quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O ónus da escolha

Francisca
Se eu tivesse coragem, não te escreveria esta carta. Dir-te-ia, olhos nos olhos, aquilo que aqui te conto. Mas, tu sabes, eu nunca tive muita aptidão para lidar com afectos. E mesmo que fosse corajoso, como é que se diz a uma mulher que ela deixou de nos motivar há muito tempo, sem que isso constitua um duro golpe no seu amor próprio? Como explicar que o desejo acabou e ficou uma estima quase fraterna, mas que nada tem de física? 
Cada vez que ensaiavas uma aproximação de mim, eu não sabia o que fazer para não te magoar e, ao mesmo tempo, não ser submetido à humilhação de te não satisfazer.
Sei que tens direito à verdade de tudo o que se passou. Mas essa verdade, creio, só a mim tranquilizará, porque será uma forma de catarse, uma confissão que, depois de feita, só apazigua aquele que se confessa, não o confessor. Não será pior para ti, conheceres toda a realidade?
Hesitei e hesito em contar-ta. Ter direito a algo, neste caso à verdade, não significa que esse direito tenha de ser exercido. Essa será a tua escolha. Ninguém a pode fazer em teu nome. Eu acatarei o que tu preferires. Desculpa transferir para ti o ónus da escolha. Mas eu não sou capaz ...


Beijo-te com carinho,

Tiago

Esta carta é quase real. Recebeu-a alguem que conheço bem. Limitei-me a alterar pequenos pormenores. Mas, basicamente, o que a minha amiga queria era que eu a aconselhasse sobre o que deveria fazer. Sim ou não à verdade.
Respondi-lhe que isso me parecia secundário. Mas que só ela poderia descobrir aquilo que eu considerava ser essencial. 

HSC 

16 comentários:

Anónimo disse...

...fzer...

Gralhas

Marta Veloso disse...

Eu diria à "Francisca" que apesar de tudo, teve a sorte de se cruzar e ter na sua vida um homem de coragem.
Todas e todos acabamos por nos " enjoar" , de perder o entusiasmo pelas pessoas com quem estamos . Penso que muitas vezes por incorformismo pessoal, egoismo, inconstancia,insatisfação,como a musica dos Rolling Stones"I Cant Get No Satisfaction". Todos os humanos têm um pouco disso em algum ponto da sua vida. O senhor da "Francisca" é insatisfeito emocionalmente. Em vez de o fazer numa vida dupla, preferiu ir à luta e ser honesto. Por mais que possa doer à sua amiga, foi ele que se "desagarrou" que deixou de ver o brilho que ela ainda possui. Deixou de ser compativel com ela. Já me aconteceu. E nunca fui honesta assim, deixei que o relacionamento se transformasse num caos e ruisse por si só.Foi bom assim "Francisca". Não é desamor. Foi a quimica entre os dois que se foi embora.

Anónimo disse...

Muito novo li a seguinte frase:

""Quem disser que pode amar alguém pela vida inteira é porque mente."

Florbela Espanca

Na altura chocou-me,confesso.Mas cada vez mais vejo que confere...

FT

Anónimo disse...

Se fosse comigo gostava de ter a coragem para não saber, sair de fininho, lamber as minhas feridas sozinha e deixá-lo em paz.
Ele tem toda a razão em dizer que ter direito à verdade não significa que esse direito seja exercido. Mas essa decisão teria que ser dele. A verdade é dele, não dela. Ptto eu gostava de ter a coragem de dizer "adeus, até um dia" sem mais nada.

Dra. Helena, desculpe o mau-feitio :
Um beijinho
Patrícia

Anónimo disse...

Senhora,hoje é o Dia da Música.
Como tal gostava de lhe dedicar uma melodia,mas para os 15 dias ainda falta algum tempo.
Fica o silêncio...pois cumpro sempre o prometido.

Ambrósio

Virginia disse...


Escrevi várias cartas ao meu ex-marido antes de me separar. Não conseguiria dizer-lhe o que sentia nos olhos, era impossivel. Aliás o meu marido responderia com o silêncio, não discutia nunca.

Acho terrível ter de escolher, mas a sinceridade é absolutamente imperiosa num casamento e sem ela, vive-se na falsidade ou na ausência total de comunicação.

bea disse...

Não há como aconselhar alguém sobre o assunto em causa. Há que perguntar à pessoa o que aguenta melhor. Que a vida não é como se deseja. É como pode ser. Da forma possível.

Acho que seria incapaz de tal questão (a da amiga que pede à Helena que decida sobre a vida dela). Vejo a da carta mais apta a vingar, afinal é apenas entre as partes envolvidas. Faz sentido, mesmo que possamos pensar que faríamos diferente. Mas a verdade é que não sabemos o que faríamos. Porque uma coisa é pensar nisso do exterior e outra estar no meio do torvelinho. Teoria não é prática.

Clarisse Castro disse...

Viva,
Parece-me que escrever esta carta é já uma forma de contar (se não toda) a verdade. O resto da 'verdade' são detalhes...
Não estou segura de ter razão, mas, de repente, é o que me parece...
clarisse castro

Anónimo disse...

Ninguém ama eternamente, de facto. E refiro-me aquele amor entre um homem e uma mulher que nem sempre conseguimos definir o que é, mas para mim esse amor devia ser uma mistura de paixão e amizade. Muito de ambos. E isso acaba!... se admiramos quem está ao nosso lado, se conseguimos manter uma certa harmonia e estima lá conseguimos viver com muitos momentos de felicidade durante muitos anos e até a vida toda. Mas amor, esse da mistura de amizade e paixão? Na...

Anónimo disse...

Ninguém ama eternamente, de facto. E refiro-me aquele amor entre um homem e uma mulher que nem sempre conseguimos definir o que é, mas para mim esse amor devia ser uma mistura de paixão e amizade. Muito de ambos. E isso acaba!... se admiramos quem está ao nosso lado, se conseguimos manter uma certa harmonia e estima lá conseguimos viver com muitos momentos de felicidade durante muitos anos e até a vida toda. Mas amor, esse da mistura de amizade e paixão? Na...

Anónimo disse...


Bom dia Helena!!
De certeza, que foi duro para a sua amiga ler a carta, mas foi a opção mais correcta, que o marido fez, ser sincêro.
Na sua falta de coragem, de dizer pessoalmente, o que lhe ia na alma, o marido teve a coragem, que muitos não têm.
Ao invês vivem vida dupla, não fazem felizes as mulheres,a colateral, nem são felizes eles.
Quando o amor acaba por parte de um, penso que o melhor é acabar a relação.
Pode haver uma etapa dura para um, mas segundo dizem "quando se fecha uma porta Deus abre uma janela".
Vejamos, o caso da nossa conhecida Maria João Abreu,prometeu a ela mesma, não voltar a apaixonar-se, passado 1 ano encontrou o amor.
Hoje, penso que é bem mais feliz, têm outra qualidade de vida que antes não tinha, segundo a entrevista com Daniel.

http://www.youtube.com/watch?v=bK543Vkaf6o
Aos 11,41 minutos , fala do seu caso.

Carla

Anónimo disse...

Quanto a mim a verdade está dita: 'ela deixou de nos motivar há muito tempo', 'o desejo acabou', 'ficou uma estima quase fraterna'.

Para mim esta é A VERDADE.
Que mais há a dizer?!

Esmiuçar todos os pormenores, porque aconteceu isto ou aquilo, não será mais do que um encadeado de interpretações pessoais, porque múltiplas leituras podem sempre ser feitas a partir do mesmo facto.
Não existem verdades absolutas.

A questão está em querer ou não, poder ou não, aceitar a proposta que ficou em aberto, de AMIZADE QUASE FRATERNA.

Confesso contudo que o ENIGMA deixado no ar desperta curiosidade...
Não posso afirmá-lo categoricamente, mas eu faria tudo para não ceder ao enigma.

Ninguém pode resolver por nós.
Mas é bom sabermos a opinião de pessoas em quem confiamos.

Anónimo disse...

Se uma amiga me perguntasse o que deveria fazer, dir-lhe-ia que ela é que tem de decidir.
Se fosse comigo, preferia a verdade resumida, é que não fosse ficar sempre com a esperança de reatarmos e, assim, sabendo a verdade, talvez eu própria decidisse que o melhor para mim seria sem dúvida a separação!
Não posso prometer é que não lhe ficasse com um ódio de morte e o mandasse às urtigas com tanta conversa sobre verdade e sobre motivação! às tantas, até é mesmo isso que o autor receia ...

Cláudia

Anónimo disse...

"Há males que vêm por bem".
É preciso coragem para deixar ir o errado embora e deixar o certo acontecer.
A Francisca terá certamente quem a mereça e deseje.

Anónimo disse...

As palavras escritas perduram na memória de forma diferente, quem as lê nunca vai conhecer a expressão ou o tom de voz de quem as escreveu. E estas não são palavras fáceis...é cruel a falta de coragem para as dizer, sublinhar o que as motivou e despedir-se carinhosamente, cruel e incoerente.

A verdade neste caso também seria secundária para mim, e preferia não a conhecer, porque deixaria de ser um assunto com o qual não teria qualquer relação.

Teresa

Anónimo disse...

Desculpe Helena mas não resisto perguntar-lhe o que considera o principal?

Maria Trindade