sábado, 18 de outubro de 2014

O velório


Estiveram ambas lá no velório. Sentadas uma ao lado da outra. Não porque tenham procurado ficar assim, mas porque os amigos que as vinham abraçar, acabaram por se ir sentando de um lado e do outro de cada uma, acabando por deixá-las bem juntas.
Era estranho? Nem sei que vos responda. Afinal cada uma delas havia vivido com aquele homem uma boa parte da sua vida. Uma, a primeira, durante quinze anos. A outra, que veio a seguir, durante dezassete.
Assim, quem as abraçava havia conhecido ambas e a qualquer delas entendia dever testemunhar o seu apoio e carinho.
A certa altura, divagando um pouco sobre o que estava a acontecer, perguntei-me mesmo se esta não deveria ser a prática corrente, uma vez que nenhuma das duas poderia ter sido eliminada da vida daquele homem que ali estava. Nem a do passado nem a do presente. Uma e outra eram, naquele momento e de direito, as suas viúvas.
Ao fim de umas horas, a sala havia de fechar-se, porque era noite e havia chegado a hora de cerrar as portas.
Caminharam lado a lado até ao adro exterior da Igreja. Era já noite feita. Aí abraçaram-se sentidamente e seguiram cada uma para o seu destino. O enterro, esse, seria no dia seguinte.


HSC

18 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Querida Helenamiga

Esta estória - como sempre muito bem escrita, como tu sabes fazer - fez-me lembrar a "Dona Flor e os Dois Maridos" do nosso Jorge Amado.

Ainda que com cunho diferente, as relações humanas têm muito que se lhes diga. O enterro, esse, seria no dia seguinte é um final apropriado para a estória destas duas Mulheres (sim,com caixa alta...)

Qjs

Paulo Abreu e Lima disse...

Mudando de registo, já assisti a alguns velórios assim, mas nunca como o do LV. Talvez uma boa dúzia de "viúvas" muito combalidas. No final, já a desoras, foram todas jantar ao Gambrinus. Foi no meio da ceia que melhor percebi o infortúnio de LV.

Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

É curioso como muitos dos seus escritos me fazem lembrar filmes do Zukor, Georg. Aparentam feminismo, quando, no fundo, a figura central é o homem!

Um beijinho,

Raúl.

Raúl Mesquita disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

É curioso como muitos dos seus escritos me fazem lembrar filmes do Zukor, Georg. Aparentam feminismo, quando, no fundo, a figura central é o homem!

Um beijinho,

Raúl.

Anónimo disse...

Parece-me já ter lido um texto igual ou parecido no seu blogue.
Estou certo ou errado?
Meus cumprimentos,
MT

Maria Eu disse...

Ambas amaram o mesmo homem, ambas o choraram. Simples, apesar de parecer complicado!

Boa tarde, Helena! :)

Raúl Mesquita disse...

P.S. Agora já tenho a certeza que não "cliquei" duas vezes. O serviço anda redundante…

E aproveito para acrescentar, filosoficamente, o feminismo não é mais do que "chercher l'homme". A Helena que é uma pessoa que tem as "little grey cells" bem arrumadas, sabe-o. As outras, coitadas… Hoje estou cortante. À propos, lanchou bem no Piso Homem?

Raúl.



Ana Ferro disse...

E então se uma feminista coloca como fundo central o homem? Não pode uma feminista amar um homem? É obrigada a ser lésbica? As feministas amam . Só não se subjugam.

João Menéres disse...

Não sei quem é LV (será o defunto ? )...
Não sei quem são as suas "viúvas"...
Acho que só mentes abertas compreendem e aceitam a atitude que foi assumida.
Eu procuro entender.

Melhores cumprimentos.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ana Ferro
Não sei se compreendi bem o seu comentário. Para mim, amor é amor. Seja entre pessoas de sexo diferente, seja entre pessoas do mesmo sexo.
Podiam perfeitamente ser dois viuvos de um mesmo homem. Acontece que, no caso vertente, se tratou de duas viúvas. E é o segundo velório a que assisto nestas circuntâncias,
Acresce que, hoje,não sei bem o que é uma feminista. Nem percebo porque invoca essa circunstância.
Para mim, o que existe são seres humanos. E como tal, uma mulher pode amar um homem ou uma mulher. Como um homem pode amar um homem ou uma mulher. Neste velório tratou-se de um homem que amara duas mulheres. E, também, de duas mulheres que amaram um mesmo homem. Acontece. É a vida. Diversa e complexa!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ana Ferro
Não sei se compreendi bem o seu comentário. Para mim, amor é amor. Seja entre pessoas de sexo diferente, seja entre pessoas do mesmo sexo.
Podiam perfeitamente ser dois viuvos de um mesmo homem. Acontece que, no caso vertente, se tratou de duas viúvas. E é o segundo velório a que assisto nestas circuntâncias,
Acresce que, hoje,não sei bem o que é uma feminista. Nem percebo porque invoca essa circunstância.
Para mim, o que existe são seres humanos. E como tal, uma mulher pode amar um homem ou uma mulher. Como um homem pode amar um homem ou uma mulher. Neste velório tratou-se de um homem que amara duas mulheres. E, também, de duas mulheres que amaram um mesmo homem. Acontece. É a vida. Diversa e complexa!

Helena Sacadura Cabral disse...

MT
É natural, porque este é o segundo velório a que assisto com duas viuvas. Mas só o tema é comum. Os dois casos são bem diferentes.
Acontece que eu conhecia bem os dois defuntos!

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu querido Henrique
Isto só prova como a realidade pode ultrapassar a ficção!
Bjos

CA disse...

Parece-me prova viva e publicamente manifesta, da elevação humana de ambas.

Acho bonito, muito bonito.

E, acredito, se mais houver para além deste plano e se ao(s) falecido(s) for acessível o que por aqui continua a passar-se, será fonte de uma alegria e contentamento sem par.

Mal comparado, mas sei de um casal, pai de um filho, que após a separação continuou muito próximo, pese embora o elemento masculino ter rapidamente refeito a sua vida conjugal. Dão-se todos lindamente, a ex e a actual tiraram fotografias sozinhas no casamento do 'filho', o filho tirou fotografias só com a mãe e a madastra (as 'duas mães' na mesma fotografia, entenda-se), o pai passa na lavandaria a buscar a roupa da ex se estiver muito em cima da hora de fecho e ela lho pedir, enfim, gente com os afectos todos no (devido) sítio.

Anónimo disse...

Maria (publicamente anónima)
Boa noite Drª Helena!
Concordo consigo, amor é amor, seja de que forma for. Todos os amores são bons desde que nos façam felizes. Neste caso, uma relação entre pessoas adultas e bem formadas…cada um é que sabe do que gosta e de quem gosta. Cada caso é um caso. E segundo percebo das suas palavras o Senhor não esteve com as duas em simultâneo. Um caso acabou e começou outro com outra pessoa. Aplaudo que as Senhoras conseguissem ser amigas e chorarem as duas pelo mesmo amor. Muito bem. Que bom que esse comportamento passasse a ser habitual em todos os divórcios. Teríamos, certamente, menos mulheres assassinadas por carrascos que não sabem ter comportamentos cívicos e humanos.
Conheço alguns casos em que duas pessoas amam a mesma pessoa. E alguns casos não assumidos, por medo ou por vergonha, quando todos assumem e são bons amantes e/ou bons amigos…óptimo. Sempre ouvi os meus antepassados dizer que “no coração ninguém manda”, e as pessoas fazem o que o coração vai ditando. E isso, cada vez mais, acontece com os dois géneros. O ser humano é assim. Haja amor, porque guerras e maus-tratos, infelizmente, já por aí há muitos.
Tenha um bom fim-de-semana
Maria M

Raúl Mesquita disse...

Les autres… femmes, bien entendu!

Raúl.

Anónimo disse...


Helena,
neste caso não existia a coleteral pois não?
A 1º mulher já era ex. a 2ª mulher logo, não vejo problema algum.
O estranho, a meu ver, era se ele mantive-se até agora, a relação com as 2, não consigo imaginar uma situação dessas, comigo não dava mesmo...
Não acredito, em 1 pessoa amar 2 ao mesmo tempo.
Numca serão felizes os 3!!!

Carla