sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O baton e os estados de alma


Sempre liguei as escolhas do meu arranjo pessoal, aos estados de alma pelos quais passei. Continuo, hoje, a fazer o mesmo. Ou são as cores da roupa ou é o verniz das unhas ou mesmo as madeixas com as quais, desde há muito tempo, embelezo o meu cabelo. E, apesar de variar bastante, a tónica centra-se sempre no espectro de cinco cores básicas, com que animo as minhas alegrias ou as minhas raras tristezas.
Todavia, uma peça de  embelezamento se havia de manter igual ao longo dos anos que já tenho. É o meu baton vermelho Paloma. Sem ele, não sou eu. Posso não me pintar e andar de cara lavada, sem sequer pôr um pouco de cor  nas maçãs do rosto. Mas sem baton será mesmo muito difícil sair de casa. É a minha alma, é algo cuja história faz parte de mim própria.
Tentei algumas vezes ser-lhe infiel e usar tons diferentes que oscilavam entre o rosa e o acastanhado, Não digo que ficasse mal. Mas...mas não era, mesmo, eu. Com eles sentia que uma personagem estranha se apoderara de mim.
Este meu amor tem raízes profundas. Desde muito pequena, creio que aí pelos quatro a cinco anos, mal a minha mãe saía, eu pulava para o seu quarto, a bisbilhotar na caixa das pinturas. Nada mais me interessava, na miríade de objectos que a dita caixinha continha. As minhas mãos pequenas e roliças, agarravam sempre o mesmo.
De inicio, apenas abria o baton pela diversão do sobe e desce que ele permitia. Depois, já um pouco mais velha e mais afoita, ousava esborratar os lábios. A história continuou e a primeira autorização de o usar, teria sido pelos meus dezoito anos, apesar da contrariedade paterna.
A partir daí a relação estreitou-se e refinou-se. Iniciei-me nos rosas pálidos e fui-os avermelhando até chegar ao encarnado vivo, a contrastar com a minha pele branca. Na época, a questão vital situar-se-ia no tom que havia de me provocar o “coup de foudre” e que chegaria numa viagem a Paris, a primeira que fiz, na qual não houve escaninho de cosmética que não visitasse. Foi então que encontrei a cor da minha vida. Desde essa altura, a união foi perfeita e por muitos e longos anos nenhuma outra cor animou a minha boca.
Nestes casos de paixão – no baton, como no amor – o problema reside nos “descontinuados”, o fim de algo que se considera ter de ser renovado, ou se julga dever ser abandonado por cansaço de mercado. Foi assim que, de um momento para o outro, o “meu” vermelho foi substituído por outro semelhante, mas que, aos meus olhos, era completamente diferente.
Foram uns meses difíceis, em que deixei de usar nos lábios o que quer que fosse, o que me dava, confesso, um ar bastante desenxabido. Salvava-me a juventude e alguma graça natural....
Até que, um dia, numa decisiva viagem que me levaria, sem retorno, por uns anos a Paris, – que saudades boas desse tempo! – havia de reencontrar o baton da minha vida, produzido por uma daquelas marcas que passam de avós para netos e constituem uma espécie de património familiar.
Estava, finalmente, recuperado o meu velho vermelho Paloma. Aquele com que iniciei estas linhas, e que, pese embora já não ser uma rapariga, continuo a usar para animar ocasiões especiais. Depois desta história de amor, alguém pode duvidar da importância do baton? Ninguém. Para o melhor e para o pior...

HSC

8 comentários:

Anónimo disse...

🌹

Anónimo disse...

💄💋👍

Maria Eugénia disse...

Muitas mulheres têm uma fidelidade total a certos produtos de beleza, notando-se mais nos batons e perfumes, é verdade...
Faz-me lembrar a minha Mãe que nunca dispensava o seu baton vermelho. Dizia ela que embora já não fosse nova o continuava a usar porque tinha os lábios finos e não era tão " berrante"!
Mais tarde, quando ficou invisual, só nos pedia para lhe pormos o seu baton e era isso que fazíamos. Foi-lhe fiel até ao fim e ao seu perfume Chanel!
Bjs da Maria do Porto

Anónimo disse...

Há lábios que beijam sem tocar.

:-)

Paulo Castro disse...

Boa noite Exmª Sra Helena minha mulher é uma fã incondicional sua e nada lhe daria mais prazer que a conhecer pessoalmente ... eu como eterno apaixonado compete-me tentar por este meio solicitar 5 minutos do seu tempo para poder beber um cafe, um chá, não sei, diga-me a Helena, com a minha Isabel uma vez que ela faz anos este mês dia 24, e sei que seria uma prenda melhor que muitas materiais que lhe poderia oferecer.
Caso veja alguma possibilidade o meu mail é paulo.j.castro40@gmail.com
Muito obrigado desde já

Anónimo disse...


Helena
Já li esta história em algum lado :), no meu caso são os olhos que não saio de casa, sem maquilhar.

Bonito o que o Paulo lhe pede.

Abraço
Carla

Mariana disse...

Impressionante como a escrita desta grande senhora nos prende e a sua fidelidade ao batom vermelho Amei !!!

Anónimo disse...

Happy Day

Ghost