quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Debates

Discute-se muito acerca dos eventuais debates televisivos para as próximas eleições. Os quais deveriam ajudar-nos a compreender as diferenças entre os vários programas apresentados pelos partidos.
Mas quais programas? Do que conheço não são mais do que linhas programáticas. Repito: linhas. Com as quais, aliás, ninguém consegue cozer... seja qual for o sentido que se aplique ao verbo e seja ele escrito com "s" ou com "z".
Os debates entre líderes roçam muitas vezes - diria, mesmo, a maior parte delas -, o insulto ou o impropério. Que não são esclarecedores para ninguém, nem um bom exemplo do que deve ser o exercício da política.
Por mim e por mais incorrecto que tal possa parecer, nunca foram os debates que me esclareceram do que quer que fosse. Serviram, sim, para ver quem os ganhou e fazer as manchetes dos jornais, o ganho dos opinion maker's e a abertura dos telejornais. De modo aliás bem elitista e nem sempre da forma mais justa. Como aconteceu com o primeiro em que Jeronimo de Sousa participou...
Será que vale a pena "ouvi-los" nesse campeonato de boxe que teremos que aguentar com quinze dias de intervalo? Alguem acredita?

H.S.C

13 comentários:

olinda silva disse...

Tenho cá para mim que vamos assistir a um momento épico - Não vão haver debates.
Aqui entre nós, eu, se fosse a Dra. Manuela Ferreira Leite, não participava, preferia que me chamassem de cobarde do que das outras coisas todas, se é que me entendem?! É uma opinião muito pessoal, obviamente, mas acho que a senhora não tem perfil para conquistar eleitorado...
Bom regresso.

Paulo Abreu e Lima disse...

Acredito, Helena.

Não será só uma luta de galos (e eu aprecio esse tipo de luta); uma troca de impropérios e insultos (não me choca o calor da discussão), mas um exercício semântico-cognitivo de quem melhor conhece os dossiês; uma análise psicológica do perfil dos candidatos; um exercício na detecção de demagogias (quem pretende vender a banha da cobra a quem - eleitor alvo).

Nesta situação político-económica ninguém, em consciência, pode debitar programas sob pena da sua não concretização, mas linhas programáticas, claro (navegar à vista sem ilusões). Aqui penso que não se trata de falta de ideias muito concretas, mas da inexactidão da sua exequidade.

Mas voltemos aos debates e imaginemos que a Helena não está "envolvida" até aos ossos com um em particular.

Francisco Louçã ganhará quase todos; Jerónimo de Sousa só perante o seu eleitor alvo (nutro por ele simpatia humana); Socrates irá defender a "honra e obra feita" por comparação (irá munido até aos dentes com citações, gráficos e outros documentos); Ferreira Leite terá sérias dificuldades por uma questão de estilo, não geracional, atenção, mas de performance oratória (digamos que não é rápida no gatilho...); por último, o Paulo Portas ganhará todos os debates.

Helena Sacadura Cabral disse...

A análise é quase perfeita. O meu envolvimento com um deles, afectivo, torna, de facto, mais dolorosa a votação. Mas, em vários aspectos estamos em campos diferentes. E eu voto, por norma, de acordo com o que penso e não de acordo com o que sinto.Excepto quando concorrem ambos. Aí, a equação é prova da minha resistência psicológica, porque sou mais parecida com o Miguel do que com o Paulo, que é profundamente "Portas". Embora se pense o contrário, o que não deixa de me divertir
Eu sei, claro, que programas pormenorizados nesta altura é pura utopia. Excepto, talvez, para quem detem os dados reais da situação, ou seja o partido do governo. Mas do que eu tive oportunidade de ver, as propostas são bem menos do que linhas...
Finalmente, você toca no essencial. Nós, "os cultos e elitistas" sabemos quem ganha os rounds dos "socos". Mas os outros, aqueles que querem, precisam, têm o direito a ser esclarecidos como é que ficam? Quem pensa neles?
E é isto que me enraivece. Ninguém se preocupa. E ainda se surpreendem com a abstenção...
Logo, andamos a votar "pelo mal menor" ou pelas prebendas que cada um pensa poder ter de um certo partido. É triste!
E os pequenos partidos apenas existem para "viabilizar" os outros.
Sabe uma coisa? Adorava ver quantos meses "aguentava" o Louçã num governo de coligação. Ui!Ui! :))

Paulo Abreu e Lima disse...

Cinco minutos de riso desbragado com essa do Louçã :))))

Já calculava, mas a Helena tem muita, muita piada!

(A Helena vai mais para o centro, verdade...?)

Anónimo disse...

Gostei do comentário de Paulo Abreu e Lima e subscreveria as conclusões, mas já teria dúvidas se P.P. ganharia todos os debates. Não por qualquer falha de “impreparação” (que não faz o seu estilo, metódico), mas no domínio económico, Louçã seria sempre melhor. O líder do B.E., quer se goste ou não dele, prepara-se, à minúcia, para este tipo de “confrontos” (recordo-me daquele que teve com Cavaco Silva, onde foi o único a estar à altura, precisamente por ambos serem economistas e trazerem a lição bem “alinhavada”. E foi, na altura, sublinhe-se, um debate cortês, o que não sucedeu com outros…). Acho curiosíssimo este preconceito político contra Francisco Louçã (chega a divertir-me), de o tentarem ligar a ele e ao Bloco à “extrema-esquerda”. Considero tais acusações, ou opiniões, inexactas (e o mesmo diria relativamente ao próprio Jerónimo de Sousa e seu Partido) na medida em que, hoje, nenhum deles põe em causa quer a economia de mercado, quer designadamente a nossa integração na União Europeia. Vejo sim, diferenças mais profundas, relativamente aos restantes Partidos de Centro (PS e PSD) e Direita (CDS-PP) nas questões sociais, em alguns aspectos económicos, na política financeira (impostos, etc), saúde e numa, ou outra questão no respeitante à política externa (Nato, por exemplo). Nada, todavia, de dramático, que me tire o sono. Já ninguém acredita no “comer de criancinhas”, na nacionalização das empresas (são tão defensores dos pequenos e médios empresários como os outros Partidos), dos Bancos (o que a mim nada me incomoda, tanto me faz, como tanto me fez, quem os detém, desde que a sua política de emprestar dinheiro continue, designadamente ás empresas, para dar alento a esta economia debilitada, haja, sim, é mais moralidade e que casos escabrosos como os do BPP, BPN e até do BCP, nunca mais voltem a acontecer), na apropriação das propriedades (e fim da propriedade privada) e outros “males” dessa esquerda, de um passado que nos deixou, há já uns anos a esta parte. Sinceramente, vejo hoje o PC e o BE como “partidos sociais-democratas de esquerda”. Nem mais, nem menos! O PS foi-se gradualmente colocando à direita, é actualmente, digamos, um partido liberal; o PSD de centro-direita; e o PP de direita - uma direita, digamos, “demo-cristã”. E, igualmente, por variadíssimas razões, de ordem política e económica, mas “histórica” também (“histórica” no sentido do que tem sido a evolução do nosso país, da Europa, desta UE a que pertencemos já lá vão mais de 23 anos), o PC e o BE abandonaram progressivamente o seu “radicalismo” anterior, que os caracterizava, para se afirmarem hoje como partidos de esquerda, tão-só. Uma esquerda que só mesmo um tolo, ou “extremista de direita” se assustará. Naturalmente, cada eleitor fará a leitura que bem entender, quer dos debates, quer dos Partidos e seus “programas”. Mas, não me parece haver drama, ou seja, que “em cima da mesa” hajam partidos “extremistas” (ou perigosamente “esquerdistas”). São coisas de um passado, relativamente recente, concedo, mas que nada tem a ver com os tempos actuais que vivemos. E todos têm nos seus programas propostas interessantes. E outras que o são menos também. Coligações? Não acredito que venham a suceder, pela simples razão de que nem o PSD+CDS/PP conseguirão uma maioria absoluta, nem o PS sozinho, nem o PS+BE (que aliás nunca se coligaria ao PS), nem (mais inverosímil ainda) PS+PCP. Vamos ter um governo minoritário de um só Partido (PSD, ou PS) por 2 anos e depois se verá.
P.Rufino

meldevespas disse...

Também tenho pouca fé, confesso. Parecem-me todos eles previsiveis demais, e infelizmente demagogos demais, mas enfim, é o que temos.
Nunca aqui tinha estado neste seu sítio, mas por portas e travessas cá vim parar, e ainda bem. Como se diz cá no meu Alentejo, a Helena, permita-me q a trate assim, é uma mulher com eles no lugar, e certamente com um coração grande e forte. Ser mãe é uma destas coisas que nos fortalece e adoça a um tempo. Também sou mãe (de três) e já sei as diferenças de cada um, as dores de cada um, os sorrisos de cada um, todos diferentes, todos meus. Beijinho, gosto muito de si, e desculpe ter entrado sem pedir licença.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Paulo, agora foi a minha vez de rir à grande. Então eu tenho um ar de senhora centrada, bem comportadinha, que vai à missa e é até um pouco queque? Ah! Ah!
Então, eu conto-lhe. Filha de média burguesia alta alentejana, do lado materno. Do lado paterno parece que descendemos de Fernando Alvares Cabral, irmão do Pedro. Logo gente...fina! O resultado foi um "milho híbrido" que dentro da normalidade desafiou as origens, começando a trabalhar com 13 anos e estudando com bolsa de estudo o que a obrigou a ser "a melhor".
Daí em diante foram só desafios. Um divórcio há 40 anos não foi fácil e criar dois filhos "orgulhosamente só", menos ainda!
Mas de tudo isto resultou esta "maravilhosa criatura" que eu sou e que de centro tem pouco. Porque nele está a virtude que, obviamente, não tenho.
Meu caro Paulo para seu desalento, aqui a "piquena", com este percurso é, naturalmente, mais canhota do que parece. Mas começo a ficar preocupada, porque gosto de ir contra a maré e agora ser de esquerda até é bem...Ui!
Satisfeito? E o meu jovem amigo onde se situa? Vá lá, confesse-se!

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro P. adorei o "demo"-"cristão". Maravilhoso! Vou contar ao Miguel, que se vai partir a rir do mano demo.
Abraço

Paulo Abreu e Lima disse...

Perante Vós, confesso:
Da parte paterna venho duma média burguesia flaviense (imagine!) e da materna de uma família aristocrata limiana (entre legítimos e bastardos, descendentes dos Filipes de Espanha).
Meus pais sofreram muito com o PREC pós 25 de Abril (lembro-me de sermos parados na estrada só porque vínhamos de Mercedes, maltratados à procura de armas, imagine, armas na bagageira) e ante tantos excesso e avisados que seríamos presos só por sermos industriais, fugimos (literalmente) por Espanha, e de Madrid fomos para o Rio de Janeiro. Lembro-me como se fosse hoje da festa na cabeça que o exilado Spínola me fez lá em Ipanema dizendo-me: “tu és o futuro que eu não tive do nosso querido Portugal”!
Poucos anos depois, voltámos, tive exactamente o mesmo percurso académico do seu filho Paulo (S. João de Brito + Católica), só que na vertente económica. Acho que já o disse, sou Economista de formação, mas empresário de coração.
Assim, politicamente falando, chorei a morte do Sá Carneiro e vibrei com a rodagem que Cavaco fez ao seu Citröen.
Entretanto, vivi fora por uns anos (EUA) e encontrei meu país a fazer exactamente o que os americanos fizeram na década de setenta/oitenta: a endividar-se como se não houvesse amanhã (Guterrez).
Mas estou a fazer o percurso inverso (sim, contra a maré): da direita conservadora, passei para a liberal e da direita propriamente dita, passei para a social democracia e simpatizo “utopicamente” com muitas ideias de esquerda, embora saiba exactamente inexequíveis. Em Portugal, não consigo me enquadrar neste espectro partidário. Não sou de direita nem de esquerda, não sou liberal nem conservador. Tenho fragmentos de todos os lados o que não faz de mim do centro nem um adepto da ultrapassada terceira via. Olhe, sou adepto do presidencialismo e se votasse nos EUA, seria um Democrata.

Obsolva-me :))

Paulo Abreu e Lima disse...

P. Rufino,

Lembro-me perfeitamente desse debate entre Cavaco e Louçã e adianto-lhe: nunca tinha visto o Cavaco tão aflito, tão seco de boca. Mas Louçã ganhou claramente o debate não pela questão económica, mas exactamente pela tal rapidez no gatilho, pela facilidade de raciocínio e eloquência oratória.

Paulo Portas tem igualmente isso tudo com um acrescento nada dispeciendo: consegue tirar Louçã do sério! E o caro Rufino, sabe do que eu estou a recordar.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu querido amigo Paulo - já tenho idade para tomar estas liberdades -por vias diferentes, eis-nos no mesmo ponto. Um todo fragmentado, lúcido, que evolui sem receio do que os outros digam e independentes. Eu bem sei que quando estou com o Miguel a minha dose de utopia sobe. Mas, que fazer? Também faz falta de quando em vez. Mas a mim, o Prof. Louçã lembra-me um padre arrependido. E isso gela-me, reconduzindo de imediato a utopia ao seu lugar!

Paulo Abreu e Lima disse...

Louçã é meu duplo colega: economista e cliente do mesmo ginásio que eu :) Já trocámos, para além da social cortesia, umas palavras sobre o país em geral. Pessoalmente não tem nada de padre, ou vigário, mas de humano comum e sei (não são só as mulheres que possuem sextos a décimos sentidos) que nunca me tentou evangelizar (nem para dizer aos meus amigos/conhecidos que aquele gajo é um porreirão, não); ele é um porreirão mesmo, mas muito fechado sobre seus próprios pensamentos e, na sua forma de se expressar tem realmente esse tique, que não passa disso mesmo, de um tique, o de um padre arrependido. Como sabe, todos os tiques são conscientemente incontroláveis; ele sabe-o; nós vemos!

O BE tem uma grande virtude: conseguiu congregar gente descontente com grande capacidade intelectual (Ana Drago, Rui Zink e, outrora - calma! -, Joana Amaral), mas também muita gente marcada, sectária, pouco flexível (Fazenda e Rosas) e tal comco, mas muito pior, o CDS, não tem verdadeiros quadros, gente especializada nas mais diferentes áreas.

O Miguel Portas é um excelente parlamentar europeu (não consigo esquecer que num debate para estas últimas eleicções, ele disse qualquer coisa do género: "espere, temos que explicar às pessoas lá em casa o que é o QREN...". Ora, isto além de profundamente político, revela uma vertente humana muito preocupada com o seu próximo, com o cidadão não tão bem informado. E são estes, estes sim, pequenos "tiques" que fazem toda a diferença. Consciente mas de grande valia!

Helena Sacadura Cabral disse...

Oh! Paulo essa do ginásio comum é que me liquidou...
Então o Louçã também pensa no físico? De facto, seria a última das virtudes que lhe atribuiria. Mas o mundo é cheio de surpresas...
Pode ser que seja, de facto tique. Mas o meu 13º sentido diz-me que há ali um qualquer desconforto. O que mais me impressiona no Bloco é que desde que apareceram são sempre os mesmos a botar palavra. Renovação pouca ou nenhuma. E eu acreditei que eles fossem capazes disso. Enganei-me. Talvez não seja mero acaso terem perdido 16 elementos...