta ESTRELA DA TARDE devia constar em TODAS as Antologias da Poesia Portuguesa !

Muito agradecido à Patrícia Reis e à HSC

maria isabel disse...

Só conheci este poeta pelos seus poemas lindos lindos e tão profundos. Faz tanta falta este HOMEM da cultura.

Fatima MP disse...

Eu diria mais. Que saudades de um poeta que fala de sentimentos com palavras e frases com que habitualmente se fala de sentimentos. Não disfarça. Não finge que fala de outra coisa. Vai lá e fala. É poesia mesmo, escancarada, pura, na veia. Linda. E essa coisa é que é linda ...

ERA UMA VEZ disse...

Para mim será sempre um dos mais belos poemas de amor da Literatura portuguesa

Ary é mesmo de"outro campeonato"
Apesar de ter dado origem a uma música inesquecível, não é uma letra, é um POEMA.

Que saudades.

patricio branco disse...

da tarde, da espera e da noite, o dia da noite de todas as noites,
um grande poeta, sem duvida, a arte do verso aliava-a aos conteudos, aos ritmos, às fortes emoções que assim exprimia
tal como florbela espanca ficará e mesmo os que o querem ignorar não serão insensiveis quando discretamente o leem ou se o leem.
grande amigo de fernanda de castro, e havia a admiração mutua entre os 2, ary estabelecia com ela em magnificos serões de poesia e convivio um vivo dialogo em verso, ora um ora outro, de que ficaram alguns fragmentos que aparecem em memórias.
a juntar se ao escritor havia o firme declamador da sua poesia em voz clara e forte e vigorosa
bom lembrar o homem, irei ler algo dele, pegar no livro das suas poesias coligidas

Teresa disse...

Porque era Espetacular!!!

Virginia disse...

Os poemas dele são maravilhosos. E nunca foi reconhecido como devia....mexe connosco cá dentro! E lidos por ele ainda mais.

Obrigada pela partilha!

Anónimo disse...

Quanto sentimento!
É paixão,amor e dor ao mesmo tempo.
Carregado de emoção com as palavras amor e morte dando uma conotação fortíssima.
Afinal...tão só como a vida.
AMarques

Anónimo disse...

Boa tarde dra Helena,a resposta está em si.
Os bons amigos deixam boas memórias.
Bem haja quem vier por bem!
Fátima

Ältere Leute disse...

Saudades de Ary ? Talvez porque era GENUÍNO ... E hoje começa a haver pouco disso !

Silenciosamente ouvindo... disse...

Não foi reconhecido pelo Poder,
pelos amantes de poesia penso
que sim.
Um belíssimo poema.
Dizer que faz falta, talvez não
resistisse ao Portugal de hoje
e de imediato voltasse a morrer.
Cumprimentos.

Fatyly disse...

Excelente!!!

Anónimo disse...

Melhor que "Estrela da Tarde" só mesmo "La Belle du Jour"

TERESA PERALTA disse...

Helena
Informei-me de quanto anos esteve entre nós e, qual não foi o meu espanto quando verifiquei que com ele terá convido e, também, partilhado a data de nascimento. Fácil será concluir que “os espíritos protectores e os génios inspiradores” são, naturalmente, os mesmos....
Sei muito bem quem é o autor, mas não conhecia “Estrela da Tarde”. Na verdade, quanta emoção conseguia transmitir.
Beijinho e abraço grande.

Sandra disse...

Adoro!
Abraço e grata pela partilha da partilha.

Anónimo disse...

Bom dia Helena!!
Adorei, os bons amigos deixam sempre saudades...

Amigo

Amigo, toma para ti o que quiseres,
passeia o teu olhar pelos meus recantos,
e se assim o desejas, dou-te a alma inteira,
com suas brancas avenidas e canções.


Amigo - faz com que na tarde se desvaneça
este inútil e velho desejo de vencer.

Bebe do meu cântaro se tens sede.

Amigo,faz com que na tarde se desvaneça
este desejo de que todas as roseiras me pertençam.

Amigo,
se tens fome come do meu pão.


Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhares verás na minha casa vazia:
tudo isto que sobe pelo muros direitos
como o meu coração,sempre buscando altura.

Sorris-te amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar nas mãos o que se esconde dentro,
mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares,
e toda eu ta dou... Menos aquela lembrança...

... Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
é uma rosa branca que se abre em silêncio...

Pablo Neruda, in "Crepusculário

Helena gostava de privar consigo, ser sua amiga, que bom é existirem pessoas com almas grandes!
No meu vazio as sua palavras enchem-me...

Carla

Anónimo disse...


Que bom foi ouvi-la aqui!! http://www.youtube.com/watch?v=EKzdUxFDcn8

Só quando a gente perde as pessoas, é que vê que pena foi não ter dado ternura, não ter feito um gesto de amor...

Helena tocaram-me tanto estas suas palavras, foi uma das minhas culpabilizações, não ter dado... aprendi porque o fiz com a psi.

Como diz Ortega:
"Yo soy yo y mi circunstancia"

Carla

Anónimo disse...

"...tantas saudades que e tive..." Diz HSC
E pergunto eu, - e o seu "dono muito ciumento",não fica a ferver com esta afirmação?!
FT

Helena Sacadura Cabral disse...

FT, o dono do meu coração, não tem ciúmes de mortos...

Anónimo disse...

HSC,sorte a sua.
Pois olhe que há motos que nunca são destronados do coração.
A Sra mereçe que o seu dono tenha ciúmes dos mortos e dos vivos.
Ó se mereçe!
FT

Anónimo disse...

Para quem quizer matar saudades, é sempre possível ouvir este fantástico poema, cantado pelo Fernando Tordo, que foi gravado em disco. Na maioria das vezes dos trabalhos conjuntos, primeiro o Fernando compunha a música e depois o Zé Carlos criava a letra (estranhíssimo...mas é verdade). Uma coisa é certa, em conjunto criaram coisas lindíssimas e o Fernando nunca «comeu» as palavras, presumo que influenciado, na dicção, por esse grande Poeta. Só ele poderia incluir num poema palavras como «aloendro»..