sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Um exercício de paciência

O senhor devia ter mais de 70 anos e esperava pacientemente que na Repartição de Finanças chamassem o seu número. Reparei nele, porque logo na altura de retirar o ticket não se entendeu com a a máquina. E carregava em todos os botões donde saiam, listos, números sobre números. Alguém lhe perguntou que  assunto queria tratar, mas a explicação saiu tão confusa que o conselho foi que carregasse num botão que me pareceu ser de assuntos gerais.
Depois de ele ser chamado é que foi o calvário. Para o dito e para o funcionário que o atendeu e teve de vir com ele tirar-lha outra senha, porque aquela não servia.
Nova espera. Entretanto veio sentar-se ao meu lado e desabafou sobre o que o levava ali. Era um assunto do filho e não me pareceu que fosse naquela repartição que a coisa iria ser resolvida. A medo lá lhe falei dessa possibilidade. Até dava pena ver o olhar do homem que nada sabia do que ali o levava e menos ainda responder ao que lhe perguntavam.
O novo funcionário que o atendeu, bem tentava explicar-lhe o que ele teria de fazer, mas o coitado ouvia-o como se a língua fosse outra. Eu estava verdadeiramente entristecida de ver aquele espectáculo de duas gerações que pretendiam ajudar-se mas não encontravam caminho possível.
Qualquer dos dois funcionários que o atenderam foram exemplares.Mas não podiam substituir-se a quem não estava preparado.
O Estado, tão moderno e tecnológico devia perceber que há, ainda, muita iliteracia neste país e que ela já não tem solução para certas camadas populacionais. Mas não, entendeu que os meios tecnológicos são o futuro. E são. Só que ainda temos um passado, com muita gente que já não terá muito futuro. O que lhes fazemos? Acabamos com eles? Metemo-los todos em cursos de informática para a quinta idade?!
E que tal um pouco de bom senso, compaginando, por algum tempo, as duas situações?

HSC

6 comentários:

Carmem Grinheiro disse...

O progresso se esqueceu de ter a sensibilidade ou vontade de olhar para essa camada da população, que não é tão pequena assim.
Quantas vezes eu, que até nem sou das menos desenrascadas, sinto-me uma verdadeira néscia diante de certas "tecno" em que esbarro. Já não chegavam as burocracias, já de si, complicadas, ainda temos agora e, cada vez mais, as "tecno-burocracias", porque estamos constantemente a ser encaminhados para sites onde o abrir de uma janela vai abrir uma outra que, tantas vezes, acaba por nos levar à primeira, ou ainda para números telefónicos que nos apresentam uma série de opções em modo corrido ao ouvido, a nos incitarem a que, naquele pequeníssimo instante, consigamos decifrar a mensagem naquela língua estranha e ainda enquadrar a "nossa questão" numa das hipóteses cantadas.
Saudade que eu tenho quando a gente ficava numa fila à espera da vez, para depois ser atendida por alguém que nos entregava um papel para ser preenchido, sem ter que "inserir" dados em maquineta alguma e a coisa resolvia-se. Ah! e saudade de ligar e ouvir uma voz de gente do outro lado, pronta para nos encaminhar a "outra voz de carne e osso" que nos haveria de resolver a questão, tudo assim: de pessoa para pessoa, sem teclas =)

deixo-lhe um abraço amigo

Anónimo disse...

Exm.ª Senhora

Nem sempre concordo com as posições que toma no seu blogue.

Hoje identifico-me com o que escreveu; é uma pecha de quem nos governa, e ao dizer isto refiro-me aos atuais e aos anteriores governantes.

José Neto

Anónimo disse...

Bom Dia.

"O Estado, tão moderno e tecnológico devia perceber que há, ainda, muita iliteracia neste país e que ela já não tem solução para certas camadas populacionais. Mas não, entendeu que os meios tecnológicos são o futuro. E são. Só que ainda temos um passado, com muita gente que já não terá muito futuro. O que lhes fazemos? Acabamos com eles? Metemo-los todos em cursos de informática para a quinta idade?!

E que tal um pouco de bom senso, compaginando, por algum tempo, as duas situações?"

Concordo e acrescento: a Autarquia onde resido é exemplo do que acaba de narrar. Quem não utiliza a "Net" (mais) não tem "facebook" não existe. Aqui por Cascais é só gente fina...

Amei a sua história de Amor

Maria Helena /Cascais

Anónimo disse...

Além de paciência precisamos emigrar para Espanha.Afinal os combustíveis lá é que vale a pena.
Bons governantes que só nos enrolam,enrolam,enrolam.Não tiram com com outra mão...vão buscar como diz o Sô Costa.
Com uma mão dão e com a outra vão buscar.
Tá certo chefe!

Anónimo disse...

Um exercício de sobrevivência talvez.
Marta

Anónimo disse...

... E não podemos esquecer que foi no governo de Passos/Luísa que foram introduzidas grande parte destas sofisticações. Ex.: validação de e-fatura.