domingo, 29 de novembro de 2009

Ignorância e ingratidão

Por mais estranho que pareça nos dias que correm, gosto e/ou admiro muitas pessoas que não pensam como eu. O que somos depende da nossa história familiar, das nossas capacidades, das influências que sofremos, da classe social em que crescemos, da memória genética que transportamos no ADN e de muitas outras coisas mais.
Com fui educada no respeito pela diferença, tenho amigos em todos os quadrantes políticos e, possivelmente, não penso como nenhum deles. Convencionou-se que sou uma mulher de direita o que, confesso, me diverte imenso. Não vejo, aliás, qualquer necessidade de me situar politicamente, para esclarecimento de quem quer que seja. E muito menos necessidade, ainda, de desdizer uma filiação ideológica que apenas irrita aqueles que, de facto, se sentam nessa cadeira. Sempre disse o que penso e nunca essa convenção ideológica me privou, alguma vez, de o fazer. E quando olho o percurso que fiz e aquele que certas pessoas conotadas com a esquerda acabaram por fazer, então, sim, a vontade de rir é maior ainda.
Acresce a esta circunstância, que tenho uma memória de elefante e, por isso, quando alguém ensaia endeusar algumas criaturas reescrevendo as suas histórias pessoais, eu reajo. Como reajo, quando, ao contrário, pretendem denegrir gente que não pensando como eu, merece o meu respeito.
Lembro a este propósito, a nossa Amália Rodrigues que depois de ter sido considerado por um certo país, uma reaccionária está, neste momento a ver dignificado o seu nome e a sua história.
Portugal gosta pouco de heróis. Os do passado, por ignorância, não sabe quem são. Os recentes, por ingratidão, já os esqueceu. Há algum país que possa viver sem honrar os seus?!

H.S.C

13 comentários:

Presépio no Canal disse...

Grande Helena :) Ora, nem mais!! Beijinhos e Parabens, e sobretudo, Obrigada!

Raúl Mesquita disse...

É engraçado, Helena, como escrevi hoje no meu blog uma coisa parecida. Não, não é sobre a Amália, mas sobre a Luísa Todi.

Benjamina disse...

Nunca o valor de alguém se deve à posição que ocupa numa sociedade, quer se trate de mais à esquerda ou à direita numa divisão política, quer se trate de mais "acima" ou mais "abaixo" numa divisão por estratos socio-económicos, quer se trate de uma divisão por religiões ou ausência dela.
Os nossos heróis medem-se pelo seu talento, pela grandiosidade dos seus actos e da sua alma. Honremos os que conhecemos, e que nos ajudam a ter identidade como povo. Porque muitos heróis existem neste povo, que dedicam a sua vida a ajudar os outros, e que são inteiramente desconhecidos.
Um abraço

Paulo Abreu e Lima disse...

Então, vamos falar de memória. Memória de elefante is my middle name. Jamais consegui esquecer a menina Helena que, entre espaços exíguos e pouco iluminados, ia gravar (penso que em directo) uma rubrica com a Teresa Guilherme, num programa chamado "Eterno Feminino". Olhei-a firme: olhos grandes, com iluminação própria. Sem tibiezas. Tema: o síndrome do ninho vazio. Eu tinha uns vinte e. A Helena, uns cinquenta e (não nos vamos deter sobre a impossibilidade das mulheres não se quererem datadas).

Datei-a: finais dos anos oitenta, quiçá, em noventa. Linda de morrer. Focou-me com a mesma hibridade com que se foca um calhau (tanto aquilo, como uma pedra); comi-a pela mesma quantidade com que se come com os olhos um festim de gala: beluga, trufas pretas francesas e faizões escoceses incluídos. Não nos cruzámos: cruzei-a! Toda, céus!

Mais tarde, algo mais tarde, cataloguei seu ADN, menmozei sua classe, realizei sua formação, enfatizei seu nome de sobrinha.

Mas subvalorizei sua ascendência.

Muito mais ténue, mas foi algo assim parecido o que me aconteceu com Amália.

Paulo Abreu e Lima disse...

menmonizei, sorry

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Paulo
Quando comecei a ler o seu comentário julguei que a esta distância temporal ia receber uma tardia declaração de amor.
Folguei. Afinal tratava-se, apenas, de uma épica descrição gastronómica que eu corporizara...
E comoveu-me esse seu festim. Bem haja pelo gosto que as suas palavras, afinal, revelam. Talvez hoje, que sei mais da vida, eu visse para além do calhau!

Um abreijo da Helena

Maggie disse...

Gostei imenso deste texto! Também eu considero que há boas e más pessoas, com e sem valores, à esquerda e à direita, independentemente do posicionamento que eu própria tenho.
Por outro lado, acho que muitos dos males de hoje se devem à falta de memória, como dizia um professor meu da Faculdade de Letras, que já partiu (cedo demais), a história repete-se e os homens não aprendem. Desde a Grécia antiga que é assim e, às vezes, é triste. Uns tornam-se estrelas da ribalta só porque aparecem na televisão, outros, que dão tanto de si em prol dos outros, ficam na sombra.

Raúl Mesquita disse...

A Luísa Todi, pura coincidência de horas, minutos... nos nossos "posts" Helena. Pareceu-me só que dissemos alguma coisa parecida, repito, por pura coincidência, francamente "low key"! Gosto muito de ópera mas também de fado e embora tente imaginar o meio-soprano nas óperas escritas por Metastasio, cantadas pela Todi, ouvi, sim ouvi, gosto de repetir, a voz da Amália (também meio-soprano) cantando a escrita de Camões, de Davi(d) Mourão Ferreira and so (good) on... Raúl.

Helena Sacadura Cabral disse...

Raul, não consigo aceder ao seu blog. Mande-me p.f. o link.

Raúl Mesquita disse...

Helena, aqui vai o link do meu blog, com todo o prazer e (por que não admiti-lo?) honra!

www.omelhordosdoismundos.blogs.sapo.pt

Raúl.

Raúl Mesquita disse...

Helena, creio que já mandei, mas aqui segue de novo, não vá ter havido um " desvio cibernético": www.omelhordosdoismundos.blogs.sapo.pt

Raúl Mesquita disse...

Helena, recebi a sua resposta ao meu Post "Luísa Todi". Muito obrigado! Mas que pena não termos o registo daquela voz: só uma memória literária! Mas quanto do nosso passado pessoal não é apenas literário? Raúl.

CNS disse...

Portugal não gosta de muito de heróis. Despreza a memória. Vive num tempo verbal obscuro, pois o presente é resultado do passado. E o futuro uma equação de ambos. Pena que não haja forma dos portugueses perceberem que as memórias são também a fundação de um sociedade.
Bem haja pelo que aqui partilha connosco.